O que é a Distensão Adutora?

A distensão adutora — também referida como pubalgia muscular — é uma lesão parcial ou completa das fibras musculotendíneas dos músculos adutores do quadril, mais comumente o adutor longo. É a causa mais frequente de dor na virilha em atletas, representando aproximadamente 62% de todas as distensões inguinais em populações esportivas.

A lesão ocorre predominantemente em esportes que envolvem mudanças rápidas de direção, aceleração, desaceleração e chutes — como futebol, hóquei no gelo, tênis e esportes de combate. O mecanismo típico é a contração excêntrica forçada dos adutores durante abdução súbita do quadril ou mudança de direção lateral, gerando estresse na junção miotendínea proximal do adutor longo.

O diagnóstico diferencial da dor na virilha em atletas é amplo e frequentemente desafiador, pois diversas estruturas convergem na região inguinal. A distensão adutora pode coexistir com outras causas de dor na virilha — como patologia do quadril ou hérnia do esportista — tornando a avaliação sistemática essencial.

01

Adutor Longo

O músculo adutor longo é o mais frequentemente lesionado (62% das distensões inguinais), com a junção miotendínea proximal como sítio predominante.

02

Mecanismo Excêntrico

A lesão tipicamente ocorre durante contração excêntrica forçada em abdução — mudança de direção, chute, deslizamento lateral.

03

Protocolo Copenhagen

O exercício Copenhagen adductor é o padrão-ouro na prevenção, com redução de até 41% na incidência de lesões adutoras em programas regulares (Thorborg et al.).

62%
DAS DISTENSÕES INGUINAIS ENVOLVEM O ADUTOR LONGO
9-18%
DE TODAS AS LESÕES EM JOGADORES DE FUTEBOL
41%
REDUÇÃO DE LESÕES COM PROTOCOLO COPENHAGEN
2-3x
MAIOR RISCO COM FRAQUEZA ADUTORA PRÉVIA

Fisiopatologia

Os músculos adutores do quadril — adutor longo, adutor curto, adutor magno, grácil e pectíneo — originam-se no ramo púbico inferior e na sínfise púbica, inserindo-se ao longo da linha áspera do fêmur. O adutor longo é o mais vulnerável por sua posição anatômica e biomecânica: têm a maior alavanca mecânica durante a adução, um tendão proximal relativamente curto e uma junção miotendínea estreita.

O principal fator de risco biomecânico é a relação de força adutores/abdutores. Estudos prospectivos demonstram que atletas com razão de força adutora/abdutora inferior a 80% apresentam risco significativamente aumentado de distensão (Thorborg et al., 2011). Esse desequilíbrio é particularmente comum em jogadores de futebol, nos quais os abdutores são frequentemente mais fortes devido ao gesto repetitivo do chute.

A lesão ocorre tipicamente na junção miotendínea proximal do adutor longo — a zona de transição entre o tendão e o ventre muscular, onde a distribuição de forças é mais heterogênea. As distensões são classificadas em graus: Grau I (ruptura de poucas fibras, sem perda funcional significativa), Grau II (ruptura parcial com perda de força e limitação funcional) e Grau III (ruptura completa ou avulsão, com incapacidade funcional).

Anatomia dos músculos adutores do quadril: adutor longo, adutor curto, adutor magno, grácil e pectíneo originando-se no ramo pubiano e sínfise púbica, com destaque para a junção miotendínea proximal do adutor longo como sítio de lesão mais frequente
Anatomia dos músculos adutores do quadril: adutor longo, adutor curto, adutor magno, grácil e pectíneo originando-se no ramo pubiano e sínfise púbica, com destaque para a junção miotendínea proximal do adutor longo como sítio de lesão mais frequente
Anatomia dos músculos adutores do quadril: adutor longo, adutor curto, adutor magno, grácil e pectíneo originando-se no ramo pubiano e sínfise púbica, com destaque para a junção miotendínea proximal do adutor longo como sítio de lesão mais frequente

Sintomas

O quadro clínico varia conforme o grau de lesão. Na distensão aguda, o atleta frequentemente identifica o momento exato da lesão — uma dor súbita na virilha durante aceleração, mudança de direção ou chute. Nas formas crônicas ou insidiosas, a dor se instala progressivamente e pode ser de difícil localização inicial.

Critérios clínicos
06 itens

Sintomas da Distensão Adutora

  1. 01

    Dor na virilha (região inguinal medial)

    Dor localizada na região medial da virilha, sobre a origem do adutor longo no ramo pubiano ou na junção miotendínea proximal.

  2. 02

    Dor ao aduzir o quadril contra resistência

    A contração resistida dos adutores (apertar uma bola entre os joelhos) reproduz a dor com alta especificidade.

  3. 03

    Dor ao abduzir passivamente o quadril (alongamento)

    O alongamento passivo dos adutores estira a região lesionada, reproduzindo a dor — especialmente em distensões agudas.

  4. 04

    Dor ao chutar, acelerar ou mudar de direção

    Atividades esportivas que recrutam ativamente os adutores reproduzem a dor de forma consistente.

  5. 05

    Equimose na face medial da coxa (lesões grau II-III)

    Hematoma visível na face interna da coxa, indicando ruptura significativa de fibras musculares com sangramento.

  6. 06

    Fraqueza ao apertar as pernas (squeeze test positivo)

    Perda de força de adução, avaliada pelo squeeze test com dinamômetro a 45° de flexão do quadril.

Diagnóstico

O diagnóstico da distensão adutora combina a história clínica (mecanismo de lesão, dor inguinal exacerbada por adução resistida) com o exame físico provocativo. A ressonância magnética é o padrão-ouro para confirmar a extensão da lesão e orientar o prognóstico de retorno ao esporte.

🏥Diagnóstico da Distensão Adutora

Fonte: Consenso de Doha sobre Dor na Virilha (Weir et al., 2015)

Exame Físico
  • 1.Squeeze test: dor ao aduzir contra resistência com quadril a 45° de flexão — teste mais sensível para patologia adutora
  • 2.Adução resistida em decúbito dorsal: dor reproduzida ao aduzir o membro inferior contra a mão do examinador
  • 3.Palpação da inserção: dor à palpação direta da origem do adutor longo no ramo pubiano inferior
  • 4.Alongamento passivo: dor ao abduzir passivamente o quadril com joelho estendido (estiramento dos adutores)
Exames de Imagem
  • 1.Ressonância magnética: padrão-ouro para classificação (grau I-III), avaliação da extensão da lesão e prognóstico; edema muscular em T2/STIR
  • 2.Ultrassonografia: avaliação dinâmica da junção miotendínea, identificação de hematoma intramuscular; boa sensibilidade para lesões grau II-III
  • 3.Radiografia: avaliação de calcificação heterotópica, avulsão óssea (rara), e exclusão de osteíte púbica (irregularidade da sínfise)
Squeeze test para avaliação de distensão adutora: paciente em decúbito dorsal com quadril fletido a 45°, realizando adução isométrica contra a resistência do examinador entre os joelhos, com vetor de força e ponto de dor esperado indicados
Squeeze test para avaliação de distensão adutora: paciente em decúbito dorsal com quadril fletido a 45°, realizando adução isométrica contra a resistência do examinador entre os joelhos, com vetor de força e ponto de dor esperado indicados
Squeeze test para avaliação de distensão adutora: paciente em decúbito dorsal com quadril fletido a 45°, realizando adução isométrica contra a resistência do examinador entre os joelhos, com vetor de força e ponto de dor esperado indicados

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Diagnóstico Diferencial

Hérnia Inguinal (Esportiva)

  • Dor inguinal que piora com esforço abdominal
  • Pode haver abaulamento palpável na região inguinal
  • Dor ao tossir ou fazer manobra de Valsalva

Testes Diagnósticos

  • Palpação do canal inguinal com manobra de Valsalva
  • Adução resistida tipicamente indolor (ou menos dolorosa)

Osteíte Púbica

  • Dor bilateral na sínfise púbica
  • Dor óssea à palpação da sínfise
  • Frequentemente coexiste com patologia adutora

Testes Diagnósticos

  • Dor à palpação direta da sínfise (não da inserção muscular)
  • Radiografia com esclerose e irregularidade da sínfise

Fratura por Estresse do Ramo Pubiano

  • Dor inguinal insidiosa em corredoras de longa distância
  • Dor progressiva com carga de impacto
  • Pode irradiar para virilha e coxa medial

Testes Diagnósticos

  • Dor óssea localizada no ramo pubiano
  • RM com edema medular no ramo pubiano

Lesão Labral do Quadril

  • Dor inguinal anterior profunda
  • Estalido ou travamento do quadril
  • Dor à rotação interna e flexão do quadril

Testes Diagnósticos

  • FADIR positivo (flexão-adução-rotação interna)
  • Artro-RM com lesão labral identificável

Síndrome do Piriforme

Leia mais →
  • Dor glútea profunda com irradiação posterior
  • Piora ao sentar prolongadamente
  • Pode irradiar para a coxa posterior

Testes Diagnósticos

  • Dor à palpação do piriforme e rotação interna resistida
  • Teste de FAIR positivo (flexão-adução-rotação interna em prono)

Radiculopatia L2-L3

  • Dor que irradia da lombar para virilha e coxa anterior
  • Pode haver alteração de sensibilidade
  • Dor lombar associada

Testes Diagnósticos

  • Exame neurológico com alteração sensitiva L2-L3
  • RM lombar com herniação ou estenose foraminal

Tratamentos

O tratamento da distensão adutora é predominantemente conservador, com excelentes resultados na maioria dos graus I e II. O pilar terapêutico é a reabilitação com carga progressiva — evoluindo da isometria para exercícios excêntricos e, finalmente, para carga esportiva específica. O protocolo Copenhagen adductor, com forte evidência na literatura (Thorborg et al.), é integrado tanto na reabilitação quanto na prevenção de recidivas.

A gestão inicial envolve controle de dor e proteção relativa da região lesionada, mas o repouso absoluto prolongado é evitado — assim como em outras lesões musculotendíneas, a carga controlada precoce acelera a recuperação e melhora a qualidade da cicatrização tecidual.

EXERCÍCIOS NO PROTOCOLO DE REABILITAÇÃO DA DISTENSÃO ADUTORA

EXERCÍCIOALVOPROTOCOLOOBSERVAÇÃO
Isometria de adução (squeeze)Adutores — carga isométrica analgésica5×45s a 60-70% da carga máxima, 2×/diaBola entre os joelhos a 45° de flexão do quadril; sem dor durante a contração
Copenhagen adductor (modificado)Adutores — carga excêntrica submáxima3×6-8 cada lado, progressão semanalVersão modificada (joelho apoiado) inicialmente; progressão para versão completa
Adução excêntrica com cabo/elásticoAdutor longo — carga excêntrica direcionada3×10, 3s fase excêntricaAbdução controlada contra resistência; foco na fase de alongamento sob carga
Afundo lateral (side lunge)Adutores — carga funcional com alongamento3×8-10 cada lado, progressão de cargaAmplitude progressiva; controle excêntrico na descida lateral
Mudança de direção progressivaIntegração neuromuscular — esporte-específicoSéries de 6-10 repetições, progressão de velocidadeCutting drills em velocidade progressiva; última etapa antes do retorno esportivo

Cronograma de Reabilitação

Fase 1
0-1 semana (Grau I) / 0-2 semanas (Grau II)
Proteção e Isometria

Controle de dor (crioterapia, anti-inflamatórios se indicados pelo médico), isometria de adução em ângulo indolor (squeeze com bola a 45°), marcha sem dor como critério de progressão.

Fase 2
1-3 semanas (Grau I) / 2-6 semanas (Grau II)
Carga Excêntrica e Copenhagen Modificado

Copenhagen adductor modificado (com apoio do joelho), adução excêntrica com cabo, mobilidade do quadril. Acupuntura como adjuvante para controle de dor.

Fase 3
3-6 semanas (Grau I) / 6-10 semanas (Grau II)
Fortalecimento Funcional

Copenhagen completo, afundo lateral com carga progressiva, exercícios de cadeia cinética fechada. Critério: squeeze test indolor a 80% da força contralateral.

Fase 4
4-8 semanas (Grau I) / 8-16 semanas (Grau II)
Retorno ao Esporte

Mudanças de direção em velocidade progressiva, corrida com aceleração/desaceleração, treinamento esportivo específico. Copenhagen adductor mantido como prevenção contínua.

Acupuntura

A acupuntura pode contribuir como terapia complementar à reabilitação com carga progressiva na distensão adutora, atuando na modulação da dor inguinal e potencialmente favorecendo o processo de cicatrização muscular. A abordagem combina pontos locais na região inguinal e face medial da coxa com pontos regionais e distais para neuromodulação.

O ponto SP10 (Xuehai), na face medial da coxa acima da patela, e LR8 (Ququan), na face medial do joelho, estão localizados ao longo dos meridianos que percorrem a face medial do membro inferior e são referências relevantes para dor nessa região. Pontos ashi sobre a junção miotendínea lesionada, identificados por palpação cuidadosa, permitem agulhamento perilesional com potencial modulatório local.

A eletroacupuntura com frequência de 2-4 Hz aplicada entre pontos que flanqueiam a região da lesão pode estimular a liberação de opioides endógenos e moduladores de inflamação. Evidências experimentais sugerem que a eletroacupuntura pode promover a expressão de fatores de crescimento envolvidos na regeneração muscular e reduzir a formação de fibrose cicatricial excessiva — embora a translação desses achados para a prática clínica ainda requeira mais estudos em humanos.

PONTOS DE ACUPUNTURA NA DISTENSÃO ADUTORA

PONTOLOCALIZAÇÃOFUNÇÃO TERAPÊUTICA
SP10 (Xuehai)Face medial da coxa, 2 cun acima da patelaModulação da face medial da coxa; ponto proximal para dor adutora
LR8 (Ququan)Face medial do joelho, na extremidade da prega poplíteaModulação do meridiano do fígado; ponto regional para dor inguinal
Pontos ashi inguinaisSobre a junção miotendínea lesionada, guiados por palpaçãoAgulhamento perilesional direto; analgesia e modulação local
SP6 (Sanyinjiao)Face medial da perna, 3 cun acima do maléolo medialConfluência dos meridianos yin; modulação da face medial do membro inferior
LR3 (Taichong)Dorso do pé, entre 1° e 2° metatarsosPonto distal do meridiano do fígado; modulação de dor no trajeto inguinal

Quando Procurar Ajuda Médica

PERGUNTAS FREQUENTES · 07

Perguntas Frequentes sobre Distensão Adutora

A distensão adutora é uma lesão das fibras musculotendíneas dos músculos adutores do quadril — mais comumente o adutor longo, que se origina no ramo pubiano e é responsável por aproximar a coxa da linha média. A dor na virilha ocorre porque a junção miotendínea proximal (perto da origem no osso púbico) é a região mais vulnerável, onde as forças de tração excêntrica durante mudanças de direção e chutes geram estresse concentrado.

Pubalgia é um termo amplo que engloba diversas causas de dor na região pubiana e inguinal. A distensão adutora (pubalgia muscular) é uma das causas mais comuns, envolvendo lesão das fibras dos adutores. Outras causas incluem osteíte púbica (inflamação da sínfise púbica), hérnia do esportista e patologia do quadril. O Consenso de Doha (2015) recomenda usar termos específicos em vez de "pubalgia" para melhorar a precisão diagnóstica e terapêutica.

O Copenhagen adductor é um exercício de fortalecimento excêntrico dos adutores realizado em posição de prancha lateral, com o membro superior apoiado em um banco e o corpo sustentado pela adução do membro inferior. É considerado o padrão-ouro na prevenção de distensões adutoras, com meta-análise demonstrando redução de até 41% nas lesões inguinais em equipes que o incorporam no aquecimento regular. A versão modificada (apoio no joelho) permite progressão segura na reabilitação.

O tempo depende do grau da lesão: Grau I (microrupturas sem perda funcional significativa) tipicamente requer 1-3 semanas; Grau II (ruptura parcial com hematoma) requer 4-8 semanas; Grau III (ruptura completa) pode exigir 3-4 meses ou intervenção cirúrgica. A adesão ao protocolo de carga progressiva e a inclusão de exercícios de prevenção (Copenhagen) influenciam diretamente o tempo de retorno e o risco de recidiva.

A prevenção baseia-se em três pilares: (1) fortalecimento regular dos adutores com o exercício Copenhagen adductor no aquecimento (2-3x/semana); (2) manutenção da razão de força adutores/abdutores acima de 80%, avaliada periodicamente com squeeze test; e (3) gestão da carga de treinamento, evitando aumentos abruptos de volume e intensidade. A triagem pré-temporada com squeeze test identifica atletas em risco que se beneficiam de programas preventivos intensificados.

A acupuntura pode contribuir como terapia complementar à reabilitação, atuando na modulação da dor inguinal e potencialmente facilitando a adesão ao programa de exercícios progressivos. A eletroacupuntura na região perilesional pode promover analgesia endógena e modular o processo inflamatório. O maior benefício é facilitar a execução do Copenhagen adductor e dos excêntricos na dose terapêutica adequada, especialmente nas fases iniciais da reabilitação. Um médico acupunturista pode integrar essa abordagem ao plano de tratamento.

A cirurgia é raramente necessária e reservada para: rupturas completas (Grau III) com retração tendinosa significativa, avulsões ósseas do ramo pubiano, e casos de falha do tratamento conservador por 3-6 meses. O procedimento mais comum é a reinserção (reparo) do tendão adutor no ramo pubiano. A maioria dos atletas retorna à competição em 3-4 meses após o reparo cirúrgico, com taxas de retorno ao nível pré-lesão variando entre 75-90% na literatura disponível.