O que são Nausea e Vomitos Pós-Operatorios?
Nausea e vomitos pós-operatorios (NVPO) são complicações frequentes que ocorrem nas primeiras 24-48 horas após procedimentos cirurgicos sob anestesia geral ou regional. Afetam 30% dos pacientes cirurgicos em geral e até 80% dos pacientes de alto risco.
A NVPO e consistentemente classificada pelos pacientes como um dos efeitos colaterais mais indesejados da cirurgia — muitos a consideram pior do que a propria dor pós-operatória. Além do desconforto, pode causar complicações como desidratação, deiscência de suturas, aspiração pulmonar e internação prolongada.
A prevenção e o tratamento eficazes da NVPO são prioridades na anestesiologia moderna, com abordagem multimodal baseada na estratificação de risco individual do paciente.
Complicação Frequente
Afeta 30% dos pacientes cirurgicos em geral e até 80% dos pacientes de alto risco. E a segunda causa mais comum de insatisfação pós-anestésica.
Centro do Vomito
A NVPO resulta da ativação do centro do vomito no tronco encefalico por múltiplas vias aferentes: vestibular, vagal, faringe e zona quimiorreceptora gatilho.
Prevenção Multimodal
A abordagem moderna combina estratificação de risco, redução de fatores desencadeantes e profilaxia farmacológica escalonada.
Fisiopatologia
O vomito e um reflexo protetor complexo coordenado pelo centro do vomito, localizado na formação reticular lateral do bulbo. Esse centro recebe aferências de múltiplas fontes: zona quimiorreceptora gatilho (área postrema), sistema vestibular, nervos vagais viscerais e centros corticais superiores.
Na NVPO, os principais estímulos incluem a ação de anestésicos e opioides na zona quimiorreceptora gatilho (rica em receptores dopaminergicos D2, serotoninergicos 5-HT3 e neurocinina NK1), a estimulação vagal por manipulação cirurgica e a ativação vestibular por mudanças de posição.

Fatores de Risco
O escore de Apfel e o sistema de estratificação de risco mais utilizado, incluindo quatro fatores independentes: sexo feminino, não tabagismo, historia de NVPO ou cinetose, e uso de opioides pós-operatorios. Cada fator presente aumenta o risco em aproximadamente 20%.
Fatores anestésicos incluem o uso de anestésicos inalatórios, oxido nitroso e neostigmina. Fatores cirurgicos incluem cirurgias mais longas, cirurgias laparoscopicas, otologicas, ginecologicas e de estrabismo.
Sintomas
A NVPO tipicamente se manifesta nas primeiras 24 horas após a cirurgia, com pico de incidência nas primeiras 2-4 horas. A nausea pode ocorrer isoladamente ou preceder episódios de vomito. Em alguns pacientes, os sintomas podem persistir por 48-72 horas.
Manifestações da NVPO
- 01
Nausea pós-operatória
Sensação subjetiva de desconforto gástrico e vontade de vomitar. Pode ser tao debilitante quanto o vomito em si.
- 02
Vomitos e ansia de vomito
Expulsao forcada do conteudo gástrico. Ansias (retching) são contrações ritmicas da musculatura abdominal sem expulsao de conteudo.
- 03
NVPO precoce vs tardia
NVPO precoce (0-2h) e relacionada a anestésicos; tardia (2-24h) e mais associada a opioides e fatores do paciente.
- 04
Sialorreia e palidez
Salivação excessiva, palidez cutânea e sudorese fria frequentemente acompanham a nausea intensa.
- 05
Desidratação
Vomitos repetidos podem causar desidratação, disturbios eletroliticos e atraso na retomada da alimentação oral.
Diagnóstico e Estratificação de Risco
O diagnóstico de NVPO e clínico e evidente. O aspecto mais relevante e a estratificação de risco pré-operatória, que permite planejar a profilaxia adequada. O escore de Apfel simplificado classifica os pacientes em baixo, moderado e alto risco.
E importante excluir causas mecânicas de vomito pós-operatório, como obstrução intestinal ou ileo paralitico, especialmente em cirurgias abdominais. Vomitos persistentes após 48 horas devem ser investigados.
ESCORE DE APFEL E CONDUTA
| FATORES DE RISCO | RISCO ESTIMADO | CONDUTA PROFILÁTICA |
|---|---|---|
| 0 fatores | ~10% | Sem profilaxia de rotina |
| 1 fator | ~20% | Considerar 1 antieméetico |
| 2 fatores | ~40% | Profilaxia com 1-2 antiemeticos |
| 3 fatores | ~60% | Profilaxia multimodal (2-3 agentes) |
| 4 fatores | ~80% | Profilaxia multimodal agressiva + TIVA |
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Náuseas por Medicamentos Anestésicos
- Opioides, protóxido de nitrogênio são fatores de risco
- Escala de Apfel positiva
- Contexto pós-cirúrgico imediato
Testes Diagnósticos
- Score de Apfel para NVPO
Íleo Paralítico Pós-operatório
- Ausência de ruídos hidroaéreos
- Distensão abdominal
- Não elimina flatos
Testes Diagnósticos
- Radiografia de abdome
- TC se suspeita de obstrução
Hemorragia Digestiva Alta
- Vômito com sangue ou hematêmese
- Hipotensão
- Cirurgia abdominal prévia
- Hematêmese pós-op = endoscopia urgente
Testes Diagnósticos
- Endoscopia urgente
- Hemograma
Obstrução Intestinal Pós-operatória
- Bridas e aderências pós-cirúrgicas
- Distensão e dor abdominal
- Sem eliminação de flatos/fezes
- Obstrução = cirurgia urgente
Testes Diagnósticos
- TC de abdome
Hiponatremia
- Náusea + cefaleia + confusão pós-op
- Soro hipotônico excessivo
- Sódio sérico < 135
- Hiponatremia grave = correção lenta urgente
Testes Diagnósticos
- Eletrólitos séricos
Íleo Paralítico e Obstrução Intestinal: Complicações Cirúrgicas Sérias
O íleo paralítico pós-operatório é a causa mais comum de náuseas persistentes após cirurgia abdominal. Resulta da inibição temporária da motilidade intestinal por reflexos neuroendócrinos, manipulação cirúrgica e uso de opioides. O intestino não conduz alimentos e gases normalmente — ausência de ruídos hidroaéreos, distensão abdominal e incapacidade de eliminar flatos são os sinais característicos. Geralmente resolve em 3-5 dias com jejum, deambulação precoce e controle da dor com opioides minimizados.
A obstrução intestinal por aderências pós-cirúrgicas (bridas) é uma complicação mais grave que exige intervenção. Náuseas e vômitos com distensão abdominal progressiva, ausência total de eliminação de gases e fezes, e dor em cólica persistente apontam para obstrução mecânica. A tomografia de abdome com contraste é o exame de escolha para diferenciar íleo paralítico de obstrução mecânica e determinar a necessidade de cirurgia urgente.
Hemorragia Digestiva e Hiponatremia: Emergências que Podem Simular NVPO
Hemorragia digestiva alta pós-operatória — por úlcera de estresse, deiscência anastomótica ou sangramento de coto cirúrgico — pode se manifestar inicialmente como náuseas e vômitos. A presença de hematêmese (vômito com sangue), hipotensão, taquicardia ou queda do hematócrito são sinais de alarme que exigem endoscopia digestiva alta urgente. Pacientes submetidos a cirurgias abdominais de grande porte, especialmente com uso de AINEs no período perioperatório, têm risco aumentado.
A hiponatremia é uma causa metabólica de náuseas pós-operatórias que pode ser confundida com NVPO simples. Administração excessiva de soluções hipotônicas, síndrome de secreção inapropriada de ADH (SIADH) pós-cirúrgica e perdas eletrolíticas são mecanismos frequentes. Náusea associada a cefaleia, confusão mental e fraqueza muscular em contexto pós-operatório deve disparar a dosagem imediata de eletrólitos. Hiponatremia grave (sódio < 125 mEq/L) pode causar convulsões e é uma emergência clínica.
Estratificação de Risco: O Score de Apfel como Ferramenta Diagnóstica
O score de Apfel é o instrumento mais utilizado para estratificar o risco de NVPO antes da cirurgia, com quatro fatores: sexo feminino, não tabagista, história prévia de NVPO ou cinetose, e uso pós-operatório de opioides. A pontuação (0-4) determina a intensidade da profilaxia antiemética — de nenhuma intervenção (score 0) a profilaxia multimodal agressiva (score 3-4). A identificação do risco pré-operatório é parte essencial do diagnóstico e manejo.
Além do score de Apfel, fatores anestésicos contribuem significativamente: anestesia inalatória com agentes voláteis (sevoflurano, desflurano) versus anestesia intravenosa total (propofol); uso de protóxido de nitrogênio; duração da cirurgia; e tipo de cirurgia (laparoscopia, cirurgia ginecológica e otorrinolaringológica têm maior risco). O anestesiologista deve documentar e comunicar esses fatores para a equipe médica que acompanhará o pós-operatório.
Tratamento
A abordagem moderna da NVPO e multimodal, combinando redução de fatores de risco basais (anestesia intravenosa total, minimização de opioides) com profilaxia farmacológica escalonada e terapias complementares.
Redução de Risco Basal
Anestesia intravenosa total (TIVA) com propofol, evitar oxido nitroso e anestésicos inalatórios, minimizar opioides com analgesia multimodal, hidratação adequada.
Profilaxia Farmacológica
Dexametasona 4-8mg na indução, ondansetrona 4mg no final da cirurgia. Em alto risco: adicionar droperidol ou escopolamina transdermica.
Tratamento de Resgate
Usar antieméetico de classe diferente da profilaxia. Se a profilaxia incluiu ondansetrona, usar droperidol ou promethazina como resgate.
Terapias Complementares
Acupuntura/acupressão no ponto PC6, gengibre, aromaterapia com alcool isopropilico. Podem ser associadas a farmacoterapia.
Acupuntura como Tratamento
A acupuntura no ponto PC6 (Neiguan) e uma das intervenções com maior nível de evidência em toda a acupuntura médica. A Cochrane Collaboration publicou uma revisão sistematica demonstrando eficacia significativa da estimulação do ponto PC6 na prevenção e tratamento da NVPO.
O ponto PC6 está localizado na face anterior do antebraco, entre os tendões dos músculos palmar longo e flexor radial do carpo, dois dedos acima da prega do punho. Sua estimulação pode ser feita por agulhas, acupressão (pulseiras), eletroacupuntura ou estimulação elétrica transcutanea.
Os mecanismos propostos incluem modulação vagal, regulação dos centros emeticos no tronco encefalico, liberação de endorfinas e modulação dos receptores serotoninergicos. Revisões sistematicas descrevem que a estimulação do PC6, quando empregada como adjuvante, têm magnitude de efeito próxima a de antiemeticos farmacológicos na prevenção de NVPO — a indicação, no entanto, e complementar e não substitui a profilaxia farmacológica prescrita pelo anestesiologista.
Prognóstico
A NVPO e uma condição autolimitada na grande maioria dos casos, resolvendo-se em 24-48 horas. Com profilaxia adequada baseada na estratificação de risco, a incidência pode ser reduzida de 80% para 10-20% em pacientes de alto risco.
Complicações graves são raras, mas incluem aspiração pulmonar (especialmente em pacientes com nível de consciência reduzido), desidratação severa, deiscência de suturas abdominais e pneumomediastino por esforços eméeticos vigorosos.
Pacientes com historia de NVPO em cirurgias anteriores apresentam risco elevado em procedimentos futuros. A documentação detalhada da ocorrência de NVPO e das estrategias que funcionaram e essencial para o planejamento de cirurgias subsequentes.
Mitos e Fatos
Mito vs. Fato
Nausea pós-operatória e inevitavel após anestesia geral
Com profilaxia multimodal adequada, a incidência pode ser reduzida significativamente. Anestesia intravenosa total com propofol e analgesia multimodal podem reduzir o risco em mais de 50%.
Um único remédio resolve a NVPO em todos os pacientes
Nenhum antieméetico isolado e suficiente para todos os pacientes. A abordagem multimodal — combinando agentes de classes diferentes — e mais eficaz, pois atua em múltiplos receptores envolvidos na emese.
Jejum prolongado antes da cirurgia previne NVPO
O jejum prolongado além do necessário não reduz a NVPO e pode até piora-la por desidratação e hipoglicemia. As diretrizes atuais recomendam líquidos claros até 2 horas antes da anestesia.
Pulseiras de acupressão são apenas placebo
A revisão Cochrane demonstrou que a estimulação do ponto PC6 (usado pelas pulseiras) e superior ao placebo para prevenção de NVPO. O mecanismo envolve modulação vagal e dos centros emeticos cerebrais.
Quando Procurar Ajuda
Nausea leve nas primeiras 24 horas pós-operatorias e comum. Porem, sintomas persistentes ou graves requerem atenção médica para tratamento adequado e exclusão de complicações.
Perguntas Frequentes sobre Náuseas e Vômitos Pós-Operatórios
NVPO (Náuseas e Vômitos Pós-Operatórios) é uma complicação comum da anestesia e cirurgia, que afeta 20-30% de todos os pacientes operados e até 70-80% dos pacientes de alto risco (score de Apfel elevado). Ocorre nas primeiras 24 horas após a cirurgia e resulta da ativação do centro do vômito no tronco cerebral por múltiplos estímulos: agentes anestésicos voláteis, opioides, manipulação gastrointestinal, hipotensão e dor. É uma das causas mais comuns de insatisfação com a cirurgia e atraso na alta hospitalar.
O score de Apfel identifica os quatro principais fatores de risco: sexo feminino (dobra o risco), não tabagista, história prévia de NVPO ou cinetose (enjoo de movimento), e uso de opioides no pós-operatório. Fatores adicionais incluem: anestesia inalatória com agentes voláteis, uso de protóxido de nitrogênio (N₂O), cirurgias prolongadas (>1h), tipo de cirurgia (laparoscopia, ginecológica, otorrinolaringológica), histórico de ansiedade elevada e jejum pré-operatório prolongado.
Sim. A acupressão e a eletroacupuntura no ponto PC6 (Neiguan, localizado no punho) têm evidência robusta e são reconhecidas pela revisão Cochrane como adjuvantes eficazes para reduzir náuseas pós-operatórias — com magnitude de efeito de ordem comparável à de antieméticos como a ondansetrona em parte dos estudos. Na prática, são usadas como complemento da profilaxia antiemética farmacológica prescrita pelo anestesiologista, não como substituto. O ponto PC6 modula o núcleo do trato solitário e o vago, reduzindo o reflexo nauseoso.
Opioides estimulam receptores µ na zona gatilho quimiorreceptora (ZGQ) do tronco cerebral, que ativam diretamente o centro do vômito. Além disso, retardam o esvaziamento gástrico, causam hipotensão ortostática (que amplifica a náusea) e aumentam a sensibilidade vestibular. Morfina, fentanil e tramadol são os mais emetogênicos. A redução da dose de opioides — usando analgesia multimodal com AINEs, dipirona e bloqueios regionais — é uma das estratégias mais eficazes para reduzir NVPO.
Antieméticos de primeira linha incluem: ondansetrona e outros antagonistas 5-HT3 (excelente para profilaxia e resgate); dexametasona 4-8 mg IV (muito eficaz na indução anestésica); droperidol e haloperidol (bloqueadores dopaminérgicos); e dimenidrinato/prometazina (antihistamínicos). Para alto risco (Apfel 3-4), a profilaxia multimodal — combinando dois ou três agentes — é recomendada pelas diretrizes SAMBA. A acupuntura/acupressão no PC6 pode ser adicionada como quarto componente.
Sim, especialmente vômitos intensos no pós-operatório imediato. Complicações incluem: desidratação e desequilíbrio eletrolítico (especialmente em cirurgias prolongadas); aspiração pulmonar do conteúdo gástrico (risco maior com consciência reduzida); deiscência de suturas abdominais por esforço repetido; aumento da pressão intracraniana (contraindicado em neurocirurgia); tensão na anastomose após cirurgia gastrointestinal; e atraso significativo na recuperação e alta hospitalar. O manejo profilático é preferível ao resgate.
Sim, de forma significativa. Propofol, o agente principal da TIVA, têm propriedades antieméticas intrínsecas — reduz NVPO em 20-30% comparado a agentes inalatórios. A TIVA elimina a exposição a agentes voláteis (halogenados) e ao protóxido de nitrogênio, os principais fatores anestésicos de risco para NVPO. Em pacientes de alto risco (Apfel ≥2), a TIVA é recomendada como estratégia preferencial pelas diretrizes internacionais de anestesia.
A maioria dos casos de NVPO resolve em 24-48 horas. Náuseas nas primeiras 2-6 horas são mais relacionadas ao efeito agudo dos anestésicos; náuseas tardias (6-24h) são mais influenciadas pelos opioides e pelo retorno da motilidade gastrointestinal. Em pacientes de alto risco sem profilaxia adequada, os sintomas podem persistir por 48-72 horas. Com profilaxia multimodal adequada, a incidência é reduzida em 70-80% e a duração dos episódios é significativamente menor.
Sim. O jejum prolongado (>8h para líquidos) causa hipoglicemia, desidratação relativa e aumenta a ansiedade pré-operatória — todos fatores que amplificam a náusea. As diretrizes anestesiológicas modernas recomendam ingestão de líquidos claros (água, suco sem polpa, chá) até 2 horas antes da cirurgia, e sólidos até 6 horas antes. Está abordagem (jejum liberal) reduz a incidência de NVPO sem aumentar o risco de aspiração, e melhora o conforto e a recuperação do paciente.
Informe sempre a equipe médica e anestésica sobre o histórico de NVPO antes de qualquer procedimento cirúrgico — essa informação é crítica para o planejamento. O anestesiologista pode optar por: anestesia intravenosa total (TIVA) com propofol; profilaxia antiemética multimodal (ondansetrona + dexametasona + droperidol); minimização ou eliminação de opioides com analgesia multimodal; e acupressão/eletroacupuntura preventiva no ponto PC6. A combinação dessas estratégias reduz significativamente a recorrência.
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