Dry Needling and Acupuncture for Scars—A Systematic Review
Trybulski et al. · Journal of Clinical Medicine · 2024
OBJETIVO
Avaliar a eficácia do agulhamento seco e acupuntura no tratamento de cicatrizes e sintomas associados
QUEM
Pacientes com cicatrizes hipertróficas, queloides e pós-cirúrgicas
DURAÇÃO
Tratamentos variaram de 3-8 semanas
PONTOS
Agulhas inseridas na área cicatricial e ao redor (técnica 'dragão circundante')
🔬 Desenho do Estudo
Relatos de caso
n=8
Acupuntura ou agulhamento seco
Ensaios clínicos
n=2
Acupuntura vs controle
Série de casos
n=1
Terapia manual + agulhamento
📊 Resultados em Números
Redução da dor
Melhora funcional
Qualidade metodológica
Estudos incluídos
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Escala de Dor (VAS/NRS)
Este estudo analisou se a acupuntura e o agulhamento seco podem ajudar a tratar cicatrizes dolorosas ou que causam coceira. Embora alguns pacientes tenham relatado melhorias na dor e aparência das cicatrizes, ainda não há evidência científica suficiente para confirmar que esses tratamentos realmente funcionam.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Esta revisão sistemática investigou a eficácia da acupuntura e agulhamento seco no tratamento de cicatrizes e sintomas relacionados. O estudo seguiu as diretrizes PRISMA 2020 e incluiu uma busca abrangente em múltiplas bases de dados até janeiro de 2024. Dos 706 resultados inicialmente identificados, 19 estudos foram considerados relevantes, com 11 selecionados para análise detalhada. A metodologia incluiu avaliação de qualidade usando escalas JBI para relatos de caso e PEDro para ensaios clínicos randomizados.
Os estudos analisados mostraram grande heterogeneidade em termos de tipos de cicatrizes tratadas, técnicas de agulhamento utilizadas e parâmetros de tratamento. As cicatrizes estudadas incluíram queloides, cicatrizes hipertróficas pós-queimadura, cicatrizes cirúrgicas e cicatrizes maduras de diferentes origens. As intervenções variaram significativamente: agulhas de diferentes tamanhos (0.15×15mm a 0.30×50mm), técnicas de inserção distintas (perpendicular, paralela, angulada), durações de tratamento de 3-8 semanas, e frequências de 2-3 sessões por semana. Alguns estudos combinaram acupuntura com outras modalidades como radiação infravermelha, ultrassom, terapia manual e medicamentos tópicos.
Os resultados mostraram tendências positivas na maioria dos estudos. A avaliação da dor através das escalas VAS e NRS demonstrou reduções significativas: de 8/10 para 3/10 em um estudo e de 7/10 para 4.5/10 em outro. Melhorias funcionais foram observadas através de testes como 'up and go' e 'chair stand test', com o questionário SF-36 mostrando aumento na capacidade física de 40% para 65%. A escala POSAS indicou melhoria significativa na aparência das cicatrizes, diminuindo de 57/70 para 27/70 pontos.
A escala de Vancouver (VSS) também demonstrou melhorias na cor, vascularização, altura e flexibilidade das cicatrizes. Entretanto, a qualidade metodológica dos estudos variou consideravelmente. Os relatos de caso pontuaram entre 4-8 pontos na escala JBI, enquanto os ensaios clínicos randomizados obtiveram 5-8 pontos na escala PEDro. A principal limitação identificada foi a falta de padronização nos protocolos de tratamento e a ausência de diretrizes STRICTA na maioria dos estudos.
O estudo identificou várias deficiências metodológicas importantes: número limitado de ensaios clínicos randomizados, amostras pequenas, falta de grupos controle adequados em muitos estudos, e heterogeneidade significativa nos métodos de avaliação. A diversidade de tipos de cicatrizes, técnicas de agulhamento e parâmetros de dose impossibilitou a realização de uma meta-análise. Os possíveis mecanismos de ação propostos incluem: estimulação mecânica do tecido conjuntivo, modulação da resposta inflamatória, liberação de substâncias bioativas, inibição do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), e estímulo da atividade dos fibroblastos. No entanto, esses mecanismos não foram adequadamente investigados nos estudos incluídos.
As implicações clínicas permanecem incertas devido à qualidade limitada da evidência. Embora alguns estudos tenham mostrado resultados promissores, a ausência de protocolos padronizados, a falta de estudos de longo prazo e a predominância de relatos de caso limitam a aplicabilidade clínica dos achados. Os autores concluíram que, apesar da popularidade crescente dessas técnicas, não há evidência científica adequada para apoiar seu uso rotineiro no tratamento de cicatrizes.
Pontos Fortes
- 1Busca abrangente em múltiplas bases de dados
- 2Avaliação sistemática da qualidade metodológica
- 3Análise detalhada dos parâmetros de tratamento
- 4Identificação clara das limitações da evidência atual
Limitações
- 1Número limitado de ensaios clínicos randomizados
- 2Grande heterogeneidade nos métodos e protocolos
- 3Amostras pequenas na maioria dos estudos
- 4Falta de padronização nas escalas de avaliação
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65223, 65224
▸ Relevância Clínica
Cicatrizes sintomáticas — dolorosas, pruriginosas, restritivas de movimento — representam um desafio real na prática de reabilitação e medicina da dor. Queloides, cicatrizes hipertróficas pós-queimadura e cicatrizes cirúrgicas aderentes frequentemente chegam ao consultório do fisiatra após esgotamento das opções convencionais, e a pergunta sobre agulhamento seco ou acupuntura é cada vez mais frequente. Esta revisão sistemática organiza, pela primeira vez de forma abrangente, o que existe publicado até 2024 sobre o tema, oferecendo ao médico um mapa do território: quais tipos de cicatrizes foram estudados, quais técnicas foram empregadas e quais desfechos foram mensurados. Para o clínico que já considera o agulhamento como parte do arsenal terapêutico em dor musculoesquelética, ter uma síntese estruturada — ainda que baseada em evidência incipiente — é ponto de partida indispensável para decisões informadas e para o desenho de protocolos institucionais mais rigorosos.
▸ Achados Notáveis
Entre os achados que merecem atenção, destaca-se a magnitude das reduções de dor registradas nos estudos incluídos: quedas de 8/10 para 3/10 e de 7/10 para 4,5/10 nas escalas VAS e NRS sugerem impacto clinicamente significativo, não apenas estatístico. A melhora funcional mensurada pelo SF-36 — de 40% para 65% na capacidade física — e a redução expressiva na escala POSAS (de 57/70 para 27/70 pontos) indicam que o benefício vai além da analgesia pura e alcança qualidade de vida e aparência tecidual. Do ponto de vista mecanístico, a revisão elenca estímulo mecânico do tecido conjuntivo, modulação inflamatória, ativação de fibroblastos e inibição do VEGF como hipóteses biologicamente plausíveis, conectando o agulhamento a vias já conhecidas na fisiopatologia do remodelamento cicatricial. A variação técnica documentada — agulhas de 0,15×15 mm a 0,30×50 mm, inserções perpendiculares, paralelas e anguladas — também é clinicamente informativa, pois evidencia que não há um protocolo único e abre espaço para personalização baseada nas características da cicatriz.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor e reabilitação, o agulhamento em cicatrizes é uma das solicitações que mais cresceu na última década, especialmente em pacientes pós-cirúrgicos com aderência fascial e em sobreviventes de queimaduras com restrição de amplitude articular. Costumo iniciar com séries de 6 a 8 sessões, duas vezes por semana, e a resposta analgésica perceptível pelo paciente aparece, na minha observação, entre a terceira e a quinta sessão. Cicatrizes com componente neuropático associado — alodínia, hiperpatia — respondem de forma menos previsível e tenho o hábito de associar neuromodulação farmacológica antes de avançar para o agulhamento isolado. A combinação com ultrassonoterapia e mobilização manual da fáscia cicatricial potencializa os resultados na minha experiência, o que é consistente com o que a revisão descreve nos estudos combinados. O perfil que melhor responde, ao longo da minha carreira, é o paciente com cicatriz madura, aderente e dolorosa, sem processo inflamatório ativo subjacente. Não indico em cicatrizes com infecção ativa ou coagulopatia não controlada.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Journal of Clinical Medicine · 2024
DOI: 10.3390/jcm13143994
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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