A osteoartrite de joelho é a forma mais comum de artrite, afetando globalmente 365 milhões de pessoas e representando uma das principais causas de dor crônica e limitação funcional em adultos acima de 50 anos. O arsenal terapêutico não farmacológico é vasto — fisioterapia, exercício, laser, ultrassom, estimulação elétrica, joelheiras, hidroterapia — mas comparações diretas entre essas modalidades são escassas.
Uma meta-análise em rede publicada na PLOS One por Chen X et al. (2025) — amplamente repercutida pela ScienceDaily em março de 2026 — realizou a comparação mais abrangente já publicada: 139 ensaios clínicos randomizados, 9.644 pacientes e 12 intervenções simultâneas em uma única análise em rede. O resultado hierarquiza as opções disponíveis para dor, função física, rigidez articular e escore total WOMAC, fornecendo subsídios para decisões terapêuticas individualizadas.
A escala da meta-análise: 12 intervenções, 139 estudos
A abrangência desta NMA é seu principal diferencial. Enquanto a maioria das meta-análises compara 2 a 4 intervenções, está análise frequentista com modelos de efeitos aleatórios permitiu ranquear simultaneamente:
As 12 intervenções físicas comparadas
- Laser de baixa intensidade (LLLT — Low-Level Laser Therapy)
- Laser de alta intensidade (HILT — High-Intensity Laser Therapy)
- TENS (Transcutaneous Electrical Nerve Stimulation)
- Corrente interferencial (IFC — Interferential Current)
- Onda curta (Short Wave Diathermy)
- Ultrassom terapêutico
- Palmilha em cunha lateral (Lateral Wedged Insole)
- Joelheira (Knee Brace)
- Exercício físico (aeróbico e/ou fortalecimento)
- Hidroterapia / exercício aquático
- Bandagem funcional (Kinesio Taping)
- Terapia por ondas de choque extracorpóreas (ESWT)
O desfecho primário foi o escore WOMAC (Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index) para dor, função e rigidez — o questionário de referência global para osteoartrite. Desfechos secundários incluíram a VAS (Escala Visual Analógica) para dor em repouso e dor em atividade. A consistência da rede foi verificada por testes de inconsistência e análise de funil.
NMA DE 12 TERAPIAS PARA OA DE JOELHO — DADOS DO ESTUDO
Resultados: joelheira e hidroterapia no topo da hierarquia
A análise SUCRA (Surface Under the Cumulative Ranking Curve) — que quantifica a probabilidade de cada intervenção ser a melhor em cada desfecho — revelou uma hierarquia consistente com destaque para dois vencedores:
HIERARQUIA DAS INTERVENÇÕES POR DESFECHO (SUCRA)
| DESFECHO | INTERVENÇÃO MELHOR RANQUEADA |
|---|---|
| Dor WOMAC | Joelheira (Knee Brace) — maior probabilidade de ser a melhor intervenção · superioridade sobre 11 dos 12 comparadores nas análises diretas |
| Função física WOMAC | Joelheira — diferença significativa vs. 11 dos 12 comparadores · benefício clinicamente relevante em atividades cotidianas |
| Rigidez articular WOMAC | Joelheira — melhor ranqueada · seguida de exercício e hidroterapia |
| Escore total WOMAC | Hidroterapia — melhor para desfecho composto de dor + função + rigidez · superioridade vs. corrente interferencial, ultrassom e placebo |
A conclusão dos autores é direta: "A joelheira pode ser a opção terapêutica mais recomendada para osteoartrite de joelho, seguida de hidroterapia e exercício." O ultrassom terapêutico apresentou os piores resultados em múltiplos desfechos, questionando sua utilização rotineira em OA de joelho.
Por que a joelheira supera exercício, TENS e laser?
O resultado surpreendente para joelheira (knee brace) têm respaldo biomecânico. A osteoartrite de joelho predominantemente medial (compartimento interno) — que representa 80% dos casos — é agravada pelo momento adutor do joelho, uma força que comprime o compartimento medial durante a marcha. Joelheiras de descarga (offloading braces) reduzem esse momento em 10 a 30%, aliviando diretamente a sobrecarga cartilaginosa.
A hidroterapia, por sua vez, beneficia-se da flutuação aquática que elimina 90% do peso corporal sobre as articulações durante o exercício, permitindo amplitude de movimento sem sobrecarga dolorosa — especialmente vantajoso em pacientes com OA moderada a grave e índice de massa corporal elevado.
Perguntas Frequentes
Não. Existem vários tipos de joelheira para OA de joelho: (1) joelheiras de descarga (offloading braces) — deslocam a carga do compartimento mais afetado (geralmente medial) para o lateral; essas são as mais eficazes para OA com desvio em varo (joelho para dentro), mas precisam ser prescritas e ajustadas individualmente; (2) joelheiras de estabilização (sleeve braces) — fornecem compressão e propriocepção, sem redistribuição de carga; efeito mais modesto; (3) palmilhas em cunha lateral — alternativa mais acessível, com evidência menor. A NMA avaliou joelheiras em geral, mas a prescrição individualizada determina o resultado clínico.
Sim, de forma limitada. Alguns Centros de Reabilitação do SUS, Associações de Assistência à Criança Deficiente (AACD), Serviços de Assistência Especializada (SAE) e hospitais de reabilitação vinculados ao SUS oferecem hidroterapia. A cobertura é muito desigual entre regiões. Além disso, a hidroginástica em piscinas públicas e academias conveniadas com planos de saúde é uma alternativa com efeito comprovado — não precisa ser hidroterapia supervisionada em hospital para ter benefício clínico.
Acupuntura têm evidência independente e robusta para osteoartrite de joelho. Uma meta-análise em rede publicada no BMJ em 2024 com 80 ensaios clínicos randomizados e mais de 11.000 pacientes confirmou que acupuntura é superior a sham e a não-tratamento para dor e função em OA de joelho. Seu mecanismo é distinto das terapias físicas desta NMA: enquanto joelheira e exercício atuam perifericamente (descarga mecânica, fortalecimento muscular), acupuntura modula centralmente a percepção dolorosa via sistema descendente inibitório. A combinação é clinicamente sinérgica.
Está NMA posicionou a ESWT favoravelmente para OA de joelho — especialmente para função. O mecanismo proposto inclui estimulação neoangiogênica no osso subcondral, modulação de mediadores inflamatórios (IL-1β, PGE2) e efeito analgésico direto por hiperstimulação de nociceptores. A literatura têm estudos com resultados variáveis, parcialmente por diferenças nos protocolos (ondas de choque focadas vs. radiais, número e intensidade de sessões). Para pacientes com OA moderada que não responderam a outras medidas conservadoras, a ESWT é uma alternativa válida antes de cogitar a cirurgia.
Os protocolos dos estudos desta NMA variaram amplamente, mas as diretrizes sugerem que um programa inicial de 8 a 12 semanas com 2 a 3 sessões semanais produz benefício mensurável. Após essa fase, a manutenção com programa domiciliar (exercício independente supervisionado inicialmente por fisioterapeuta ou educador físico) é essencial para preservar os ganhos. A joelheira pode ser usada continuamente durante as atividades que provocam dor (caminhadas, subir escadas) sem limite de tempo, desde que tolerada.
Fontes consultadas
- Chen X, Fan Y, Tu H, Luo Y. Network meta-analysis of non-pharmacological therapies for knee osteoarthritis. PLOS One. 2025;20(6):e0324864. DOI: 10.1371/journal.pone.0324864. PMID: 40531843.
- Bannuru RR, Osani MC, Vaysbrot EE, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019.
- Kolasinski SL, Neogi T, Hochberg MC, et al. 2019 ACR/Arthritis Foundation guideline for management of osteoarthritis. Arthritis Care Res. 2020.
- Mazzei DR, Ademola A, Abbott JH, Sajobi T, Hildebrand K, Marshall DA. Are education, exercise and diet interventions a cost-effective treatment to manage hip and knee osteoarthritis? A systematic review. Osteoarthritis Cartilage. 2021.
- Zhao L, Liu J, Zhang F, et al. Effects of long-term acupuncture treatment on patients with knee osteoarthritis: a network meta-analysis. BMJ Open. 2024.
- ScienceDaily. Non-pharmacological therapies for knee osteoarthritis ranked by network meta-analysis. Março de 2026.
Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
