A síndrome perimenopáusica — conjunto de sintomas vasomotores, psicológicos e somáticos que acompanham a transição hormonal antes e após a menopausa — afeta até 80% das mulheres em algum grau. Os fogachos e sudorese noturna são os sintomas mais reconhecidos, mas a síndrome inclui também insônia, ansiedade, depressão, irritabilidade, ressecamento vaginal e redução da libido. A terapia hormonal (TH) permanece o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores, mas sua utilização é limitada em mulheres com contraindicações (história de câncer de mama, tromboembolismo, doença cardiovascular estabelecida) ou por preferência pessoal. A acupuntura surge como alternativa não hormonal com crescente base de evidência. Uma meta-análise em rede (NMA) publicada na Frontiers in Neurology em janeiro de 2026, reunindo 49 ECRs com 4.579 participantes, é o estudo mais abrangente disponível sobre o tema — e oferece orientação clinicamente refinada sobre qual modalidade de acupuntura é mais eficaz para cada tipo de sintoma perimenopáusico.
O estudo foi conduzido por Xiaoyan Yang e equipe da Universidade de Medicina de Sichuan e do Hospital Zhongshan, com busca em 8 bases de dados (PubMed, Embase, Cochrane Library, Web of Science, CNKI, Wanfang, CBM e VIP) cobrindo estudos publicados até junho de 2025. A força metodológica da NMA está na capacidade de comparar múltiplas intervenções simultaneamente — mesmo quando não foram diretamente comparadas em um mesmo ECR — utilizando a cadeia de comparações transitivas. O estudo comparou 6 modalidades principais de acupuntura: acupuntura com moxabustão (AWM), acupuntura com medicina chinesa (ACM), eletroacupuntura com moxabustão (EAWM), eletroacupuntura (EA), acupuntura auricular com acupuntura corporal (AAA) e moxabustão isolada (M).
RESULTADOS DA NMA DE ACUPUNTURA PARA SÍNDROME PERIMENOPÁUSICA (FRONTIERS NEUROLOGY, JAN 2026)
A Abordagem em Rede: Por que Cada Modalidade Têm o seu Alvo
O principal diferencial desta NMA é a granularidade dos resultados: em vez de concluir simplesmente "acupuntura funciona para menopausa", o estudo identifica qual das 6 modalidades comparadas é mais eficaz para cada domínio sintomático. Essa especificidade têm importância clínica direta — o médico acupunturista pode adaptar o protocolo ao perfil predominante da paciente. Para a mulher com fogachos intensos e depressão de intensidade moderada, a EAWM (eletroacupuntura com moxabustão) aparece como a modalidade de primeira escolha. Para a paciente cuja queixa central é insônia perturbadora sem fogachos frequentes, a acupuntura auricular (AAA) lidera. Para a mulher com sintomas predominantemente ansiosos, a eletroacupuntura isolada (EA) é superior.
A regulação hormonal — avaliada pelos níveis de FSH (hormônio folículo-estimulante), LH (hormônio luteinizante) e E2 (estradiol) — foi melhor com AWM (acupuntura com moxabustão). Isso é clinicamente relevante porque os fogachos são diretamente desencadeados pela oscilação dos níveis de FSH/LH — e uma modalidade que modula o eixo hipotálamo-hipófise-gônada (HPG) por mecanismos de calor (moxabustão) e estímulo mecânico (agulha) têm fundamentação fisiopatológica coerente. A ACM (acupuntura combinada com medicina chinesa herbal) foi superior para melhora dos sintomas da síndrome geral medida por escalas de MTC, o que sugere sinergia entre fitoterápicos e acupuntura na modulação hormonal global.
Implicações para a Individualização do Tratamento
A síndrome perimenopáusica é eminentemente heterogênea: uma paciente pode apresentar predominância de fogachos; outra pode ter insônia como queixa principal com fogachos leves; uma terceira pode ter depressão franca como manifestação central. Está NMA válida o que a prática clínica da acupuntura médica já operacionaliza — a necessidade de adaptar o protocolo ao padrão sintomático da paciente. O médico acupunturista não trata "menopausa" como condição genérica, mas avalia o conjunto específico de sintomas, a intensidade de cada domínio (vasomotor, psicológico, somático) e a fase da transição menopáusica para construir um protocolo individualizado.
Outro achado clinicamente relevante é que a moxabustão aparece de forma consistente entre as modalidades de maior eficácia. A moxabustão — técnica que aquece os acupontos com artemísia queimada — têm efeito de calor profundo sobre os meridianos associados ao eixo reprodutivo (regiões anatômicas associadas à inervação autonômica e vascularização pélvica). A combinação de estímulo térmico com estímulo mecânico (agulha) pode ter sinergia nos mecanismos de modulação neuroendócrina.
Perguntas Frequentes
Sim, e essa combinação pode ser especialmente útil para pacientes que usam TH em dose mínima e ainda têm sintomas residuais. Não há contraindicação ao uso simultâneo de acupuntura e TH. Na prática, a acupuntura pode permitir a redução gradual da dose hormonal em algumas pacientes — decisão que deve ser feita em conjunto com o ginecologista responsável. Para pacientes que não podem usar TH (histórico de trombose, câncer de mama dependente de hormônio), a acupuntura emerge como a alternativa não hormonal com maior base de evidência para os sintomas vasomotores e psicológicos.
Os ECRs incluídos na NMA utilizaram protocolos de 4–12 semanas, com a maioria mostrando melhora nos fogachos a partir da 4ª semana. Na prática clínica, a resposta ao tratamento da síndrome perimenopáusica é progressiva — pacientes frequentemente relatam melhora subjetiva do bem-estar geral antes da redução objetiva dos fogachos. A frequência dos fogachos costuma reduzir visivelmente após 6–8 semanas de tratamento regular. Para pacientes com fogachos muito frequentes (mais de 7 por dia), pode-se considerar uma fase intensiva de 5 sessões semanais nas primeiras 2–4 semanas.
Está NMA focou nos sintomas vasomotores (fogachos), psicológicos (depressão, ansiedade) e de sono. O ressecamento vaginal — síndrome geniturinária da menopausa (SGM) — têm fisiopatologia distinta (atrofia do epitélio vaginal por deficiência estrogênica local) e é um desfecho menos frequentemente avaliado nos ECRs de acupuntura. Existe evidência preliminar de que acupontos associados ao eixo reprodutivo (SP6, CV4, KD7) podem contribuir para a melhora da lubrificação vaginal via efeito neuroendócrino, mas essa indicação requer confirmação em ECRs específicos. Para SGM sintomática, o estrogênio vaginal tópico continua sendo o tratamento padrão mais eficaz.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
