Clinical Evidence for Association of Acupuncture and Acupressure With Improved Cancer Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis

He et al. · JAMA Oncology · 2020

📊Meta-análise👥n=1.111 participantes🏆Alto impacto - JAMA Oncology

Nível de Evidência

MODERADA
75/ 100
Qualidade
4/5
Amostra
4/5
Replicação
4/5
🎯

OBJETIVO

Avaliar a evidência de ensaios clínicos sobre acupuntura e acupressão para redução da dor do câncer

👥

QUEM

1.111 pacientes com câncer de 17 estudos randomizados controlados

⏱️

DURAÇÃO

Revisão sistemática de estudos publicados até março de 2019

📍

PONTOS

Acupuntura manual, eletroacupuntura e acupuntura auricular com variados pontos

🔬 Desenho do Estudo

1111participantes
randomização

Acupuntura/Acupressão

n=515

Acupuntura real ou combinada com analgésicos

Controle

n=575

Sham acupuntura, analgésicos ou lista de espera

Crossover

n=21

Desenho crossover

⏱️ Duração: Análise de estudos de 2003 a 2019

📊 Resultados em Números

-1,38 pontos

Redução da dor vs sham acupuntura

-1,44 pontos

Redução da dor com analgésicos

-30,0 mg equivalente morfina

Redução dose de opióides

7 (41%)

Estudos de alta qualidade incluídos

Destaques Percentuais

7 (41%)
Estudos de alta qualidade incluídos

📊 Comparação de Resultados

Intensidade da dor (escala 0-10)

Acupuntura real
7.4
Sham acupuntura
8.8

Dose diária de morfina (mg)

Acupuntura + analgésicos
45
Apenas analgésicos
75
💬 O que isso significa para você?

Esta pesquisa analisou 17 estudos com mais de mil pacientes com câncer para verificar se acupuntura ajuda na dor. Os resultados mostraram que a acupuntura realmente diminui a dor do câncer e pode reduzir a necessidade de medicamentos opióides, oferecendo uma opção complementar segura para o alívio da dor oncológica.

📝

Resumo do Artigo

Resumo narrativo em linguagem acessível

Evidências Clínicas da Associação entre Acupuntura e Acupressão e Melhora da Dor Oncológica: Revisão Sistemática e Meta-análise

A dor relacionada ao câncer representa um dos sintomas mais desafiadores enfrentados pelos pacientes e suas famílias, afetando mais de 70% das pessoas diagnosticadas com a doença. Apesar dos avanços nas diretrizes de manejo da dor, incluindo a "escada analgésica" da Organização Mundial da Saúde, quase metade dos pacientes com câncer ainda não consegue obter controle adequado da dor. Além disso, os tratamentos farmacológicos tradicionais frequentemente causam efeitos colaterais significativos e preocupações sobre dependência, especialmente no contexto da atual crise de opioides. Diante dessas limitações, cresce o interesse em abordagens não farmacológicas complementares, como a acupuntura e a acupressão, que já são recomendadas por organizações médicas renomadas como a Sociedade Americana de Oncologia Clínica e a Rede Nacional Abrangente de Câncer para o manejo da dor oncológica.

Este estudo teve como objetivo avaliar de forma rigorosa a evidência científica existente sobre a eficácia da acupuntura e acupressão no tratamento da dor relacionada ao câncer. Os pesquisadores conduziram uma revisão sistemática e meta-análise, examinando ensaios clínicos randomizados publicados até março de 2019. Para garantir uma busca abrangente, foram pesquisadas tanto bases de dados em inglês (PubMed, Embase e CINAHL) quanto chinesas (quatro principais bases de dados biomédicos), reconhecendo a importância da medicina tradicional chinesa nessa área. Os estudos incluídos compararam acupuntura e acupressão com controles placebo (acupuntura simulada), terapia analgésica convencional ou cuidados usuais.

Foram incluídos apenas estudos que avaliaram a intensidade da dor usando escalas validadas, como a Escala Visual Analógica e a Escala Numérica de Dor. A qualidade metodológica dos estudos foi rigorosamente avaliada usando ferramentas padronizadas reconhecidas internacionalmente.

A análise incluiu 17 ensaios clínicos randomizados envolvendo 1.111 pacientes com câncer, dos quais 14 estudos com 920 pacientes forneceram dados suficientes para a meta-análise estatística. Os resultados mostraram evidências promissoras da eficácia dessas terapias. Quando comparada com acupuntura simulada, a acupuntura real demonstrou redução significativa na intensidade da dor, com uma diminuição média de 1,38 pontos na escala de 0 a 10. Embora essa diferença possa parecer modesta numericamente, representa um alívio clinicamente relevante para pacientes com dor moderada a severa.

Adicionalmente, quando a acupuntura ou acupressão foram combinadas com medicamentos analgésicos tradicionais, os pacientes experimentaram não apenas maior alívio da dor (redução média de 1,44 pontos) mas também puderam diminuir significativamente o uso de opioides, com uma redução média de 30mg de equivalente de morfina por dia. Essa redução no uso de medicamentos é particularmente importante considerando os riscos de dependência e efeitos colaterais associados aos analgésicos potentes.

As implicações clínicas desses achados são substanciais tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde. Para os pacientes, esses resultados sugerem que a acupuntura e acupressão podem oferecer uma opção de tratamento segura e eficaz, seja como terapia complementar aos medicamentos convencionais ou, em alguns casos, como alternativa que permite reduzir a dependência de analgésicos. Os efeitos colaterais relatados foram mínimos e limitaram-se principalmente a desconfortos leves na pele no local da aplicação, sem nenhum caso de descontinuação do tratamento devido a eventos adversos. Para os profissionais de saúde, especialmente oncologistas e especialistas em dor, estes dados fornecem evidência científica robusta para considerar a incorporação dessas terapias nos planos de cuidado abrangente do câncer.

A possibilidade de reduzir o uso de opioides é especialmente relevante no contexto atual de preocupações com a prescrição desses medicamentos. Centros de câncer em todo o mundo já começaram a oferecer serviços de acupuntura, embora a cobertura por seguros de saúde permaneça um obstáculo significativo para muitos pacientes.

Apesar dos resultados encorajadores, o estudo apresenta algumas limitações importantes que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A principal limitação foi a considerável heterogeneidade entre os estudos incluídos, ou seja, havia diferenças significativas nos métodos, tipos de pacientes e resultados entre os diferentes ensaios clínicos. Essa variabilidade pode refletir a complexidade da dor do câncer, que pode variar drasticamente dependendo do tipo de tumor, estágio da doença, tratamentos recebidos e características individuais do paciente. Algumas análises mostraram heterogeneidade reduzida quando focaram em tipos específicos de acupuntura manual ou em pacientes com dor moderada a severa, sugerindo que futuras pesquisas podem se beneficiar de abordagens mais direcionadas.

Além disso, alguns estudos não foram "cegos", ou seja, os pacientes sabiam que estavam recebendo acupuntura real, o que pode ter influenciado suas percepções de melhora da dor. O número relativamente pequeno de estudos para alguns tipos específicos de dor relacionada ao câncer também limita a capacidade de fazer recomendações definitivas para todas as situações clínicas.

Em conclusão, esta revisão sistemática e meta-análise fornece evidência de qualidade moderada de que a acupuntura e acupressão estão significativamente associadas à redução da dor relacionada ao câncer e podem ajudar a diminuir o uso de analgésicos opioides. Esses achados apoiam a consideração dessas terapias como componentes valiosos de uma abordagem multidisciplinar abrangente para o manejo da dor oncológica. No entanto, são necessários mais estudos de alta qualidade, particularmente focados em tipos específicos de dor do câncer e populações de pacientes bem definidas, para otimizar a integração dessas terapias na prática clínica rotineira. Enquanto isso, pacientes interessados nessas abordagens devem discuti-las com suas equipes de cuidado oncológico para determinar se podem ser apropriadas para sua situação específica.

Pontos Fortes

  • 1Revisão abrangente de bancos de dados em inglês e chinês
  • 2Inclusão de estudos controlados de alta qualidade
  • 3Análise robusta com baixo risco de viés em estudos-chave
  • 4Evidência de redução no uso de opióides
  • 5Poucos eventos adversos relatados
⚠️

Limitações

  • 1Heterogeneidade substancial entre os estudos
  • 2Variabilidade nos tipos de câncer e técnicas de acupuntura
  • 3Alguns estudos sem cegamento adequado
  • 4Limitação no número de estudos para tipos específicos de dor

📅 Contexto Histórico

2003Primeiros ensaios controlados de acupuntura para dor oncológica
2010Aumento de estudos de alta qualidade com controle sham
2015Crescimento do interesse em terapias não-farmacológicas para câncer
2018Publicação de ensaios multicêntricos robustos
2020Esta meta-análise demonstra evidência moderada de eficácia
Prof. Dr. Hong Jin Pai

Comentário do Especialista

Prof. Dr. Hong Jin Pai

Doutor em Ciências pela USP

Relevância Clínica

A dor oncológica permanece um dos problemas mais refratários da medicina moderna, e esta meta-análise publicada no JAMA Oncology consolida evidências que deveriam reorientar a conduta de todo oncologista e especialista em dor que ainda trata analgesia como domínio exclusivo da farmacologia. A redução de 30 mg de equivalente de morfina diária quando se associa acupuntura à analgesia convencional é um dado que fala diretamente ao problema da crise global de opioides — não se trata de substituir a escada analgésica da OMS, mas de otimizá-la. Pacientes com dor moderada a severa em uso crônico de opioides, aqueles com efeitos colaterais limitantes como constipação, sonolência e dependência em progressão, e os que recebem quimioterapia com polineuropatia periférica associada são populações que se beneficiam objetivamente dessa integração. A inclusão de bases de dados chinesas amplia a representatividade e confere ao trabalho uma abrangência que revisões anteriores não alcançavam.

Achados Notáveis

Dois achados merecem atenção especial. O primeiro é que a acupuntura real superou a sham acupuntura em 1,38 pontos na escala de 0 a 10, descartando explicação exclusivamente por efeito placebo — argumento frequentemente levantado por céticos e que esta meta-análise enfrenta com dados diretos. O segundo, e clinicamente mais impactante, é a redução média de 30 mg de equivalente de morfina diária quando acupuntura ou acupressão foram combinadas com analgésicos, acompanhada de maior alívio álgico do que a farmacoterapia isolada. Esse perfil de potencialização — mais analgesia com menos opioide — é exatamente o que se busca em qualquer estratégia multimodal responsável. O fato de eventos adversos terem sido mínimos, sem nenhuma descontinuação por razão adversa nos estudos analisados, reforça a relação risco-benefício amplamente favorável em população oncológica já fragilizada por toxicidades do tratamento antineoplásico.

Da Minha Experiência

No Centro de Dor do HC-FMUSP, incorporamos acupuntura ao manejo oncológico há mais de duas décadas, e o que este trabalho quantifica corresponde ao que observamos rotineiramente. Em pacientes com dor visceral ou óssea por metástase em uso de opioide de longa ação, costumo ver redução perceptível da necessidade de resgate já na terceira ou quarta sessão, com estabilização do esquema opioide ao redor da sexta a oitava sessão. O perfil de paciente que responde melhor, na minha experiência, é aquele com dor nociceptiva predominante, ainda sem componente neuropático severo instalado — nesses casos a resposta é mais consistente e duradoura. Associo sistematicamente acupuntura à fisioterapia respiratória e, quando o estado funcional permite, a exercícios aeróbicos supervisionados, pois a sinergia sobre fadiga e humor potencializa o controle álgico global. A acupressão, referenciada no artigo, tem valor especial para pacientes com plaquetopenia severa ou coagulopatia, onde a agulhamento demanda maior cautela. Quando há neuropatia periférica induzida por quimioterapia associada, o protocolo muda — amplio o número de sessões e revejo pontos distais nos trajetos afetados.

Médico especialista em Acupuntura. Professor Colaborador do Instituto de Ortopedia do HC-FMUSP. Coordenador do Grupo de Acupuntura do Centro de Dor do HC-FMUSP.

Artigo Original Completo

Leia o Estudo Científico na Íntegra

JAMA Oncology · 2020

DOI: 10.1001/jamaoncol.2019.5233

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Revisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241

Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.

Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.

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