A fasciíte plantar é a causa mais comum de dor no calcanhar, afetando cerca de 10% da população ao longo da vida e sendo particularmente prevalente em corredores, trabalhadores que ficam longos períodos em pé e pessoas com excesso de peso. Apesar da diversidade de tratamentos disponíveis — desde fisioterapia e palmilhas até injeções de corticosteroide e ondas de choque extracorpóreas —, não havia até recentemente um consenso baseado em comparações indiretas sobre qual intervenção oferece o maior benefício analgésico. Uma meta-análise em rede publicada na Cureus em setembro de 2024 preenche essa lacuna, reunindo 32 ensaios clínicos e 2.390 participantes para ranquear sistematicamente as principais intervenções para fasciíte plantar.
O estudo comparou acupuntura (incluindo acupuntura convencional, eletroacupuntura e acupuntura em pontos-gatilho), terapia de ondas de choque extracorpóreas (ESWT), ultrassonografia terapêutica (USG), infiltração de corticosteroide (CSI), plasma rico em plaquetas (PRP) e exercícios de alongamento (controle ativo), além de placebo/controle inativo. O desfecho primário foi intensidade da dor (EVA ou VAS), avaliado em diferentes momentos: imediatamente após o tratamento, 1 mês e 3 meses. O ranking SUCRA foi calculado para cada intervenção em cada período de follow-up.
RESULTADOS PRINCIPAIS — 32 ENSAIOS, 2.390 PARTICIPANTES
Resultados por período de follow-up
A meta-análise em rede revelou um padrão temporal importante: o benefício das diferentes intervenções varia conforme o momento de avaliação. Ao 1 mês, a acupuntura apresentou o maior efeito analgésico, com MD=−1,33 pontos na EVA em comparação ao placebo — superando a infiltração de corticosteroide (efeito imediato mais forte, mas sem vantagem sustentada), o PRP e as ondas de choque. Essa posição de liderança ao 1 mês é clinicamente relevante pois corresponde ao período de maior impacto funcional da fasciíte plantar — os primeiros passos matinais com dor intensa e a restrição das atividades cotidianas.
Comparação com corticosteroide e PRP: o fator tempo
A análise temporal revelou que a infiltração de corticosteroide produz alívio mais imediato (semanas 1–2), mas perde eficácia ao longo do tempo — e com risco de ruptura da fáscia plantar com injeções repetidas. O PRP apresenta efeito crescente ao longo do tempo (maior eficácia aos 3–6 meses), enquanto a acupuntura demonstra eficácia consistente ao 1 mês com potencial de manutenção nos meses seguintes. A terapia de ondas de choque (ESWT) mostrou perfil de eficácia mais favorável nos casos crônicos (mais de 6 meses de evolução), onde a calcificação e a degeneração fascial podem responder melhor ao trauma mecânico controlado. Esses achados sugerem que a escolha da intervenção deve ser individualizada com base na cronicidade do caso e nas características do paciente.
Perguntas Frequentes
A fasciíte plantar tende a resolver naturalmente em 12–18 meses na maioria dos casos, mas pode persistir ou recorrer sem correção dos fatores causais (calçado inadequado, biomecânica alterada, encurtamento muscular). A acupuntura acelera a resolução dos sintomas e, ao tratar os pontos-gatilho nos músculos que sobrecarregam a fáscia, pode contribuir para prevenir recorrências — mas não substitui a correção dos fatores predisponentes. Pacientes que combinam acupuntura com alongamento regular, palmilha personalizada e fortalecimento dos intrínsecos do pé têm as melhores taxas de resolução duradoura.
Não necessariamente. A restrição absoluta da atividade física raramente é necessária e pode ser contraproducente para atletas. O médico deve orientar a modificação da carga de treino — redução de volume e intensidade, substituição temporária por atividades sem impacto (natação, ciclismo) e progressão gradual com monitoramento da dor. A acupuntura pode ser iniciada mesmo durante a fase de redução do treino, e muitos corredores conseguem manter atividade moderada ao longo do tratamento. A decisão deve ser individualizada com base na gravidade dos sintomas e no nível de atividade do paciente.
A acupuntura é preferível para casos agudos e subagudos (menos de 6 meses de evolução), para pacientes com dor intensa que limita a tolerância às ondas de choque (que são desconfortáveis), para aqueles com contraindicações às ondas de choque (gestantes, marcapasso, coagulopatias) e quando se deseja uma abordagem que também trate os pontos-gatilho musculares associados. As ondas de choque têm vantagem reconhecida nos casos crônicos com calcificação calcânea, onde o trauma mecânico controlado promove remodelação da calcificação. Em casos complexos, a combinação das duas abordagens pode ser discutida com o médico assistente.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
