Os sobreviventes de câncer enfrentam um desafio que vai além da remissão da doença: a dor musculoesquelética crônica — presente em 30% a 40% desta população — compromete progressivamente a função dos membros, reduz a capacidade de realizar atividades cotidianas e piora substancialmente a qualidade de vida. O ensaio PEACE (Personalized Electro-acupuncture versus Auricular Acupuncture Comparative Effectiveness), conduzido pelo Memorial Sloan Kettering Cancer Center de Nova York entre 2017 e 2019, foi o maior ensaio clínico randomizado até então a comparar duas modalidades de acupuntura com um grupo controle em sobreviventes de câncer com dor crônica. Uma análise secundária publicada em novembro de 2025 no periódico Current Oncology acrescenta uma dimensão fundamental ao estudo original: a recuperação funcional dos membros superiores e inferiores.
O trabalho, coordenado por Lingyun Sun (Hospital Xiyuan, Academia Chinesa de Ciências Médicas) e Jun J. Mão (Memorial Sloan Kettering), analisou 360 pacientes com diagnóstico prévio de câncer e dor musculoesquelética crônica (duração >3 meses, BPI >4). A média de idade foi de 62,1 ± 12,7 anos; 69,7% eram mulheres e 24,4% não brancos. O tipo de câncer mais prevalente foi mama (45,8%), seguido de linfoma (14,2%), próstata (11,4%) e outros. Os pacientes foram randomizados em razão 2:2:1 para eletroacupuntura (EA, n=145), acupuntura auricular (AA, n=143) ou lista de espera (controle, n=72).
MELHORA FUNCIONAL VS. CONTROLE (LISTA DE ESPERA) — SEMANA 12
O Ensaio PEACE e Seus Braços de Tratamento
Os pacientes do grupo eletroacupuntura receberam 10 sessões de 30 minutos ao longo de 10 semanas, com estimulação elétrica de 2 Hz aplicada em quatro acupontos próximos à região de maior dor. O grupo de acupuntura auricular recebeu o protocolo de "battlefield acupuncture" — desenvolvido originalmente para o tratamento de dor em ambiente militar —, com até 10 agulhas semipermanentes em acupontos auriculares específicos, mantidas por 3 a 4 dias entre as sessões. O grupo controle (lista de espera) manteve seu manejo habitual da dor, incluindo medicamentos, fisioterapia ou injeções, sem restrição.
Os desfechos funcionais foram avaliados por duas escalas amplamente validadas: o Quick Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand (Q-DASH) para função dos membros superiores (0–100, maiores valores = maior incapacidade) e o Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC) — subescala de função física — para membros inferiores (0–100, maiores valores = maior incapacidade). Os pacientes foram avaliados nas semanas 4, 10, 12, 16 e 24.
Membros Superiores vs. Inferiores: Padrões Distintos de Recuperação
Ambas as modalidades mostraram benefícios significativos em membros superiores (Q-DASH) e inferiores (WOMAC) na semana 12, sem diferença entre EA e AA nos dois desfechos (Q-DASH p=0,068; WOMAC p=0,61). Contudo, os padrões de manutenção ao longo do tempo diferiram entre os segmentos anatômicos. Para os membros superiores, os ganhos no Q-DASH atingiram pico na semana 10 (EA: −9,42; AA: −10,85 vs. controle), mantiveram-se na semana 12 e apresentaram declínio parcial na semana 24 (EA: −7,46; AA: −9,89), com aumento significativo de aproximadamente 2,4 pontos em ambos os grupos (p ≈ 0,02) — indicando que os benefícios para membros superiores diminuem gradualmente após o término das sessões.
Para os membros inferiores (WOMAC), o padrão foi mais favorável: os ganhos da semana 12 (EA: −10,73; AA: −11,45 vs. controle) mantiveram-se praticamente estáveis até a semana 24 (EA: −10,32; AA: −9,78), sem declínio estatisticamente significativo. Ambos os grupos de acupuntura atingiram na semana 12 a diferença mínima clinicamente importante (DMCI) estabelecida em 11 pontos para o WOMAC — um limiar que o grupo controle não alcançou em nenhum momento do seguimento.
Perguntas Frequentes
O ensaio PEACE foi conduzido com sobreviventes de câncer (não em tratamento ativo quimioterápico na maioria), mas a literatura de segurança em oncologia ativa é ampla. Em pacientes imunossuprimidos ou com contagem de plaquetas reduzida, o médico acupunturista deve adaptar o protocolo: evitar agulhamento em áreas de linfedema, respeitar limiar de plaquetas (geralmente >50.000/μL para acupuntura padrão), e preferir auriculopressão com sementes (não agulhas) em pacientes com neutropenia grave. A decisão deve ser individualizada e integrada à equipe oncológica responsável.
O Quick-DASH (Quick Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand) é uma versão abreviada de 11 itens do instrumento DASH, que avalia a capacidade de realizar atividades cotidianas com membros superiores (escrever, carregar objetos, abrir portas). A escala vai de 0 (sem incapacidade) a 100 (incapacidade máxima). A Diferença Mínima Clinicamente Importante (DMCI) é de 12 a 15 pontos. Neste estudo, os ganhos da eletroacupuntura (−7,18) ficaram abaixo da DMCI, enquanto os da auriculoterapia (−9,64) se aproximaram do limiar. Isso indica melhora estatisticamente significativa e clinicamente relevante para a maioria dos pacientes, embora não todos atinjam o limiar de mudança perceptível pelo paciente.
Os autores especulam que a diferença pode refletir distinções na biomecânica e na fisiopatologia da dor: dor de joelho/quadril (predominante nos membros inferiores da amostra) frequentemente têm componente inflamatório e articular que responde com mais durabilidade à modulação neuroinflamatória da acupuntura, enquanto a dor de ombro/braço (frequente em sobreviventes de câncer de mama) pode ter componente maior de hipersensibilidade central e neuropatia periférica, mais sujeita a recidiva. Está hipótese requer confirmação em estudos específicos.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
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