A endometriose afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo — uma estimativa que representa cerca de 190 milhões de pessoas. É uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, mais frequentemente no peritônio, ovários e trompas, causando dismenorreia severa, dor pélvica crônica, dispareunia e, em muitos casos, infertilidade. Apesar do impacto enorme na qualidade de vida, o diagnóstico é frequentemente retardado em mais de 7 anos após o início dos sintomas. O tratamento convencional — contraceptivos hormonais, progestágenos, análogos do GnRH, cirurgia laparoscópica — é eficaz, mas frequentemente insuficiente para controle completo da dor, com recidivas frequentes e efeitos colaterais que limitam a adesão a longo prazo. Uma meta-análise publicada nas Archives of Gynecology and Obstetrics em outubro de 2024 consolida, pela primeira vez de forma abrangente, a evidência sobre o uso da acupuntura para dor associada à endometriose: 14 ensaios clínicos randomizados e 793 pacientes, com resultados clinicamente significativos para dor, taxa de resposta e biomarcador inflamatório.
O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Cong Chen, Xuhao Li, Shiyou Lu, Jiguo Yang e Yuanxiang Liu, com busca sistemática em oito bases de dados — PubMed, EMBASE, Cochrane Library, Web of Science, CNKI, CBM, WanFang e Weipu — cobrindo públicações desde a criação de cada banco até dezembro de 2022. Dois revisores independentes realizaram triagem, extração de dados e avaliação da qualidade metodológica usando a ferramenta Cochrane de risco de viés. A análise estatística empregou o software Stata. Os 14 ensaios incluídos compararam diferentes formas de acupuntura (convencional, eletroacupuntura, auricular, agulhamento quente e acupuntura de fogo) contra placebo, medicina tradicional chinesa e tratamentos convencionais ocidentais.
META-ANÁLISE DE ACUPUNTURA PARA ENDOMETRIOSE (ARCHIVES OF GYNECOLOGY AND OBSTETRICS, OUTUBRO 2024)
Mecanismos: Como a Acupuntura Atua na Endometriose
A fisiopatologia da dor na endometriose é multifatorial: inflamação peritoneal crônica com liberação de prostaglandinas, interleucinas e TNF-α; sensibilização central das vias nociceptivas pélvicas; crescimento de fibras nervosas simpáticas e sensoriais para dentro das lesões ectópicas; e desregulação do eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal que perpetua a inflamação. A acupuntura atua em múltiplos desses mecanismos simultaneamente, o que pode explicar a magnitude do efeito observado na meta-análise (SMD -1,10 — classificado como de grande magnitude segundo os critérios de Cohen).
Resultados: Dor, Resposta Clínica, CA-125 e Subgrupos
O desfecho primário — redução da dor (dismenorreia e dor pélvica crônica) — mostrou diferença padronizada de médias (SMD) de -1,10 (IC 95% -1,45 a -0,75; P<0,001). Para contexto: SMD menor que -0,5 é considerado efeito moderado, e menor que -0,8, efeito grande — o -1,10 está na faixa de efeito muito grande, clinicamente expressivo. A taxa de resposta clínica global (melhora sintomática global avaliada por critérios dos ensaios individuais) foi significativamente maior no grupo de acupuntura: RR 1,25 (IC 95% 1,09–1,44; P=0,02) — ou seja, um quarto a mais de pacientes respondeu adequadamente ao tratamento em comparação com os controles.
O marcador sérico CA-125 — embora não específico para endometriose, é amplamente utilizado no monitoramento da atividade da doença — também reduziu significativamente no grupo de acupuntura (SMD -0,62; IC 95% -1,15 a -0,08; P=0,024). Esse dado é relevante porque sugere que a acupuntura não apenas reduz a percepção de dor, mas atua sobre o componente inflamatório subjacente à doença. Na análise de subgrupo por modalidade: eletroacupuntura e acupuntura auricular mostraram reduções de dor superiores às demais modalidades, enquanto agulhamento quente (warm needling) e acupuntura auricular lideraram a eficácia clínica global. Curiosamente, a acupuntura de fogo e a eletroacupuntura não demonstraram diferença significativa para dor em relação ao controle no subgrupo isolado — resultado que deve ser interpretado com cautela dado o número reduzido de estudos nessas categorias específicas.
Perguntas Frequentes
Não. A cirurgia laparoscópica é o tratamento de escolha para endometriose moderada a grave (estágios III-IV de acordo com a ASRM), especialmente quando há endometriomas ovarianos, aderências extensas ou infertilidade relacionada à doença. A acupuntura se posiciona como adjuvante no controle da dor e da inflamação — podendo reduzir a necessidade de analgésicos e a intensidade dos sintomas antes e após a cirurgia. Em endometriose leve (estágios I-II) com dor como queixa principal e sem compromisso de fertilidade imediato, a acupuntura pode ser considerada parte do manejo conservador integrado com tratamento hormonal. A decisão terapêutica deve ser compartilhada com o ginecologista responsável.
Os ensaios desta meta-análise utilizaram protocolos variados — em geral, entre 8 e 24 sessões ao longo de 1 a 3 meses. Em estudos incluídos na meta-análise, a dor pélvica crônica respondeu tipicamente em 4 a 6 semanas (2-3 sessões semanais); a dismenorreia, em 2 a 3 ciclos menstruais. A frequência e duração devem ser individualizadas pelo médico acupunturista. Sessões de manutenção (1×/semana ou 1×/mês) são comuns após a fase intensiva para preservar os benefícios.
Não existem evidências de interação farmacológica entre a acupuntura e os tratamentos hormonais convencionais para endometriose. A acupuntura pode ser realizada concomitantemente com contraceptivos orais, progestágenos, DIU hormonal ou análogos do GnRH. Os mecanismos são complementares, não competitivos: o tratamento hormonal atua suprimindo a estimulação estrogênica das lesões, enquanto a acupuntura modula a resposta inflamatória e nociceptiva. Em pacientes que apresentam melhora significativa da dor com a acupuntura, o ginecologista pode avaliar a possibilidade de reduzir a dose do tratamento hormonal — decisão clínica que deve ser feita com acompanhamento médico adequado.
Fonte Original
Archives of Gynecology and Obstetrics(em inglês)Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
