The influence of a series of five dry cupping treatments on pain and mechanical thresholds in patients with chronic non-specific neck pain - a randomised controlled pilot study
Lauche et al. · BMC Complementary and Alternative Medicine · 2011
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Avaliar se uma série de 5 tratamentos de ventosaterapia seca alivia dor cervical crônica não específica
QUEM
50 pacientes com dor cervical crônica há pelo menos 3 meses consecutivos
DURAÇÃO
5 sessões ao longo de 2 semanas, seguimento por 18 dias
PONTOS
Áreas de tensão muscular e pontos-gatilho, principalmente trapézio descendente e transverso
🔬 Desenho do Estudo
Ventosaterapia
n=25
5 sessões de ventosaterapia seca em 2 semanas
Lista de espera
n=25
Sem tratamento durante o período de estudo
📊 Resultados em Números
Redução da dor em repouso
Redução da dor ao movimento
Melhora no Índice de Incapacidade Cervical
Melhora na vitalidade (SF-36)
Redução da dor corporal (SF-36)
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Dor em repouso (VAS 0-100)
Índice de Incapacidade Cervical (%)
Este estudo mostrou que a ventosaterapia (tratamento com ventosas) pode ser eficaz para reduzir dores no pescoço que persistem há meses. Os pacientes que receberam 5 sessões de ventosaterapia em duas semanas relataram menos dor e maior capacidade funcional comparado aos que aguardaram na lista de espera.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Este estudo piloto investigou os efeitos da ventosaterapia seca no tratamento de pacientes com dor cervical crônica não específica, uma condição que afeta quase metade da população ao longo da vida e se torna crônica em cerca de 14% dos casos. A ventosaterapia é uma técnica terapêutica antiga utilizada em culturas europeias, asiáticas e do Oriente Médio, que emprega copos de vidro para criar sucção sobre áreas doloridas, com o objetivo de aumentar a circulação local e aliviar a tensão muscular. O ensaio clínico randomizado controlado incluiu 50 pacientes com idade média de 50,5 anos que apresentavam dor cervical há pelo menos 5 dias por semana durante 3 meses consecutivos, com intensidade mínima de 40mm em uma escala visual analógica de 100mm. Os participantes foram randomizados em dois grupos: tratamento (n=25) e lista de espera (n=25).
O grupo tratamento recebeu 5 sessões de ventosaterapia seca ao longo de 2 semanas, enquanto o grupo controle não recebeu intervenção durante o período de estudo. A técnica de ventosaterapia foi realizada utilizando copos de vidro de parede dupla aquecidos sobre uma chama aberta para criar vácuo. Os copos eram aplicados sobre áreas de tensão muscular identificadas através de exame físico, principalmente no músculo trapézio, permanecendo por 10-20 minutos até formar marcas circulares rosadas. As avaliações incluíram múltiplas medidas de dor: dor em repouso e dor máxima relacionada ao movimento em escala visual analógica, diários de dor em escala numérica, Índice de Incapacidade Cervical (NDI) e qualidade de vida (SF-36).
Adicionalmente, foram realizados testes sensoriais quantitativos para avaliar limiares de detecção mecânica, vibratória e de dor à pressão em áreas dolorosas e áreas controle. Os resultados demonstraram benefícios significativos da ventosaterapia em múltiplas medidas. A dor em repouso reduziu 22,5mm mais no grupo tratamento comparado ao controle (p<0,001), enquanto a dor ao movimento teve redução de 17,8mm (p=0,01). Os diários de dor revelaram melhora gradual no grupo tratamento, com diferença significativa após a quinta sessão.
O Índice de Incapacidade Cervical melhorou 6,3% mais no grupo tratamento (p=0,002). Na qualidade de vida, houve melhoras significativas nas subescalas de dor corporal (13,8 pontos, p=0,006) e vitalidade (10,2 pontos, p=0,006). Interessantemente, os testes sensoriais mostraram que a ventosaterapia influenciou o processamento funcional da dor, com aumentos significativos nos limiares de dor à pressão tanto em áreas dolorosas quanto em áreas controle, sugerindo efeitos sistêmicos além dos locais. O tamanho de efeito para dor em repouso foi de d=1,4, considerado grande.
A redução de aproximadamente 45% na intensidade da dor está dentro da faixa de relevância clínica. Os pacientes relataram alta satisfação com o tratamento, avaliando o benefício em 60,4mm numa escala de 0-100, e 95% recomendariam o tratamento para familiares. Os efeitos adversos foram mínimos e transitórios, incluindo sensação de formigamento, dor local leve e fadiga, todos resolvendo em até 4 horas. Apenas um paciente descontinuou devido a piora temporária dos sintomas.
As limitações incluem o pequeno tamanho amostral, impossibilidade de cegamento devido às marcas visíveis da ventosaterapia, e ausência de grupo placebo adequado, já que não existe uma intervenção sham confiável para ventosaterapia. A randomização precoce e o uso de grupo lista de espera podem ter influenciado os resultados, embora os valores basais fossem comparáveis entre grupos. O mecanismo de ação proposto inclui melhora da microcirculação, metabolismo celular e regeneração tecidual, além de possíveis efeitos na regulação do sistema nervoso autônomo e resposta imunológica. Os autores sugerem que os efeitos são cumulativos, justificando o protocolo de múltiplas sessões conforme a prática clínica tradicional.
Pontos Fortes
- 1Primeiro ensaio clínico randomizado de ventosaterapia para dor cervical crônica
- 2Avaliação objetiva com testes sensoriais quantitativos além de medidas subjetivas
- 3Tamanho de efeito grande (d=1,4) e clinicamente relevante
- 4Protocolo bem definido seguindo diretrizes de teste sensorial quantitativo
- 5Alta aceitabilidade pelos pacientes com mínimos efeitos adversos
Limitações
- 1Tamanho amostral pequeno (n=50) para estudo piloto
- 2Impossibilidade de cegamento devido às marcas visíveis da ventosaterapia
- 3Ausência de grupo placebo adequado
- 4Seguimento de curta duração (18 dias)
- 5Uso de grupo lista de espera em vez de controle ativo
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65523 / 65524 / 655241
▸ Relevância Clínica
Dor cervical crônica não específica é um dos diagnósticos mais frequentes em ambulatório de fisiatria e dor, e a maioria dos pacientes chega ao consultório após ciclos frustrados de analgésicos e fisioterapia convencional. Este ensaio traz dados quantitativos que permitem posicionar a ventosaterapia seca como opção adjunta real dentro de um plano multimodal, especialmente para pacientes com componente miofascial predominante — aqueles com tensão palpável em trapézio e região cervical posterior. A redução de 22,5 mm na dor em repouso e a melhora de 6,3% no Índice de Incapacidade Cervical, com tamanho de efeito de 1,4, são números que justificam incluir a técnica no arsenal de um serviço de reabilitação. Populações sedentárias de meia-idade com dor de longa data e baixa tolerância a procedimentos invasivos são as que mais se beneficiam, dado o perfil de segurança extremamente favorável relatado no estudo.
▸ Achados Notáveis
O achado que mais chama atenção não é a redução da dor em si, mas a elevação dos limiares de dor à pressão em áreas distantes do local tratado. Isso indica que a ventosaterapia não age apenas por mecanismo periférico de alívio de tensão miofascial local, mas recruta vias de modulação central da dor — um efeito que aproxima a técnica, mecanisticamente, do agulhamento seco e da acupuntura sistêmica. Esse dado de testes sensoriais quantitativos é o que transforma este piloto em referência conceitual para quem trabalha com neurofisiologia da dor. Outro ponto relevante é o caráter cumulativo da resposta: a diferença entre grupos só se torna robusta após a quinta sessão, o que tem implicação direta na prescrição — protocolos curtos demais provavelmente subestimam o efeito real da técnica em populações crônicas.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor musculoesquelética, a ventosaterapia seca entrou no protocolo como complemento ao agulhamento seco em pontos-gatilho cervicais, e a combinação costuma produzir resposta mais rápida do que qualquer técnica isolada. Tenho observado melhora perceptível pelo paciente entre a terceira e a quarta sessão, o que é consistente com a curva de resposta descrita neste artigo. Para alta funcional com manutenção dos ganhos, costumo trabalhar com oito a dez sessões totais, espaçando gradualmente após a fase intensiva. O perfil que responde melhor é o paciente com tensão miofascial difusa, dor de predomínio mecânico e sem radiculopatia ativa — quando há comprometimento radicular, priorizo outras abordagens antes de introduzir a ventosa. A satisfação elevada dos pacientes do estudo (95% recomendariam o tratamento) espelha o que vejo na clínica: a técnica tem boa aderência, o que por si só já é um diferencial em populações com histórico de abandono terapêutico.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
BMC Complementary and Alternative Medicine · 2011
DOI: 10.1186/1472-6882-11-63
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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