O que é Tenossinovite de De Quervain?

A tenossinovite de De Quervain é uma condição dolorosa que afeta os tendões do abdutor longo do polegar (ALP) e do extensor curto do polegar (ECP) ao passarem pelo primeiro compartimento extensor dorsal do punho. A condição resulta de espessamento e estenose da bainha tendinosa, causando atrito e dor durante o movimento do polegar.

Descrita em 1895 pelo cirurgião suíço Fritz de Quervain, a condição é popularmente conhecida como "polegar de mamãe" pela alta incidência no período pós-parto, ou "texting thumb" (polegar do celular) pela associação com uso excessivo de smartphones.

0,5-1,3%
PREVALÊNCIA NA POPULAÇÃO GERAL
6:1
PROPORÇÃO MULHERES:HOMENS
30-50 anos
FAIXA ETÁRIA MAIS AFETADA
50%
DAS NOVAS MÃES DESENVOLVEM A CONDIÇÃO
01

Tendões Afetados

Abdutor longo e extensor curto do polegar — responsáveis por afastar e estender o polegar

02

Pós-Parto

Alterações hormonais + sobrecarga repetitiva ao segurar o bebê = fator de risco significativo

03

Era Digital

Uso intensivo de smartphones com o polegar aumentou a incidência nas últimas décadas

Fisiopatologia

Anatomia do Primeiro Compartimento Extensor

Os tendões do ALP e ECP passam por um túnel osteofibroso na face radial do punho — o primeiro compartimento extensor dorsal. Esse compartimento é delimitado por uma bainha retinacular rígida. Em condições normais, os tendões deslizam suavemente dentro dessa bainha, lubrificados pela sinóvia.

Anatomia do primeiro compartimento extensor dorsal: tendões ALP e ECP, bainha retinacular, processo estiloide do rádio e variantes anatômicas (septo intracompartimental).
Anatomia do primeiro compartimento extensor dorsal: tendões ALP e ECP, bainha retinacular, processo estiloide do rádio e variantes anatômicas (septo intracompartimental).
Anatomia do primeiro compartimento extensor dorsal: tendões ALP e ECP, bainha retinacular, processo estiloide do rádio e variantes anatômicas (septo intracompartimental).

Mecanismo da Doença

Diferente do que o nome sugere, estudos histopatológicos demonstram que a condição não é primariamente inflamatória (sinovite), mas sim um processo de degeneração mucoide e espessamento da bainha retinacular. A bainha pode aumentar de espessura em até 4 vezes, estreitando o canal e comprimindo os tendões.

O atrito repetitivo entre os tendões e a bainha espessada causa dor e, eventualmente, crepitação palpável. Movimentos de desvio ulnar do punho com o polegar em preensão (como ao segurar um bebê ou ao usar o celular com uma mão) são os principais gatilhos mecânicos.

Sintomas

Critérios clínicos
07 itens
  1. 01

    Dor na face radial do punho

    Sobre o processo estiloide do rádio; piora com movimentos do polegar e preensão

  2. 02

    Dor ao segurar objetos

    Especialmente ao segurar com pinça lateral ou ao pegar o bebê; pode causar queda de objetos

  3. 03

    Edema localizado

    Inchaço palpável sobre o primeiro compartimento extensor — pode apresentar aspecto fusiforme

  4. 04

    Crepitação

    Sensação de atrito ou "rangido" ao movimentar o polegar

  5. 05

    Irradiação para o polegar e antebraço

    A dor pode se estender distalmente até a ponta do polegar ou proximalmente pelo antebraço

  6. 06

    Dificuldade para torcer e girar objetos

    Abrir potes, girar chaves ou maçanetas torna-se doloroso

  7. 07

    Gatilhamento ocasional

    Em casos avançados, o tendão pode "travar" ao passar pelo compartimento estreitado

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, baseado na história e no exame físico. O teste de Finkelstein é o exame provocativo clássico, embora frequentemente seja realizado de forma incorreta na prática clínica.

🏥Diagnóstico da Tenossinovite de De Quervain

Fonte: Ilyas AM — Journal of the American Academy of Orthopaedic Surgeons, 2007

Critérios Clínicos
História + exame físico são suficientes para o diagnóstico
  • 1.Dor na face radial do punho sobre o primeiro compartimento extensor
  • 2.Dor à palpação do processo estiloide do rádio
  • 3.Edema ou espessamento palpável sobre o primeiro compartimento
  • 4.Dor reproduzida por abdução resistida do polegar
Testes Provocativos
  • 1.Teste de Finkelstein: polegar flexionado dentro do punho cerrado + desvio ulnar passivo do punho — reproduz a dor (sensibilidade ~80%)
  • 2.Teste de Eichhoff (frequentemente confundido com Finkelstein): desvio ulnar ativo com polegar encerrado
  • 3.Abdução resistida do polegar contra resistência: dor reproduzida no 1º compartimento
Exames Complementares
  • 1.Ultrassonografia: espessamento da bainha retinacular (> 1mm), edema peritendinoso, identificação de septo intracompartimental
  • 2.Radiografia: geralmente normal; exclui artrose trapeziometacárpica (rizartrose) e fratura do escafoide
  • 3.Ressonância magnética: raramente necessária; útil em diagnóstico diferencial complexo

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Diagnóstico Diferencial

Síndrome do Túnel do Carpo

Leia mais →
  • Dormência noturna nos dedos
  • Sinal de Tinel no punho volar
  • Phalen positivo

Testes Diagnósticos

  • Eletroneuromiografia

Artrite da Base do Polegar (Rizartrose)

  • Dor e crepitação na base do polegar
  • Grind test positivo
  • Comum em mulheres >45 anos

Testes Diagnósticos

  • Grind test
  • Radiografia

Tendinite do Extensor Longo do Polegar

  • Dor no dorso do punho radial
  • Piora com extensão do polegar
  • Pode ocorrer após fratura de rádio

Testes Diagnósticos

  • Ultrassonografia

Síndrome de Intersecção

  • Dor mais proximal que De Quervain (5cm acima)
  • Crepitação palpável
  • Atletas de remo

Testes Diagnósticos

  • Ultrassonografia

Ganglioma do Punho

  • Nódulo palpável flutuante
  • Dor variável
  • Comprime estruturas adjacentes

Testes Diagnósticos

  • Ultrassonografia

Síndrome do Túnel do Carpo: Principal Confundidor

A síndrome do túnel do carpo é frequentemente confundida com a tenossinovite de De Quervain porque ambas afetam o punho e podem causar dor e alterações sensitivas na mão. A distinção fundamental é o padrão sintomático: De Quervain causa dor na face radial do punho com piora aos movimentos do polegar, enquanto o túnel do carpo provoca dormência noturna nos três primeiros dedos (polegar, indicador e médio) com sinal de Tinel e Phalen positivos no punho volar.

Importante ressaltar que as duas condições podem coexistir na mesma paciente — especialmente em gestantes e mulheres no pós-parto, em que as alterações hormonais predispõem a ambas simultaneamente. A eletroneuromiografia é o exame padrão-ouro para confirmar compressão do nervo mediano no túnel do carpo.

Rizartrose: Diferênciação pela Localização

A rizartrose (artrose trapeziometacárpica) afeta a articulação na base do polegar e é mais comum em mulheres acima de 45 anos. A dor da rizartrose tende a ser mais distal (na própria articulação trapeziometacárpica), associada a crepitação e, frequentemente, com deformidade em subluxação ("sinal da bainha de pistola"). O grind test — rotação do metacarpo sobre o trapézio com compressão axial — reproduz a dor da rizartrose e não da De Quervain. A radiografia mostra estreitamento articular e osteófitos.

Na prática clínica, as duas condições podem coexistir, o que é comum em mulheres na perimenopausa. O tratamento é distinto: enquanto De Quervain responde bem à infiltração no primeiro compartimento extensor, a rizartrose moderada a grave pode requerer infiltração intra-articular na base do polegar ou, nos casos graves, artroplastia.

Síndrome de Intersecção: Diagnóstico por Localização

A síndrome de intersecção é causada pelo atrito entre os tendões do primeiro compartimento extensor (ALP e ECP) e os tendões do segundo compartimento (extensor radial longo e curto do carpo) — no ponto onde se cruzam, cerca de 4 a 5 cm proximais ao processo estiloide do rádio. A dor é, portanto, mais proximal no dorso do antebraço, frequentemente com crepitação palpável e audível ("squeaking"). É mais comum em atletas de remo, halterofilismo e esquiadores.

A distinção com De Quervain é principalmente anatômica: palpar o ponto de dor máxima — se estiver sobre o processo estiloide do rádio ou imediatamente distal a ele, é De Quervain; se estiver 4-5 cm proximal, é síndrome de intersecção. O ultrassom confirma a localização exata do processo inflamatório.

Tratamentos

Imobilização

O uso de uma órtese de punho com extensão para o polegar (spica splint) limita os movimentos que sobrecarregam os tendões afetados. O mecanismo é a redução do atrito repetitivo que perpetua a condição. Estudos mostram que a imobilização isolada resolve 19% dos casos, mas quando combinada com AINEs, a taxa sobe para 57%.

Infiltração de Corticosteroide

A infiltração de corticosteroide na bainha do primeiro compartimento é altamente eficaz, com taxas de resolução de 70-90% após uma única injeção. O corticosteroide reduz o espessamento da bainha e a inflamação peritendinosa. A injeção deve ser realizada dentro da bainha (confirmação ultrassonográfica aumenta a precisão). Uma segunda injeção pode ser oferecida se a primeira não for completamente eficaz.

Cirurgia

A liberação cirúrgica do primeiro compartimento extensor é indicada quando o tratamento conservador falha após 2-3 tentativas de infiltração. O procedimento consiste na abertura longitudinal da bainha retinacular, liberando os tendões. O cirurgião deve identificar e abrir eventuais septos intracompartimentais para evitar recorrência. A taxa de sucesso cirúrgico é de 90-95%.

EFICÁCIA DAS OPÇÕES TERAPÊUTICAS

TRATAMENTOTAXA DE SUCESSOTEMPO DE RESPOSTACONSIDERAÇÕES
Órtese isolada19%4-6 semanasMelhor como adjuvante de outros tratamentos
Órtese + AINEs57%2-4 semanasPrimeira linha para casos leves
Infiltração de corticosteroide70-90% (1ª injeção)1-2 semanasEficácia reduzida se houver septo intracompartimental
Fisioterapia (mobilização + exercícios)~60%6-12 semanasFocada em desensibilização e fortalecimento
Cirurgia (liberação do 1º compartimento)90-95%4-6 semanas de reabilitaçãoAtenção a variantes anatômicas e ramo sensitivo do radial

Acupuntura como Opção Terapêutica

A acupuntura pode ser utilizada como tratamento adjuvante para a tenossinovite de De Quervain, particularmente para controle da dor. Estudos sobre acupuntura em tendinopatias do membro superior demonstram benefícios na redução da dor e melhora funcional, embora a literatura específica para De Quervain ainda seja limitada.

Os mecanismos propostos — baseados em estudos pré-clínicos — incluem possível modulação da inflamação neurogênica local, liberação de opioides endógenos nos segmentos medulares e eventual influência sobre a microcirculação peritendinosa. A eletroacupuntura têm sido associada, em modelos experimentais, a efeitos sobre citocinas pró-inflamatórias — achados que representam hipóteses mecanísticas, ainda não plenamente confirmadas em humanos.

Prognóstico e Recuperação

O prognóstico é excelente. A maioria dos casos resolve com tratamento conservador, especialmente quando a infiltração de corticosteroide é utilizada. A condição associada à gravidez/pós-parto frequentemente se resolve espontaneamente em 6-12 meses após o parto, embora o tratamento acelere a recuperação.

Fase 1
1-2 semanas
Proteção

Imobilização com órtese incluindo o polegar. Modificação de atividades. AINEs tópicos ou orais. Gelo local 15 min, 3-4x/dia.

Fase 2
2-4 semanas
Intervenção

Avaliação de resposta à imobilização. Infiltração de corticosteroide se necessário. Início de exercícios suaves de deslizamento tendíneo.

Fase 3
4-8 semanas
Reabilitação

Exercícios de fortalecimento progressivo. Treino excêntrico do polegar. Retorno gradual às atividades manuais com ergonomia adequada.

Fase 4
8-12 semanas
Retorno Funcional

Retorno completo às atividades. Orientações ergonômicas para prevenção de recorrência. Exercícios de manutenção.

Mitos e Fatos

Mito vs. Fato

MITO

É causada exclusivamente por uso do celular.

FATO

Embora o uso repetitivo do celular com o polegar seja fator contribuinte, a condição é multifatorial. Gravidez, atividades manuais repetitivas, artrite reumatoide e variantes anatômicas são fatores igualmente relevantes.

MITO

É uma simples "inflamação" que resolve com anti-inflamatório.

FATO

Estudos histopatológicos mostram que o processo é predominantemente degenerativo (espessamento mucoide), não inflamatório. AINEs aliviam a dor, mas não tratam a causa — a infiltração e os exercícios são mais eficazes.

MITO

Se a infiltração não funcionar, só resta a cirurgia.

FATO

A falha da primeira infiltração pode ser devida a variante anatômica (septo intracompartimental). Uma segunda infiltração guiada por ultrassom, garantindo que a médicação atinja todos os subcompartimentos, pode ser eficaz antes de considerar cirurgia.

MITO

Após a cirurgia, o polegar perde força.

FATO

A liberação cirúrgica abre a bainha retinacular, mas não secciona os tendões nem os músculos. A força é preservada integralmente. Fraqueza temporária pós-operatória resolve em 4-6 semanas.

Quando Procurar Ajuda Médica

PERGUNTAS FREQUENTES · 10

Perguntas Frequentes sobre Tenossinovite de De Quervain

Com tratamento adequado, a maioria dos casos melhora em 4 a 12 semanas. Casos leves com apenas órtese e AINEs podem melhorar em 4 a 6 semanas. Casos moderados que necessitam de infiltração costumam apresentar resolução dos sintomas em 2 a 4 semanas após a injeção. Casos que chegam à cirurgia levam 4 a 6 semanas adicionais de reabilitação pós-operatória. O fator mais importante é iniciar o tratamento cedo e afastar a sobrecarga dos tendões.

A infiltração local de corticosteroide no primeiro compartimento extensor é considerada compatível com a amamentação pela maioria das diretrizes. A quantidade de corticosteroide que passa para o leite materno após uma injeção local é mínima e clinicamente irrelevante. Contudo, a decisão deve ser individualizada e discutida com o médico que acompanha a paciente, levando em conta a gravidade dos sintomas e as preferências da mãe.

Sim. A tenossinovite de De Quervain não impede a amamentação, mas é importante adaptar a posição de pega do bebê para reduzir o esforço sobre o polegar. Técnicas como suportar o bebê com o antebraço em vez de segurar com a mão, ou utilizar almofada de amamentação, diminuem significativamente a sobrecarga sobre os tendões afetados. O uso de órtese durante as mamadas também pode ajudar.

O teste de Finkelstein têm sensibilidade de aproximadamente 80%, o que significa que 1 em cada 5 pacientes com De Quervain pode ter um teste negativo ou fracamente positivo. Além disso, o teste pode ser positivo em outras condições, como rizartrose ou síndrome de intersecção. Um diagnóstico preciso combina a história clínica, a localização exata da dor à palpação e os testes provocativos — não deve ser baseado em um único teste.

Sim, e essa é uma estratégia recomendada. A falha da primeira infiltração frequentemente indica a presença de um septo intracompartimental que divide o primeiro compartimento em dois subcompartimentos — variante anatômica presente em 20 a 40% dos pacientes. Uma segunda infiltração guiada por ultrassom, que garante a distribuição do corticosteroide em ambos os subcompartimentos, têm taxa de sucesso de 70 a 80% após falha da primeira injeção.

A cirurgia de liberação do primeiro compartimento têm taxa de sucesso de 90 a 95% e recorrências são incomuns. Quando ocorrem, a causa mais frequente é a não identificação e abertura de septo intracompartimental durante o procedimento — o tendão do ALP permaneceu comprimido em um subcompartimento não liberado. Uma segunda cirurgia com identificação cuidadosa das variantes anatômicas geralmente resolve o problema.

Essa é uma confusão muito comum na literatura. No teste original de Finkelstein (1930), o examinador realiza o desvio ulnar passivo do punho enquanto o paciente mantém o polegar flexionado dentro do punho fechado — é um movimento passivo. No teste de Eichhoff, frequentemente chamado erroneamente de Finkelstein, o desvio ulnar é ativo. O teste de Finkelstein original é mais sensível por estressar os tendões com maior força. Na prática clínica, ambos são utilizados e qualquer um que reproduza a dor característica têm valor diagnóstico.

A acupuntura pode oferecer alívio da dor e é uma alternativa válida para pacientes que desejam evitar corticosteroides, como gestantes no primeiro trimestre ou pacientes com contraindicações à infiltração. Contudo, a eficácia da acupuntura isolada na De Quervain é inferior à da infiltração de corticosteroide para casos moderados a graves. O papel mais estabelecido da acupuntura é como complemento à imobilização e à reabilitação, especialmente em casos leves ou como ponte terapêutica. Deve ser realizada por médico acupunturista.

Durante o tratamento, devem ser evitados: preensão repetitiva com a mão (aperto de objetos, escrever à mão por longos períodos), movimentos de pinça lateral com o polegar, torcer panos ou abrir potes, e o uso intensivo do celular com uma mão. As atividades que menos sobrecarregam os tendões envolvem movimentos que não exijam abdução ou extensão ativa do polegar contra resistência. O médico pode orientar modificações específicas baseadas na atividade profissional ou materna.

O principal risco neurológico na infiltração da De Quervain é a lesão do ramo sensitivo superficial do nervo radial, que passa imediatamente radial ao primeiro compartimento. A lesão causa dormência ou disestesia na face dorsal do polegar e pode ser permanente. A incidência com técnica adequada é baixa (menos de 1%), e o ultrassom guia a agulha com segurança adicional. A infiltração deve ser realizada por médico com treinamento em procedimentos musculoesqueléticos.