Management of auricular transcutaneous neuromodulation and electro-acupuncture of the vagus nerve for chronic migraine: a systematic review
Fernández-Hernando et al. · Frontiers in Neuroscience · 2023
OBJETIVO
Avaliar a eficácia da estimulação auricular transcutânea do nervo vago (at-VNS) e eletro-acupuntura auricular para enxaqueca crônica
QUEM
333 adultos com enxaqueca crônica (idade média: 34,8 anos, 41,7% mulheres)
DURAÇÃO
Estudos variaram de sessões únicas a 12 semanas de tratamento
PONTOS
Concha auricular (cymba e cavum), TE19, ST16, CO11, CO14, GB8
🔬 Desenho do Estudo
at-VNS/Eletroacupuntura
n=171
Estimulação do nervo vago auricular ou eletro-acupuntura
Controle/Sham
n=162
Estimulação sham ou outra localização
📊 Resultados em Números
Qualidade metodológica (PEDro)
Efeitos adversos
Estudos com fMRI
Evidência Oxford nível 1-2
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Qualidade Metodológica PEDro
Esta revisão analisou tratamentos alternativos para enxaqueca crônica usando estímulo elétrico na orelha. Os resultados sugerem que esses tratamentos podem ter algum benefício na redução da frequência e intensidade das crises, com poucos efeitos colaterais. No entanto, são necessários mais estudos de melhor qualidade para confirmar estes achados.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Este estudo de revisão sistemática publicado em 2023 investigou a eficácia da estimulação auricular transcutânea do nervo vago (at-VNS) e eletro-acupuntura auricular no tratamento da enxaqueca crônica. A enxaqueca é uma condição neurológica que afeta mais de 1 bilhão de pessoas mundialmente, causando dor intensa, náuseas, vômitos e sensibilidade à luz e som, representando a segunda causa mais frequente de incapacidade neurológica globalmente. Os pesquisadores conduziram uma busca sistemática em seis bases de dados até junho de 2022, identificando inicialmente 1.117 publicações. Após rigoroso processo de seleção baseado em critérios específicos, nove estudos clínicos randomizados foram incluídos na análise final, totalizando 333 participantes com idade média de 34,8 anos, dos quais 41,7% eram mulheres.
A duração média dos sintomas de enxaqueca foi de 14,6 anos, com frequência média de 10,8 ataques por mês. Os estudos investigaram diferentes protocolos de estimulação, variando em frequência (1 a 25 Hz), duração das sessões (8 minutos a 4 horas diárias) e número total de tratamentos (sessão única a 12 semanas). Os pontos de aplicação mais comumente utilizados foram a concha auricular (cymba e cavum), além de pontos específicos como TE19, ST16, CO11, CO14 e GB8. A avaliação da qualidade metodológica através da escala PEDro revelou pontuação média de 7,3 ± 0,8 pontos, com quatro estudos alcançando alta qualidade metodológica (≥5 pontos).
O risco de viés foi avaliado pela ferramenta ROB-2 Cochrane, identificando apenas dois estudos com baixo risco. Os principais desfechos medidos incluíram intensidade da dor através da Escala Visual Analógica (VAS), frequência e duração dos ataques de enxaqueca, questionários de qualidade de vida específicos para enxaqueca (MSQ), escalas de depressão (SDS) e ansiedade (SAS), além de avaliação de incapacidade (MIDAS) e impacto da cefaleia (HIT-6). Seis estudos utilizaram neuroimagem funcional por ressonância magnética (fMRI) para investigar mudanças na conectividade cerebral. Os resultados sugerem evidência de baixa qualidade para alguns efeitos positivos da at-VNS com frequência de 1 Hz comparada ao grupo controle no pós-tratamento.
Especificamente, houve redução significativa na frequência de dias com enxaqueca e número de ataques em alguns estudos. A análise por neuroimagem revelou alterações em áreas cerebrais relacionadas ao processamento da dor, incluindo córtex cingulado anterior, substância cinzenta periaquedutal, locus coeruleus, núcleo do trato solitário e córtex frontal. Estes achados de neuroimagem forneceram evidências do mecanismo de ação da estimulação vagal auricular, demonstrando conectividade entre os ramos periféricos do nervo vago e estruturas superiores do tronco cerebral envolvidas na modulação da dor. A segurança do tratamento foi satisfatória, com apenas 7% dos pacientes relatando efeitos adversos em um dos estudos, levando à descontinuação do tratamento.
Os demais estudos não reportaram eventos adversos significativos. As limitações incluíram heterogeneidade nos protocolos de estimulação, variabilidade nos períodos de seguimento, tamanho amostral pequeno dos estudos individuais e risco de viés metodológico em vários estudos. A inconsistência nos parâmetros de estimulação (frequência, intensidade, duração) dificultou a comparação direta entre estudos e impossibilitou a realização de meta-análise. As implicações clínicas sugerem que a at-VNS e eletro-acupuntura auricular podem representar alternativas terapêuticas seguras e potencialmente eficazes para pacientes com enxaqueca crônica, especialmente considerando as limitações e efeitos adversos dos tratamentos farmacológicos convencionais.
A natureza não-invasiva, baixo custo e facilidade de aplicação tornam estes tratamentos atrativos na prática clínica. Entretanto, os autores enfatizam a necessidade de estudos futuros com maior rigor metodológico, protocolos padronizados e amostras maiores para estabelecer conclusões definitivas sobre a eficácia destes tratamentos na enxaqueca crônica.
Pontos Fortes
- 1Primeiro estudo a focar especificamente em estimulação auricular para enxaqueca crônica
- 2Inclusão de dados de neuroimagem funcional
- 3Avaliação rigorosa da qualidade metodológica
- 4Análise de segurança abrangente
Limitações
- 1Heterogeneidade nos protocolos de estimulação
- 2Qualidade metodológica variável dos estudos
- 3Impossibilidade de realizar meta-análise
- 4Amostras pequenas nos estudos individuais
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65523 / 65524 / 655241
▸ Relevância Clínica
A enxaqueca crônica representa um dos maiores desafios em medicina da dor: pacientes com 14,6 anos de história e mais de dez ataques mensais em média chegam ao consultório esgotados de ciclos farmacológicos, frequentemente com uso excessivo de analgésicos e qualidade de vida severamente comprometida. Nesse contexto, a estimulação auricular transcutânea do nervo vago e a eletro-acupuntura auricular ganham relevância como estratégias adjuvantes não-invasivas, de baixo custo e perfil de segurança favorável — apenas 7% de efeitos adversos em toda a amostra de 333 participantes. Para o fisiatra atuante em serviço de dor, isso se traduz em uma opção viável para pacientes que não toleram profilaxia farmacológica convencional, que estão em período gestacional, ou que apresentam contraindicações cardiovasculares aos triptanos. A localização na concha auricular, com acesso direto ao ramo auricular do nervo vago, alinha-se a um raciocínio neurofisiológico coerente e mensurável por neuroimagem funcional, o que distingue essa abordagem de intervenções puramente empíricas.
▸ Achados Notáveis
O dado mais clinicamente relevante desta revisão não está nos desfechos de dor isoladamente, mas na convergência entre os achados de neuroimagem e os efeitos clínicos observados: seis dos nove estudos utilizaram fMRI e identificaram alterações em estruturas diretamente envolvidas na modulação descendente da dor — córtex cingulado anterior, substância cinzenta periaquedutal, locus coeruleus e núcleo do trato solitário. Isso fornece substrato neurobiológico para o efeito clínico, distanciando a discussão do campo da crença e aproximando-a da neurofisiologia da dor. A frequência de 1 Hz mostrou maior consistência de resultados em comparação ao grupo controle, sugerindo que parâmetros de estimulação mais lentos podem ser preferíveis na modulação do sistema vagal para enxaqueca. A qualidade metodológica média de 7,3 pontos na escala PEDro, com 77,8% dos estudos classificados como nível 1-2 de evidência Oxford, também confere a esta revisão peso suficiente para fundamentar decisões terapêuticas iniciais.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor, tenho inserido a eletro-acupuntura auricular como componente do programa multimodal para pacientes com enxaqueca crônica refratária, em geral associada a bloqueios pericranianos e abordagem comportamental. Costumo observar redução subjetiva na frequência das crises a partir da terceira ou quarta sessão semanal, com estabilização perceptível entre a oitava e a décima segunda sessão — o que se alinha ao intervalo de seguimento dos estudos desta revisão. Pacientes com componente ansioso proeminente e alto escore em escalas como SDS e SAS tendem a responder melhor, provavelmente pela via vagal de modulação do sistema nervoso autônomo. Evito indicar essa abordagem isolada em pacientes com enxaqueca com aura frequente e alta carga de lesão em substância branca sem avaliação neurológica prévia. A combinação com técnicas de neuromodulação central, como TENS supraorbital, tem sido promissora em alguns perfis. O achado de que a concha auricular — cymba e cavum — é o alvo mais estudado reforça o que utilizamos rotineiramente, e me deixa confortável em manter esse protocolo enquanto a literatura amadurece.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Frontiers in Neuroscience · 2023
DOI: 10.3389/fnins.2023.1151892
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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