O que e Constipação Crônica?
A constipação crônica e definida como evacuação infrequente, dificuldade para evacuar, ou sensação de esvaziamento incompleto, persistindo por pelo menos tres meses. Vai além da simples redução da frequência evacuatoria — muitos pacientes evacuam diariamente mas com grande esforço e insatisfação.
Afeta entre 12% e 19% da população mundial, sendo mais prevalente em mulheres, idosos e populações com dieta pobre em fibras. E responsável por mais de 2,5 milhoes de consultas médicas anuais apenas nos Estados Unidos.
A constipação crônica pode ser primária (funcional) ou secundária a medicamentos, disturbios metabolicos ou doenças neurológicas. A constipação funcional, sem causa orgânica identificavel, corresponde a maioria dos casos.
Trânsito Colonico
A constipação pode resultar de trânsito colonico lento (inércia colonica), disfunção do assoalho pélvico ou ambos.
Além da Frequência
Constipação não e apenas "ir pouco ao banheiro". Esforço excessivo, fezes duras e sensação de bloqueio são criterios igualmente importantes.
Alta Prevalência
Afeta 12-19% da população global. E mais comum em mulheres (2:1) e sua prevalência aumenta significativamente após os 65 anos.
Fisiopatologia
A fisiopatologia da constipação crônica funcional envolve dois mecanismos principais: trânsito colonico lento e disfunção evacuatoria (dissinergia do assoalho pélvico). Esses mecanismos podem ocorrer isoladamente ou em combinação.
No trânsito colonico lento (inercia colonica), há redução dos movimentos propulsivos de alta amplitude do colon, resultando em retenção prolongada do conteudo fecal. Isso pode decorrer de redução das células intersticiais de Cajal (marcapassos intestinais) ou de alterações no sistema nervoso enterico.

Dissinergia do Assoalho Pélvico
A dissinergia do assoalho pélvico ocorre quando há incoordinação entre a pressão abdominal e o relaxamento do esfinter anal e do músculo puborretal durante a tentativa de evacuação. Em vez de relaxar, esses músculos contraem paradoxalmente, bloqueando a saida fecal.
Este mecanismo está presente em até 40% dos pacientes com constipação crônica refrataria. E importante identifica-lo porque o tratamento específico — biofeedback — e altamente eficaz, enquanto laxantes isolados não resolvem o problema de base.
Sintomas
Os sintomas da constipação crônica vao muito além da frequência evacuatoria reduzida. A Escala de Bristol e uma ferramenta útil para avaliar a consistência fecal — fezes dos tipos 1 e 2 (duras e fragmentadas) indicam trânsito lento.
Sintomas da Constipação Crônica
- 01
Esforço excessivo para evacuar
Necessidade de fazer força intensa, muitas vezes por vários minutos, para conseguir evacuar. Presente em mais de 25% das evacuações.
- 02
Fezes duras ou fragmentadas
Fezes tipo 1 (carocos duros separados) ou tipo 2 (salsicha grumosa) na Escala de Bristol.
- 03
Sensação de evacuação incompleta
Persistência da vontade de evacuar após a defecação, levando a múltiplas tentativas.
- 04
Sensação de bloqueio anorretal
Percepção de obstrução na saida, como se algo impedisse a passagem das fezes. Sugere dissinergia.
- 05
Necessidade de manobras manuais
Uso dos dedos para auxiliar a evacuação (digitação) ou pressão no perineo. Indica disfunção evacuatoria.
- 06
Distensão abdominal
Inchaco e desconforto abdominal, frequentemente acompanhados de flatulência excessiva.
- 07
Frequência reduzida
Menos de tres evacuações por semana, embora este criterio isolado seja insuficiente para o diagnóstico.
Diagnóstico
O diagnóstico de constipação crônica funcional e baseado nos criterios de Roma IV. Após confirmar o diagnóstico clínico, e importante excluir causas secundarias (hipotireoidismo, hipercalcemia, medicamentos) e avaliar o mecanismo predominante para direcionar o tratamento.
A manometria anorretal e o teste de expulsao do balao são indicados em pacientes refratarios ao tratamento inicial para avaliar dissinergia do assoalho pélvico. A colonoscopia e reservada para pacientes com sinais de alarme ou indicação de rastreamento.
🏥Criterios de Roma IV para Constipação Funcional
- 1.Dois ou mais dos seguintes em pelo menos 25% das evacuações: esforço excessivo, fezes duras (Bristol 1-2), sensação de evacuação incompleta, sensação de bloqueio, manobras manuais, menos de 3 evacuações/semana
- 2.Fezes amolecidas raramente presentes sem uso de laxantes
- 3.Criterios insuficientes para síndrome do intestino irritavel
- 4.Criterios preenchidos nos últimos 3 meses com início há pelo menos 6 meses
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Câncer Colorretal
- Constipação de início recente
- Sangue nas fezes
- Perda de peso
- Anemia
- Red flags = colonoscopia obrigatória
Testes Diagnósticos
- Colonoscopia
- Sangue oculto fecal
Hipotireoidismo
- Constipação + fadiga + ganho de peso
- Intolerância ao frio
- TSH elevado
Testes Diagnósticos
- TSH
- T4 livre
Constipação por Medicamentos
- Opioides, antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de cálcio
- Início coincide com medicamento
Testes Diagnósticos
- Revisão farmacológica
Hipercalcemia
- Constipação + poliúria + fraqueza muscular
- Hipercalcemia laboratorial
Testes Diagnósticos
- Cálcio sérico
- PTH
Obstrução Colônica
- Constipação progressiva com distensão
- Sem eliminação de flatos
- Vômitos fecaloides
- Abdome agudo obstrutivo = emergência cirúrgica
Testes Diagnósticos
- Radiografia de abdome
- TC
Câncer Colorretal: Red Flags que Nunca Devem Ser Ignorados
A constipação de início recente — especialmente em pacientes acima dos 50 anos ou com história familiar de câncer colorretal — exige investigação endoscópica para excluir neoplasia. O câncer colorretal pode se manifestar como alteração progressiva do hábito intestinal (constipação, diarreia ou alternância), sangramento retal, perda de peso involuntária e anemia ferropriva. A presença de qualquer um desses sinais torna a colonoscopia obrigatória, independentemente de outras hipóteses diagnósticas.
O rastreamento com colonoscopia é recomendado para toda a população a partir dos 45-50 anos, mesmo sem sintomas. Em pacientes com constipação crônica, a pesquisa de sangue oculto nas fezes é uma ferramenta de triagem acessível. Vale lembrar que a presença de hemorroidas — causa frequente de sangramento retal — não exclui a coexistência de câncer colorretal: ambas as condições podem coexistir no mesmo paciente.
Hipotireoidismo e Hipercalcemia: Causas Metabólicas Tratáveis
O hipotireoidismo é uma causa sistêmica frequentemente negligenciada de constipação. A deficiência de hormônios tireoidianos reduz a motilidade gastrointestinal por mecanismos neuromusculares e metabólicos. Fadiga desproporcional, ganho de peso, intolerância ao frio, pele seca, queda de cabelo e bradicardia são sinais associados. A dosagem de TSH é obrigatória na avaliação de constipação crônica sem causa aparente — o tratamento da hipotireoide com levotiroxina costuma resolver a constipação.
A hipercalcemia — elevação do cálcio sérico — causa constipação por reduzir a excitabilidade neuromuscular intestinal. Causas comuns incluem hiperparatireoidismo primário, neoplasias (metástases ósseas, mieloma múltiplo), imobilização prolongada e uso excessivo de cálcio ou vitamina D. O quadro clínico lembra o mnemônico "bones, moans, groans, stones": dor óssea, sintomas GI (constipação, náusea, vômito), fadiga muscular e nefrolitíase. A dosagem de cálcio sérico e PTH orienta o diagnóstico.
Constipação por Medicamentos e Obstrução Colônica
Medicamentos são uma das causas mais comuns e mais subdiagnosticadas de constipação. Opioides (tramadol, morfina, codeína) reduzem drasticamente a motilidade intestinal — constipação induzida por opioides afeta 40-80% dos pacientes em uso crônico. Outros agentes frequentemente implicados: antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina), bloqueadores dos canais de cálcio, anticolinérgicos, ferro oral e antiácidos com alumínio. A revisão farmacológica detalhada é parte essencial da avaliação.
A obstrução colônica é uma emergência médico-cirúrgica que se apresenta com constipação progressiva, distensão abdominal crescente, ausência de eliminação de gases e fezes, e náuseas/vômitos. Em fases avançadas, vômitos fecaloides indicam obstrução completa. Causas incluem câncer colorretal, volvo sigmóide, bridas e compressão extrínseca por tumor. O diagnóstico é radiológico (radiografia e TC de abdome) e o manejo é cirúrgico urgente — esta condição não deve ser tratada como constipação funcional.
Tratamento
O tratamento da constipação crônica e escalonado, iniciando com medidas dieteticas e comportamentais, seguidas de laxantes e, em casos refratarios, secretagogos ou procineticos. A identificação do mecanismo predominante e essencial para direcionar a terapia.
Primeira Linha: Fibras e Estilo de Vida
Fibras soluveis (psyllium 10-20g/dia), hidratação adequada, atividade física regular e estabelecimento de horários regulares para evacuação. Resposta em 2-4 semanas.
Segunda Linha: Laxantes Osmoticos
Polietilenoglicol (PEG) ou lactulose. Seguros para uso prolongado, aumentam o conteudo hidrico das fezes e estimulam a motilidade reflexa.
Terceira Linha: Secretagogos
Linaclotida, lubiprostona ou plecanatida para constipação refrataria. Atuam nos receptores das células epiteliais, aumentando a secreção de cloro e água para o lumen intestinal.
Biofeedback
Tratamento de primeira linha para dissinergia do assoalho pélvico. Ensina a coordenação entre esforço abdominal e relaxamento do assoalho pélvico. Eficacia de 70-80%.
Acupuntura como Tratamento
A acupuntura e uma opção complementar para a constipação crônica, com evidências de eficacia em ensaios clínicos randomizados. Os mecanismos propostos incluem estimulação da motilidade colonica via ativação do sistema nervoso autônomo parassimpático, modulação da serotonina intestinal e regulação do eixo intestino-cerebro.
A eletroacupuntura mostrou resultados promissores em ensaios clínicos de grande porte. Um estudo multicêntrico com mais de 1.000 pacientes demonstrou que a eletroacupuntura aumentou significativamente a frequência evacuatoria e melhorou a consistência fecal em comparação com acupuntura simulada, com efeitos sustentados por 12 semanas após o termino do tratamento.
Um protocolo típico envolve sessões de eletroacupuntura 3 vezes por semana por 8 semanas. A acupuntura pode ser combinada com outras terapias, como fibras e laxantes osmoticos, para otimizar os resultados.
Prognóstico
A constipação crônica funcional e uma condição benigna com bom prognóstico a longo prazo. Não há evidência de que a constipação aumente o risco de cancer colorretal ou de outras doenças orgânicas graves.
Com tratamento adequado, a maioria dos pacientes consegue controle satisfatório dos sintomas. A dissinergia do assoalho pélvico têm bom prognóstico com biofeedback, cujas taxas de resposta descritas na literatura são elevadas e superiores às de laxantes isolados nesse subgrupo.
Complicações como fissura anal, hemorroidas e retocele podem se desenvolver com o esforço evacuatorio crônico. A impactação fecal e uma complicação grave, mais comum em idosos e pacientes com mobilidade reduzida, que requer intervenção médica.
Mitos e Fatos
Mito vs. Fato
E preciso evacuar todos os dias para ser saudavel
A frequência evacuatoria normal varia de 3 vezes ao dia a 3 vezes por semana. O que importa e a facilidade, a consistência fecal e a ausência de sintomas incomodos.
Laxantes causam dependência e danificam o intestino
Laxantes osmoticos (PEG, lactulose) e fibras são seguros para uso prolongado. Mesmo laxantes estimulantes não causam dano estrutural comprovado ao colon em doses habituais.
Beber muita água resolve a constipação
A desidratação grave pode contribuir para fezes duras, mas aumentar a ingestao hidrica além do necessário têm efeito limitado. A água excedente e simplesmente excretada pelos rins.
Constipação crônica causa cancer de intestino
Não há evidência científica de que a constipação funcional aumente o risco de cancer colorretal. A indicação de colonoscopia baseia-se na idade e nos fatores de risco, não na constipação em si.
Fibras sempre melhoram a constipação
Fibras insoluveis (farelo de trigo) podem piorar a distensão em pacientes com trânsito lento. Fibras soluveis (psyllium) são mais eficazes e melhor toleradas na constipação crônica.
Quando Procurar Ajuda
A constipação ocasional e muito comum e geralmente se resolve com medidas simples. Porem, certas situações exigem avaliação médica para investigação e tratamento adequados.
Perguntas Frequentes sobre Constipação Crônica
Constipação crônica é definida pelos critérios de Roma IV como a presença de pelo menos 2 dos seguintes sintomas por mais de 3 meses: menos de 3 evacuações por semana, fezes endurecidas ou fragmentadas (tipos 1-2 da escala de Bristol), sensação de esforço excessivo para evacuar, sensação de esvaziamento incompleto, sensação de bloqueio ou obstrução anorretal, ou necessidade de manobras manuais para facilitar a evacuação. A definição vai além da frequência — qualidade e conforto da evacuação são igualmente importantes.
A frequência normal de evacuações varia significativamente entre indivíduos: de 3 vezes ao dia a 3 vezes por semana é considerado dentro da normalidade pela maioria dos especialistas. O que importa mais é a consistência das fezes, o esforço necessário e a sensação de esvaziamento completo. Fezes amolecidas ou pastosas (tipos 3-4 da escala de Bristol) e evacuação sem esforço indicam função intestinal adequada, independentemente da frequência.
As causas mais frequentes são: ingestão insuficiente de fibras e líquidos; sedentarismo; medicamentos (opioides, antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de cálcio, ferro); distúrbios da motilidade colônica (trânsito lento); disfunção do assoalho pélvico (anismus, defecação obstruída); síndrome do intestino irritável com predomínio de constipação (SII-C); e causas secundárias como hipotireoidismo, hipercalcemia e diabetes. Identificar a causa orienta o tratamento correto.
Sim, especialmente para constipação por ingestão inadequada de fibras. Fibras solúveis (psyllium, aveia, maçã) aumentam o volume e a maciez das fezes e têm evidência mais robusta. Fibras insolúveis (farelo de trigo) aceleram o trânsito. A recomendação é de 25-35 g de fibras por dia, associada a ingestão de 1,5-2 litros de água — fibras sem líquido adequado podem piorar a constipação. Em pacientes com trânsito colônico muito lento, fibras isoladas têm eficácia limitada e o médico pode indicar laxativos ou procinéticos.
Laxativos osmóticos (polietilenoglicol, lactulose, hidróxido de magnésio) são os mais seguros para uso regular, pois atuam por mecanismo físico-osmótico sem causar dependência. O polietilenoglicol (macrogol) têm a melhor evidência e tolerabilidade. Laxativos estimulantes (bisacodil, sene) são considerados eficazes tanto para uso ocasional quanto em esquemas regulares supervisionados; as preocupações clássicas sobre "intestino preguiçoso" não são confirmadas por evidências modernas em doses habituais, mas seu uso prolongado deve ser orientado pelo médico, que avaliará a causa de base e ajustará o plano terapêutico.
Sim. Estudos clínicos randomizados, incluindo ensaios publicados no Annals of Internal Medicine, demonstram que a acupuntura eletroacupuntura melhora a frequência de evacuações espontâneas, a consistência das fezes e a qualidade de vida em pacientes com constipação crônica grave, com resultados superiores ao grupo controle por até 12 semanas após o término do tratamento. Os mecanismos incluem regulação da motilidade colônica, modulação do sistema nervoso entérico e efeito sobre o eixo cérebro-intestino. O tratamento é conduzido por médico acupunturista.
A disfunção do assoalho pélvico (também chamada de dissinérgia anorretal ou anismus) ocorre quando os músculos do assoalho pélvico, em vez de relaxar durante a defecação, se contraem paradoxalmente — bloqueando a saída das fezes. O paciente sente esforço intenso, sensação de bloqueio e frequentemente necessita de manobras auxiliares. É diagnosticada por manometria anorretal e defecografia. O tratamento de escolha é a biofeedback terapia; a acupuntura têm papel complementar na modulação neuromuscular pélvica.
Sim, em casos graves e prolongados. Complicações incluem: formação de fecaloma (impactação fecal) — que pode causar dor intensa, pseudo-diarreia de transbordamento e até obstrução; volvo colônico em casos raros; hemorroidas e fissura anal por esforço excessivo; prolapso retal; e megacólon adquirido (dilatação colônica crônica). A constipação crônica também impacta significativamente a qualidade de vida, sendo associada a ansiedade, depressão e limitação das atividades sociais.
A evidência é moderada e dependente das cepas utilizadas. Lactobacillus rhamnosus, Bifidobacterium animalis subsp. lactis e Streptococcus thermophilus mostram algum benefício na melhora da consistência fecal e frequência de evacuações em estudos clínicos. O efeito é modesto comparado a laxativos osmóticos. Probióticos podem ser uma opção complementar, especialmente quando há disbiose associada, mas não substituem o tratamento principal. O médico orientará as cepas e doses adequadas.
Consulte um médico se: a constipação persiste por mais de 3 meses apesar de dieta rica em fibras e hidratação adequada; há sangramento retal ou sangue nas fezes; houve perda de peso involuntária; a constipação surgiu de forma abrupta, especialmente após os 50 anos; há dor abdominal intensa ou distensão progressiva; você precisa de laxantes mais de 3 vezes por semana; ou há sensação persistente de esvaziamento incompleto. Sinais de alarme exigem investigação imediata para excluir causas orgânicas sérias.
Leia Também
Aprofunde seu conhecimento com artigos relacionados