O que e Cefaleia em Salvas?
A cefaleia em salvas (cluster headache) e uma cefaleia primária classificada no grupo das cefaleias trigeminoautonomicas. E considerada uma das dores mais intensas conhecidas na medicina — frequentemente descrita como uma dor excruciante, "como se um objeto incandescente fosse pressionado contra o olho".
O nome "em salvas" refere-se ao padrão temporal característico: as crises ocorrem em períodos de salvas (clusters) que duram semanas a meses, intercalados por períodos de remissão que podem durar meses a anos. Durante uma salva, o paciente apresenta 1 a 8 crises por dia, frequentemente em horários previsíveis.
Diferente da enxaqueca, a cefaleia em salvas e mais prevalente em homens (3-4:1) e tipicamente inicia entre os 20 e 40 anos de idade. Apesar de sua intensidade extraordinária, e frequentemente subdiagnosticada, com tempo médio de 5-7 anos até o diagnóstico correto.
Dor Excruciante
Classificada como uma das dores mais intensas da medicina. Pacientes frequentemente não conseguem permanecer parados durante as crises.
Padrão Temporal
Crises ocorrem em períodos de salvas com ritmo circadiano — frequentemente no mesmo horário, muitas vezes despertando o paciente de madrugada.
Origem Hipotalamica
O hipotálamo e o gerador central das crises, explicando a ritmicidade circadiana e sazonal característica.
Fisiopatologia
A cefaleia em salvas e uma doença hipotalamica com ativação secundária do sistema trigeminovascular e da via autônoma parassimpática. O hipotálamo posterior funciona como o "relogio biológico" que desencadeia as crises com padrões temporais previsíveis.
Estudos de neuroimagem funcional (PET e fMRI) demonstraram ativação do hipotálamo posteroinferior ipsilateral durante as crises — uma descoberta marcante que fundamentou a compreensao moderna da doença. Essa região contém o núcleo supraquiasmatico, responsável pelos ritmos circadianos.

O Reflexo Trigeminoautonomico
A ativação do ramo oftalmico do nervo trigemeo (V1) gera a dor periorbital intensa. Simultaneamente, fibras parassimpáticas do nervo facial são ativadas via reflexo trigeminoautonomico, causando os sintomas autonomicos ipsilaterais: lacrimejamento, congestao nasal, rinorreia, edema palpebral e miose/ptose.
O CGRP e o VIP (peptideo intestinal vasoativo) estao significativamente elevados durante as crises. O CGRP e liberado pelas fibras trigeminais, enquanto o VIP reflete a ativação parassimpática. Os níveis normalizam após tratamento eficaz com sumatriptano ou oxigenio.

Sintomas
A crise de cefaleia em salvas e inconfundivel pela combinação de dor unilateral excruciante com sintomas autonomicos ipsilaterais e agitação motora. O reconhecimento desse padrão e fundamental para diferênciação de outras cefaleias.

Sintomas da Crise de Cefaleia em Salvas
- 01
Dor periorbital/temporal unilateral excruciante
Dor intensa ao redor ou atras de um olho, que pode irradiar para face, mandíbula e pescoco. Sempre do mesmo lado durante uma salva.
- 02
Lacrimejamento ipsilateral
Lacrimejamento profuso do olho do lado da dor, presente em mais de 90% dos pacientes.
- 03
Congestao nasal ou rinorreia ipsilateral
Obstrução nasal ou coriza aquosa do lado da dor, frequentemente confundida com sinusite.
- 04
Ptose e miose ipsilateral
Palpebra caida e pupila contraida (síndrome de Horner parcial), refletindo disfunção simpática ipsilateral.
- 05
Edema palpebral
Inchaco da palpebra do lado afetado, presente em até 74% dos pacientes.
- 06
Agitação psicomotora
Diferente da enxaqueca, o paciente não fica quieto — caminha, balanca, pressiona a região dolorosa. Incapacidade de permanecer parado.
- 07
Duração de 15-180 minutos
Crises tipicamente duram 45-90 minutos. Início e termino abruptos.
- 08
Ritmicidade circadiana
Crises frequentemente ocorrem no mesmo horário, especialmente 1-2 horas após adormecer (fase REM do sono).
Diagnóstico
O diagnóstico e clínico, baseado na historia típica de crises de dor periorbital/temporal intensa e breve com sintomas autonomicos ipsilaterais. Apesar do quadro clínico classico, o atraso diagnóstico médio e de 5-7 anos, frequentemente devido a confusão com sinusite, enxaqueca ou problemas dentarios.
🏥Criterios ICHD-3 para Cefaleia em Salvas
- 1.Pelo menos 5 crises preenchendo os criterios abaixo
- 2.Dor intensa a muito intensa, unilateral, orbital/supraorbital/temporal, durando 15-180 minutos
- 3.Pelo menos 1 de: lacrimejamento/hiperemia conjuntival ipsilateral, congestao nasal/rinorreia ipsilateral, edema palpebral ipsilateral, sudorese frontal/facial ipsilateral, miose/ptose ipsilateral, agitação ou inquietação
- 4.Frequência de 1 a cada 2 dias até 8 por dia
- 5.Não atribuida a outra condição
Diagnóstico Diferencial
A cefaleia em salvas compartilha características com outras cefaleias primarias e secundarias que exigem distincao cuidadosa. O atraso médio de 5-7 anos no diagnóstico se deve em grande parte a confusão com outras condições.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Enxaqueca
Leia mais →- Duração 4-72h (mais longa)
- Sem lacrimejamento/ptose
- Bilateral possível
- Fotofobia intensa
Testes Diagnósticos
- Criterios ICHD-3
Hemicraneia Paroxistica
- Episódios de 2-30 min
- Predominância feminina
- Resposta dramatica a indometacina
Testes Diagnósticos
- Teste terapêutico com indometacina
SUNCT/SUNA
- Episódios de segundos a poucos minutos
- Conjuntival injection e lacrimejamento
- Muito alta frequência diaria
Testes Diagnósticos
- Criterios ICHD-3
- RNM para excluir causa secundária
Neuralgia do Trigemeo
Leia mais →- Duração de segundos
- Zona gatilho facial
- Sem sintomas autonomicos
Testes Diagnósticos
- Criterios ICHD-3
- RNM com contraste
Sinusite
- Dor na face com congestao nasal
- Sensibilidade sinusal a percussão
- Febre possível
Testes Diagnósticos
- TC de seios paranasais
O Erro Mais Comum: Confusão com Sinusite
A confusão com sinusite e a principal causa do atraso diagnóstico na cefaleia em salvas. A congestao nasal e o lacrimejamento — sintomas autonomicos da crise — são interpretados como sinusite aguda, e o paciente recebe cursos repetidos de antibioticos sem benefício. A diferença fundamental e que na cefaleia em salvas os sintomas nasais são ipsilaterais a dor, surgem abruptamente com as crises e desaparecem com elas, enquanto na sinusite os sintomas nasais são persistentes e a dor e mais difusa e surda.
O médico acupunturista que avalia pacientes com "sinusite de repetição" que não responde a antibioticos deve questionar ativamente sobre o padrão temporal das crises, a unilateralidade estrita da dor e a presença de lacrimejamento, ptose ou agitação. Esses elementos, quando presentes, indicam cefaleia em salvas até prova em contrário.
Cefaleias Trigeminoautonomicas: A Família da Cefaleia em Salvas
A cefaleia em salvas faz parte do grupo das cefaleias trigeminoautonomicas (CTAs), que compartilham o mecanismo de ativação do reflexo trigeminoautonomico. As outras CTAs — hemicraneia paroxistica, SUNCT/SUNA e hemicraneia continua — apresentam sintomas autonomicos semelhantes mas diferem em duração, frequência e resposta terapêutica. Essa distincao e clinicamente crítica porque as CTAs respondem a tratamentos diferentes.
A hemicraneia paroxistica, por exemplo, e clinicamente semelhante a cefaleia em salvas mas têm resposta absoluta e específica a indometacina — ausência dessa resposta exclui o diagnóstico. O SUNCT apresenta crises muito mais curtas (segundos a 2 minutos) e de altissima frequência (até 200 crises por dia), com resposta a lamotrigina. A RNM e obrigatória em todas as CTAs para excluir causas secundarias.
Quando Suspeitar de Causa Secundária
Embora a maioria das cefaleias em salvas seja primária, causas secundarias devem ser excluidas em todos os casos, especialmente no primeiro episódio. Tumores hipofisarios, meningiomas, malformações arteriovenosas e aneurismas cerebrais podem causar síndrome semelhante a cefaleia em salvas ao comprimir estruturas adjacentes ao hipotálamo ou ao seio cavernoso.
Sinais que devem aumentar a suspeita de causa secundária incluem: início após os 50 anos sem histórico previo, ausência do padrão circadiano típico, sinais neurológicos associados, salvas que não respondem a tratamento padrão e cefaleia em salvas bilateral. A RNM com contraste do encefalo e indicada em todos os pacientes ao diagnóstico.
Tratamento
O tratamento da cefaleia em salvas inclui tres componentes: tratamento abortivo (para encerrar a crise rapidamente), tratamento transitório (para supressão rápida das crises enquanto o preventivo faz efeito) e tratamento preventivo (para encurtar a salva e reduzir a frequência das crises).
OPÇÕES TERAPÊUTICAS NA CEFALEIA EM SALVAS
| TIPO | MEDICAMENTO | EFICACIA/OBSERVAÇÕES |
|---|---|---|
| Abortivo | Oxigenio 100% (12-15 L/min por 15 min) | Considerado primeira linha em estudos controlados; bem tolerado, mas deve ser usado sob orientação médica. |
| Abortivo | Sumatriptano 6 mg subcutâneo | Eficaz em 75% dos pacientes em 15 minutos. Contraindicado em doença cardiovascular. |
| Transitório | Corticosteroides (prednisona) | Ciclo curto de 2-3 semanas para supressão rápida das crises. |
| Preventivo | Verapamil (240-960 mg/dia) | Primeira linha na prevenção. Necessita monitorização com ECG. |
| Preventivo | Litio (600-1200 mg/dia) | Segunda linha. Necessita monitorização de litemia e função tireoidiana. |
| Preventivo | Anticorpos anti-CGRP (galcanezumabe) | Aprovado para cefaleia em salvas episodica. Novo avanço terapêutico. |
Tratamento Abortivo
Oxigenio a 100% por mascara não reinalante a 12-15 L/min por 15-20 minutos e considerado tratamento de primeira linha para abortar as crises em estudos controlados. Geralmente bem tolerado e pode ser usado múltiplas vezes ao dia sob orientação médica. Deve ser prescrito formalmente para que o paciente tenha acesso domiciliar.
Sumatriptano subcutâneo (6 mg) e a alternativa mais rápida, com alívio em 15 minutos para a maioria dos pacientes. O sumatriptano nasal (20 mg) e uma opção menos invasiva, embora um pouco menos eficaz. Analgésicos comuns e anti-inflamatorios são ineficazes — a crise termina antes que eles atinjam concentrações terapêuticas.

Acupuntura como Tratamento
A evidência para acupuntura na cefaleia em salvas e mais limitada do que para enxaqueca, com poucos ensaios clínicos randomizados de grande porte. No entanto, alguns estudos e series de casos sugerem que a acupuntura pode ter papel adjuvante, particularmente na fase de salvas e na prevenção de recorrências.
Os mecanismos propostos incluem modulação da atividade hipotalamica, regulação do sistema trigeminoautonomico, efeito sobre os níveis de CGRP e modulação do sistema nervoso autônomo. A estimulação de pontos na região craniofacial e cervical pode influenciar as vias trigeminovasculares envolvidas na geração das crises.
Importante ressaltar que a acupuntura não substitui o tratamento farmacológico estabelecido na cefaleia em salvas, especialmente o oxigenio e o sumatriptano para as crises agudas. Pode ser considerada como terapia complementar ao tratamento preventivo padrão, particularmente em pacientes com resposta parcial aos medicamentos.
Prognóstico
A cefaleia em salvas e uma condição crônica com curso variável. Na forma episodica (80-90% dos casos), os períodos de salvas duram tipicamente 2-12 semanas e se repetem uma a duas vezes por ano, com períodos de remissão completa entre as salvas.
Cerca de 10-20% dos pacientes apresentam a forma crônica, na qual as remissões são ausentes ou duram menos de 3 meses. A transição de episodica para crônica pode ocorrer ao longo do tempo, embora o inverso também seja possível.
Com tratamento adequado, a maioria dos pacientes consegue controle significativo das crises durante os períodos de salvas. Em uma minoria de pacientes, a cefaleia em salvas pode entrar em remissão prolongada ou permanente com a idade.
Mitos e Fatos
Mito vs. Fato
Cefaleia em salvas e um tipo de enxaqueca
São entidades completamente distintas. A cefaleia em salvas pertence ao grupo das cefaleias trigeminoautonomicas, com fisiopatologia, sintomas e tratamentos diferentes.
E causada por sinusite
A congestao nasal e um sintoma autonômico da crise, não a causa. Essa confusão e responsável por anos de tratamento incorreto em muitos pacientes.
Analgésicos comuns resolvem a dor
Analgésicos orais são ineficazes — a crise termina espontaneamente antes que facam efeito. Oxigenio a 100% e sumatriptano subcutâneo são os tratamentos abortivos eficazes.
Só homens desenvolvem cefaleia em salvas
Embora mais frequente em homens (3-4:1), mulheres também são afetadas. Nelas, o diagnóstico tende a ser ainda mais atrasado por ser confundida com enxaqueca.
Quando Procurar Ajuda
Perguntas Frequentes
Perguntas Frequentes
A cefaleia em salvas e consistentemente classificada como uma das dores mais intensas que um ser humano pode experimentar — muitos pacientes relatam que e mais intensa do que fratura óssea, parto sem anestesia ou queimaduras. Isso levou a cefaleia em salvas a ser chamada informalmente de "cefaleia suicida", nome que reflete o impacto devastador que pode ter sem tratamento adequado. Com o tratamento correto, a maioria dos pacientes consegue controle satisfatório das crises.
A ritmicidade circadiana — crises no mesmo horário, frequentemente madrugada — reflete a disfunção hipotalamica central na doença. O hipotálamo posterior, que contém o núcleo supraquiasmatico (o "relogio biológico" do corpo), e o gerador central das crises. Estudos de neuroimagem demonstraram ativação dessa região durante as crises. Alterações nos níveis de melatonina e cortisol durante os períodos de salvas reforçam o papel do hipotálamo.
Oxigenio a 100% por mascara não reinalante a 12-15 L/min por 15-20 minutos e considerado tratamento de primeira linha para abortar as crises em estudos controlados, geralmente bem tolerado e podendo ser utilizado múltiplas vezes ao dia sob orientação médica. Sumatriptano subcutâneo 6 mg e a alternativa mais rápida, com alívio relatado em torno de 15 minutos na maioria dos pacientes, indicado quando o oxigenio não está disponível ou e insuficiente. Analgésicos comuns e anti-inflamatorios são ineficazes.
Verapamil (240-960 mg/dia) e o preventivo de primeira linha durante as salvas. Necessita monitorização com eletrocardiograma devido ao risco de bloqueio cardiaco. Corticosteroides em ciclo curto (prednisona) são usados como ponte — promovem supressão rápida das crises enquanto o verapamil atinge níveis terapêuticos. Litio e uma opção de segunda linha, especialmente para a forma crônica. Os anticorpos anti-CGRP (galcanezumabe) foram aprovados para cefaleia em salvas episodica.
Em uma minoria de pacientes, a cefaleia em salvas pode entrar em remissão prolongada ou permanente com a idade. Na forma episodica (80-90% dos casos), períodos de remissão completa entre as salvas são a regra, podendo durar meses a anos. Na forma crônica (10-20%), as remissões são ausentes ou muito curtas. Alguns pacientes com forma crônica conseguem converter para a forma episodica com tratamento adequado, especialmente com anticorpos anti-CGRP.
Sim, o alcool e um dos gatilhos mais potentes durante um período de salvas — mesmo pequenas quantidades podem desencadear uma crise em minutos a horas. O mecanismo envolve vasodilatação e possível ativação hipotalamica. Curiosamente, o mesmo paciente pode consumir alcool livremente durante os períodos de remissão sem qualquer crise. Tabagismo e um fator de risco estabelecido para o desenvolvimento da doença, e a maioria dos pacientes com cefaleia em salvas são ou foram fumantes.
A evidência para acupuntura na cefaleia em salvas e mais limitada do que para enxaqueca. Estudos preliminares sugerem que pode ter papel adjuvante na redução da frequência das crises e no encurtamento dos períodos de salvas, mas não substitui o tratamento farmacológico estabelecido. O médico acupunturista pode considerar a acupuntura como complemento ao tratamento preventivo padrão, especialmente em pacientes com resposta parcial ao verapamil ou que buscam reduzir a dose farmacológica.
A cefaleia em salvas e tres a quatro vezes mais comum em homens do que em mulheres, uma das inversoes de prevalência em relação a enxaqueca, mais frequente em mulheres. As razoes não são completamente compreendidas, mas incluem diferenças hormonais, papel do tabagismo (historicamente mais prevalente em homens) e possivelmente diferenças na anatomia e função hipotalamicas entre os sexos. Nas mulheres, o diagnóstico tende a ser ainda mais atrasado por ser confundida com enxaqueca.
Durante uma crise: use oxigenio a 100% se disponível domiciliarmente (prescrito pelo médico), aplique sumatriptano subcutâneo se prescrito, evite deitar-se (pacientes naturalmente tendem a ficar em pe ou se mover — ao contrário da enxaqueca). Não tome analgésicos orais — a crise termina antes que facam efeito. A crise dura tipicamente 45-90 minutos e cede espontaneamente. Registrar horário e duração das crises ajuda o médico a ajustar o tratamento preventivo.
A cefaleia em salvas em crianças e rara mas documentada. O início típico e na segunda ou terceira decada de vida, com pico entre 20 e 40 anos. Casos pediatricos tendem a ser subdiagnosticados, pois a condição e pouco conhecida fora da neurologia. A apresentação em crianças pode ser ligeiramente diferente da do adulto, com crises mais curtas e talvez menos sintomas autonomicos proeminentes. Toda criança com dor periorbital unilateral recorrente deve ser avaliada por neurologista.
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