A fertilização in vitro (FIV) representa uma das maiores conquistas da medicina reprodutiva, mas suas taxas de sucesso ainda deixam a maioria dos casais sem um embrião viável após cada tentativa. O estresse físico e emocional dos ciclos de estimulação ovariana, das coletas e das transferências de embriões cria um cenário em que intervenções complementares que melhorem não apenas os desfechos reprodutivos, mas também a experiência da paciente, têm enorme valor clínico. A acupuntura têm sido estudada nesse contexto há mais de duas décadas — e agora a maior meta-análise já publicada em língua inglesa sobre o tema oferece uma avaliação abrangente e atualizada da evidência disponível.
Conduzida por Qin-Wei Fu, Shao-Mi Zhu, Ji Chen e colaboradores, e publicada no International Journal of Nursing Studies (Volume 168, agosto de 2025, DOI: 10.1016/j.ijnurstu.2025.105097), o estudo analisou 42 ensaios clínicos randomizados extraídos de 37 artigos publicados, totalizando 7.400 mulheres submetidas a ciclos de FIV. O registro foi prospectivo no PROSPERO (CRD42020206012), e a análise incluiu análise sequencial de ensaios (trial sequential analysis — TSA) para verificar se o acúmulo de evidências já atingiu o poder estatístico necessário para conclusões definitivas.
DIMENSÕES DO ESTUDO
Metodologia: sham e controle em branco como comparadores
A revisão comparou acupuntura manual ou eletroacupuntura (EA) aplicadas de forma adjuvante aos ciclos de FIV contra dois tipos de controle: acupuntura sham (agulhas retrácteis ou aplicadas em pontos não terapêuticos) e controle em branco (waitlist ou cuidado habitual sem intervenção). As intervenções de acupuntura foram administradas em diferentes momentos do ciclo — durante a estimulação ovariana controlada, no dia da coleta de oócitos ou no dia da transferência de embriões. A análise sequencial de ensaios (TSA) foi empregada para avaliar a robustez das conclusões e identificar se o tamanho amostral acumulado já fornece evidência definitiva para cada desfecho. Os desfechos primários avaliados incluíram taxa de gravidez bioquímica, gravidez clínica, nascido vivo, aborto espontâneo precoce, dor durante o procedimento e níveis de ansiedade.
Resultados: benefícios reprodutivos e um sinal de atenção
Os resultados principais mostram que a acupuntura melhora significativamente a taxa de gravidez bioquímica (RR=1,28; IC95%: 1,04–1,57; p<0,05) e a taxa de gravidez clínica (RR=1,19; IC95%: 1,06–1,34; p<0,05) em comparação com acupuntura sham ou controle em branco. Em termos práticos, uma RR de 1,19 para gravidez clínica significa que mulheres que receberam acupuntura tiveram 19% mais chance de confirmar uma gravidez clinicamente detectável por ultrassom. Adicionalmente, a acupuntura foi associada a menor dor durante os procedimentos e redução nos escores de ansiedade (STAI e VAS) nas pacientes submetidas à punção folicular e transferência de embriões. Contudo, o estudo também identificou uma razão de risco elevada para aborto espontâneo precoce (RR=1,51; IC95%: 1,10–2,08) no grupo de acupuntura — um achado que os autores destacam como importante alerta e que requer investigação adicional para determinar se reflete associação causal ou é mediado pelo aumento de gestações confirmadas (maior denominador de gestações que podem resultar em perda precoce). As taxas de nascido vivo, embora com tendência favorável, não atingiram significância estatística.
RESULTADOS POR DESFECHO
Perguntas Frequentes
Esta meta-análise não determinou o timing ideal, pois os estudos utilizaram diferentes momentos de intervenção. O protocolo mais amplamente estudado — e que aparece com maior frequência nos ensaios incluídos — é a acupuntura realizada no dia da transferência de embriões, com sessões antes e após o procedimento. Alguns ensaios também incluíram acupuntura durante a estimulação ovariana. Clinicamente, a recomendação é discutir com o médico acupunturista e a equipe de reprodução assistida o protocolo mais adequado ao perfil individual, priorizando qualidade da técnica sobre quantidade de sessões.
O sinal é real e deve ser levado a sério — o risco relativo de 1,51 para aborto precoce é estatisticamente significativo. No entanto, há uma hipótese plausível de que parte desse aumento reflita um "viés de denominador": com mais gestações se confirmando bioquimicamente no grupo de acupuntura (RR=1,28), há naturalmente mais gestações passíveis de aborto precoce. Estudos futuros que controlem esse efeito são necessários. Por ora, a recomendação é avaliação individualizada — especialmente em pacientes com histórico de abortamento —, com discussão transparente sobre benefícios e incertezas antes de iniciar o tratamento.
Não. A acupuntura deve ser utilizada exclusivamente como intervenção complementar ao protocolo médico de FIV, nunca como substituta de suporte luteal com progesterona, agonistas de GnRH ou outros componentes do protocolo de reprodução assistida. A atuação do médico acupunturista nesse contexto é de integração e suporte — sempre em comunicação com a equipe de reprodução —, com objetivo de potencializar desfechos reprodutivos e melhorar a experiência da paciente, não de substituir intervenções farmacológicas com evidência consolidada.
Fonte Original
International Journal of Nursing Studies(em inglês)Estudo Científico
DOI: 10.1016/j.ijnurstu.2025.105097Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
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