O que é Urticária Crônica?

Urticária crônica é definida pela presença de urticas (placas elevadas, avermelhadas e pruriginosas) e/ou angioedema de forma recorrente por mais de 6 semanas. A condição é dividida em urticária crônica espontânea (UCE) — sem gatilho identificável — e urticária crônica induzida — desencadeada por estímulos físicos específicos.

A UCE é a forma mais comum e afeta 0,5-1% da população. Cada urtica individual dura menos de 24 horas e desaparece sem deixar marcas, mas novas lesões surgem continuamente. A doença é predominantemente feminina (2:1) e têm pico de incidência entre 20-40 anos.

A urticária crônica não é uma doença alérgica no sentido clássico. Em até 50% dos casos, mecanismos autoimunes estão envolvidos, com autoanticorpos contra o receptor de IgE ou contra a própria IgE na superfície dos mastócitos. Essa compreensão revolucionou o tratamento com o advento de terapias biológicas.

01

Ativação de Mastócitos

O mastócito é a célula central. Sua degranulação libera histamina e outros mediadores que causam vasodilatação, edema e prurido.

02

Duração das Urticas

Cada urtica individual dura <24 horas. Se as lesões persistem por mais de 24 horas ou deixam hematoma, considerar vasculite urticariforme.

03

Base Autoimune

Em até 50% dos casos de UCE, autoanticorpos IgG contra o receptor FcεRI ou IgE causam ativação crônica dos mastócitos.

Fisiopatologia

O evento central na urticária crônica é a degranulação dos mastócitos cutâneos. Os mastócitos liberam mediadores pré-formados (histamina, triptase, TNF-α) e recém-sintetizados (leucotrienos, prostaglandinas, citocinas). A histamina causa vasodilatação, aumento da permeabilidade vascular e estimulação de terminações nervosas pruritogênicas.

Na UCE autoimune tipo I, autoanticorpos IgE contra autoantígenos (como tireoperoxidase, IL-24) ligam-se aos mastócitos e causam sua ativação crônica. Na UCE autoimune tipo IIb, autoanticorpos IgG se ligam diretamente ao receptor de alta afinidade para IgE (FcεRI) ou à IgE ligada ao receptor, ativando os mastócitos independentemente de alérgenos.

Além dos mecanismos autoimunes, fatores como ativação do complemento, coagulação e estresse podem contribuir para a ativação mastocitária. A via da coagulação extrínseca, com geração de trombina, pode ativar mastócitos via receptores PAR-1. Isso explica por que marcadores de coagulação como D-dímero podem estar elevados na UCE ativa.

Mecanismos de ativação mastocitária na UCE: 1) Autoanticorpos IgE contra autoantígenos → ligação ao FcεRI → degranulação; 2) Autoanticorpos IgG anti-FcεRI → ativação direta do mastócito; 3) Via do complemento e coagulação → ativação mastocitária
Mecanismos de ativação mastocitária na UCE: 1) Autoanticorpos IgE contra autoantígenos → ligação ao FcεRI → degranulação; 2) Autoanticorpos IgG anti-FcεRI → ativação direta do mastócito; 3) Via do complemento e coagulação → ativação mastocitária
Mecanismos de ativação mastocitária na UCE: 1) Autoanticorpos IgE contra autoantígenos → ligação ao FcεRI → degranulação; 2) Autoanticorpos IgG anti-FcεRI → ativação direta do mastócito; 3) Via do complemento e coagulação → ativação mastocitária
0,5-1%
PREVALÊNCIA DA UCE
2:1
RAZÃO MULHERES:HOMENS
50%
COM COMPONENTE AUTOIMUNE
30-50%
REMISSÃO ESPONTÂNEA EM 1-3 ANOS

Sintomas

A urticária crônica se manifesta por urticas (lesões elevadas, eritematosas, pruriginosas e migratórias) e/ou angioedema (inchaço profundo de pele e mucosas, mais comum em lábios, pálpebras e extremidades). O prurido é o sintoma mais incapacitante, frequentemente piorando à noite.

Critérios clínicos
06 itens

Manifestações da Urticária Crônica

  1. 01

    Urticas pruriginosas recorrentes

    Placas avermelhadas, elevadas, de tamanho variável, que clareiam à digitopressão. Cada lesão dura <24 horas, mas novas lesões surgem diariamente.

  2. 02

    Angioedema

    Inchaço doloroso e profundo, mais comum em face (lábios, pálpebras), mãos, pés e genitália. Pode durar até 72 horas. Ocorre em ~40% dos pacientes com UCE.

  3. 03

    Prurido intenso

    Coceira que pode ser insuportável, com piora noturna. Afeta sono, concentração e produtividade. Principal fator de redução da qualidade de vida.

  4. 04

    Padrão migratório das lesões

    As urticas surgem em uma área, desaparecem e reaparecem em outras. Não há área fixa preferencial, diferentemente de dermatoses localizadas.

  5. 05

    Dermografismo sintomático

    Aparecimento de urticas lineares ao esfregar ou pressionar a pele. Presente em ~5% da população como forma de urticária induzida.

  6. 06

    Impacto na qualidade de vida

    Distúrbios do sono, dificuldade profissional, isolamento social e ansiedade/depressão. O impacto é comparável ao da doença coronariana.

Diagnóstico

O diagnóstico de urticária crônica é clínico. A investigação laboratorial extensa é desnecessária na maioria dos casos e não é recomendada rotineiramente pelas diretrizes atuais. O objetivo principal é excluir diagnósticos diferenciais e identificar o subtipo (espontânea vs. induzida, autoimune vs. não autoimune).

🏥Avaliação Diagnóstica

Fonte: Diretrizes EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI 2022

Diagnóstico Clínico
  • 1.Urticas e/ou angioedema recorrentes por >6 semanas
  • 2.Cada urtica individual dura <24 horas
  • 3.Ausência de lesão residual após resolução da urtica
  • 4.Exclusão de urticária induzida (testes de provocação se indicados)
Exames Recomendados de Rotina
  • 1.Hemograma com diferencial
  • 2.PCR e/ou VHS
  • 3.TSH (associação com tireoidite autoimune)
  • 4.IgE total (orienta escolha terapêutica)
Investigação de Autoimunidade (UCE refratária)
  • 1.Teste de soro autólogo (ASST) ou teste de ativação de basófilos (BAT)
  • 2.Anticorpos antitireoidianos (anti-TPO, anti-TG)
  • 3.IgG anti-FcεRI e anti-IgE (pesquisa)
  • 4.D-dímero e marcadores de coagulação

Diagnóstico Diferencial

A urticária crônica espontânea é o diagnóstico mais comum, mas condições graves como angioedema hereditário e vasculite urticariforme devem ser excluídas, pois têm tratamento e prognóstico distintos.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Diagnóstico Diferencial

Angioedema Hereditário

  • Inchaço sem urticária
  • Histórico familiar
  • Não responde a anti-histamínico
Sinais de Alerta
  • Angioedema laríngeo = emergência

Testes Diagnósticos

  • C4
  • C1 inibidor

Mastocitose

  • Urticária pigmentosa
  • Sinal de Darier
  • Triptase elevada

Testes Diagnósticos

  • Triptase sérica
  • Biópsia de medula

Vasculite Urticariforme

  • Lesões persistem mais de 24h
  • Deixam equimose
  • Biópsia com vasculite

Testes Diagnósticos

  • Biópsia
  • Complemento
  • ANA

Alergia Alimentar

  • Aparecimento após alimento específico
  • IgE específica positiva

Testes Diagnósticos

  • IgE específica
  • Prick test

Urticária por Pressão

  • Lesões apenas em áreas de pressão
  • Cinto, roupas apertadas
  • Sem espontaneidade

Angioedema Hereditário: Uma Emergência que Não Pode Ser Perdida

O angioedema hereditário (AEH) é uma doença rara, autossômica dominante, causada por deficiência ou disfunção do inibidor de C1-esterase. Ao contrário da urticária crônica, o AEH causa inchaço não pruriginoso sem urticária — tipicamente de lábios, língua, face, extremidades e trato gastrointestinal (dor abdominal intensa em crises viscerais). O angioedema laríngeo é a complicação com risco de morte, requerendo acesso imediato a icatibanto ou concentrado de C1-inibidor.

O diagnóstico diferencial é crucial porque o AEH não responde a anti-histamínicos, corticosteroides ou adrenalina — tratamentos que atuam na urticária convencional. A dosagem de C4 (geralmente baixa nas crises e entre crises no tipo I e II) e do C1-inibidor antigênico e funcional estabelece o diagnóstico. A história familiar positiva está presente em 75% dos casos.

Vasculite Urticariforme: Quando a Urticária Deixa Marcas

A vasculite urticariforme (VU) é uma vasculite de pequenos vasos que se apresenta com lesões urticariformes, mas com características distintas da UCE: as pápulas persistem por mais de 24 horas na mesma localização, causam ardência mais do que prurido, e ao resolverem deixam equimose ou hiperpigmentação. Pode estar associada a lúpus, síndrome de Sjögren ou ser idiopática.

A biópsia de pele com imunofluorescência direta é obrigatória para diagnóstico da VU, mostrando vasculite leucocitoclástica com depósitos de imunoglobulinas e complemento. A investigação de doenças autoimunes sistêmicas associadas inclui ANA, complemento (C3, C4), anti-DNA e crioglobulinas. O tratamento difere da UCE e pode requerer imunossupressores.

Mastocitose: Quando a Triptase Está Elevada

A mastocitose sistêmica resulta do acúmulo anormal de mastócitos em órgãos como pele, medula óssea e fígado. A forma cutânea isolada (urticária pigmentosa) apresenta máculas e pápulas acastanhadas que urticam ao serem friccionadas (sinal de Darier positivo). Crises sistêmicas incluem flushing, hipotensão, dispneia e diarreia.

A triptase sérica basal elevada (acima de 20 ng/mL) sugere mastocitose sistêmica e obriga investigação por hematologista, incluindo biópsia de medula óssea. Na UCE, a triptase pode estar moderadamente elevada durante as crises mas não em nível basal. O médico acupunturista reconhece esses sinais de alarme para encaminhamento adequado.

Tratamento

O tratamento segue um algoritmo escalonado bem definido pelas diretrizes internacionais. O objetivo é o controle completo dos sintomas (UAS7 = 0) com o mínimo de efeitos adversos. Anti-histamínicos de segunda geração são a primeira linha, seguidos por aumento de dose e terapia biológica.

Linha 1: Anti-histamínico H1 dose padrão
2-4 semanas de avaliação

Anti-histamínicos de segunda geração em dose padrão: cetirizina 10 mg, loratadina 10 mg, bilastina 20 mg, fexofenadina 180 mg ou rupatadina 10 mg. Controla sintomas em cerca de 40% dos pacientes.

Linha 2: Anti-histamínico H1 dose aumentada (até 4x)
2-4 semanas adicionais

Aumento da dose do anti-histamínico em até 4 vezes a dose padrão (ex: cetirizina 40 mg/dia). Seguro e eficaz, controlando até 60-70% dos pacientes. Aprovado pelas diretrizes internacionais.

Linha 3: Omalizumabe (anti-IgE)
300 mg SC a cada 4 semanas

Anticorpo monoclonal anti-IgE. Resposta em 70-90% dos pacientes, muitos com controle completo. Início de ação em 1-4 semanas. Excelente perfil de segurança. Pode ser descontinuado após remissão.

Linha 4: Ciclosporina
Para casos refratários ao omalizumabe

Ciclosporina 3-5 mg/kg/dia. Eficaz em 60-70% dos casos refratários. Requer monitoramento de PA e função renal. Uso limitado a 3-6 meses pelo perfil de efeitos adversos.

Acupuntura como Tratamento

A acupuntura têm sido investigada na urticária crônica com foco em possíveis efeitos imunomoduladores e antipruriginosos. Estudos pré-clínicos e experimentais sugerem que a acupuntura pode influenciar a degranulação de mastócitos, níveis de IgE e o balanço Th1/Th2 — mas esses achados são em sua maioria hipotéticos, baseados em modelos experimentais, e ainda precisam ser confirmados em ensaios clínicos bem desenhados em UCE.

Foi também proposto que a acupuntura possa auxiliar no controle do prurido por mecanismos centrais — hipótese baseada em estudos em outras condições pruriginosas — e que a modulação do estresse, fator reconhecido como agravante, possa contribuir indiretamente para o controle dos sintomas.

Na prática clínica, a acupuntura pode ser considerada como terapia complementar, especialmente em pacientes com UCE leve a moderada, como adjuvante a anti-histamínicos, ou em pacientes que buscam reduzir a dose medicamentosa. Não substitui o tratamento escalonado com anti-histamínicos e biológicos.

Prognóstico

A urticária crônica espontânea têm evolução variável. Cerca de 30-50% dos pacientes alcançam remissão espontânea em 1-3 anos, e 80% em 5 anos. Entretanto, 10-20% podem ter doença persistente por mais de 5 anos. Fatores associados a pior prognóstico incluem angioedema concomitante, componente autoimune e maior gravidade inicial.

Com as opções terapêuticas atuais — especialmente o omalizumabe —, a maioria dos pacientes consegue controle satisfatório dos sintomas. A qualidade de vida pode ser mantida próxima ao normal durante o tratamento, mesmo enquanto a doença não entra em remissão.

Mitos e Fatos

Mito vs. Fato

MITO

Urticária crônica é causada por alergia alimentar.

FATO

A UCE raramente é causada por alergia alimentar. Em mais de 95% dos casos, não há relação com alimentos específicos. Dietas de eliminação extensas são desnecessárias e podem prejudicar a nutrição sem benefício.

Mito vs. Fato

MITO

É preciso fazer muitos exames para descobrir a causa da urticária.

FATO

As diretrizes atuais recomendam investigação laboratorial mínima. Baterias extensas de exames alérgicos e autoimunes não são indicadas de rotina. O foco deve ser no tratamento escalonado eficaz, não na busca exaustiva de uma causa.

Mito vs. Fato

MITO

Anti-histamínicos em dose alta são perigosos.

FATO

Anti-histamínicos de segunda geração em doses de até 4 vezes a padrão são seguros e recomendados pelas diretrizes internacionais. Não causam sedação significativa e não apresentam toxicidade cardíaca nas doses recomendadas.

Quando Procurar Ajuda

Perguntas Frequentes

PERGUNTAS FREQUENTES · 10

Perguntas Frequentes

Urticária crônica espontânea (UCE) é definida como o surgimento de pápulas pruriginosas (urticas) por mais de 6 semanas, sem gatilho físico identificável. É chamada "espontânea" porque as lesões surgem sem causa externa evidente. Em mais de 80% dos casos, a causa permanece desconhecida (idiopática), embora o mecanismo seja autoimune em aproximadamente 40% dos pacientes.

Não há cura estabelecida, mas a remissão espontânea ocorre em muitos pacientes — cerca de 50% remitem em 1 ano, 70% em 5 anos. Com tratamento moderno (especialmente omalizumabe para casos refratários), a maioria dos pacientes alcança controle completo dos sintomas. A qualidade de vida pode ser normalizada mesmo nos casos que persistem.

Sim. Anti-histamínicos H1 de segunda geração (cetirizina, loratadina, bilastina, fexofenadina) são seguros para uso diário contínuo. As diretrizes recomendam uso diário e profilático (não apenas nas crises) para controle da UCE. A dose pode ser aumentada até 4 vezes a dose padrão em casos refratários, sob orientação médica.

Sim. O omalizumabe (anticorpo anti-IgE) é aprovado para UCE refratária a anti-histamínicos. Em estudos clínicos, controle completo dos sintomas (UAS7 = 0) ocorreu em 36-44% dos pacientes com 300 mg mensal. Resposta parcial em mais 30-40% adicionais. Efeito rápido (1-4 semanas). É administrado por injeção subcutânea mensal e têm excelente perfil de segurança.

Estudos preliminares sugerem que a acupuntura, usada como terapia complementar aos anti-histamínicos, pode auxiliar na redução da pontuação UAS7 (escore de atividade da urticária) e na qualidade de vida em parte dos pacientes. Os mecanismos propostos — baseados principalmente em modelos experimentais — incluem possível imunomodulação, influência sobre citocinas inflamatórias e sobre a reatividade mastocitária. A qualidade da evidência ainda é limitada e a acupuntura não substitui o tratamento escalonado padrão. O médico acupunturista pode avaliar a indicação em cada caso.

Sim. Helicobacter pylori, hepatite C, parasitoses intestinais e infecções focais (sinusite, infecção dentária) são causas descritas de UCE secundária. O tratamento da infecção pode resolver a urticária. A investigação de H. pylori é recomendada nas diretrizes internacionais para UCE, especialmente em populações com alta prevalência. O hemograma e parasitológico de fezes fazem parte da investigação básica.

Em geral, dieta de exclusão ampla não é recomendada para UCE, pois a alergia alimentar raramente é a causa. Contudo, alguns pacientes se beneficiam de dieta pobre em pseudo-alérgenos (aditivos, conservantes, ácido acetilsalicílico em frutas). Anti-inflamatórios (AINES, AAS) podem exacerbar a UCE e devem ser evitados. A investigação dirigida de alergia alimentar só é indicada se há suspeita clínica específica.

O dermatografismo (urticária factícia) é a forma mais comum de urticária física — uma urtica linear surge em segundos a poucos minutos após fricção ou arranhão na pele. Pode coexistir com UCE ou ser uma condição isolada. É diagnosticado com dermografômetro (estilete de pressão calibrada). Responde bem a anti-histamínicos em dose elevada e geralmente têm bom prognóstico.

Angioedema (inchaço profundo da derme e tecido subcutâneo) acompanha a urticária em 40% dos pacientes com UCE. Acomete lábios, pálpebras, língua e genitais. O angioedema isolado (sem urticária) obriga exclusão de angioedema hereditário (AEH) — condição que não responde a anti-histamínicos e requer tratamento específico com inibidor de C1 ou icatibanto.

A urticária alérgica aguda resulta de reação IgE-mediada a alérgeno específico (alimento, medicamento, picada de inseto) e dura horas a dias após a exposição. A urticária crônica espontânea persiste por semanas a meses sem alérgeno identificável. Confundir as duas condiciona erros terapêuticos: testes de alergia extensos têm baixo rendimento na UCE, enquanto são essenciais na urticária aguda com suspeita de gatilho específico.