Mechanisms of acupuncture in treating depression: a review
Ma et al. · Chinese Medicine · 2025
Nível de Evidência
FORTEOBJETIVO
Revisar os mecanismos pelos quais a acupuntura exerce efeito antidepressivo em modelos animais
QUEM
44 estudos básicos com modelos animais de depressão
DURAÇÃO
Estudos de 2020 a 2024
PONTOS
Principalmente GV20 (Baihui) e GV29/EX-HN3 (Yintang)
🔬 Desenho do Estudo
Eletroacupuntura
n=29
EA com diferentes frequências e durações
Acupuntura manual
n=11
Agulhamento manual em pontos tradicionais
Acupoint catgut embedding
n=4
Implante de fio cirúrgico em acupontos
📊 Resultados em Números
Modelo mais usado
Teste comportamental principal
Método predominante
Combinação de pontos
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Uso de modalidades
Modelos de depressão
Esta revisão científica analisou 44 estudos que investigaram como a acupuntura funciona contra a depressão em animais de laboratório. Os resultados mostram que a acupuntura, especialmente a eletroacupuntura, atua através de múltiplos mecanismos para melhorar sintomas depressivos. Isso oferece base científica sólida para o uso da acupuntura como tratamento complementar da depressão.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Mecanismos da Acupuntura no Tratamento da Depressão: Revisão
Esta revisão sistemática representa uma análise abrangente dos mecanismos pelos quais a acupuntura exerce efeitos antidepressivos, baseada na análise de 44 estudos experimentais publicados entre 2020 e 2024. O trabalho surge da necessidade de compreender melhor como a acupuntura, uma terapia milenar da medicina tradicional chinesa, pode ser integrada ao tratamento moderno da depressão, especialmente considerando que apenas um terço dos pacientes com depressão maior alcança remissão significativa com tratamentos convencionais. Os pesquisadores conduziram uma busca sistemática nas bases PubMed, Web of Science e Embase, focando exclusivamente em estudos básicos com modelos animais para eliminar variáveis confundidoras de estudos clínicos. A análise revelou que o modelo de estresse crônico imprevisível leve (CUMS) foi o mais utilizado (29 estudos), seguido do modelo de restrição crônica (5 estudos).
O teste de preferência por sacarose foi o indicador comportamental mais frequente (36 estudos), seguido do teste de campo aberto (30 estudos). A eletroacupuntura (EA) foi a modalidade predominante (29 estudos), com a combinação de pontos GV20 (Baihui) e GV29 (Yintang) sendo a mais utilizada. Os mecanismos identificados englobam quatro categorias principais: regulação de neurotransmissores, remodelação sináptica e neuroproteção, inibição da neuroinflamação e regulação neuroendócrina. Quanto aos neurotransmissores, a EA demonstrou aumentar significativamente os níveis de serotonina (5-HT) através da regulação da via miRNA-16-SERT, além de modular receptores 5-HT1A e 5-HT1B.
A regulação do glutamato ocorre via transportadores de aminoácidos excitatórios (EAAT1 e EAAT2), enquanto a dopamina é modulada através da descarboxilase da dopa e regulação do transportador de dopamina. Na remodelação sináptica, a EA promove a plasticidade através da modulação de proteínas sinápticas como PSD95 e GLuA1, além de ativar vias importantes como BDNF/TrkB/CREB e regular fatores neurotróficos. A proteção mitocondrial e a redução do estresse oxidativo também foram documentadas, com evidências de que a EA previne a ferroptose através da ativação da via Sirt1/Nrf2. Os efeitos anti-inflamatórios da acupuntura são mediados pela inibição de vias como P2X7R/NLRP3 e NF-κB, resultando na redução de citocinas pró-inflamatórias como IL-1β, TNF-α e IL-6.
A modulação microglial e astrocitária também contribui para os efeitos neuroprotetivos. A regulação neuroendócrina inclui a normalização do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), com redução dos níveis de cortisol e ACTH, além da modulação do metabolismo do triptofano através da via quinurenina. As implicações clínicas são significativas, pois os múltiplos mecanismos de ação identificados sugerem que a acupuntura pode ser especialmente útil em casos de depressão resistente ao tratamento ou como terapia adjuvante. A evidência de que diferentes modalidades (EA vs.
acupuntura manual vs. catgut embedding) podem ter mecanismos distintos abre possibilidades para personalização do tratamento. No entanto, existem limitações importantes. A heterogeneidade nos parâmetros de eletroacupuntura (frequência, intensidade, duração) entre os estudos dificulta a padronização clínica.
Além disso, a predominância de estudos com EA deixa lacunas no conhecimento sobre outras modalidades. A tradução dos achados de modelos animais para humanos também requer cautela, especialmente considerando as diferenças na complexidade neuropsicológica da depressão humana. Os autores identificam direções futuras importantes: investigar as diferenças entre modalidades de acupuntura, otimizar parâmetros de EA para diferentes subtipos de depressão, e explorar como os múltiplos mecanismos interagem entre si. A conexão entre inflamação, microbiota intestinal e metabolismo do triptofano representa uma área particularmente promissora para pesquisas futuras.
Pontos Fortes
- 1Análise abrangente de 44 estudos experimentais recentes
- 2Metodologia rigorosa com critérios claros de inclusão/exclusão
- 3Identificação de múltiplos mecanismos de ação convergentes
- 4Foco exclusivo em estudos básicos eliminando variáveis clínicas
Limitações
- 1Heterogeneidade nos parâmetros de eletroacupuntura entre estudos
- 2Predominância de estudos com EA, limitando conhecimento sobre outras modalidades
- 3Tradução limitada dos achados animais para aplicação clínica
- 4Falta de estudos comparando diretamente diferentes modalidades
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65223, 65224
▸ Relevância Clínica
A depressão resistente ao tratamento permanece um dos maiores desafios em psiquiatria e medicina de reabilitação — estima-se que apenas um terço dos pacientes com depressão maior atinge remissão satisfatória com antidepressivos convencionais. Esta revisão oferece ao médico que usa acupuntura uma fundamentação mecanicista sólida para justificar a indicação da eletroacupuntura como adjuvante, especialmente nos casos em que a resposta farmacológica é parcial. Os mecanismos descritos — regulação serotoninérgica via miRNA-16-SERT, modulação do eixo HPA, inibição do eixo neuroinflamatório NLRP3 e preservação da plasticidade sináptica via BDNF/TrkB/CREB — são todos alvos reconhecidos na neurofarmacologia moderna. Isso posiciona a eletroacupuntura não como alternativa folclórica, mas como intervenção com alvos moleculares paralelos aos dos antidepressivos, o que abre espaço para uso combinado em pacientes com depressão associada a dor crônica, síndrome metabólica ou resposta inflamatória elevada.
▸ Achados Notáveis
O achado mais robusto desta revisão é a convergência de múltiplas vias mecanísticas — neurotransmissão, neuroplasticidade, neuroinflamação e regulação neuroendócrina — sendo moduladas simultaneamente pela eletroacupuntura nos pontos GV20 e GV29, a combinação mais replicada entre os 44 estudos analisados. A evidência de que a EA atua na via Sirt1/Nrf2 para prevenir ferroptose neuronal é particularmente relevante, dado o crescente interesse neste mecanismo de morte celular em transtornos do humor. A modulação do metabolismo do triptofano via via quinurenina é outro achado de peso: esse desvio metabólico, que reduz a disponibilidade de serotonina e gera metabólitos neurotóxicos, tem sido associado a depressão inflamatória — justamente o subtipo que responde menos aos inibidores seletivos de recaptação de serotonina. A eletroacupuntura parece agir exatamente nesse ponto cego do arsenal farmacológico atual.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor e reabilitação, a sobreposição entre depressão, dor crônica e neuroinflamação é a regra, não a exceção. Pacientes com fibromialgia ou dor lombar crônica frequentemente chegam com escores de PHQ-9 moderados a graves, já em uso de antidepressivos com resposta insuficiente. Tenho indicado eletroacupuntura em GV20 e GV29 combinados a pontos locais ou sistêmicos como protocolo adjuvante nesses casos, e costumo observar melhora de humor e energia a partir da terceira ou quarta sessão — antes mesmo de qualquer melhora álgica mensurável. Em média, trabalho com ciclos de dez a doze sessões para consolidação, seguidos de manutenção quinzenal. O perfil que responde melhor, na minha experiência, é o paciente com depressão de caráter inflamatório — marcadores elevados, fadiga proeminente, anedonia intensa — e não o quadro predominantemente ansioso. A revisão de Ma et al. alinha-se bem a esse padrão observado clinicamente, especialmente pela ênfase nas vias inflamatórias e no eixo HPA.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Chinese Medicine · 2025
DOI: 10.1186/s13020-025-01080-7
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
Artigos Relacionados
Baseado nas categorias deste artigo