Acupuncture therapy on postoperative nausea and vomiting in abdominal operation: A Bayesian network meta analysis
Fu et al. · Medicine · 2020
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Comparar a eficácia de diferentes terapias de acupuntura na prevenção de náusea e vômito pós-operatórios em cirurgias abdominais
QUEM
2862 pacientes submetidos a cirurgias abdominais com anestesia geral
DURAÇÃO
Acompanhamento de 24 horas após a cirurgia
PONTOS
PC6 (Neiguan) e ST36 (Zusanli) foram os pontos mais utilizados nos estudos
🔬 Desenho do Estudo
Eletroacupuntura
n=480
Estimulação elétrica em pontos de acupuntura
Acupressão
n=640
Pressão manual em pontos específicos
Injeção em Acuponto
n=120
Injeção de medicamentos em pontos de acupuntura
Capsicum
n=170
Aplicação de capsaicina em pontos específicos
Controle
n=1452
Placebo ou cuidado usual
📊 Resultados em Números
Redução de náusea com TENS
Redução de vômito com acupressão
Redução de náusea com Capsicum
Redução de medicação de resgate
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Risco de náusea pós-operatória
Este estudo mostrou que diferentes técnicas de acupuntura podem ajudar significativamente a prevenir náusea e vômito após cirurgias abdominais. A injeção de medicamentos em pontos de acupuntura e o uso de capsaicina mostraram os melhores resultados, reduzindo substancialmente esses sintomas desagradáveis no pós-operatório.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Acupuntura para Náuseas e Vômitos Pós-Operatórios em Cirurgia Abdominal: Meta-análise Bayesiana em Rede
As náuseas e vômitos após cirurgia, conhecidos como PONV (sigla em inglês), representam uma das complicações mais frequentes no período pós-operatório. Estudos revelam que aproximadamente 30% dos pacientes experimentam esses sintomas desagradáveis, podendo chegar a 80% em casos de alto risco. Embora não sejam fatais, esses sintomas podem levar a complicações sérias como desidratação, desequilíbrio de eletrólitos e até mesmo ruptura do esôfago. Os medicamentos tradicionais, incluindo antieméticos como antagonistas de receptores 5-HT3 e corticosteroides, conseguem reduzir apenas 20-25% do risco de PONV quando usados individualmente, e mesmo combinações medicamentosas não ultrapassam 60% de eficácia.
Além disso, esses fármacos apresentam efeitos colaterais como sonolência, dor de cabeça e alterações cardíacas, o que tem motivado pesquisadores a buscar terapias alternativas mais seguras, como a acupuntura.
Os pesquisadores conduziram uma metanálise em rede, um tipo de estudo científico que permite comparar múltiplos tratamentos simultaneamente, mesmo quando não foram testados diretamente entre si. O objetivo principal foi avaliar qual forma de acupuntura seria mais eficaz para prevenir náuseas e vômitos em pacientes submetidos a cirurgias abdominais. Para isso, realizaram buscas em cinco bases de dados científicas, analisando estudos publicados até junho de 2019. Foram incluídos vinte estudos clínicos randomizados envolvendo 2.862 pacientes, todos submetidos a cirurgias abdominais com anestesia geral.
Os estudos avaliaram diferentes técnicas de acupuntura, incluindo acupressão, eletroacupuntura, estimulação elétrica transcutânea (TENS), injeção em pontos de acupuntura e aplicação de capsaicina. A qualidade dos estudos foi rigorosamente avaliada usando ferramentas específicas para identificar possíveis vieses metodológicos.
Os resultados demonstraram claramente que as terapias de acupuntura foram superiores ao placebo e aos cuidados habituais na prevenção de PONV. Quando comparadas ao placebo, a estimulação elétrica transcutânea reduziu significativamente o risco de náusea em 58%, vômito em 47% e a necessidade de medicamentos de resgate em 39%. A aplicação de capsaicina mostrou-se ainda mais eficaz, reduzindo o risco de náusea em impressionantes 84% e vômito em 77%. Na análise comparativa entre todas as técnicas, a injeção em pontos de acupuntura emergiu como a mais promissora, mostrando a maior probabilidade de ser o melhor tratamento tanto para náusea quanto para vômito isoladamente.
O estudo revelou também que as náuseas parecem ser mais facilmente controláveis que os vômitos, sugerindo que diferentes mecanismos neurológicos podem estar envolvidos. Os pontos de acupuntura mais utilizados foram o PC6 (localizado no punho) e o ST36 (localizado na perna), que segundo a medicina tradicional chinesa são específicos para problemas gastrointestinais.
Para pacientes e profissionais de saúde, esses resultados oferecem evidências sólidas de que a acupuntura pode ser uma alternativa segura e eficaz aos medicamentos tradicionais para prevenção de PONV. Isso é particularmente relevante para pacientes que apresentam contraindicações aos antieméticos convencionais ou que preferem evitar seus efeitos colaterais. Para médicos e enfermeiros, o estudo sugere que técnicas como acupressão e estimulação elétrica transcutânea podem ser facilmente incorporadas aos protocolos de cuidados peri-operatórios. A possibilidade de combinar acupuntura com medicamentos convencionais também se mostra promissora, potencialmente oferecendo proteção superior com menores doses de fármacos.
Além disso, técnicas não invasivas como acupressão podem ser ensinadas aos próprios pacientes, permitindo auto-aplicação quando necessário.
Entretanto, o estudo apresenta algumas limitações importantes que devem ser consideradas. Primeiro, a análise focou apenas nas primeiras 24 horas após a cirurgia, não distinguindo entre náuseas e vômitos precoces e tardios, o que limitou análises mais detalhadas. Segundo, existe considerável variação entre os estudos em termos de duração do tratamento, técnica específica utilizada e seleção de pontos de acupuntura, o que dificulta determinar o protocolo ideal. Terceiro, alguns tipos de acupuntura, especialmente a injeção em pontos específicos, foram avaliados em poucos estudos, limitando a confiabilidade desses achados.
Finalmente, diferenças metodológicas entre os estudos podem ter influenciado os resultados. Apesar dessas limitações, esta pesquisa representa uma análise abrangente e sistemática das evidências disponíveis sobre acupuntura para PONV, oferecendo orientações valiosas para a prática clínica e destacando a necessidade de estudos futuros de alta qualidade para confirmar os achados mais promissores e estabelecer protocolos padronizados de tratamento.
Pontos Fortes
- 1Análise abrangente de múltiplas técnicas de acupuntura
- 2Grande amostra com 2862 participantes
- 3Metodologia rigorosa de meta-análise em rede
- 4Foco específico em cirurgias abdominais reduzindo heterogeneidade
Limitações
- 1Variabilidade nos protocolos de intervenção entre estudos
- 2Poucos estudos para algumas técnicas específicas
- 3Análise limitada a 24 horas pós-operatórias
- 4Diferenças nos pontos de acupuntura utilizados
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65523 / 65524 / 655241
▸ Relevância Clínica
Náuseas e vômitos pós-operatórios afetam cerca de 30% dos pacientes cirúrgicos em geral, com taxas que sobem a 80% nos perfis de alto risco — mulheres, não tabagistas, histórico prévio de PONV e uso de opioides. Em cirurgias abdominais especificamente, o comprometimento da mecânica de parede e a maior exposição visceral ao estímulo anestésico tornam o controle de PONV ainda mais crítico. Esta meta-análise em rede, com 2.862 pacientes randomizados, consolida evidências de que técnicas de acupuntura — acupressão, eletroacupuntura, TENS e injeção em acupontos — oferecem redução clinicamente significativa de náusea e vômito nas primeiras 24 horas. Para anestesiologistas e fisiatra da equipe perioperatória, os dados justificam incorporar pelo menos acupressão em PC6 e TENS como camadas complementares ao protocolo antiemético padrão, especialmente nos pacientes com contraindicações relativas a antagonistas 5-HT3 ou dexametasona.
▸ Achados Notáveis
O achado de maior impacto prático é a hierarquia entre as técnicas: a injeção em acuponto emergiu como a intervenção com maior probabilidade de superioridade global, enquanto a aplicação de capsaicina mostrou redução de náusea de 84% e de vômito de 77% frente ao placebo — magnitudes que superam as reportadas para antieméticos convencionais em monoterapia. O TENS sobre PC6 reduziu náusea em 58% e necessidade de resgate antiemético em 39%, o que é relevante por ser uma técnica de fácil implementação na sala de recuperação. A dissociação entre controle de náusea e controle de vômito ao longo das análises sugere substratos neurológicos distintos — possivelmente via vagal aferente versus quimiorreceptores do tronco encefálico — o que abre perspectiva para protocolos diferenciados conforme o fenômeno predominante.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática perioperatória na USP, costumo acionar acupuntura como adjuvante quando o paciente já chega com escore de Apfel três ou quatro. A acupressão em PC6, aplicada ainda na sala de recuperação por pulseira ou pressão manual, é minha primeira escolha não farmacológica justamente pela simplicidade logística. Tenho observado que a maioria dos pacientes responsivos apresenta atenuação das náuseas já na primeira ou segunda hora pós-extubação. Para eletroacupuntura e TENS, a resposta parece um pouco mais dependente da intensidade e frequência do estímulo — costumo usar 2 Hz em PC6 e ST36 por 20 a 30 minutos antes do encerramento anestésico. O perfil que responde melhor, na minha experiência, é o de mulheres jovens submetidas a laparoscopia ginecológica ou colecistectomia, exatamente o grupo de Apfel mais alto. Não indico a técnica isoladamente como substituto de droga antiemética, mas a combinação costuma permitir doses menores de ondansetrona, o que é relevante quando há preocupação com intervalo QT.
Artigo Original Completo
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Medicine · 2020
DOI: 10.1097/MD.0000000000020301
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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