Em um momento em que os agonistas de GLP-1 — semaglutida (Ozempic/Wegovy) e liraglutida — dominam o debate sobre farmacoterapia da obesidade, um estudo publicado em 8 de janeiro de 2026 na Chinese Medicine (Springer Nature) oferece um achado com implicações clínicas e translacionais consideráveis: a eletroacupuntura suprime o apetite e reduz o peso em modelos de obesidade induzida por dieta por meio do mesmo circuito neural que os agonistas de GLP-1 exploram — o eixo vagal–GLP-1–núcleo arqueado (ARC) do hipotálamo.
PRINCIPAIS ACHADOS DO ESTUDO
O circuito vagal–GLP-1–ARC: do intestino ao hipotálamo
O estudo, conduzido por Yang et al. da Universidade de Wuhan, utilizou ratos Wistar machos com obesidade induzida por dieta hiperlipídica durante 8 semanas. O grupo eletroacupuntura recebeu estimulação em acupontos estabelecidos por mais 8 semanas. Utilizando técnicas quimiogenéticas (DREADD), os pesquisadores puderam ativar ou inibir seletivamente os neurônios produtores de GLP-1 no núcleo do trato solitário (NTS) do tronco encefálico — a primeira estáção de retransmissão dos sinais vagais aferentes provenientes do trato gastrointestinal.
O resultado: a eletroacupuntura aumentou a excitabilidade das fibras aferentes vagais gástricas e promoveu a expressão de GLP-1 nos neurônios do NTS. O GLP-1 liberado, por sua vez, modulou neuropeptídeos no ARC hipotalâmico — elevando POMC (pró-opiomelanocortina, anorexigênica) e reduzindo NPY (neuropeptídeo Y, orexigênico). Esse reequilíbrio se traduziu em redução progressiva da ingestão alimentar em 24 horas e desaceleração do ganho de peso, com diferença estatisticamente significativa a partir da 6ª semana de tratamento.
Eletroacupuntura versus estimulação transcutânea do nervo vago auricular
Um achado adicional relevante do estudo foi a comparação entre a eletroacupuntura (EA) e a estimulação transcutânea do nervo vago auricular (taVNS) — uma técnica não invasiva que estimula a rama auricular do nervo vago. Ambas as intervenções ativaram os neurônios NTS-GLP-1 e produziram redução de peso, mas a EA induziu ativação significativamente maior das fibras aferentes vagais em comparação à taVNS. Isso sugere que a estimulação de acupontos no tronco e abdômen acessa o nervo vago por vias aferentes adicionais às exploradas pela estimulação auricular, potencializando o sinal anorexigênico central.
Perguntas Frequentes
Não há evidências clínicas que suportem essa afirmação. O estudo de 2026 demonstra que a eletroacupuntura e os agonistas de GLP-1 compartilham um mecanismo de ação neural comum — o circuito vagal–GLP-1–ARC — mas em modelos animais. Os agonistas de GLP-1 produzem reduções de peso maiores e mais consistentes em ensaios clínicos de larga escala em humanos. A eletroacupuntura pode ser considerada como adjuvante ou alternativa para pacientes com intolerância a esses medicamentos, sempre sob avaliação médica individualizada.
Os protocolos clínicos mais estudados incluem acupontos do meridiano do estômago (ST25, ST36, ST40), baço/pâncreas (SP6, SP9), e pontos auriculares como a concha auricular (associada ao nervo vago). A seleção definitiva de acupontos deve ser feita pelo médico acupunturista com base na avaliação clínica do paciente, considerando padrões de comorbidades como síndrome metabólica, diabetes e dislipidemia.
Fonte Original
Chinese Medicine(em inglês)Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
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