Uma transformação silenciosa está acontecendo nas salas de oncologia ao redor do mundo. Médicos, farmacêuticos e enfermeiros especialistas em câncer estão cada vez mais incorporando práticas integrativas ao plano de cuidado dos seus pacientes — e a acupuntura lidera esse movimento. Uma pesquisa global publicada no BMC Complementary Medicine and Therapies em novembro de 2025 pela equipe da Universidade da Califórnia em Irvine (UC Irvine) quantifica esse fenômeno com rigor: 344 profissionais de oncologia de oito regiões do mundo, filiados à Multinational Association of Supportive Care in Cancer (MASCC) e à Society for Integrative Oncology (SIO), responderam sobre seus hábitos de recomendação, barreiras percebidas e visão sobre o estado atual da oncologia integrativa.
O estudo foi liderado pelo Prof. Alexandre Chan, presidente do Departamento de Prática Farmacêutica Clínica da UC Irvine, com contribuição de Reem Nasr, candidata ao título de Pharm.D. Trata-se de uma análise transversal por questionário estruturado, distribuído entre membros das duas principais sociedades internacionais de cuidado de suporte oncológico — o que garante que a amostra representa profissionais engajados com pesquisa e inovação terapêutica em oncologia, não uma amostra de conveniência. As oito regiões incluídas abrangem América do Norte, Europa, América Latina, Oriente Médio, Ásia, África subsaariana, Sul da Ásia e Oceania.
PESQUISA GLOBAL: ONCOLOGIA INTEGRATIVA E ACUPUNTURA (BMC, NOVEMBRO 2025)
Acupuntura no Topo: a Modalidade Mais Recomendada
Entre todas as modalidades integrativas avaliadas, a acupuntura foi a mais recomendada globalmente, citada por 48% dos respondentes. Na sequência vieram aulas de exercício (39%), nutrição (38%), respiração/yoga (38%) e exercício personalizado (38%). A liderança da acupuntura reflete o volume crescente de evidências de alta qualidade — ensaios clínicos em dor oncológica, fadiga, insônia, náusea induzida por quimioterapia e neuropatia periférica —, bem como a familiaridade dos oncologistas de ponta com essas públicações. Em países de alta renda (América do Norte, Europa, Oceania), a acupuntura divide o primeiro lugar com massagem terapêutica e exercício individualizado. Em países de renda baixa e média (LMIC), as práticas mais acessíveis lideram: aconselhamento nutricional e exercício em grupo — mas a acupuntura ainda aparece com frequência, especialmente em contextos com tradição de medicina oriental.
O Gap Evidência–Prática: Por que 79% Dizem que É Subutilizada?
Se 70% dos oncologistas já recomendam práticas integrativas e as evidências são robustas, por que 79% ainda percebem subutilização? A pesquisa identifica barreiras estruturais concretas: custo e cobertura de seguro são os maiores obstáculos. Os dados de pagamento revelam alta heterogeneidade regional — em algumas regiões, entre 20% e 67% dos pacientes pagam do próprio bolso, o que cria iniquidade de acesso. A cobertura por seguros privados varia de 0% a 26% por região; coberturas governamentais ficam entre 7% e 40%. Nos países de alta renda, as barreiras são mais de infraestrutura e integração (falta de profissionais treinados dentro dos hospitais, dificuldade de encaminhamento formal). Nos LMICs, o custo é o impeditivo central.
A formação profissional também emerge como fator crítico: a disponibilidade de educação continuada em oncologia integrativa é a mais alta na América do Norte (69% dos profissionais relatam acesso a cursos) e a mais baixa no Sul da Ásia e África subsaariana — onde, por sinal, práticas tradicionais locais têm enraizamento histórico mas carecem de sistematização baseada em evidências. O dado é um chamado à ação para sociedades médicas e universidades: a demanda existe, a evidência existe, mas o treinamento e a cobertura não acompanharam.
Perguntas Frequentes
Segundo as evidências disponíveis, a acupuntura não têm interações farmacológicas descritas com quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou hormonoterapia quando praticada por médico acupunturista com conhecimento oncológico. Os cuidados específicos incluem: evitar acupuntura em áreas irradiadas até cicatrização, aguardar recuperação de plaquetas antes de sessões (trombocitopenia severa exige adaptação de protocolo), e utilizar agulhas ultrafinas descartáveis em pacientes neutropênicos. A comunicação direta entre o médico acupunturista e o oncologista responsável é indispensável para ajuste do protocolo às condições hematológicas do paciente.
A acupuntura está incluída na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC/PICS) do SUS desde 2006. O acesso varia conforme o município e o serviço: algumas unidades básicas e hospitais de referência oferecem atendimento por médico acupunturista ou outro profissional qualificado. Para pacientes oncológicos especificamente, o ideal é que o atendimento seja prestado por médico acupunturista com experiência em oncologia, dentro ou vinculado ao serviço de oncologia. Recomenda-se verificar junto ao CAPS, UBS ou serviço oncológico referenciador a disponibilidade local.
Em pacientes recebendo quimioterapia, os protocolos mais estudados e seguros incluem acupuntura para náusea/vômito (ponto PC6 — neiguan — é o mais documentado na Cochrane, com evidência de alta qualidade), acupuntura para fadiga (ST36 — zusanli — e BL23 são referências clínicas consolidadas) e acupuntura para neuropatia periférica induzida por taxanos ou platinas (protocolos com pontos distais dos membros). A acupuntura auricular com agulhas semi-permanentes é especialmente prática para pacientes em ciclos quimioterápicos intensos, pois pode ser mantida entre as sessões. O médico acupunturista definirá o protocolo após avaliação clínica detalhada do esquema quimioterápico e do estado geral do paciente.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
