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Dr. Marcus Yu Bin Pai·Médico Acupunturista·CRM-SP 158074·RQE 65523 / 65524 / 655241

Aviso: Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individual. Sempre consulte um médico acupunturista qualificado.

acupuntura.com · 2025–2026Última revisão editorial: 2026-05-04
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PesquisaAnálise Completa
25 de maio de 2023
6 min de leitura

Acupuntura Reduz Náuseas e Vômitos por Quimioterapia: Meta-Análise de 38 Ensaios Clínicos Randomizados com 2.503 Pacientes

Revisão sistemática e meta-análise (38 ECRs, 2.503 pacientes) publicada na Cancer Medicine em 2023: acupuntura como adjuvante aumenta o controle completo de vômitos agudos (RR 1,13; IC 1,02–1,25) e vômitos tardios (RR 1,47; IC 1,07–2,00) por quimioterapia — com protocolo centrado em ST36, PC6 e CV12

Fonte: Cancer Medicine(em inglês)DOI: 10.1002/cam4.5962
Acupuntura Reduz Náuseas e Vômitos por Quimioterapia: Meta-Análise de 38 Ensaios Clínicos Randomizados com 2.503 Pacientes

Náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia (CINV, do inglês chemotherapy-induced nausea and vomiting) são os efeitos colaterais mais temidos pelos pacientes oncológicos — e um dos principais motivos para abandono do tratamento. Mesmo com o avanço dos antieméticos modernos (antagonistas de 5-HT3, antagonistas de NK1, dexametasona), uma parcela significativa dos pacientes ainda experimenta CINV não controlado, especialmente na fase tardia (24–120 horas após a quimioterapia) e nos ciclos subsequentes. Uma meta-análise publicada na Cancer Medicine em 2023, reunindo 38 ensaios clínicos randomizados com 2.503 pacientes, oferece um panorama abrangente da eficácia da acupuntura como terapia adjuvante no controle de CINV.

O estudo foi conduzido por Yan e colaboradores e buscou sistematicamente evidências em múltiplas bases de dados, incluindo PubMed, Cochrane Library, EMBASE, CNKI e Wanfang. Foram incluídos apenas ECRs que avaliaram acupuntura — isolada ou em combinação com cuidados usuais — versus cuidados usuais apenas, para prevenção ou tratamento de náuseas e vômitos associados à quimioterapia em adultos com câncer. A qualidade metodológica foi avaliada por ferramentas validadas de risco de viés. O total de 38 ECRs representa um dos maiores corpos de evidência disponíveis sobre o tema, cobrindo diferentes tipos de câncer, regimes quimioterápicos e protocolos de acupuntura.

RESULTADOS DA META-ANÁLISE DE ACUPUNTURA PARA CINV (CANCER MEDICINE, 2023)

38
ENSAIOS CLÍNICOS RANDOMIZADOS INCLUÍDOS
Múltiplas bases de dados · diferentes tipos de câncer e regimes de QT
2.503
PACIENTES INCLUÍDOS NA ANÁLISE
Adultos em tratamento quimioterápico
RR 1,13
CONTROLE COMPLETO DE VÔMITOS AGUDOS
IC 95%: 1,02–1,25 · 10 estudos · acupuntura + cuidado usual vs. cuidado usual
RR 1,47
CONTROLE COMPLETO DE VÔMITOS TARDIOS
IC 95%: 1,07–2,00 · 10 estudos · efeito mais expressivo na fase tardia
ST36 · PC6 · CV12
ACUPONTOS MAIS UTILIZADOS NOS PROTOCOLOS
24 acupontos diferentes identificados nos 38 ECRs
Adjuvante
PAPEL DA ACUPUNTURA NOS PROTOCOLOS ESTUDADOS
Adicionada ao cuidado antiemético padrão, não substitutiva

Metodologia: Quais Estudos Foram Incluídos?

Os autores aplicaram critérios de inclusão rigorosos: apenas ECRs com grupo controle de cuidado usual (sem acupuntura), desfecho primário de controle completo de vômitos (ausência total de episódios eméticos) ou desfechos secundários como número de episódios de vômito, intensidade de náuseas e qualidade de vida. Estudos que comparavam acupuntura com sham acupuntura foram analisados separadamente para controlar o efeito placebo. A heterogeneidade entre os estudos foi substancial, refletindo a variabilidade nos protocolos de acupuntura (número de sessões, acupontos selecionados, técnicas de estimulação) e nos regimes quimioterápicos (altamente emetogênicos vs. moderadamente emetogênicos).

Os desfechos foram estratificados em fase aguda (0–24 horas após a quimioterapia) e fase tardia (24–120 horas). Essa distinção é clinicamente importante: na fase aguda, os antieméticos modernos já têm eficácia razoável; é na fase tardia que a acupuntura demonstrou o benefício mais expressivo (RR 1,47), precisamente o período em que os antagonistas de NK1 têm maior impacto. A sobreposição temporal entre os mecanismos da acupuntura (modulação vagal, liberação de beta-endorfina, ação sobre o núcleo do trato solitário) e os mecanismos da CINV tardia (mediada por substância P e NK1) sugere uma possível complementaridade fisiológica.

POR QUE CINV TARDIO É O ALVO MAIS RELEVANTE?

A CINV é dividida em duas fases com mecanismos distintos:

  • Fase aguda (0–24h): mediada principalmente por serotonina (5-HT3) liberada pelas células enterocromafins intestinais. Antagonistas de 5-HT3 (ondansetrona, granisetrona) têm alta eficácia nessa fase
  • Fase tardia (24–120h): mediada predominantemente por substância P via receptores NK1 na área postrema. Mais difícil de controlar — até 30–60% dos pacientes continuam com CINV apesar de aprepitant + ondansetrona + dexametasona
  • Fase antecipatória: condicionamento clássico — surge antes da infusão em pacientes com ciclos anteriores. Componente psicológico significativo que a acupuntura pode modular via eixo hipotálamo-hipofisário (mecanismo proposto com base em evidência preliminar)
  • Relevância clínica: o controle da CINV tardia é determinante para a qualidade de vida e para a manutenção dos ciclos de quimioterapia. Pacientes com CINV não controlado têm maior taxa de abandono e pior prognóstico

Acupontos e Protocolos: o que a Literatura Mostra

Os 38 ECRs utilizaram 24 acupontos diferentes, mas três emergiram como os mais frequentes: ST36 (Zusanli, no músculo tibial anterior), PC6 (Neiguan, no antebraço anterior) e CV12 (Zhongwan, no abdome médio-superior). Essa concentração em torno de acupontos estabelecidos pela medicina tradicional chinesa para regulação gástrica é relevante: PC6 têm evidência específica para náuseas de múltiplas etiologias (gravidez, pós-operatório, cinetose), e ST36 têm efeito documentado sobre a motilidade gastrointestinal e eixo neuroendócrino. A diversidade de 24 acupontos entre os 38 estudos, contudo, é também uma limitação: dificulta a síntese de um protocolo otimizado e sugere que a prática clínica real usa combinações individualizadas que os ECRs padronizados não capturam completamente.

A frequência e duração das sessões variou amplamente: de uma aplicação por ciclo de quimioterapia a sessões diárias durante toda a duração do tratamento. Os autores não conseguiram identificar uma dose-resposta clara, o que limita a definição de um protocolo ótimo. Na prática clínica, o médico acupunturista tende a ajustar a frequência de acordo com o ciclo quimioterápico — aplicando a acupuntura nas 24–48 horas precedentes e nas 48–72 horas subsequentes à infusão para cobrir tanto a fase aguda quanto a tardia.

INSIGHT

CINV é o problema de suporte oncológico onde a acupuntura médica têm algumas das evidências mais antigas e mais replicadas. Quando ouço pacientes que voltam da quimioterapia prostrados por náuseas por três dias, sabendo que seus antieméticos já estão otimizados, a integração da acupuntura não é uma sugestão alternativa — é uma decisão baseada em 38 ensaios randomizados. O que esta meta-análise confirma é exatamente o que a prática clínica já mostrava: a acupuntura não substitui o antiemético moderno, mas potencializa seu efeito, especialmente na fase tardia, que é onde os pacientes mais sofrem. Para o médico oncologista que ainda hesita, o dado de RR 1,47 para vômitos tardios é suficientemente robusto para justificar a conversa com o paciente e a referência para acupuntura médica. O custo de integrar é baixo; o ganho em qualidade de vida é mensurável.
— Dr. Marcus Yu Bin Pai · CRM-SP 158074 · RQE 65523 / 65524 / 655241

LIMITAÇÕES RECONHECIDAS PELOS AUTORES

  • Certeza da evidência classificada como muito baixa pelo sistema GRADE — heterogeneidade substancial entre os estudos limita conclusões definitivas
  • Diversidade de protocolos de acupuntura (24 acupontos diferentes, frequências variadas) impede a definição de um protocolo ótimo
  • A maioria dos estudos incluídos têm risco de viés não trivial — cegamento de participantes é estruturalmente difícil em estudos de acupuntura
  • Amostra de apenas 10 estudos por desfecho (vômitos agudos e tardios) — menos do que o ideal para pooled estimates robustos
  • Necessidade de ECRs maiores com medidas de desfecho padronizadas (MASCC Antiemesis Tool ou FLIE) para confirmar os achados

IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA MÉDICA

  • A acupuntura médica pode ser oferecida como terapia adjuvante aos antieméticos padrão, especialmente para pacientes com histórico de CINV não controlado nos ciclos anteriores
  • Protocolo sugerido pela literatura: ST36 (Zusanli), PC6 (Neiguan) e CV12 (Zhongwan) como acupontos centrais — ajustados ao padrão individual do paciente
  • Sessões nas 24–48h precedentes e nas 48–72h seguintes à infusão quimioterápica cobrem as fases aguda e tardia; a decisão sobre frequência é individualizada
  • Comunicação com o oncologista responsável é indispensável para coordenar a integração da acupuntura ao protocolo antiemético e avaliar possíveis contraindicações (plaquetopenia grave, neutropenia profunda)
  • Considerar eletroacupuntura em PC6 como alternativa eficiente para pacientes com CINV antecipado — mecanismo de dessensibilização do condicionamento clássico
  • O perfil de segurança da acupuntura em pacientes oncológicos é estabelecido, mas requer adaptação técnica (agulhas finas, menor profundidade, higiene reforçada) no contexto de imunossupressão
PERGUNTAS FREQUENTES · 03

Perguntas Frequentes

Não. A evidência atual posiciona a acupuntura como terapia adjuvante — somada ao protocolo antiemético padrão (antagonistas de 5-HT3, dexametasona e, quando indicado, antagonistas de NK1), não substitutiva. Nenhum dos 38 ECRs avaliados nesta meta-análise foi desenhado para avaliar acupuntura em substituição a antieméticos. O benefício demonstrado é adicional: pacientes que já recebem cuidado antiemético ótimo têm controle ainda melhor ao integrar a acupuntura.

O risco existe mas é gerenciável com protocolo adequado. Em contexto de neutropenia (neutrófilos <500/mm³), recomenda-se avaliação caso a caso. As adaptações técnicas incluem: agulhas de calibre fino (0,16–0,20mm), profundidade reduzida, descarte imediato após uso único, higiene rigorosa do sítio de inserção com antisséptico. O médico acupunturista deve ter acesso ao hemograma recente do paciente e coordenar com o oncologista sobre janelas seguras para as sessões, idealmente fora dos períodos de nadir leucocitário.

Os 38 ECRs incluídos nesta meta-análise cobriram diferentes regimes quimioterápicos, desde altamente emetogênicos (cisplatina, ciclofosfamida em altas doses) até moderadamente emetogênicos. Os resultados foram consistentes entre os subgrupos analisados, mas o efeito foi numericamente mais expressivo nos regimes de alta emetogenicidade — exatamente onde o benefício adicional é mais necessário. Para quimioterápicos de baixa emetogenicidade com boa resposta antiemética convencional, o papel da acupuntura pode ser menos pronunciado, embora o perfil de segurança favorable justifique a oferta.

Fonte Original

Cancer Medicine(em inglês)

Estudo Científico

DOI: 10.1002/cam4.5962Ver no PubMed
Conteúdo elaborado por
CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa

Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).

Publicado em 2023-05-25
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