O que é Hérnia de Disco Cervical?

A hérnia de disco cervical ocorre quando o núcleo pulposo do disco intervertebral cervical se desloca através de uma ruptura no ânulo fibroso, podendo comprimir raízes nervosas ou a medula espinhal. Os níveis mais acometidos são C5-C6 e C6-C7, que correspondem aos segmentos de maior mobilidade da coluna cervical.

Apesar de ser uma fonte frequente de cervicobraquialgia (dor cervical irradiada para o braço), é fundamental compreender que a presença de hérnia discal na ressonância magnética não necessariamente significa que ela é a causa dos sintomas. Estudos em indivíduos assintomáticos demonstram que protrusões e hérnias discais são achados comuns relacionados ao envelhecimento.

A maioria das hérnias discais cervicais responde ao tratamento conservador, e muitas se reabsorvem parcial ou completamente ao longo de meses, especialmente as extrusões maiores com componente inflamatório significativo.

01

Disco Herniado

O núcleo pulposo extravasa pelo ânulo fibroso rompido, podendo comprimir raízes nervosas ou a medula espinhal.

02

Dor Irradiada

A compressão radicular causa dor, formigamento e fraqueza que seguem o dermátomo da raiz afetada.

03

Reabsorção Natural

Muitas hérnias cervicais se reabsorvem espontaneamente. 75-90% dos pacientes melhoram sem cirurgia.

Epidemiologia

A radiculopatia cervical por hérnia discal têm incidência anual de 83 por 100.000 habitantes. A faixa etária mais acometida por hérnias discais cervicais agudas é entre 30 e 50 anos. Homens são discretamente mais afetados que mulheres (1,5:1). Os níveis C5-C6 e C6-C7 respondem por aproximadamente 70% de todas as hérnias cervicais.

C5-C6 / C6-C7
NÍVEIS MAIS FREQUENTEMENTE ACOMETIDOS
30-50 anos
FAIXA ETÁRIA DE PICO PARA HÉRNIAS AGUDAS
75-90%
MELHORAM SEM CIRURGIA
37%
DE ASSINTOMÁTICOS TÊM PROTRUSÃO DISCAL NA RM

Fisiopatologia

O disco intervertebral cervical é composto por um núcleo pulposo (gelatinoso, rico em proteoglicanos e água) envolvido pelo ânulo fibroso (lamelas concêntricas de colágeno). Com o envelhecimento e microtraumas repetitivos, o ânulo sofre degeneração e fissuras, permitindo a migração do núcleo pulposo.

Tipos de herniação discal cervical: protrusão, extrusão e sequestro, com a relação de cada tipo às raízes nervosas
Tipos de herniação discal cervical: protrusão, extrusão e sequestro, com a relação de cada tipo às raízes nervosas
Tipos de herniação discal cervical: protrusão, extrusão e sequestro, com a relação de cada tipo às raízes nervosas

Classificação das Hérnias

TIPOS DE HERNIAÇÃO DISCAL

TIPODEFINIÇÃOCARACTERÍSTICA CLÍNICA
ProtrusãoBase do material herniado mais larga que o ápiceGeralmente menos sintomática, resposta conservadora favorável
ExtrusãoMaterial herniado com base mais estreita que o ápiceMaior potencial de compressão radicular, mas MAIOR chance de reabsorção
SequestroFragmento livre separado do disco de origemPode causar sintomas intensos; reabsorção espontânea frequente

Mecanismos de Dor

A dor na hérnia discal cervical resulta de dois mecanismos complementares. O primeiro é a compressão mecânica direta da raiz nervosa no forame intervertebral, que causa isquemia e disfunção neural. O segundo é a inflamação química: o núcleo pulposo exposto libera fosfolipase A2, TNF-α, interleucinas e óxido nítrico que sensibilizam os nociceptores do gânglio da raiz dorsal.

A inflamação química explica por que hérnias pequenas podem causar dor intensa (alta atividade inflamatória) e hérnias grandes podem ser assintomáticas (baixa atividade inflamatória). Também explica o fenômeno da reabsorção: a resposta imune inflamatória ao material do núcleo pulposo (reconhecido como "estranho" pelo sistema imune) recruta macrófagos que fagocitam o fragmento herniado.

Sintomas

Os sintomas dependem da localização e do tamanho da hérnia. Hérnias posterolaterais (as mais comuns) comprimem raízes nervosas, causando radiculopatia. Hérnias centrais ou paracentrais volumosas podem comprimir a medula espinhal, causando mielopatia.

Critérios clínicos
06 itens

Sintomas da Hérnia Discal Cervical

  1. 01

    Dor cervical com irradiação para o braço

    A dor segue o dermátomo da raiz comprometida: C6 → polegar e indicador; C7 → dedo médio; C5 → ombro lateral.

  2. 02

    Formigamento e dormência no braço ou mão

    Parestesias em território radicular específico, frequentemente pior à noite ou ao acordar.

  3. 03

    Fraqueza muscular específica

    C5 → deltóide; C6 → bíceps e extensores do punho; C7 → tríceps; C8 → interósseos e flexores dos dedos.

  4. 04

    Piora com extensão e rotação cervical

    Movimentos que reduzem o forame neural (extensão + rotação ipsilateral) agravam a compressão radicular.

  5. 05

    Piora com tosse, espirro e esforço

    A manobra de Valsalva aumenta a pressão intradiscal, agravando a protrusão e a dor.

  6. 06

    Alívio com abdução do ombro

    Colocar a mão sobre a cabeça alivia a tensão sobre a raiz nervosa — sinal de Bakody.

Diagnóstico

O diagnóstico inicia-se pela correlação entre a história clínica (padrão de irradiação da dor) e o exame físico (testes provocativos e avaliação neurológica). Exames de imagem confirmam a presença e localização da hérnia, e a eletroneuromiografia pode confirmar a radiculopatia.

🏥Avaliação Diagnóstica da Hérnia Cervical

Fonte: Diretrizes da North American Spine Society (NASS)

Exame Clínico
  • 1.Teste de Spurling: compressão axial + extensão + rotação reproduz dor radicular (especificidade > 90%)
  • 2.Teste de distração cervical: tração alivia a dor (indica compressão foraminal)
  • 3.Teste de Bakody: abdução do ombro alivia dor (sugere compressão radicular)
  • 4.Avaliação neurológica segmentar: força, sensibilidade e reflexos por miotomo/dermátomo
Exames Complementares
  • 1.Ressonância magnética: padrão-ouro — visualiza hérnia, compressão radicular e medular
  • 2.Eletroneuromiografia: confirma radiculopatia ativa e exclui neuropatias periféricas
  • 3.Tomografia computadorizada: detalha componente ósseo (estenose foraminal)
  • 4.Radiografia funcional: avalia instabilidade segmentar e alinhamento

CORRELAÇÃO NÍVEL DISCAL E RAIZ AFETADA

NÍVEL DISCALRAIZ COMPRIMIDADÉFICIT MOTORREFLEXO ALTERADO
C3-C4C4Diafragma (raro), trapézioNenhum específico
C4-C5C5Deltóide, bícepsBicipital
C5-C6C6Bíceps, extensores do punhoBraquiorradial
C6-C7C7Tríceps, flexores do punho, extensores dos dedosTricipital
C7-T1C8Interósseos da mão, flexores dos dedosNenhum específico

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Diagnóstico Diferencial

Espondilose Cervical

  • Idade > 50 anos
  • Início gradual
  • Múltiplos níveis acometidos
  • Osteófitos na radiografia

Testes Diagnósticos

  • Radiografia e TC cervical

Estenose Espinhal Cervical

Leia mais →
  • Mielopatia (sinais de compressão medular)
  • Dificuldade de marcha
  • Sinal de Hoffmann positivo

Testes Diagnósticos

  • RM cervical com medição do canal

Tendinopatia do Manguito Rotador

Leia mais →
  • Dor no ombro com arco doloroso
  • Fraqueza de rotação
  • Sem irradiação abaixo do cotovelo

Testes Diagnósticos

  • Testes do ombro, ultrassonografia

Síndrome do Desfiladeiro Torácico

  • Parestesias ulnares (C8-T1)
  • Piora com braços elevados
  • Alteração vascular possível

Testes Diagnósticos

  • Teste de Roos, ENMG com manobras

Tumor Espinhal

  • Dor progressiva e noturna
  • Perda de peso
  • Déficit neurológico progressivo

Testes Diagnósticos

  • RM com contraste

Tratamentos

O tratamento conservador é o pilar inicial para hérnia discal cervical sem mielopatia. Evidências robustas sustentam que 75-90% dos pacientes obtêm resolução satisfatória dos sintomas sem necessidade de cirurgia.

TRATAMENTOS PARA HÉRNIA DE DISCO CERVICAL

TRATAMENTOMECANISMOEVIDÊNCIACONSIDERAÇÕES
AINEs + Gabapentina/PregabalinaAnti-inflamatório + modulação da dor neuropáticaFortePrimeira linha medicamentosa — combinação sinérgica
Corticoide oral (ciclo curto)Anti-inflamatório potente, reduz edema radicularModeradaCiclo curto (5-7 dias) na fase aguda intensa
Acupuntura / EletroacupunturaModulação nociceptiva, anti-inflamatório neuralModerada, com heterogeneidade metodológicaAdjuvante eficaz — controle de dor e parestesias
Exercícios + NeurodinâmicaDeslizamento neural, estabilização cervicalForteInício precoce — base do tratamento funcional
Tração cervical intermitenteAbertura foraminal, redução da compressãoModeradaÚtil quando alivia sintomas — contraindicada em instabilidade
Infiltração epidural cervicalAnti-inflamatório perirradicular concentradoModeradaCasos refratários > 6 semanas de tratamento conservador
Cirurgia (ACDF)Descompressão neural direta + estabilizaçãoForte (indicações específicas)Mielopatia, déficit motor progressivo ou refratariedade

Cronograma de Tratamento

Fase 1
0-2 semanas
Controle da Dor Aguda

AINEs, gabapentina/pregabalina, corticoide oral se necessário. Acupuntura precoce. Repouso relativo (NÃO colar por mais de 1-2 semanas). Orientação e educação.

Fase 2
2-6 semanas
Mobilização e Neurodinâmica

Técnicas de deslizamento neural, mobilização cervical suave, exercícios isométricos. Continuidade da acupuntura.

Fase 3
6-12 semanas
Fortalecimento Progressivo

Exercícios cervicais e escapulotorácicos progressivos. Treinamento proprioceptivo. Redução gradual de médicações.

Reavaliação
12 semanas
Decisão Terapêutica

Se melhora significativa: manutenção com exercícios. Se refratário: considerar infiltração epidural ou avaliação cirúrgica.

Acupuntura e Laserterapia

A acupuntura pode ser considerada como adjuvante no tratamento conservador da hérnia discal cervical, atuando em mecanismos da dor radicular. Algumas metanálises sugerem benefício adicional ao tratamento convencional na redução da dor e melhora funcional, com nível de evidência moderado e heterogeneidade metodológica relevante.

Os mecanismos incluem: redução de citocinas pró-inflamatórias perirradiculares (TNF-α, IL-1β, IL-6), modulação descendente inibitória via substância cinzenta periaquedutal e núcleo magno da rafe, inibição segmentar da transmissão nociceptiva, e melhora da microcirculação no forame neural com redução do edema radicular.

A eletroacupuntura com frequências alternadas (2/100 Hz) é particularmente eficaz na dor neuropática da radiculopatia cervical. A frequência de 2 Hz libera encefalinas e β-endorfinas (analgesia duradoura), enquanto 100 Hz libera dinorfinas (analgesia rápida). A alternância maximiza a ativação de múltiplos sistemas opioides endógenos.

Laserterapia (Fotobiomodulação)

A laserterapia aplicada sobre os forames cervicais e ao longo do trajeto neural oferece efeitos neuroprotetores e anti-inflamatórios. O mecanismo envolve a estimulação da citocromo c oxidase mitocondrial no nervo comprimido, aumentando a produção de ATP e acelerando a regeneração axonal.

Estudos experimentais demonstram que a fotobiomodulação reduz a degeneração walleriana, promove a remielinização e diminui o edema intraneural em modelos de compressão radicular. Clinicamente, a combinação de laser nos forames cervicais com acupuntura ao longo do dermátomo afetado oferece abordagem sinérgica.

Prognóstico

O prognóstico da hérnia discal cervical é favorável. A maioria das hérnias segue história natural de melhora espontânea, com reabsorção parcial ou completa documentada em estudos de seguimento por ressonância magnética. Hérnias com extrusão e sequestro têm as maiores taxas de reabsorção.

75-90%
MELHORAM COM TRATAMENTO CONSERVADOR
60-80%
DAS EXTRUSÕES MOSTRAM REABSORÇÃO NA RM
8-12 semanas
TEMPO TÍPICO DE MELHORA CLÍNICA
90-95%
SATISFAÇÃO PÓS-CIRURGIA QUANDO BEM INDICADA

Fatores de melhor prognóstico para tratamento conservador incluem: hérnia com extrusão ou sequestro (paradoxalmente, as que mais se reabsorvem), ausência de déficit motor, duração curta dos sintomas antes do tratamento e ausência de estenose foraminal óssea associada. A presença de mielopatia piora significativamente o prognóstico e frequentemente requer intervenção cirúrgica.

Mitos e Fatos

Mito vs. Fato

MITO

Hérnia de disco cervical sempre precisa de cirurgia.

FATO

75-90% dos pacientes melhoram sem cirurgia. A indicação cirúrgica é reservada para mielopatia, déficit motor progressivo ou dor refratária ao tratamento conservador adequado.

MITO

Quanto maior a hérnia, pior o prognóstico.

FATO

Paradoxalmente, hérnias maiores (extrusões e sequestros) têm as maiores taxas de reabsorção espontânea (60-80%). Hérnias grandes com alto componente inflamatório atraem macrófagos que promovem sua fagocitose.

MITO

A hérnia na ressonância é a causa certa da minha dor.

FATO

Protrusões e hérnias cervicais são encontradas em 37% dos assintomáticos na terceira década. A correlação clínica — não apenas a imagem — determina se a hérnia é sintomática.

MITO

Com hérnia cervical, não posso fazer exercícios nem acupuntura.

FATO

Exercícios orientados e acupuntura são pilares do tratamento conservador. Exercícios de neurodinâmica e estabilização cervical aceleram a recuperação, e a acupuntura reduz dor e parestesias.

Quando Procurar Ajuda Médica

PERGUNTAS FREQUENTES · 06

Perguntas Frequentes sobre Hérnia de Disco Cervical

Sim. Estudos de ressonância magnética de seguimento demonstram que 60-80% das extrusões e sequestros discais cervicais apresentam reabsorção parcial ou completa ao longo de 6-12 meses. O mecanismo envolve resposta imunológica: o material do núcleo pulposo exposto é reconhecido como estranho pelo sistema imune, atraindo macrófagos que fagocitam o fragmento. Paradoxalmente, hérnias maiores com extrusão tendem a se reabsorver mais que protrusões menores.

A cirurgia é indicada em situações específicas: mielopatia cervical (compressão da medula espinhal com sinais como dificuldade de marcha, falta de coordenação nas mãos), déficit motor progressivo (fraqueza que piora apesar do tratamento conservador), dor radicular incapacitante refratária a 6-12 semanas de tratamento adequado, e instabilidade cervical documentada. A cirurgia mais comum é a discectomia cervical anterior com fusão (ACDF), com taxa de satisfação acima de 90% quando bem indicada.

A acupuntura pode ser considerada como adjuvante no tratamento conservador. Propõe-se que atue reduzindo a inflamação perirradicular, modulando a transmissão da dor neuropática e melhorando a microcirculação no forame neural. A eletroacupuntura com frequências alternadas (2/100 Hz) é descrita como opção para dor neuropática, embora os protocolos sejam heterogêneos. A combinação com laserterapia nos forames cervicais é relatada em alguns estudos. Parte dos pacientes relata melhora das parestesias nas primeiras sessões, mas a resposta é individual.

Sim, exercícios são fundamentais e devem ser iniciados precocemente. Exercícios de neurodinâmica (deslizamento neural) reduzem a tensão sobre a raiz comprimida. Exercícios de estabilização cervical fortalecem os flexores profundos e melhoram o controle motor. A progressão deve ser gradual, respeitando os limites da dor. Exercícios de alto impacto cervical (saltos de trampolim, mergulhos de cabeça) devem ser evitados durante a fase de recuperação.

Se a hérnia foi um achado incidental (encontrada em exame por outro motivo) e você está assintomático, não há necessidade de tratamento específico para a hérnia. Protrusões discais são achados normais do envelhecimento — presentes em 37% dos indivíduos saudáveis na terceira década. Apenas hérnias que causam sintomas (dor irradiada, formigamento, fraqueza) necessitam de tratamento.

Um ciclo típico inclui 8-12 sessões, realizadas 2 vezes por semana na fase aguda e semanalmente na manutenção. A melhora das parestesias geralmente ocorre entre a 2ª e a 4ª sessão, enquanto a dor melhora mais gradualmente. O médico acupunturista combina acupuntura manual, eletroacupuntura ao longo do dermátomo afetado e laserterapia nos forames cervicais, ajustando o protocolo conforme a resposta clínica.