Treatment of myofascial pain syndrome with lidocaine injection and physical therapy, alone or in combination: a single blind, randomized, controlled clinical trial
Lugo et al. · BMC Musculoskeletal Disorders · 2016
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Comparar eficácia da fisioterapia, injeção de lidocaína e combinação de ambas para síndrome da dor miofascial
QUEM
127 pacientes com dor miofascial no pescoço e ombro por mais de 6 semanas
DURAÇÃO
4 semanas de tratamento, seguimento por 3 meses
PONTOS
Pontos gatilho em trapézio, infraespinal e elevador da escápula
🔬 Desenho do Estudo
Fisioterapia + Lidocaína
n=43
12 sessões de fisioterapia + injeção única de lidocaína
Fisioterapia
n=41
12 sessões de fisioterapia apenas
Lidocaína
n=43
Injeção única de lidocaína apenas
📊 Resultados em Números
Dor (VAS) aos 30 dias - FT+LI
Dor (VAS) aos 30 dias - FT
Dor (VAS) aos 30 dias - LI
Diferença significativa entre grupos
📊 Comparação de Resultados
Escala Visual Analógica de Dor (30 dias)
Este estudo mostrou que tanto a fisioterapia quanto as injeções de lidocaína são igualmente eficazes para tratar a dor miofascial do pescoço e ombro. Combinar os dois tratamentos não ofereceu benefícios adicionais significativos em relação a usar cada um separadamente.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
A síndrome da dor miofascial (SDM) é uma importante causa de dor musculoesquelética crônica, caracterizada pela presença de pontos gatilho miofasciais hipersensíveis que, quando palpados, podem desencadear dor referida característica. Esta condição afeta entre 21% dos pacientes em clínicas ortopédicas até 95% em centros especializados em tratamento da dor. Apesar de sua alta prevalência, existe controvérsia sobre os melhores métodos de tratamento, especialmente quanto à eficácia da combinação de diferentes modalidades terapêuticas. Este ensaio clínico randomizado controlado e simples-cego foi conduzido em dois hospitais de Medellín, Colômbia, com o objetivo de determinar se a injeção de lidocaína em pontos gatilho combinada com um programa de fisioterapia seria mais eficaz do que cada tratamento isolado para melhorar dor, função e qualidade de vida em pacientes com SDM da cintura escapular e região cervical.
O estudo incluiu 127 pacientes com dor no pescoço ou ombro há mais de 6 semanas e pontuação superior a 40mm na escala visual analógica de dor. Os participantes foram randomizados em três grupos: fisioterapia mais injeção de lidocaína (FT+LI, n=43), fisioterapia apenas (FT, n=41) e injeção de lidocaína apenas (LI, n=43). A intervenção de fisioterapia consistiu em 12 sessões de uma hora, três vezes por semana, durante quatro semanas. Cada sessão incluía aplicação de calor e ultrassom, desativação manual dos pontos gatilho através de compressão gradual, técnicas manuais como alongamento profundo, e exercícios específicos de alongamento e fortalecimento para músculos cervicais e da cintura escapular.
A injeção de lidocaína 0,5% sem epinefrina foi administrada uma única vez diretamente nos pontos gatilho usando agulha de 25 ou 26 gauge. O desfecho primário foi a intensidade da dor medida pela escala visual analógica aos 30 dias após o início do tratamento. Os desfechos secundários incluíram avaliação da dor aos 3 meses, função através de manobras específicas mão-dorso e mão-boca, qualidade de vida pelo questionário SF-36 e sintomas depressivos pelo PHQ-9, avaliados em 1 e 3 meses pós-tratamento. Os resultados mostraram que não houve diferenças estatisticamente significativas na pontuação de dor entre os grupos aos 30 dias: FT+LI apresentou media de 40,8 (±25,3), FT 37,8 (±21,9) e LI 44,2 (±24,9), com valores de p>0,05 para todas as comparações.
Similarmente, não foram observadas diferenças significativas nos escores de depressão ou nas dimensões de qualidade de vida do SF-36 em nenhum dos períodos de seguimento. A única diferença funcional significativa foi que os grupos FT e FT+LI apresentaram melhores escores na manobra mão-dorso do membro superior direito comparado ao grupo LI isoladamente, tanto em 1 quanto em 3 meses. Quanto ao uso de analgésicos suplementares, não houve diferenças significativas entre os grupos. As complicações foram mínimas, limitando-se a hematomas localizados em 4 pacientes do grupo FT+LI e 2 do grupo LI, representando taxa de complicação de 2,66% para o total de injeções realizadas.
Estes achados sugerem que tanto a fisioterapia quanto as injeções de lidocaína são igualmente eficazes como tratamentos individuais para SDM, e que a combinação não oferece vantagens significativas adicionais. A fisioterapia mostrou leve vantagem na melhoria da função do membro superior direito, o que pode ser clinicamente relevante para pacientes com limitações funcionais específicas. Do ponto de vista clínico, estes resultados são importantes porque demonstram que diferentes abordagens terapêuticas podem ser igualmente válidas, permitindo individualização do tratamento baseada nas preferências do paciente, disponibilidade de recursos e considerações de custo-benefício. As injeções de lidocaína representam uma opção de baixo custo que pode ser repetida quando necessário, enquanto a fisioterapia oferece benefícios funcionais adicionais que podem ser particularmente valiosos para a reabilitação a longo prazo.
Pontos Fortes
- 1Desenho randomizado controlado com cegamento adequado
- 2Tamanho amostral apropriado com cálculo de poder estatístico
- 3Múltiplos desfechos incluindo dor, função e qualidade de vida
- 4Seguimento de médio prazo (3 meses)
- 5Protocolos padronizados para ambas as intervenções
Limitações
- 1Múltiplos fisioterapeutas e médicos realizaram as intervenções
- 2Ausência de grupo placebo ou lista de espera para comparação
- 3Seguimento limitado a 3 meses sem avaliação de recidivas a longo prazo
- 4Não utilizou medidas funcionais validadas como DASH
- 5Heterogeneidade conhecida dos estudos com pontos gatilho miofasciais
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65523 / 65524 / 655241
▸ Relevância Clínica
A síndrome da dor miofascial cervical e da cintura escapular representa um volume expressivo dos atendimentos em serviços de dor e reabilitação, e a questão prática que este ensaio enfrenta — combinar intervenções agrega valor ou não? — é exatamente o tipo de dilema que enfrentamos nas consultas diárias. O achado central, de equivalência entre fisioterapia isolada, injeção de lidocaína isolada e a combinação das duas, tem implicação direta na alocação de recursos: para o paciente sem acesso regular a serviço de fisioterapia, a injeção única de lidocaína nos pontos-gatilho oferece resultado comparável em dor, desfecho funcional e qualidade de vida. Para o paciente com demanda funcional relevante do membro superior direito, a fisioterapia estruturada mostrou superioridade discreta, o que justifica sua indicação preferencial nesse perfil. A decisão terapêutica pode, portanto, ser guiada por disponibilidade, custo e funcionalidade-alvo, sem que haja penalização clinicamente significativa.
▸ Achados Notáveis
O dado mais digno de atenção não é a equivalência em dor — que era esperada por muitos clínicos experientes —, mas sim a vantagem funcional da fisioterapia sobre a injeção isolada na manobra mão-dorso do membro superior direito, mantida tanto aos 30 dias quanto aos 3 meses. Isso sugere que a desativação manual dos pontos-gatilho associada ao trabalho ativo de alongamento e fortalecimento gera ganho de arco de movimento que a abordagem injetável, por si só, não sustenta. Um segundo aspecto que merece atenção é a ausência de diferença nos escores de depressão pelo PHQ-9 entre os grupos: a carga emocional associada à SDM respondeu de forma equivalente a qualquer das intervenções, indicando que o alívio da dor somática per se já modifica o eixo afetivo, independentemente da estratégia técnica empregada.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor musculoesquelética, tenho observado que boa parte dos pacientes com SDM cervical chega já tendo tentado analgésicos orais sem resultado satisfatório, e a pergunta recorrente é se a injeção substitui ou complementa a fisioterapia. O que este estudo confirma é o que costumo orientar empiricamente: a injeção de lidocaína funciona bem como intervenção de resgate — especialmente quando o paciente está em fase álgica intensa e não consegue aderir adequadamente às sessões de fisioterapia — mas dificilmente resolve o padrão postural e a disfunção de recrutamento muscular que perpetuam os pontos-gatilho. Costumo ver resposta analgésica perceptível já na primeira semana pós-injeção, com platô por volta das três a quatro semanas. Para manutenção funcional, prefiro associar ao menos oito a dez sessões de fisioterapia ativa. O perfil que responde melhor à injeção isolada é o trabalhador que não pode se ausentar frequentemente para sessões, mas que ainda tem boa reserva funcional basal.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
BMC Musculoskeletal Disorders · 2016
DOI: 10.1186/s12891-016-0949-3
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
Artigos Relacionados
Baseado nas categorias deste artigo