A artroplastia total de joelho (ATJ) é um dos procedimentos cirúrgicos ortopédicos mais realizados no mundo, com mais de 1 milhão de procedimentos anuais nos Estados Unidos. A dor aguda pós-operatória é intensa e a recuperação funcional é lenta — fatores que impactam diretamente a satisfação do paciente e os custos hospitalares. A analgesia multimodal (combinação de AINEs, opioides, anestésicos locais e bloqueios nervosos) é o padrão atual, mas têm limitações: efeitos adversos gastrointestinais, dependência de opioides e recuperação funcional incompleta. Uma meta-análise em rede publicada na Frontiers in Neurology em março de 2024 avaliou quatro modalidades acupunturais como adjuvantes à analgesia multimodal na ATJ, reunindo 41 ensaios clínicos randomizados e 3.003 pacientes.
O estudo comparou quatro modalidades: acupuntura convencional (ACU), eletroacupuntura (EA), estimulação elétrica transcutânea de acupontos (TEAS) e auriculoterapia com acupuntura (AAT) — todas como adjuvantes à analgesia multimodal padrão (MA). Os desfechos avaliados foram: intensidade da dor por EVA em diferentes momentos (1, 3, 7 dias pós-operatório), função do joelho pela escala HSS (Hospital for Special Surgery), consumo de opioides, náuseas/vômitos pós-operatórios (PONV) e eventos adversos. A análise utilizou modelo de efeitos aleatórios com abordagem bayesiana e calculou rankings SUCRA para cada intervenção em cada desfecho.
RESULTADOS PRINCIPAIS — 41 RCTS, 3.003 PACIENTES
Cada modalidade têm seu perfil de excelência
O achado mais clinicamente relevante desta NMA é que as quatro modalidades acupunturais se complementam em vez de competir — cada uma lidera em um desfecho diferente, permitindo uma estratégia terapêutica integrada e personalizada. A TEAS (Estimulação Elétrica Transcutânea de Acupontos) mostrou o melhor controle analgésico ao 7º dia pós-operatório (SMD=0,67, IC 0,01–1,32), período em que o paciente geralmente já está em reabilitação intensa com fisioterapia. A acupuntura convencional (ACU) liderou na recuperação funcional do joelho pela escala HSS (SMD=6,45), seguida de perto pela EA (SMD=4,89) e TEAS (SMD=5,31) — todos superiores à analgesia multimodal isolada. A auriculoterapia (AAT) se destacou no desfecho de segurança, com a menor taxa de eventos adversos, tornando-a ideal para pacientes de alto risco ou com múltiplas comorbidades.
Redução do consumo de opioides: implicação estratégica
Um desfecho secundário importante desta meta-análise foi a redução do consumo de opioides pós-operatórios com a adição de modalidades acupunturais à analgesia multimodal. Todas as quatro modalidades contribuíram para a poupança de opioides, com a TEAS e a EA mostrando os melhores resultados nesse desfecho. No contexto da crise de opioides — que afeta não apenas os EUA mas têm crescente relevância no Brasil —, essa propriedade poupadora de morfina têm implicações clínicas e de saúde pública importantes. A redução de 20–30% no consumo de opioides pós-ATJ se traduz em menor incidência de náuseas/vômitos (PONV), menor risco de íleo pós-operatório, alta hospitalar mais rápida e menor risco de dependência no pós-operatório tardio.
Perguntas Frequentes
A acupuntura com agulhas deve ser realizada a distância da ferida cirúrgica durante as primeiras semanas de cicatrização — os pontos periarticulares devem evitar a área de incisão e retalhos cirúrgicos. Para o período imediato pós-operatório (primeiras 48–72h), a TEAS (estimulação elétrica sobre a pele sem punção) é a alternativa mais segura, pois não há risco de contaminação da ferida. A partir da segunda ou terceira semana, quando a cicatrização primária está consolidada, a acupuntura convencional pode ser progressivamente introduzida nos pontos periarticulares com técnica estéril adequada.
Os estudos incluídos utilizaram tipicamente entre 3 e 14 sessões, com maior efeito observado em protocolos de 10-14 sessões ao longo de 4-6 semanas. A duração deve ser individualizada pelo médico acupunturista conforme a evolução clínica: pacientes com boa resposta nas primeiras sessões podem completar o protocolo em 6–8 semanas, enquanto casos de maior complexidade (obesidade severa, fibromialgia associada) podem se beneficiar de protocolos mais longos.
Não — a acupuntura é adjuvante, não substituta. A fisioterapia permanece como o pilar central da reabilitação funcional pós-ATJ, responsável pela recuperação da amplitude de movimento, fortalecimento muscular e treino de marcha. O papel da acupuntura é potencializar a fisioterapia: ao reduzir a dor e o edema pós-operatório, permite que o paciente tolere melhor e com maior intensidade os exercícios fisioterápicos. Os melhores resultados funcionais (SMD=6,45 na escala HSS) foram obtidos justamente quando a acupuntura foi associada à analgesia multimodal — que inclui fisioterapia — e não como intervenção isolada.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
