Náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia (CINV, do inglês chemotherapy-induced nausea and vomiting) são os efeitos colaterais mais temidos pelos pacientes oncológicos — e um dos principais motivos para abandono do tratamento. Mesmo com o avanço dos antieméticos modernos (antagonistas de 5-HT3, antagonistas de NK1, dexametasona), uma parcela significativa dos pacientes ainda experimenta CINV não controlado, especialmente na fase tardia (24–120 horas após a quimioterapia) e nos ciclos subsequentes. Uma meta-análise publicada na Cancer Medicine em 2023, reunindo 38 ensaios clínicos randomizados com 2.503 pacientes, oferece um panorama abrangente da eficácia da acupuntura como terapia adjuvante no controle de CINV.
O estudo foi conduzido por Yan e colaboradores e buscou sistematicamente evidências em múltiplas bases de dados, incluindo PubMed, Cochrane Library, EMBASE, CNKI e Wanfang. Foram incluídos apenas ECRs que avaliaram acupuntura — isolada ou em combinação com cuidados usuais — versus cuidados usuais apenas, para prevenção ou tratamento de náuseas e vômitos associados à quimioterapia em adultos com câncer. A qualidade metodológica foi avaliada por ferramentas validadas de risco de viés. O total de 38 ECRs representa um dos maiores corpos de evidência disponíveis sobre o tema, cobrindo diferentes tipos de câncer, regimes quimioterápicos e protocolos de acupuntura.
RESULTADOS DA META-ANÁLISE DE ACUPUNTURA PARA CINV (CANCER MEDICINE, 2023)
Metodologia: Quais Estudos Foram Incluídos?
Os autores aplicaram critérios de inclusão rigorosos: apenas ECRs com grupo controle de cuidado usual (sem acupuntura), desfecho primário de controle completo de vômitos (ausência total de episódios eméticos) ou desfechos secundários como número de episódios de vômito, intensidade de náuseas e qualidade de vida. Estudos que comparavam acupuntura com sham acupuntura foram analisados separadamente para controlar o efeito placebo. A heterogeneidade entre os estudos foi substancial, refletindo a variabilidade nos protocolos de acupuntura (número de sessões, acupontos selecionados, técnicas de estimulação) e nos regimes quimioterápicos (altamente emetogênicos vs. moderadamente emetogênicos).
Os desfechos foram estratificados em fase aguda (0–24 horas após a quimioterapia) e fase tardia (24–120 horas). Essa distinção é clinicamente importante: na fase aguda, os antieméticos modernos já têm eficácia razoável; é na fase tardia que a acupuntura demonstrou o benefício mais expressivo (RR 1,47), precisamente o período em que os antagonistas de NK1 têm maior impacto. A sobreposição temporal entre os mecanismos da acupuntura (modulação vagal, liberação de beta-endorfina, ação sobre o núcleo do trato solitário) e os mecanismos da CINV tardia (mediada por substância P e NK1) sugere uma possível complementaridade fisiológica.
Acupontos e Protocolos: o que a Literatura Mostra
Os 38 ECRs utilizaram 24 acupontos diferentes, mas três emergiram como os mais frequentes: ST36 (Zusanli, no músculo tibial anterior), PC6 (Neiguan, no antebraço anterior) e CV12 (Zhongwan, no abdome médio-superior). Essa concentração em torno de acupontos estabelecidos pela medicina tradicional chinesa para regulação gástrica é relevante: PC6 têm evidência específica para náuseas de múltiplas etiologias (gravidez, pós-operatório, cinetose), e ST36 têm efeito documentado sobre a motilidade gastrointestinal e eixo neuroendócrino. A diversidade de 24 acupontos entre os 38 estudos, contudo, é também uma limitação: dificulta a síntese de um protocolo otimizado e sugere que a prática clínica real usa combinações individualizadas que os ECRs padronizados não capturam completamente.
A frequência e duração das sessões variou amplamente: de uma aplicação por ciclo de quimioterapia a sessões diárias durante toda a duração do tratamento. Os autores não conseguiram identificar uma dose-resposta clara, o que limita a definição de um protocolo ótimo. Na prática clínica, o médico acupunturista tende a ajustar a frequência de acordo com o ciclo quimioterápico — aplicando a acupuntura nas 24–48 horas precedentes e nas 48–72 horas subsequentes à infusão para cobrir tanto a fase aguda quanto a tardia.
Perguntas Frequentes
Não. A evidência atual posiciona a acupuntura como terapia adjuvante — somada ao protocolo antiemético padrão (antagonistas de 5-HT3, dexametasona e, quando indicado, antagonistas de NK1), não substitutiva. Nenhum dos 38 ECRs avaliados nesta meta-análise foi desenhado para avaliar acupuntura em substituição a antieméticos. O benefício demonstrado é adicional: pacientes que já recebem cuidado antiemético ótimo têm controle ainda melhor ao integrar a acupuntura.
O risco existe mas é gerenciável com protocolo adequado. Em contexto de neutropenia (neutrófilos <500/mm³), recomenda-se avaliação caso a caso. As adaptações técnicas incluem: agulhas de calibre fino (0,16–0,20mm), profundidade reduzida, descarte imediato após uso único, higiene rigorosa do sítio de inserção com antisséptico. O médico acupunturista deve ter acesso ao hemograma recente do paciente e coordenar com o oncologista sobre janelas seguras para as sessões, idealmente fora dos períodos de nadir leucocitário.
Os 38 ECRs incluídos nesta meta-análise cobriram diferentes regimes quimioterápicos, desde altamente emetogênicos (cisplatina, ciclofosfamida em altas doses) até moderadamente emetogênicos. Os resultados foram consistentes entre os subgrupos analisados, mas o efeito foi numericamente mais expressivo nos regimes de alta emetogenicidade — exatamente onde o benefício adicional é mais necessário. Para quimioterápicos de baixa emetogenicidade com boa resposta antiemética convencional, o papel da acupuntura pode ser menos pronunciado, embora o perfil de segurança favorable justifique a oferta.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
