Effect of acupuncture on the prevention of nausea and vomiting after laparoscopic cholecystectomy: a randomized clinical trial
Miranda et al. · Revista Brasileira de Anestesiologia · 2020
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Avaliar a eficácia da auriculoacupuntura na prevenção de náuseas e vômitos após cirurgia de vesícula por videolaparoscopia
QUEM
68 mulheres adultas (18-70 anos) submetidas à colecistectomia laparoscópica sem complicações
DURAÇÃO
Agulhamento por 20 minutos antes da anestesia, seguimento por 6 horas após cirurgia
PONTOS
Shen Men, Rim, Simpático, Estômago e Occipital (todos auriculares)
🔬 Desenho do Estudo
Auriculoacupuntura
n=35
Agulhas auriculares por 20 min + metoclopramida
Controle
n=33
Apenas metoclopramida + adesivos placebo
📊 Resultados em Números
Redução de náuseas no período total
Redução de vômitos no período total
Náuseas em 2h pós-cirurgia
Vômitos em 6h pós-cirurgia
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Incidência de náuseas (período total)
Incidência de vômitos (período total)
Este estudo mostrou que a auriculoacupuntura (acupuntura na orelha) pode reduzir significativamente as náuseas e vômitos após cirurgia de vesícula. As pacientes que receberam o tratamento tiveram menos desconforto nas primeiras 6 horas após a cirurgia, podendo ser uma opção segura e eficaz como terapia complementar.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Efeito da Acupuntura na Prevenção de Náuseas e Vômitos Após Colecistectomia Laparoscópica: Ensaio Clínico Randomizado
A cirurgia de retirada da vesícula biliar por videolaparoscopia, conhecida como colecistectomia laparoscópica, é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados no Brasil e no mundo. Embora seja considerada uma cirurgia segura e minimamente invasiva, uma das complicações mais comuns e desagradáveis que afeta os pacientes no pós-operatório são as náuseas e vômitos. Estes sintomas podem causar grande desconforto, prolongar o tempo de internação hospitalar, aumentar os custos do tratamento e, em alguns casos, levar a complicações clínicas mais sérias como desidratação e alterações dos níveis de substâncias químicas no sangue. Tradicionalmente, o controle destes sintomas é feito exclusivamente com medicamentos, que nem sempre são completamente eficazes e podem apresentar efeitos colaterais indesejados.
Por isso, existe um crescente interesse em terapias complementares que possam auxiliar no controle destes sintomas.
Este estudo brasileiro teve como objetivo investigar se a auriculoacupuntura, uma técnica específica da medicina tradicional chinesa que utiliza agulhas aplicadas em pontos específicos da orelha, poderia ajudar a prevenir náuseas e vômitos após a cirurgia de vesícula por videolaparoscopia. A pesquisa foi conduzida no Hospital Universitário Oswaldo Cruz, em Pernambuco, entre dezembro de 2016 e setembro de 2017. Participaram do estudo 68 mulheres adultas, com idades entre 18 e 70 anos, que se submeteram à cirurgia de retirada da vesícula sem complicações. As participantes foram divididas aleatoriamente em dois grupos: um recebeu o tratamento com auriculoacupuntura além do cuidado médico padrão, e o outro recebeu apenas o cuidado médico convencional.
Para garantir a confiabilidade dos resultados, nem os pacientes, nem os médicos cirurgiões e anestesiologistas sabiam qual grupo estava recebendo a acupuntura. No grupo da auriculoacupuntura, agulhas estéreis muito finas foram inseridas em cinco pontos específicos da orelha antes do início da anestesia, permanecendo no local por 20 minutos. Os pontos escolhidos foram baseados na medicina tradicional chinesa e em estudos anteriores que mostraram eficácia para o controle de náuseas e vômitos.
Os resultados do estudo demonstraram que a auriculoacupuntura foi eficaz em reduzir significativamente tanto a incidência quanto a intensidade das náuseas e vômitos no período pós-operatório. Especificamente, 46% das pacientes do grupo controle apresentaram náuseas, enquanto apenas 27% das pacientes que receberam auriculoacupuntura tiveram este sintoma. Em relação aos vômitos, a diferença foi ainda mais marcante: 45% das pacientes do grupo controle vomitaram, comparado com apenas 11% daquelas tratadas com acupuntura. Os benefícios foram mais evidentes nas segunda e sexta horas após a cirurgia, períodos críticos para o desenvolvimento destes sintomas.
A intensidade das náuseas, medida através de uma escala visual que permite ao paciente indicar o grau do desconforto, também foi significativamente menor no grupo que recebeu auriculoacupuntura. Importante destacar que não foram observadas complicações ou efeitos adversos relacionados ao uso da acupuntura em nenhuma das pacientes.
Do ponto de vista clínico, estes resultados sugerem que a auriculoacupuntura pode ser uma ferramenta valiosa e segura para melhorar o conforto dos pacientes após cirurgias de vesícula. Para os profissionais de saúde, o estudo oferece evidências científicas de que a integração de terapias complementares aos protocolos médicos convencionais pode resultar em melhores desfechos para os pacientes. A técnica é relativamente simples de aplicar, possui baixo custo, requer treinamento específico mas não excessivamente complexo, e pode ser facilmente incorporada à rotina cirúrgica. Para os pacientes, representa uma opção adicional não medicamentosa que pode reduzir significativamente o desconforto pós-operatório sem riscos adicionais.
É importante enfatizar que a auriculoacupuntura mostrou-se eficaz como terapia complementar, ou seja, foi utilizada em conjunto com os medicamentos convencionais, não como substituto completo do tratamento padrão.
O estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. Por ter sido realizado em um único hospital, com uma equipe específica de cirurgiões e anestesiologistas, os resultados podem não ser completamente generalizáveis para outros centros médicos. Além disso, a pesquisa incluiu apenas mulheres com baixo risco para desenvolvimento de náuseas e vômitos, excluindo casos mais complexos ou cirurgias prolongadas. O tamanho da amostra, embora adequado para demonstrar diferenças estatísticas, foi relativamente pequeno, e o período de observação limitou-se às primeiras seis horas após a cirurgia.
Estudos futuros envolvendo múltiplos centros médicos, populações mais diversificadas incluindo homens e casos de maior complexidade, períodos de observação mais prolongados e amostras maiores poderiam fortalecer ainda mais as evidências sobre a eficácia da auriculoacupuntura. Apesar dessas limitações, a pesquisa representa uma contribuição importante para a literatura médica brasileira, oferecendo evidências científicas rigorosas sobre uma terapia complementar segura e potencialmente eficaz para um problema clínico comum e relevante na prática cirúrgica.
Pontos Fortes
- 1Estudo randomizado, duplo-cego e controlado
- 2Metodologia bem estruturada seguindo diretrizes CONSORT
- 3Resultados estatisticamente significativos
- 4Ausência de efeitos adversos da auriculoacupuntura
Limitações
- 1Estudo unicêntrico com amostra relativamente pequena
- 2Incluiu apenas mulheres com poucos fatores de risco
- 3Seguimento limitado a 6 horas pós-operatórias
- 4Avaliação subjetiva da náusea através de escala visual
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
Náuseas e vômitos no pós-operatório (NVPO) representam um dos desafios mais prevalentes da anestesiologia moderna, afetando diretamente a recuperação, o conforto e os custos hospitalares — especialmente em colecistectomias laparoscópicas, onde anestesia inalatória, pneumoperitônio e opioide se combinam para elevar substancialmente o risco. Este ensaio randomizado duplo-cego produzido em centro universitário brasileiro demonstra que a auriculoterapia aplicada antes da indução anestésica, associada à metoclopramida, reduz náuseas de 82% para 46% e vômitos de 45% para 11% nas primeiras seis horas — magnitudes clinicamente expressivas. Para o anestesiologista e para o médico acupunturista atuando em cenário perioperatório, esses dados sustentam a incorporação da auriculoterapia como componente da estratégia multimodal de profilaxia de NVPO, particularmente em pacientes do sexo feminino com histórico de cinetose ou NVPO prévios, perfil de risco amplamente reconhecido nas escalas de Apfel.
▸ Achados Notáveis
O achado mais notável não é apenas a redução absoluta dos desfechos, mas a diferença de magnitude entre náuseas e vômitos: enquanto a redução de náuseas foi relevante, a redução de vômitos foi ainda mais pronunciada — de 45% para 11% no grupo tratado. Isso sugere que a auriculoterapia atua com maior efetividade sobre o reflexo emético propriamente dito do que sobre a sensação nauseante, o que tem implicações fisiopatológicas interessantes, possivelmente relacionadas à modulação vagal mediada pelos pontos auriculares selecionados. A significância estatística verificada já nas primeiras duas horas (p=0,03 para náuseas) indica que a ação se instala precocemente, coincidindo com o período de maior vulnerabilidade pós-anestésica. A ausência completa de efeitos adversos relacionados à técnica reforça o perfil de segurança da auriculoterapia como adjuvante farmacológico em ambientes cirúrgicos controlados.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática perioperatória no Centro de Dor do HC-FMUSP, tenho aplicado auriculoterapia em pacientes com alto risco de NVPO há mais de uma década, e o padrão que observo é bastante consistente com o que Miranda et al. descrevem. Costumo notar resposta já na sala de recuperação anestésica, e o perfil de paciente que responde melhor é exatamente aquele com escore de Apfel elevado — mulher, não tabagista, com história de cinetose. A combinação com ondansetrona, que prefiro à metoclopramida em nosso serviço pela menor incidência de efeitos extrapiramidais, parece potencializar o efeito antiemético de forma sinérgica. Utilizo sistematicamente os pontos Estômago, Shen Men e ponto zero auricular, protocolo próximo ao adotado neste ensaio. Para profilaxia pontual em cirurgia eletiva, uma única sessão pré-indução é suficiente; não há necessidade de programar sessões subsequentes para este objetivo específico, o que simplifica enormemente a logística de integração ao fluxo cirúrgico.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Revista Brasileira de Anestesiologia · 2020
DOI: 10.1016/j.bjane.2019.08.001
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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