A enxaqueca episódica afeta aproximadamente 12% da população mundial e representa a segunda maior causa de incapacidade em anos vividos com deficiência, segundo a Organização Mundial da Saúde. A chegada dos anticorpos monoclonais anti-CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) representou uma revolução na profilaxia — mas a ausência de estudos cabeça a cabeça entre os três agentes aprovados dificultou a escolha terapêutica individualizada. Uma meta-análise em rede publicada no European Journal of Clinical Pharmacology preencheu essa lacuna, analisando sistematicamente galcanezumab, fremanezumab e erenumab a partir de 16 ensaios clínicos randomizados e 9.123 participantes.
A conclusão principal é que, embora os três agentes sejam superiores ao placebo, existem diferenças relevantes em perfil de eficácia e segurança: fremanezumab 225 mg oferece o melhor equilíbrio entre eficácia e tolerabilidade, galcanezumab 240 mg apresenta a maior magnitude de efeito bruta e erenumab 28 mg destaca-se pelo perfil de segurança mais favorável.
O mecanismo anti-CGRP: modulando a via trigeminal da dor
O CGRP é um neuropeptídeo vasoativo liberado em terminações do nervo trigêmeo durante a crise de enxaqueca. Ele promove vasodilatação meníngea, inflamação neurogênica e sensibilização periférica das fibras nociceptivas perivasculares. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP bloqueiam esse sinal de duas formas: galcanezumab e fremanezumab se ligam diretamente ao ligante CGRP, enquanto erenumab bloqueia o receptor CGRP-R. Ambas as abordagens interrompem a cascata inflamatória trigeminal sem os efeitos sistêmicos dos antigos profiláticos orais (topiramato, valproato, propranolol).
Metodologia: 16 ensaios, três moléculas, 9.123 pacientes
A revisão de Shakir I et al. (2026) incluiu 16 ensaios clínicos randomizados duplo-cegos e controlados por placebo, totalizando 9.123 participantes com diagnóstico de enxaqueca episódica (4 a 14 dias de enxaqueca por mês). Os desfechos primários foram:
Desfechos avaliados na meta-análise em rede
- Redução no número de dias mensais de enxaqueca — medida contínua (DME)
- Taxa de resposta ≥ 50% na redução de dias de enxaqueca por mês — medida dicotômica (OR)
- Perfil de segurança: eventos adversos qualquer grau vs. placebo (OR)
- Comparações por dose específica: galcanezumab 120 mg e 240 mg, fremanezumab 225 mg e 675 mg, erenumab 28 mg e 70 mg e 140 mg
ANTI-CGRP PARA ENXAQUECA EPISÓDICA — DADOS PRINCIPAIS
Comparativo entre os três agentes
GALCANEZUMAB VS. FREMANEZUMAB VS. ERENUMAB
| AGENTE / DOSE | PERFIL DE EFICÁCIA E SEGURANÇA |
|---|---|
| Galcanezumab 240 mg (mensal) | Maior eficácia absoluta (DME = 0,50) · Administração mensal subcutânea · autoinjeção disponível |
| Fremanezumab 225 mg (mensal) ou 675 mg (trimestral) | Melhor equilíbrio eficácia-segurança · OR = 3,17 para resposta ≥ 50% · único com opção trimestral |
| Erenumab 70–140 mg (mensal) | Melhor perfil de segurança (OR = 0,68) · bloqueia receptor (não o ligante) · pode aumentar constipação |
Os autores concluem que fremanezumab oferece o melhor equilíbrio entre eficácia e segurança, considerando simultaneamente a taxa de resposta clínica e a tolerabilidade. Para pacientes em que a maximização da eficácia é prioritária, galcanezumab 240 mg demonstrou a maior magnitude de efeito. Para aqueles com histórico de eventos adversos ou preocupações com tolerabilidade, erenumab apresentou o perfil mais favorável.
Perguntas Frequentes
Os três são anticorpos monoclonais humanizados que bloqueiam a via CGRP, mas de formas distintas. Galcanezumab e fremanezumab se ligam diretamente ao peptídeo CGRP, impedindo-o de agir em seus receptores. Erenumab, por sua vez, bloqueia o receptor CGRP-R — por isso, não interfere na função do CGRP em outros tecidos onde ele é liberado em resposta a atividade física ou estresse, o que pode explicar o perfil de segurança diferenciado. Na prática, as três moléculas têm eficácia comparável, com as diferenças quantitativas reveladas por esta meta-análise em rede.
As diretrizes internacionais (AHS, EAN) e as aprovações das agências regulatórias (FDA, EMA, ANVISA) indicam anticorpos anti-CGRP para adultos com enxaqueca episódica (≥ 4 dias/mês) ou crônica (≥ 15 dias/mês com características de enxaqueca) que apresentaram falha ou intolerância a pelo menos dois profiláticos orais convencionais (topiramato, valproato, propranolol, amitriptilina, venlafaxina).
Não estão na RENAME e portanto não são fornecidos pelo SUS. Estão disponíveis em farmácias especializadas, com custo mensal significativo (acima de R$ 1.000,00 em muitos casos). Alguns pacientes têm conseguido acesso via ações judiciais (judicialização da saúde), com base nas aprovações regulatórias vigentes. O processo de incorporação pelo SUS via CONITEC é possível, mas ainda não foi concluído para nenhum dos três agentes.
Sim. Não há contraindicação conhecida à combinação. A acupuntura médica têm evidência independente para profilaxia de enxaqueca episódica — meta-análises recentes (incluindo estudo publicado no JAMA Neurology) demonstram redução significativa na frequência de crises. Em pacientes nos quais o custo ou a disponibilidade dos anti-CGRP é limitante, a acupuntura constitui alternativa não farmacológica de primeira linha. Em pacientes já em uso de anti-CGRP, a acupuntura pode ser utilizada como adjuvante para otimizar o controle.
As diretrizes sugerem um mínimo de 6 a 12 meses de tratamento antes de considerar descontinuação, com avaliação periódica da resposta. Estudos de extensão mostram que uma parcela significativa dos respondedores mantém benefício após suspensão, possivelmente por modificação do estado de sensibilização central. A decisão de continuar ou interromper deve ser individualizada, considerando resposta clínica, custo e preferências do paciente.
Fontes consultadas
- Shakir I, Shahzad F, Shabbir A, et al. Efficacy and safety of CGRP monoclonal antibodies for migraine prevention in episodic migraine: a network meta-analysis. Eur J Clin Pharmacol. 2026;82(2):27. DOI: 10.1007/s00228-025-03934-3.
- Edvinsson L, Haanes KA, Warfvinge K, Krause DN. CGRP as the target of new migraine therapies — successful translation from bench to clinic. Nat Rev Neurol. 2018.
- Diener HC, Tassorelli C, Dodick DW, et al. Guidelines of the International Headache Society for controlled trials of preventive treatment of migraine. Cephalalgia. 2020.
- Zhao L, Chen J, Li Y, et al. The long-term effectiveness and safety of acupuncture for migraine prevention. JAMA Intern Med. 2017.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Bulário eletrônico — Emgality, Ajovy, Aimovig. Brasília, 2022.
Fonte Original
European Journal of Clinical Pharmacology(em inglês)Estudo Científico
DOI: 10.1007/s00228-025-03934-3Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
