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Acupuncture needling sensation: The neural correlates of deqi using fMRI

Asghar et al. · Brain Research · 2010

🧠Estudo de Neuroimagem👥n=17 participantes📊Evidência Moderada

Nível de Evidência

MODERADA
65/ 100
Qualidade
3/5
Amostra
2/5
Replicação
3/5
🎯

OBJETIVO

Investigar as correlações neurais da sensação deqi versus dor aguda na acupuntura usando ressonância magnética funcional

👥

QUEM

17 adultos saudáveis destros, inexperientes em acupuntura (8 homens, 9 mulheres, idade media 36 anos)

⏱️

DURAÇÃO

16 minutos por sessão, com dois períodos de estimulação de 2 minutos cada

📍

PONTOS

LI-4 (Hegu) no lado direito, com agulhamento superficial (1-2mm) e profundo (8-12mm)

🔬 Desenho do Estudo

17participantes
randomização

Grupo Deqi

n=10

Agulhamento produzindo predominantemente sensações deqi

Grupo Dor

n=7

Agulhamento produzindo predominantemente sensações de dor aguda

⏱️ Duração: duas sessões de 16 minutos (superficial e profunda)

📊 Resultados em Números

Sem ativações significativas

Deativações no grupo deqi

Misto de ativações e deativações

Grupo dor

Apenas valores Z negativos

Contraste deqi>dor

Sistema límbico/subcortical e cerebelo

Estruturas afetadas

📊 Comparação de Resultados

Padrão de resposta cerebral

Deqi
0
Dor
0.5
💬 O que isso significa para você?

Este estudo descobriu que a sensação tradicional de deqi na acupuntura afeta o cérebro de forma diferente da dor aguda. Quando os participantes sentiram deqi, certas áreas do cérebro relacionadas à dor e emoção diminuíram sua atividade, sugerindo um possível mecanismo para os efeitos terapêuticos da acupuntura.

📝

Resumo do Artigo

Resumo narrativo em linguagem acessível

Sensação de Agulhamento na Acupuntura: Correlatos Neurais do De Qi por fMRI

Este estudo pioneiro investigou as bases neurais da sensação deqi, considerada fundamental na prática tradicional da acupuntura, usando ressonância magnética funcional para mapear as atividades cerebrais durante diferentes tipos de estimulação por agulhas. A pesquisa foi motivada pela importância que os acupunturistas atribuem à obtenção do deqi durante o tratamento, embora os mecanismos neurológicos subjacentes permanecessem pouco compreendidos. Os pesquisadores recrutaram 17 adultos saudáveis sem experiência prévia em acupuntura e realizaram agulhamento no ponto LI-4 (Hegu) no lado direito, variando a profundidade entre superficial (1-2mm) e profunda (8-12mm). Durante as sessões de 16 minutos cada, os participantes foram submetidos a dois períodos de estimulação de 2 minutos, com rotação da agulha a 2Hz, enquanto suas atividades cerebrais eram monitoradas por fMRI.

Após cada sessão, os participantes avaliaram suas sensações usando um questionário padronizado que diferenciava entre sensações deqi (como dormência, peso, irradiação) e dor aguda (como queimação, picada, choque). Os resultados revelaram padrões neurais distintos entre os dois tipos de sensação. Quando predominavam as sensações deqi, o cérebro mostrou apenas desativações (diminuição do sinal BOLD) sem ativações significativas, particularmente em estruturas límbicas e subcorticais como hipocampo, amígdala, tálamo e ínsula, além do cerebelo. Em contraste, quando predominavam sensações de dor aguda, observou-se uma combinação de ativações e desativações cerebrais.

A análise comparativa direta entre deqi e dor revelou que as áreas cerebrais envolvidas no processamento da dor e emoção mostraram menor atividade durante o deqi em comparação com a dor aguda. Essas descobertas têm implicações importantes para a compreensão dos mecanismos terapêuticos da acupuntura. As desativações em estruturas límbicas e subcorticais durante o deqi podem representar um mecanismo neurológico pelo qual a acupuntura produz seus efeitos analgésicos e terapêuticos. O envolvimento dessas áreas, conhecidas por processar dor, emoção e estresse, sugere que o deqi pode modular circuitos neurais de forma benéfica.

O estudo demonstra a importância de considerar as sensações específicas da agulha em pesquisas de neuroimagem da acupuntura, pois diferentes sensações produzem padrões neurais distintos que podem confundir os resultados se não forem adequadamente controlados. As limitações incluem o tamanho amostral relativamente pequeno, o uso de participantes saudáveis sem condições clínicas, e um protocolo experimental que pode não refletir totalmente a prática clínica real. Além disso, os períodos prolongados de estimulação (2 minutos) podem ter contribuído para as sensações de dor relatadas pelos participantes. Apesar dessas limitações, o estudo fornece evidências neurológicas objetivas para a distinção tradicional entre deqi e dor na acupuntura, oferecendo uma base científica para práticas clínicas estabelecidas e direcionamento para pesquisas futuras sobre os mecanismos da acupuntura.

Pontos Fortes

  • 1Primeira investigação neurológica sistemática das sensações deqi versus dor aguda
  • 2Uso de questionários validados para classificação das sensações
  • 3Metodologia rigorosa de neuroimagem com análise estatística conservadora
  • 4Protocolo controlado com diferentes profundidades de agulhamento
⚠️

Limitações

  • 1Tamanho amostral pequeno (n=17) limitando poder estatístico
  • 2Uso apenas de participantes saudáveis, limitando generalização clínica
  • 3Protocolo experimental pode não refletir prática clínica real
  • 4Duração prolongada de estimulação podendo influenciar sensações

📅 Contexto Histórico

1973Primeiro estudo correlacionando deqi com analgesia por acupuntura
2001Início dos estudos de neuroimagem em acupuntura
2006Desenvolvimento de escalas validadas para sensações da acupuntura
2010Este estudo pioneiro sobre correlatos neurais do deqi
Prof. Dr. Hong Jin Pai

Comentário do Especialista

Prof. Dr. Hong Jin Pai

Doutor em Ciências pela USP

Relevância Clínica

O mapeamento funcional do deqi por ressonância magnética oferece uma base neurobiológica concreta para uma das distinções mais antigas da prática clínica em acupuntura: a diferença entre a sensação terapêutica e a dor iatrogênica. Quando ensinamos residentes no Centro de Dor do HC-FMUSP, insistimos que obter deqi não é provocar dor — e este trabalho demonstra, com evidência de neuroimagem, que essas duas experiências recrutam circuitos cerebrais fundamentalmente distintos. As desativações em estruturas límbicas e subcorticais — hipocampo, amígdala, tálamo e ínsula — durante o deqi são particularmente relevantes para pacientes com dor crônica, ansiedade comórbida ou síndrome de sensibilização central, populações nas quais a modulação dessas redes tem impacto terapêutico direto e mensurável. Para o médico que incorpora acupuntura ao arsenal multimodal, este artigo reforça que a qualidade da estimulação — e não apenas a localização do ponto — é variável clínica crítica.

Achados Notáveis

O achado mais expressivo é a assimetria radical entre os padrões de resposta cerebral: o deqi produziu exclusivamente desativações do sinal BOLD, sem nenhuma ativação significativa, enquanto a dor aguda gerou padrão misto de ativações e desativações. Isso sugere que o deqi não é simplesmente uma variante mais branda de dor, mas um estado neurológico qualitativamente distinto. O envolvimento do cerebelo nas desativações relacionadas ao deqi é achado inesperado e digno de atenção — estrutura frequentemente negligenciada nas discussões sobre acupuntura, mas cada vez mais reconhecida como moduladora de respostas autonômicas e emocionais. O contraste direto deqi versus dor, revelando valores Z exclusivamente negativos nas áreas de processamento da dor e emoção, estabelece uma hierarquia neural clara: o deqi suprime redes que a dor aguda excita, o que é mecanisticamente coerente com os efeitos analgésicos e ansiolíticos observados clinicamente com a técnica.

Da Minha Experiência

Na minha prática, a distinção entre deqi e dor nunca foi meramente semântica — é o que separa uma sessão terapêutica de uma experiência aversiva que compromete a adesão. Tenho observado que pacientes novos em acupuntura frequentemente confundem as duas sensações nas primeiras sessões, e parte do trabalho clínico é educar essa percepção. Com pacientes que apresentam sensibilização central, como fibromiálgicos ou com dor crônica lombossacra, costumo iniciar com estimulação mais suave em LI-4 e pontos distais, ajustando a intensidade progressivamente. Em geral, percebo resposta analgésica consistente a partir da terceira ou quarta sessão, e costumamos trabalhar com ciclos de oito a doze sessões antes de reavaliar. A associação com exercício físico supervisionado e psicoterapia potencializa os resultados, especialmente nos casos com componente emocional proeminente — o que, à luz deste artigo, faz sentido neurobiológico dado o envolvimento amigdaliano. Pacientes muito ansiosos em relação à agulha raramente atingem deqi adequado nas sessões iniciais; nesse perfil, prefiro combinar com técnicas de relaxamento antes do agulhamento.

Médico especialista em Acupuntura. Professor Colaborador do Instituto de Ortopedia do HC-FMUSP. Coordenador do Grupo de Acupuntura do Centro de Dor do HC-FMUSP.

Artigo Original Completo

Leia o Estudo Científico na Íntegra

Brain Research · 2010

DOI: 10.1016/j.brainres.2009.12.019

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Revisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241

Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.

Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.