Acupuncture for pain and pain-related disability in deep infiltrating endometriosis
Chiarle et al. · Frontiers in Pain Research · 2024
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Avaliar a eficácia da acupuntura no alívio da dor (dismenorreia, dispareunia, dor pélvica e disquezia) em mulheres com endometriose profunda
QUEM
34 mulheres (19-46 anos) com endometriose infiltrativa profunda confirmada histologicamente
DURAÇÃO
6 meses de tratamento: 12 sessões semanais + 3 sessões mensais
PONTOS
11 pontos fixos incluindo LR3, SP6, LI4, SP8, SP10, PC6, CV6, CV3, ST29, BL32, Ex22
🔬 Desenho do Estudo
Grupo acupuntura
n=30
15 sessões de acupuntura com fórmula padronizada de 11 pontos
📊 Resultados em Números
Redução intensidade dismenorreia
Redução dias de dismenorreia
Pacientes com redução ≥50% dismenorreia
Redução incapacidade moderada-severa
Redução uso de analgésicos
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Intensidade da dor (escala 0-10)
Este estudo mostrou que a acupuntura pode ser uma opção segura e efetiva para mulheres que sofrem com dores relacionadas à endometriose profunda. O tratamento reduziu significativamente a intensidade da dor menstrual, dor durante relações sexuais e dor pélvica, além de diminuir a necessidade de medicamentos para dor. A maioria das pacientes teve melhora importante na qualidade de vida.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Acupuntura para Dor e Incapacidade Relacionadas à Endometriose Profunda Infiltrativa
Este estudo piloto prospectivo investigou os efeitos da acupuntura em mulheres com endometriose infiltrativa profunda (DIE), uma condição ginecológica complexa que causa dor crônica significativa e impacto na qualidade de vida. A endometriose profunda é caracterizada por lesões que se estendem mais de 5mm sob a superfície peritoneal, causando sintomas debilitantes como dismenorreia severa, dispareunia, dor pélvica crônica e disquezia. O tratamento convencional frequentemente inclui cirurgia e terapias hormonais, mas muitas pacientes continuam a experimentar dor significativa e limitações funcionais. A pesquisa envolveu 34 mulheres com idade media de 33,8 anos que tinham diagnóstico histológico confirmado de endometriose.
Após um período de observação de 2 meses para estabelecer linha de base, as participantes receberam 15 sessões de acupuntura ao longo de 6 meses, começando com tratamentos semanais por 12 semanas, seguidos por sessões mensais por 3 meses. O protocolo utilizou uma fórmula padronizada de acupuntura com 11 pontos específicos bilateralmente, selecionados com base nos princípios da Medicina Tradicional Chinesa para tratar estase de sangue e deficiência de Qi no abdome e útero. Os resultados foram notáveis em múltiplas dimensões. A intensidade da dismenorreia diminuiu drasticamente de 8,0 na linha de base para 3,4 no quarto mês de tratamento, representando uma redução de mais de 50%.
O número de dias de dismenorreia por ciclo menstrual também diminuiu significativamente de 2,9 para 1,28 dias. A dispareunia mostrou melhora constante, com intensidade reduzindo de 5,7 para 3,8, enquanto a dor pélvica não-cíclica diminuiu de 6,3 para 4,44. Igualmente importante foi a redução na incapacidade funcional relacionada aos sintomas. A porcentagem de mulheres com incapacidade moderada a severa relacionada à dismenorreia caiu dramaticamente de 89,7% na linha de base para apenas 6,9% no quarto e quinto meses de tratamento.
Para dispareunia, a incapacidade moderada a severa diminuiu de 73,7% para 36,9%, e para dor pélvica, de 83,3% para 33,3%. O uso de medicamentos analgésicos também diminuiu substancialmente. Enquanto 63% das pacientes relataram uso regular de anti-inflamatórios não esteroides na linha de base, este número caiu para 36,7% durante o tratamento. Mais importante, a eficácia percebida dos analgésicos aumentou de 29% para 65% das pacientes relatando alívio efetivo.
O estudo demonstrou excelente perfil de segurança, com apenas dois casos (6,7%) de hematoma no local de inserção da agulha, sem efeitos adversos graves. A taxa de resposta foi excepcionalmente alta, com apenas 2 das 30 pacientes (6,7%) relatando não receber benefício do tratamento, muito abaixo da taxa típica de não-resposta de 20-30% observada na população geral para acupuntura. Os pontos de acupuntura foram selecionados estrategicamente para abordar os padrões energéticos subjacentes na endometriose segundo a medicina chinesa. Pontos como LR3 (Taichong) e SP6 (Sanyinjiao) foram incluídos para tratar estase de sangue e promover circulação, enquanto pontos como CV6 (Qihai) e CV3 (Zhongji) foram escolhidos para fortalecer o Qi e atuar especificamente no útero.
As limitações incluem o pequeno tamanho da amostra, típico de estudos piloto, a ausência de grupo controle placebo devido às dificuldades técnicas em criar controles válidos para acupuntura, e possível viés de seleção, já que parte das participantes procurou ativamente o tratamento com acupuntura. Apesar dessas limitações, os resultados fornecem evidência encorajadora de que a acupuntura pode ser uma intervenção valiosa para o manejo da dor relacionada à endometriose profunda, potencialmente oferecendo uma alternativa ou complemento aos tratamentos convencionais com menor perfil de efeitos adversos.
Pontos Fortes
- 1Protocolo de acupuntura bem padronizado com pontos específicos
- 2Avaliação abrangente de múltiplos sintomas e incapacidade funcional
- 3Excelente perfil de segurança sem eventos adversos graves
- 4Taxa de resposta excepcionalmente alta (93,3%)
- 5Redução significativa no uso de medicamentos analgésicos
Limitações
- 1Tamanho amostral pequeno (n=30) limitando generalização
- 2Ausência de grupo controle placebo
- 3Possível viés de seleção com pacientes autoencaminhadas
- 4Estudo piloto não controlado
- 5Seguimento limitado a 6 meses
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
A endometriose infiltrativa profunda representa um dos cenários mais desafiadores que encontramos no manejo da dor pélvica crônica feminina. Mulheres com lesões que ultrapassam 5 mm sob a superfície peritoneal frequentemente chegam ao ambulatório após anos de tratamento hormonal e, muitas vezes, uma ou mais cirurgias, ainda com dismenorreia severa, dispareunia e limitação funcional importantes. É exatamente nesse grupo — refratário ao arsenal convencional ou que recusa novas intervenções cirúrgicas — que este trabalho de Chiarle et al. oferece uma sinalização clinicamente relevante. A redução da incapacidade moderada a severa relacionada à dismenorreia de 89,7% para 6,9% ao longo do protocolo é um dado de impacto funcional, não apenas estatístico. Complementar a isso, a queda no uso de anti-inflamatórios de 63% para 36,7% sugere que a acupuntura pode atuar como poupadora de analgésicos nessa população, reduzindo exposição medicamentosa crônica em mulheres frequentemente jovens e em idade reprodutiva.
▸ Achados Notáveis
Dois achados merecem atenção especial. O primeiro é a magnitude da resposta na incapacidade funcional: a proporção de pacientes com comprometimento moderado a severo relacionado à dismenorreia desabou de cerca de 90% para menos de 7%, uma transformação que vai muito além do controle da dor em si e reflete recuperação de autonomia cotidiana. O segundo é o fenômeno da potencialização analgésica: a eficácia percebida dos anti-inflamatórios em uso concomitante saltou de 29% para 65% das pacientes. Isso aponta para um mecanismo de sensibilização central e de modulação da resposta nociceptiva que a acupuntura pode estar operando, tornando o sistema endógeno de controle da dor mais responsivo à farmacoterapia já utilizada. A taxa de não-resposta de apenas 6,7% — bem abaixo dos 20 a 30% habitualmente reportados na literatura geral de acupuntura — também chama atenção, sugerindo que a fisiopatologia da DIE pode oferecer um substrato biológico particularmente favorável à modulação por agulhamento.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática com dor pélvica crônica no Centro de Dor do HC-FMUSP, a endometriose profunda é uma das condições em que costumo combinar acupuntura sistêmica com eletroacupuntura segmentar sobre dermátomos L1-S2, visando tanto o componente visceral quanto a sensibilização central já estabelecida nessas pacientes. Tenho observado que as primeiras respostas perceptíveis — redução da dismenorreia e do uso de analgésicos de resgate — costumam aparecer entre a terceira e a quinta sessão, o que alinha bem com os dados deste protocolo de 15 sessões em seis meses. Habitualmente conduzo uma fase intensiva semanal por oito a dez semanas, seguida de manutenção quinzenal ou mensal conforme a estabilidade clínica. O perfil de paciente que responde melhor, na minha experiência, é aquele com predominância de padrão de estase — dor em cólica, dismenorreia com coágulos, língua com equimoses — e sem dissociação psicossomática grave, que demanda abordagem integrada adicional. Não indico acupuntura como monoterapia quando há indicação cirúrgica urgente ou endometrioma ovariano volumoso sem acompanhamento ginecológico ativo.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Frontiers in Pain Research · 2024
DOI: 10.3389/fpain.2024.1279312
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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