Gut Microbiota in the Treatment of Migraine with Acupuncture: A Review
Zhong et al. · Pain Therapy · 2026
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Revisar os mecanismos pelos quais a acupuntura trata enxaqueca através da modulação da microbiota intestinal e do eixo microbiota-intestino-cérebro
QUEM
Pacientes com enxaqueca com desequilíbrio da microbiota intestinal
DURAÇÃO
Revisão de literatura até 2025
PONTOS
Zusanli (ST36), Sanyinjiao (SP6), Guanyuan (CV4), Qihai (CV6), Baihui (GV20), Tianshu (ST25), Taichong (LR3)
🔬 Desenho do Estudo
Revisão narrativa
n=0
Análise de estudos sobre microbiota e acupuntura
📊 Resultados em Números
Diversidade microbiana reduzida em pacientes com enxaqueca
Bactérias benéficas (Faecalibacterium) reduzidas
Bactérias pró-inflamatórias (Veillonella) aumentadas
Acupuntura restaura diversidade alfa
📊 Comparação de Resultados
Diversidade da microbiota
Integridade da barreira intestinal
Este estudo mostra que a acupuntura pode ajudar no tratamento da enxaqueca através do cuidado com a saúde intestinal. A pesquisa descobriu que pessoas com enxaqueca frequentemente têm um desequilíbrio nas bactérias do intestino, e a acupuntura pode restaurar esse equilíbrio, reduzindo a inflamação e melhorando a comunicação entre intestino e cérebro.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Microbiota Intestinal no Tratamento da Enxaqueca com Acupuntura: Revisão
Esta revisão abrangente examina um campo emergente e fascinante da medicina: como a acupuntura trata enxaqueca através da modulação da microbiota intestinal e do eixo microbiota-intestino-cérebro (MGBA). A enxaqueca, que afeta aproximadamente 14,4% da população mundial e representa a segunda doença neurológica mais comum, tem sido tradicionalmente vista apenas como um distúrbio neurológico. No entanto, evidências crescentes revelam uma conexão complexa entre a saúde intestinal e os ataques de enxaqueca.
A pesquisa demonstra que pacientes com enxaqueca apresentam um padrão consistente de desequilíbrio da microbiota intestinal, caracterizado pela diminuição da diversidade microbiana, redução de bactérias benéficas como Faecalibacterium (produtora de ácidos graxos de cadeia curta anti-inflamatórios), e aumento de bactérias pró-inflamatórias como Veillonella. Este desequilíbrio cria uma cascata de eventos patológicos: as bactérias nocivas produzem lipopolissacarídeos (LPS) que danificam a barreira intestinal, permitindo que toxinas entrem na circulação sanguínea. Essas toxinas então ativam o sistema imunológico, gerando citocinas pró-inflamatórias como IL-6 e TNF-α, que podem atravessar a barreira hematoencefálica e ativar o sistema trigeminovascular, desencadeando ataques de enxaqueca.
O sistema nervoso entérico também desempenha um papel crucial, com o desequilíbrio da microbiota levando à produção anormal de neurotransmissores. A síntese reduzida de GABA (devido à diminuição de lactobacilos e bifidobactérias) compromete a função inibitória neural, enquanto alterações no metabolismo do triptofano afetam os níveis de serotonina e podem gerar substâncias neurotóxicas que aumentam a excitabilidade neural.
A acupuntura emerge como uma intervenção terapêutica multidimensional que atua através de vários mecanismos interconectados. Primeiro, estudos demonstram que a acupuntura em pontos específicos como Zusanli (ST36), Sanyinjiao (SP6), e Baihui (GV20) aumenta significativamente a diversidade alfa da microbiota, restaurando o equilíbrio ecológico intestinal. A técnica promove o crescimento de bactérias benéficas produtoras de ácidos graxos de cadeia curta, enquanto reduz a abundância de espécies patogênicas produtoras de LPS, como Proteobacteria e Escherichia coli-Shigella.
Segundo, a acupuntura fortalece a integridade da barreira intestinal através da regulação positiva de proteínas de junção cerrada, incluindo ZO-1, ocludina e claudina-1. Esta restauração da barreira física previne a translocação de endotoxinas e fatores pró-inflamatórios para a circulação sistêmica, interrompendo a cascata inflamatória que contribui para os ataques de enxaqueca.
Terceiro, a acupuntura modula o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), reduzindo os níveis de cortisol e hormônio liberador de corticotropina, o que diminui o estresse oxidativo e a resposta inflamatória sistêmica. Esta modulação também reduz fatores desencadeantes emocionais da enxaqueca, como ansiedade e estresse.
Quarto, através da regulação da microbiota, a acupuntura otimiza a produção de metabólitos neuroprotetores. O aumento na produção de ácidos graxos de cadeia curta não apenas protege a barreira intestinal, mas também exerce efeitos anti-inflamatórios diretos no sistema nervoso central, promove a neurogênese e aumenta a produção do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF).
As implicações clínicas são significativas. Esta pesquisa sugere que a acupuntura oferece uma abordagem holística para o tratamento da enxaqueca, abordando não apenas os sintomas neurológicos, mas também as causas subjacentes relacionadas à saúde intestinal. Diferentemente dos medicamentos convencionais que frequentemente têm efeitos colaterais e potencial de dependência, a acupuntura oferece uma alternativa segura e multitarget.
Para pacientes com enxaqueca que também apresentam sintomas gastrointestinais - uma comorbidade comum - a acupuntura pode oferecer benefícios duplos, melhorando tanto a função intestinal quanto reduzindo a frequência e intensidade dos ataques de enxaqueca.
As limitações incluem a necessidade de mais ensaios clínicos randomizados de grande escala e estudos sobre protocolos padronizados de tratamento. Pesquisas futuras devem explorar combinações de acupuntura com probióticos/prebióticos e investigar diferenças na resposta entre subtipos de enxaqueca.
Pontos Fortes
- 1Abordagem integrativa conectando medicina tradicional e neurociência moderna
- 2Evidências convergentes de múltiplos estudos sobre disbiose em enxaqueca
- 3Mecanismos claros de ação da acupuntura na microbiota
- 4Potencial para tratamento personalizado baseado no perfil microbiano
Limitações
- 1Maioria dos estudos mecanísticos em modelos animais
- 2Falta de ensaios clínicos randomizados de grande escala
- 3Protocolos de acupuntura não padronizados
- 4Necessidade de mais pesquisa sobre combinações terapêuticas
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65223, 65224
▸ Relevância Clínica
A enxaqueca afeta cerca de 14,4% da população mundial e permanece subotimamente controlada em uma parcela expressiva dos pacientes mesmo com o arsenal profilático disponível — topiramato, amitriptilina, betabloqueadores e os anticorpos anti-CGRP. Esta revisão de Zhong et al. posiciona o eixo microbiota-intestino-cérebro como um alvo terapêutico legítimo, não apenas especulativo. Para o clínico que trata enxaqueca refratária, a identificação de disbiose — diversidade microbiana reduzida, queda de Faecalibacterium e elevação de Veillonella — como componente fisiopatológico mensurável abre uma janela de raciocínio integrativo. Pacientes que relatam comorbidades gastrointestinais associadas aos ciclos de crise são candidatos naturais a esta abordagem. A acupuntura nos pontos ST36, SP6 e GV20, com evidência de restauração da diversidade alfa e reforço das proteínas de junção cerrada intestinal, passa a integrar racionalmente o plano terapêutico multimodal desses casos, mesmo antes que ensaios clínicos de grande escala consolidem recomendações de grau A.
▸ Achados Notáveis
O achado mais robusto desta revisão é a consistência do perfil disbiótico na enxaqueca: redução de Faecalibacterium — produtor de ácidos graxos de cadeia curta com ação anti-inflamatória — e elevação de Veillonella, com consequente aumento da carga de lipopolissacarídeos circulantes. A cascata resultante — LPS → ativação imune → IL-6 e TNF-α → transposição da barreira hematoencefálica → ativação trigeminovascular — oferece uma explicação mecanicista coerente para a periodização dos ataques em parte dos pacientes. Igualmente notável é a convergência de ações da acupuntura: modulação da microbiota, upregulation de ZO-1, ocludina e claudina-1 na barreira intestinal, atenuação do eixo HPA e aumento de BDNF. O fato de mecanismos tão distintos convergirem para pontos acupunturais específicos reforça a plausibilidade neurobiológica da técnica, deslocando o debate do território da crença para o da neurofisiologia aplicada.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor, tenho um subgrupo bem definido de pacientes com enxaqueca crônica que chegam já com dois ou três profiláticos no histórico e que relatam, quase invariavelmente, síndrome do intestino irritável ou episódios de constipação que pioram na semana pré-crise. Para esse perfil, a acupuntura costuma oferecer resposta perceptível em quatro a seis sessões — redução de frequência de crises e melhora do padrão intestinal relatadas conjuntamente, o que sempre me pareceu sugestivo de mecanismo compartilhado. O protocolo que utilizo habitualmente inclui ST36 e SP6 como pontos cardinais do eixo gastrointestinal, associados a GV20 e pontos cranianos conforme o padrão de aura. Costumo planejar ciclos de dez a doze sessões com reavaliação, mantendo sessões mensais nos respondedores. Combino com orientação nutricional para suporte prebiótico e, quando há ansiedade marcada como gatilho, incluo técnicas de regulação do eixo HPA. O paciente que não responde nas primeiras seis sessões raramente avança com mais agulhamento isolado — nesse caso, revejo diagnóstico diferencial antes de insistir.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Pain Therapy · 2026
DOI: 10.1007/s40122-025-00793-9
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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