A fertilização in vitro (FIV) é um dos procedimentos médicos mais exigentes do ponto de vista emocional e físico. Injeções diárias de gonadotrofinas, monitoramento ecográfico frequente, punção ovariana sob sedação e transferência de embrião compõem um protocolo que se estende por semanas e impõe carga significativa sobre o bem-estar das pacientes. Evidências consistentes demonstram que ansiedade elevada durante o ciclo de FIV associa-se a menor taxa de implantação, maior taxa de abandono do tratamento e pior qualidade de vida durante o processo reprodutivo assistido.
Um estudo retrospectivo conduzido pelo University Hospitals Connor Whole Health e pelo UH Fertility Center, em colaboração com a Case Western Reserve University School of Medicine, analisou 1.896 sessões de tratamento integrativo em 146 pacientes ao longo de 202 ciclos de transferência de embrião entre 2019 e 2022. Publicado em junho de 2025 no Global Advances in Integrative Medicine and Health, o estudo gerou ampla cobertura na mídia americana e representa uma das maiores séries de dados sobre acupuntura integrada à FIV em centro universitário ocidental.
ACUPUNTURA INTEGRADA À FIV — UNIVERSITY HOSPITALS CLEVELAND
Desenho do estudo e população
Trata-se de uma análise retrospectiva de dados coletados prospectivamente em um dos maiores centros de fertilidade universitários dos Estados Unidos. As pacientes foram atendidas no programa de medicina integrativa do UH Connor Whole Health, integrado ao protocolo de reprodução assistida do UH Fertility Center. Os tratamentos incluíram acupuntura médica e técnicas complementares da Medicina Tradicional Chinesa como parte de um protocolo sistematizado (Whole Systems Traditional Chinese Medicine — WS-TCM).
Os sintomas de ansiedade, estresse e dor foram avaliados antes e após cada sessão utilizando escalas numéricas de 10 pontos, permitindo mensurar o efeito agudo de cada tratamento individual. Ao todo, 1.896 sessões foram analisadas. Em 88,6% dos ciclos de FIV, as pacientes receberam tratamento no próprio dia da transferência do embrião — o momento de maior carga emocional e física do processo. Em 64,9% dos ciclos, o tratamento também foi integrado nas semanas que antecederam a transferência, promovendo preparação do sistema neuroendócrino antes do procedimento principal.
Resultados: redução aguda e consistente
Os três desfechos avaliados apresentaram reduções clinicamente relevantes. A ansiedade — o sintoma mais prevalente na população estudada — registrou queda média de 2,2 pontos em uma escala de 10 unidades, equivalente a uma redução de mais de 20% do escore basal. O estresse apresentou redução semelhante de 2,1 pontos, e a dor — relevante especialmente no contexto da punção ovariana e das injeções de progesterona — registrou queda de 1,4 pontos. Essas reduções foram consistentes ao longo dos diferentes ciclos de tratamento, sugerindo que o efeito não se atenua com a repetição.
Um dado particularmente relevante é o perfil de saúde mental da amostra: mais de 25% das pacientes apresentavam diagnósticos de saúde mental documentados em prontuário, sendo a ansiedade o diagnóstico mais frequente. Isso indica que a população atendida não era composta apenas por pacientes com estresse situacional leve, mas incluía mulheres com vulnerabilidade psiquiátrica pré-existente — exatamente o grupo que mais se beneficia de intervenções complementares não farmacológicas durante a FIV.
INTEGRAÇÃO AO PROTOCOLO DE FIV
Contexto: por que o manejo do estresse importa na FIV
A relação entre estresse psicológico e desfechos reprodutivos é biologicamente plausível e clinicamente documentada. Mecanismos propostos incluem que a ativação crônica do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) durante o estresse elevado leva à liberação sustentada de cortisol, que interfere na pulsatilidade do GnRH, na receptividade endometrial e na qualidade oocitária. Estudos prospectivos têm associado pacientes com escores mais elevados de ansiedade antes da transferência de embrião a taxas de implantação significativamente menores. Portanto, reduzir a ansiedade durante a FIV não é um objetivo secundário de conforto — é uma estratégia potencialmente relevante para o sucesso do procedimento.
Nesse contexto, a acupuntura médica apresenta vantagem importante sobre as alternativas farmacológicas: os ansiolíticos mais eficazes (benzodiazepínicos) são contraindicados durante a gestação potencial, e os antidepressivos com ação ansiolítica (ISRSs) apresentam preocupações teratogênicas no primeiro trimestre. A acupuntura oferece modulação do eixo HPA e do sistema nervoso autônomo sem exposição farmacológica — uma característica particularmente relevante no período peri-implantação.
Perguntas Frequentes
Este estudo específico não avaliou taxa de gravidez como desfecho — seu foco foi a redução de sintomas emocionais e dolorosos. No entanto, meta-análises anteriores (incluindo estudos com acupontos específicos para receptividade endometrial) sugerem benefício em taxas de implantação quando a acupuntura é realizada no período peri-transferência. O médico deve apresentar ao paciente que a acupuntura têm evidência favorável (ainda que derivada principalmente de estudos observacionais) para redução de ansiedade e estresse, e evidência sugestiva (mas ainda não conclusiva) para aumento de taxas de gravidez.
O protocolo deste estudo incluiu sessões ao longo de semanas antes da transferência (64,9% dos ciclos) e obrigatoriamente no dia da transferência (88,6%). Na prática, um protocolo típico inclui 1 a 2 sessões semanais durante as 2 a 4 semanas de estimulação hormonal, mais uma sessão pré-punção e uma no dia da transferência. O número total varia de 6 a 10 sessões por ciclo, dependendo do protocolo de FIV e da resposta individual.
Sim, e este estudo reforça essa prática: 88,6% dos ciclos incluíram tratamento no dia da transferência. A sessão tipicamente ocorre antes e/ou após a transferência, em ambiente calmo e próximo ao centro de reprodução assistida. Não há contraindicação conhecida para a realização de acupuntura no dia da transferência, e o benefício sobre a ansiedade aguda nesse momento é especialmente relevante. O médico acupunturista deve coordenar os horários com a equipe de reprodução humana.
A acupuntura médica não utiliza substâncias farmacológicas e não interfere diretamente no processo de implantação. Neste estudo com 1.896 sessões e 202 transferências, não foram reportados eventos adversos relacionados ao tratamento. Pontos considerados classicamente contraindicados na gravidez (como certos pontos abdominais e sacros) são evitados por precaução. O perfil de segurança da acupuntura no contexto de FIV é favorável quando praticada por médico, com eventos adversos predominantemente locais e transitórios. Meta-análises recentes identificaram sinal de possível associação com aborto precoce que ainda requer esclarecimento causal.
Fonte Original
Global Advances in Integrative Medicine and Health(em inglês)Estudo Científico
DOI: 10.1177/27536130251349116Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
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