Sobreviventes de câncer de mama frequentemente enfrentam um conjunto de sintomas neuropsiquiátricos persistentes que comprometem significativamente a qualidade de vida após o término do tratamento oncológico. Dificuldades de concentração, fadiga debilitante, insônia e alterações emocionais — frequentemente descritos como "nevoeiro cerebral" (brain fog) — podem se estender por meses ou anos. Um novo ensaio clínico piloto randomizado e duplo-cego, liderado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine (UC Irvine) e da Universidade Yale, demonstra que a eletroacupuntura direcionada a acupontos neuropsiquiátricos específicos pode produzir melhorias mensuráveis na função cognitiva dessas pacientes.
NÚMEROS DO ENSAIO CLÍNICO
Desenho do estudo
O ensaio, publicado no Journal of the National Cancer Institute, utilizou um desenho duplo-cego — tanto as pacientes quanto os avaliadores desconheciam a alocação de grupo. As 35 participantes, todas sobreviventes de câncer de mama com queixas cognitivas persistentes, foram randomizadas em dois braços: o grupo ativo recebeu eletroacupuntura em acupontos selecionados especificamente por sua relação com circuitos neuropsiquiátricos, enquanto o grupo controle recebeu eletroacupuntura em acupontos inespecíficos, sem relação direta com funções cognitivas. As sessões foram realizadas semanalmente ao longo de dez semanas.
Resultados cognitivos e neurológicos
Os resultados demonstraram uma diferença clinicamente significativa entre os grupos. No grupo que recebeu eletroacupuntura direcionada, 43% das participantes apresentaram melhora mensurável na função cognitiva, especialmente em tarefas de atenção sustentada e velocidade de processamento. No grupo controle, apenas 12,5% atingiram esse patamar de melhora — uma diferença de 3,4 vezes na taxa de resposta terapêutica.
Além dos ganhos cognitivos avaliados por testes neuropsicológicos padronizados, exames de neuroimagem revelaram achados estruturais e funcionais relevantes. As pacientes do grupo ativo apresentaram aumento do volume de substância cinzenta em regiões corticais associadas à atenção e ao controle executivo. Paralelamente, foram identificadas alterações favoráveis na conectividade cerebral funcional, correlacionadas com o grau de melhora cognitiva individual.
ACHADOS EM NEUROIMAGEM
Redução da neuroinflamação
Um dos achados mais relevantes do estudo foi a redução de biomarcadores de neuroinflamação no grupo que recebeu eletroacupuntura direcionada. O tratamento oncológico — incluindo quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia — pode induzir um estado inflamatório crônico no sistema nervoso central, mecanismo considerado um dos principais mediadores do comprometimento cognitivo pós-tratamento. A capacidade da eletroacupuntura de modular essa resposta inflamatória representa um possível mecanismo de ação terapêutica com relevância translacional.
Segurança e tolerabilidade
O perfil de segurança do tratamento foi favorável. A eletroacupuntura foi bem tolerada pela maioria das participantes, com efeitos colaterais limitados a reações leves e transitórias no local de inserção das agulhas. Não foram registrados eventos adversos graves em nenhum dos grupos — dada a amostra pequena (n=35), esses achados de segurança requerem confirmação em estudos maiores em população oncológica. Esse dado é particularmente relevante para a população oncológica, que frequentemente apresenta sensibilidade aumentada a intervenções terapêuticas e polifarmácia.
Significado para a prática clínica
Os resultados deste ensaio piloto, embora obtidos em uma amostra relativamente pequena, oferecem uma base promissora para ensaios confirmatórios de maior escala. A pesquisa foi liderada por Alexandre Chan, da UC Irvine, e Quinton Ng, da Universidade Yale — centros acadêmicos de referência em oncologia integrativa. O fato de a intervenção ter demonstrado eficácia não apenas em desfechos subjetivos, mas também em marcadores neurológicos objetivos (neuroimagem e biomarcadores), confere robustez à evidência gerada.
Para a acupuntura médica praticada no Brasil, esse estudo reforça a importância da seleção criteriosa de acupontos baseada em racional neurofisiológico, e não apenas em protocolos genéricos. A integração da eletroacupuntura ao cuidado oncológico de suporte, coordenada pelo médico, pode representar uma estratégia complementar valiosa para uma condição que atualmente dispõe de poucas opções terapêuticas eficazes.
Perguntas Frequentes
A eletroacupuntura é uma modalidade que combina a inserção de agulhas em acupontos com a aplicação de microcorrentes elétricas entre pares de agulhas. Essa estimulação elétrica permite controlar com precisão a frequência e a intensidade do estímulo, potencializando a ativação de vias neurais específicas. Na prática médica, é utilizada quando se deseja um efeito neuromodulatório mais intenso e reprodutível do que o obtido apenas com a manipulação manual das agulhas.
O estudo avaliou especificamente sobreviventes com queixas cognitivas persistentes após o término do tratamento oncológico. A indicação deve ser individualizada pelo médico, considerando o perfil de sintomas, o tempo desde o tratamento, eventuais contraindicações locais e o estado clínico geral da paciente. Como se trata de um ensaio piloto, ensaios confirmatórios de maior escala são necessários antes de recomendações amplas.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
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