Uma revisão integrativa publicada na Frontiers in Human Neuroscience sintetiza a literatura de neuroimagem sobre os mecanismos cerebrais da acupuntura, integrando dados de ressonância magnética funcional (fMRI), eletroencefalografia (EEG) e tomografia por emissão de pósitrons (PET). O trabalho, conduzido por pesquisadores da Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Heilongjiang, propõe um framework unificado que conecta a estimulação periférica da agulha a mudanças mensuráveis em redes cerebrais — explicando como a acupuntura médica produz efeitos clínicos que vão além do sítio de aplicação.
Redes cerebrais que respondem à acupuntura
Os estudos de fMRI revisados identificam padrões consistentes de ativação e desativação cerebrais após acupuntura. O sistema límbico — incluindo amígdala e hipocampo — responde de forma significativa à estimulação acupuntural, o que fundamenta os efeitos sobre ansiedade, memória e processamento emocional da dor. A rede de modo padrão (default mode network — DMN), que se encontra patologicamente hiperativada em condições de dor crônica como fibromialgia e lombalgia crônica, têm sido associada, em estudos de neuroimagem, a modulação específica pela acupuntura — com alterações de conectividade que se correlacionam com melhora clínica em alguns estudos. As vias nociceptivas espinais e supraespinais — incluindo tálamo, córtex somatossensorial e ínsula — também exibem respostas características que explicam a analgesia.
O desafio metodológico: o que o sham revela
Um dos achados mais provocativos da revisão é que procedimentos sham — agulhas retráteis ou laser inativo aplicados em acupontos reais ou em pontos não acupunturais — elicitam ativações cerebrais similares às da acupuntura ativa, embora de magnitude atenuada. Os autores interpretam esse fenômeno como evidência de dois componentes superpostos: um efeito específico dos acupontos e da manipulação da agulha (maior no grupo ativo), e um efeito não-específico de expectativa e resposta sensorial geral (presente em ambos os grupos). A implicação clínica é que parte do benefício da acupuntura deriva de mecanismos específicos de ponto, justificando a formação médica especializada na seleção e manipulação precisa dos acupontos.
A convergência de dados de fMRI, EEG e PET apresentada nesta revisão fortalece a compreensão da acupuntura como uma intervenção neuromodulatória com mecanismos identificáveis e mensuráveis. A capacidade de alterar a conectividade de redes como a DMN — hiperativada na dor crônica — sugere que a acupuntura médica pode interagir com essas redes cerebrais, embora a extensão e a durabilidade dessa reorganização ainda sejam tema de investigação ativa, complementar às abordagens farmacológicas e psicológicas no manejo de condições dolorosas crônicas.
Fonte Original
Frontiers in Human Neuroscience(em inglês)Estudo Científico
DOI: 10.3389/fnhum.2026.1704570Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
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