A fadiga relacionada ao câncer (FRC) é o sintoma mais prevalente e debilitante entre pacientes em tratamento oncológico e sobreviventes — afetando 60% a 90% dos pacientes sob quimioterapia e radioterapia, e persistindo por meses ou anos após o término do tratamento. Diferentemente da fadiga fisiológica comum, a FRC não é aliviada pelo repouso e interfere profundamente nas atividades diárias, qualidade de vida e adesão ao tratamento oncológico. Não há, até o momento, fármaco aprovado com eficácia robusta para o manejo específico da FRC, tornando as intervenções não farmacológicas baseadas em evidências particularmente relevantes.
Uma revisão integrativa publicada em fevereiro de 2026 no Supportive Care in Cancer (Springer), conduzida por Tan e colaboradores, sintetiza uma década de evidências (2015–2025) de bancos de dados em inglês e chinês, incluindo 13 ensaios clínicos randomizados com 919 participantes portadores de diversos tipos de câncer. O trabalho se diferência de revisões anteriores por propor recomendações clínicas práticas organizadas em três protocolos distintos — permitindo ao médico acupunturista selecionar a abordagem mais adequada à fase e ao contexto do tratamento oncológico de cada paciente.
UMA DÉCADA EM NÚMEROS: DADOS DA REVISÃO
Metodologia: integração de evidências em inglês e chinês
Uma das contribuições metodológicas distintivas desta revisão é a inclusão de bases de dados em língua chinesa — além das tradicionais bases em inglês (PubMed, Cochrane, Embase, CINAHL, Scopus, Web of Science e PsycINFO). Isso permitiu capturar ECRs publicados em periódicos chineses que frequentemente não são indexados em revisões ocidentais, ampliando significativamente o corpo de evidências analisado. Os 13 estudos incluídos avaliaram acupuntura manual, eletroacupuntura e moxabustão — isoladas ou combinadas — em pacientes com câncer de mama, pulmão, colorretal, gástrico e outros tipos durante ou após tratamento oncológico ativo.
Acupontos mais frequentes: ST36, CV6, CV4
A análise dos 13 ECRs revelou convergência na seleção de acupontos. O ponto ST36 (Zusanli) foi o mais utilizado, aparecendo na maioria dos protocolos tanto de acupuntura quanto de moxabustão. Na tradição da medicina chinesa, o ST36 é considerado o principal ponto de tonificação do qi e fortalecimento geral — e pesquisas modernas demonstram seus efeitos sobre modulação imunológica, função gastrointestinal e redução de inflamação sistêmica. CV6 (Qihai) e CV4 (Guanyuan), ambos no meridiano Ren Mai (Vaso da Concepção) na região infraumbilical, completam o núcleo de acupontos com maior frequência de uso, especialmente nos protocolos de moxabustão para tonificação do yang e do qi.
O tempo de retenção das agulhas nos estudos variou de 10 a 30 minutos por sessão. A frequência das sessões dependia do protocolo adotado, com modelos de duas a cinco sessões semanais na fase aguda e uma a duas sessões semanais na manutenção.
Três protocolos clínicos recomendados
O principal diferencial desta revisão em relação a públicações anteriores é a sistematização das evidências em três perfis de protocolo clínico, organizados por duração e contexto terapêutico. Essa estrutura permite ao médico acupunturista selecionar a abordagem de acordo com a fase do tratamento oncológico do paciente — algo que revisões genéricas não proporcionam.
Perguntas Frequentes
Sim. A revisão demonstra que protocolos de acupuntura sincronizados com ciclos de quimioterapia são seguros e eficazes. Nenhum dos 13 ECRs reportou eventos adversos significativos em pacientes em tratamento ativo. O protocolo baseado em ciclos foi especificamente desenhado para reduzir o pico de fadiga nos dias seguintes à infusão quimioterápica.
A acupuntura utiliza agulhas finas inseridas em acupontos específicos. A moxabustão aplica calor localizado (através da combustão de Artemisia vulgaris) sobre os mesmos pontos. A revisão mostra que ambas são eficazes, mas a moxabustão têm papel especialmente relevante nos protocolos de longo prazo (até 6 meses), com foco em ST36 e CV4 para tonificação sustentada.
Depende do protocolo. O protocolo de curto prazo (até 3 semanas) demonstrou redução nos escores de fadiga já na primeira semana. O protocolo baseado em ciclos sincroniza sessões com a quimioterapia. O protocolo de longo prazo pode se estender por até 6 meses. A frequência varia de 2 a 5 sessões semanais na fase aguda a 1–2 na manutenção, com retenção de agulha de 10 a 30 minutos.
Os 13 ECRs incluíram pacientes com diversos tipos de câncer — mama, pulmão, colorretal, gástrico e outros. Os resultados foram consistentes entre os diferentes diagnósticos. No entanto, evidência mais específica existe para câncer de mama e colorretal nos protocolos baseados em ciclos de quimioterapia.
A revisão recomenda a acupuntura e a moxabustão como parte de uma abordagem integrativa, complementada por exercícios físicos, terapias mente-corpo e terapia cognitivo-comportamental. O tratamento da FRC é multimodal, e a acupuntura médica se integra como um dos componentes com evidência de eficácia — não como intervenção isolada.
Fonte Original
Supportive Care in Cancer (Springer)(em inglês)Estudo Científico
DOI: 10.1007/s00520-026-10467-7Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
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