A urticária crônica espontânea (UCE) é uma condição dermatológica que afeta entre 0,5% e 1% da população mundial, manifestando-se por placas eritematosas, angioedema recorrente e prurido intenso por seis semanas ou mais, sem causa externa identificável. Apesar dos anti-histamínicos constituírem a primeira linha de tratamento, uma parcela significativa dos pacientes não responde adequadamente ou apresenta recidivas frequentes após a suspensão. Uma meta-análise publicada na Frontiers in Medicine em 2025 oferece o retrato mais amplo já compilado sobre o uso da acupuntura médica para essa condição: 22 ensaios clínicos randomizados, 1.867 pacientes e desfechos que vão da resposta clínica à modulação imunológica.
O estudo foi registrado no PROSPERO (CRD42024557552) e conduziu uma pesquisa sistemática em oito bases de dados — CNKI, VIP, WanFang e CBMDisc nas bases chinesas, além de PubMed, Cochrane Library, Embase e Web of Science nas bases internacionais —, sem restrição de idioma, abrangendo públicações desde a criação de cada banco até 20 de agosto de 2024. Os 22 ensaios incluídos avaliaram a acupuntura como tratamento principal (sem restrição de técnica, duração ou seleção de acupontos), comparada a medicamentos padrão, acupuntura sham ou placebo. A qualidade metodológica foi avaliada pelas ferramentas ROB2 (Risk of Bias 2) e pelo sistema GRADE.
RESULTADOS DA META-ANÁLISE (FRONTIERS IN MEDICINE, 2025)
Desfechos Clínicos e Imunológicos
A meta-análise avaliou uma ampla gama de desfechos. Clinicamente, a acupuntura melhorou de forma significativa a taxa de resposta global ao tratamento e reduziu a taxa de recidiva — dois dos critérios mais relevantes para o paciente com UCE que oscila entre períodos de remissão e exacerbação. O escore de atividade da urticária (UAS), que combina a frequência de aparecimento das lesões e a intensidade do prurido, também diminuiu significativamente. O escore VAS de prurido, a contagem e o tamanho das placas urticariformes e os escores de sintomas da medicina tradicional chinesa apresentaram redução consistente.
No domínio imunológico, a acupuntura reduziu significativamente os níveis séricos de IgE total — o principal mediador da resposta alérgica imediata —, de IFN-γ (interferon-gama, pró-inflamatório) e de IL-4 (interleucina-4, envolvida na polarização Th2 e na promoção da produção de IgE). Essa modulação do eixo Th1/Th2 oferece uma explicação mecanicista plausível para os benefícios clínicos observados: a acupuntura alivia sintomas e, em estudos experimentais, têm sido associada a modulação da desregulação imune subjacente à UCE — efeito que ainda requer confirmação clínica adicional. Os escores da Escala de Hamilton para Depressão também melhoraram — dado relevante, considerando a alta comorbidade psiquiátrica da urticária crônica.
Segurança e Comparação com Medicamentos
Um dos achados mais relevantes da meta-análise para a prática clínica é o perfil de segurança da acupuntura: a incidência de eventos adversos não diferiu significativamente dos grupos controle. Note-se que nenhum ensaio head-to-head direto comparou a acupuntura com esses agentes farmacológicos no contexto da UCE; as considerações a seguir são baseadas em perfis de segurança gerais descritos na literatura: os anti-histamínicos de segunda geração — padrão de tratamento — frequentemente causam sonolência residual, boca seca e interferência com atividades laborais. Os agentes imunossupressores de segunda linha (ciclosporina, omalizumabe) apresentam custos elevados e perfis de risco mais substanciais. A análise de 18 estudos adicionais com 1.829 pacientes confirmou a vantagem da acupuntura sobre a acupuntura sham e sobre listas de espera, reforçando que o efeito não é atribuível exclusivamente à expectativa terapêutica.
Perguntas Frequentes
A urticária aguda dura menos de seis semanas e têm causa identificável na maioria dos casos (alimento, medicamento, infecção). A urticária crônica persiste por seis semanas ou mais, frequentemente sem causa clara (espontânea) ou com causa física identificável (pressão, frio, calor). Esta meta-análise avaliou especificamente a forma crônica espontânea. Para a urticária aguda, o tratamento de suporte com anti-histamínicos é suficiente na maioria dos casos. Para a urticária crônica com curso recorrente, a acupuntura pode ter papel adjuvante relevante, especialmente quando os anti-histamínicos não produzem remissão completa.
Os estudos incluídos nesta meta-análise utilizaram protocolos variados. Em geral, os ensaios que demonstraram benefício empregaram entre 8 e 20 sessões, com frequência de 2 a 3 vezes por semana nas primeiras semanas, seguida de manutenção semanal. O médico acupunturista avaliará o perfil clínico individual — padrão imunológico, frequência das crises, resposta a tratamentos prévios — para propor um plano terapêutico adequado. A avaliação de resposta após 4 a 6 semanas de tratamento é recomendada para decisões sobre continuidade.
Não há evidências suficientes para indicar a acupuntura como substituto das terapias medicamentosas de primeira ou segunda linha. A posição mais sustentada pelas evidências atuais é de uso adjuvante: a acupuntura pode potencializar o efeito dos anti-histamínicos, reduzir a dose necessária para controle e diminuir a frequência das crises. Em casos de resposta incompleta ao omalizumabe ou contraindicação ao tratamento imunossupressor, o médico pode considerar a acupuntura como estratégia complementar dentro de um plano multidisciplinar coordenado.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
