O que é Doença de Ménière?
A Doença de Ménière é uma condição crônica do ouvido interno caracterizada por episódios recorrentes de vertigem rotatória, perda auditiva neurossensorial flutuante, zumbido e plenitude auricular (sensação de ouvido cheio ou tampado). Esses quatro sintomas compõem a tétrade clássica da doença.
A fisiopatologia envolve o acúmulo excessivo de endolinfa (hidropisia endolinfática) no labirinto membranoso do ouvido interno. O excesso de líquido distende as membranas labirínticas, podendo causar rupturas transitórias que resultam nas crises vertiginosas características.
A doença geralmente afeta um ouvido (unilateral) no início, embora 25-40% dos pacientes desenvolvam envolvimento bilateral ao longo do tempo. O curso é variável e imprevisível — há períodos de crises frequentes intercalados com remissões que podem durar meses ou anos.
Hidropisia Endolinfática
O acúmulo excessivo de endolinfa no ouvido interno é o mecanismo fisiopatológico central da doença.
Tétrade Clássica
Vertigem episódica + perda auditiva flutuante + zumbido + plenitude auricular definem a apresentação clínica.
Curso Variável
A frequência das crises varia enormemente. Muitos pacientes apresentam melhora espontânea das crises com o tempo, mas a perda auditiva tende a progredir.
Epidemiologia
A doença de Ménière afeta 50-200 pessoas por 100.000 habitantes, com incidência variável entre diferentes populações. O início é mais comum entre 40 e 60 anos, e afeta igualmente homens e mulheres. Existe uma predisposição genética — 7-10% dos pacientes têm história familiar positiva.
Fisiopatologia
O achado histopatológico definidor da doença de Ménière é a hidropisia endolinfática — distensão do compartimento endolinfático do labirinto membranoso. A endolinfa é um fluido rico em potássio que banha as células ciliadas da cóclea e do aparelho vestibular.
A causa exata do acúmulo de endolinfa não é completamente elucidada. Hipóteses incluem disfunção do saco endolinfático (responsável pela absorção da endolinfa), alterações na homeostase iônica do ouvido interno, fatores autoimunes e disfunção vascular. Provavelmente, múltiplos fatores convergem.

Durante uma crise, acredita-se que o aumento progressivo da pressão endolinfática cause rupturas transitórias na membrana de Reissner, permitindo a mistura de endolinfa (rica em potássio) com perilinfa (rica em sódio). Essa mistura tóxica despolariza e paralisa as células ciliadas, causando vertigem aguda e perda auditiva transitória. A membrana se repara, mas os danos cumulativos explicam a perda auditiva progressiva.
Sintomas
A doença de Ménière se manifesta em crises episódicas, com intervalos variáveis de normalidade ou sintomas residuais entre as crises. A apresentação clássica envolve os quatro sintomas cardinais, embora nem todos estejam presentes desde o início.

Sintomas da Doença de Ménière
- 01
Vertigem rotatória
Episódios de vertigem intensa durando 20 minutos a 12 horas (tipicamente 2-4 horas). Acompanhada de náusea, vômitos e incapacidade funcional durante a crise.
- 02
Perda auditiva neurossensorial
Flutuante no início (piora durante crises, melhora entre elas). Afeta predominantemente frequências graves no início. Torna-se progressiva e permanente com o tempo.
- 03
Zumbido
Geralmente grave (baixa frequência), tipo "rugido" ou "roar". Intensifica-se antes e durante as crises.
- 04
Plenitude auricular
Sensação de ouvido tampado, pressão ou peso no ouvido afetado. Frequentemente precede ou acompanha as crises.
- 05
Sintomas de aura
Muitos pacientes relatam sintomas prodrômicos: aumento do zumbido, piora da plenitude, alteração auditiva — sinais de que uma crise pode estar se aproximando.
- 06
Drop attacks (crise otolítica de Tumarkin)
Quedas súbitas sem perda de consciência, por estimulação abrupta dos órgãos otolíticos. Ocorre em estágios mais avançados, em 5-10% dos pacientes.
Diagnóstico
O diagnóstico da doença de Ménière é clínico, baseado na presença da tétrade clássica e exclusão de outras causas. Os critérios diagnósticos foram revisados em 2015 pela AAO-HNS e Barany Society, simplificando e padronizando o diagnóstico.
Exames complementares como audiometria e ressonância magnética são importantes para documentar a perda auditiva e excluir condições como schwannoma vestibular. A audiometria frequentemente revela perda auditiva neurossensorial em baixas frequências — um padrão relativamente característico.

🏥Critérios Diagnósticos AAO-HNS / Barany Society 2015
Fonte: Lopez-Escamez et al., 2015
Doença de Ménière Definida
Todos os critérios devem estar presentes- 1.Dois ou mais episódios de vertigem espontânea com duração de 20 minutos a 12 horas
- 2.Perda auditiva neurossensorial de baixa a média frequência documentada por audiometria no ouvido afetado, em pelo menos uma ocasião antes, durante ou após um episódio de vertigem
- 3.Sintomas aurais flutuantes (zumbido, plenitude auricular ou audição) no ouvido afetado
- 4.Não melhor explicada por outro diagnóstico vestibular
Doença de Ménière Provável
- 1.Dois ou mais episódios de vertigem ou tontura com duração de 20 minutos a 24 horas
- 2.Sintomas aurais flutuantes (zumbido, plenitude ou alteração auditiva) no ouvido afetado
- 3.Não melhor explicada por outro diagnóstico vestibular
EXAMES COMPLEMENTARES
| EXAME | ACHADO ESPERADO | OBJETIVO |
|---|---|---|
| Audiometria tonal | Perda neurossensorial em baixas frequências | Documentar padrão auditivo típico |
| Eletrococleografia (ECoG) | Razão SP/AP aumentada | Evidência indireta de hidropisia |
| vHIT | Normal entre crises (diferência de neurite) | Avaliar função dos canais semicirculares |
| RM com gadolínio intratimpânico | Visualização direta da hidropisia | Confirmação em casos duvidosos |
| RM convencional | Normal (exclui schwannoma) | Diagnóstico diferencial |
Diagnóstico Diferencial
A doença de Ménière compartilha características com diversas condições vestibulares e auditivas. O diagnóstico diferencial é fundamental, pois cada condição têm implicações terapêuticas específicas.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Vertigem Periférica Funcional
- Sintomas inconsistentes
- Sem perda auditiva objetiva
- Componente psicossocial
Testes Diagnósticos
- Audiometria normal
- Avaliação psicológica
Neurite Vestibular
- Episódio único prolongado
- Sem perda auditiva
- Recuperação gradual
Testes Diagnósticos
- Teste do impulso cefálico
- VNG
VPPB
- Episódios muito curtos (segundos)
- Desencadeado por posição
- Dix-Hallpike positivo
Testes Diagnósticos
- Manobra de Dix-Hallpike
Neurinoma do Acústico
- Zumbido unilateral progressivo
- Perda auditiva progressiva sem episódios
- Progressão unilateral = RNM urgente
Testes Diagnósticos
- RNM com gadolíneo
Sífilis Otológica
- Surdez súbita bilateral
- Vertigem
- Sorologia positiva
Testes Diagnósticos
- FTA-ABS
- VDRL
Ménière vs. VPPB e Neurite Vestibular
A distinção entre doença de Ménière, VPPB e neurite vestibular baseia-se principalmente no padrão temporal dos episódios. Na VPPB, a vertigem dura segundos e é desencadeada por posição — sem flutuação auditiva. Na neurite vestibular, há um único episódio prolongado (dias) sem sintomas auditivos e com recuperação gradual. Na Ménière, os episódios duram 20 minutos a 12 horas, recorrem, e estão associados a sintomas auditivos flutuantes. A audiometria com padrão de perda em baixas frequências é o marcador mais específico da Ménière.
O schwannoma vestibular (neurinoma do acústico) é um diagnóstico que não deve ser perdido. Apresenta-se tipicamente com perda auditiva neurossensorial unilateral progressiva e zumbido, sem os episódios vertiginosos recorrentes da Ménière. A RNM com gadolíneo é obrigatória quando há perda auditiva unilateral progressiva, mesmo na ausência de vertigem, para excluir schwannoma.
Sífilis Otológica e Causas Sistêmicas
A sífilis otológica pode mimetizar perfeitamente a doença de Ménière, com perda auditiva flutuante, vertigem e zumbido. É uma causa tratável e reversível de "Ménière" — daí a importância de solicitar sorologias (FTA-ABS, VDRL) especialmente em casos bilaterais ou de início abrupto. Outras causas sistêmicas de síndrome Ménière-like incluem hipotireoidismo, doenças autoimunes do ouvido interno e meningite. A investigação laboratorial básica é recomendada em todos os pacientes com novo diagnóstico de Ménière.
A vertigem periférica funcional (antes chamada de fobica) é um diagnóstico cada vez mais reconhecido, onde há disfunção autonômica vestibular sem lesão estrutural, frequentemente precipitada por estresse ou ansiedad. Difere da Ménière pela inconsistência dos sintomas, ausência de perda auditiva objetiva e resposta a abordagens psicológicas. A coexistência de ansiedade com Ménière verdadeira é comum e ambas devem ser tratadas.
Ménière Bilateral e Enxaqueca Vestibular
Cerca de 25-40% dos pacientes com Ménière desenvolvem envolvimento bilateral ao longo dos anos. A progressão bilateral é mais comum em pacientes com doença de início tardio e naqueles com predisposição autoimune. A enxaqueca vestibular pode simular Ménière — episódios recorrentes de vertigem com sintomas auditivos ocasionais. A presença de cefaleia migrânea, fenômenos visuais e histórico familiar de enxaqueca, além da ausência de progressão auditiva permanente, favorecem o diagnóstico de enxaqueca vestibular.
A acupuntura médica pode ser considerada como adjuvante em ambas as condições — Ménière e enxaqueca vestibular — com mecanismos propostos complementares: potencial modulação da microcirculação labiríntica, possível redução da ativação simpática e efeito na profilaxia migranosa descrito em parte dos estudos. O médico acupunturista deve considerar o diagnóstico diferencial ao planejar o protocolo de tratamento, individualizando a abordagem.
Tratamento
O tratamento da doença de Ménière é escalonado, iniciando com medidas conservadoras e progredindo para intervenções mais agressivas apenas quando necessário. O objetivo principal é reduzir a frequência e intensidade das crises de vertigem, preservar a audição e melhorar a qualidade de vida.

Medidas Conservadoras
Primeira linhaDieta hipossódica (< 2g de sódio/dia), hidratação adequada, redução de caféína e álcool. Controle do estresse e higiene do sono. Essas medidas reduzem a retenção hídrica e podem diminuir a pressão endolinfática.
Tratamento Farmacológico
Se medidas conservadoras insuficientesBetaístina (análogo da histamina que melhora a microcirculação do ouvido interno). Diuréticos (hidroclorotiazida, acetazolamida). Supressores vestibulares apenas para crises agudas.
Injeção Intratimpânica
Se refratárioCorticosteroides intratimpânicos (dexametasona): menos agressivo, pode ser repetido. Gentamicina intratimpânica: ablação química vestibular parcial, controla vertigem em 85-90% dos casos, mas com risco de perda auditiva.
Cirurgia
Casos refratáriosDescompressão do saco endolinfático, labirintectomia (sacrifica audição), neurectomia vestibular. Reservadas para casos que não responderam a outras terapias.
Acupuntura como Tratamento
A acupuntura é estudada como terapia complementar na doença de Ménière, com mecanismos hipotetizados que incluem potencial modulação da microcirculação do ouvido interno, influência sobre a homeostase hídrica, redução da ativação simpática e modulação da resposta inflamatória local — a translação clínica desses achados ainda é limitada.
Estudos experimentais em modelos animais sugerem que a acupuntura pode influenciar o fluxo sanguíneo coclear e a pressão endolinfática. A hipótese de modulação do sistema nervoso autônomo — com eventual redução da atividade simpática que poderia comprometer a perfusão do ouvido interno — é um mecanismo proposto, mas não confirmado como determinante clínico em humanos.
Na prática clínica, a acupuntura pode auxiliar na redução da frequência das crises, no controle do zumbido e na melhora da qualidade de vida geral. Pontos periauriculares, cervicais e sistêmicos são frequentemente utilizados. É uma opção particularmente considerada em pacientes que buscam reduzir a necessidade de médicação.
Prognóstico
O curso natural da doença de Ménière tende a uma "queima" da função vestibular ao longo de anos — as crises de vertigem frequentemente diminuem em frequência e intensidade com o tempo (70% dos pacientes em 8-10 anos), à medida que o labirinto perde função vestibular gradualmente.
Infelizmente, a perda auditiva tende a progredir e pode se tornar severa a profunda. A qualidade de vida é significativamente impactada, especialmente durante as fases ativas da doença. O tratamento adequado e o suporte psicológico são essenciais para minimizar esse impacto.
Mitos e Fatos
Mito vs. Fato
A doença de Ménière é causada pelo estresse.
O estresse pode desencadear ou agravar crises, mas não é a causa da doença. A fisiopatologia envolve hidropisia endolinfática, com fatores genéticos, autoimunes e vasculares. O estresse atua como gatilho, não como causa primária.
Mito vs. Fato
Cortar o sal da dieta cura a doença de Ménière.
A restrição de sódio é recomendada como medida conservadora e pode ajudar a reduzir a frequência das crises, mas não cura a doença. É uma entre várias estratégias no manejo multifacetado da condição.
Mito vs. Fato
A doença de Ménière sempre leva à surdez completa.
Embora a perda auditiva tenda a progredir, a maioria dos pacientes mantém alguma audição funcional. A perda severa bilateral é incomum. Aparelhos auditivos e, em casos avançados, implantes cocleares podem restaurar significativamente a função auditiva.
Quando Procurar Ajuda
Perguntas Frequentes
Perguntas Frequentes
A doença de Ménière não têm cura definitiva, mas o controle dos sintomas é possível na maioria dos pacientes. Com tratamento adequado — dieta hipossódica, betaístina, manejo do estresse e, quando necessário, intervenções mais agressivas —, a frequência e a intensidade das crises geralmente diminuem. Naturalmente, 70% dos pacientes apresentam redução espontânea das crises vertiginosas em 8-10 anos, embora a perda auditiva possa progredir.
A recomendação padrão é limitar o sódio a menos de 1.500-2.000 mg por dia (equivalente a cerca de 4-5g de sal de cozinha). O objetivo é reduzir a retenção hídrica que contribui para o aumento da pressão endolinfática. Na prática, isso significa evitar alimentos ultraprocessados, embutidos, queijos salgados, molhos prontos e fast food. A restrição de caféína e álcool também é recomendada, pois ambos podem desencadear crises.
A direção veicular é uma questão importante que deve ser discutida com o médico. Durante a fase ativa com crises frequentes e imprevisíveis, dirigir representa risco para o paciente e para outros. Em fases de remissão prolongada com crises sob controle, muitos pacientes podem retomar a direção. Em alguns países e estados, a condição impõe restrições legais à carteira de motorista. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
A betaístina é amplamente utilizada para doença de Ménière, com base em seu mecanismo de melhorar a microcirculação do ouvido interno e modular os receptores histaminérgicos H3. Estudos clínicos mostram benefícios na redução da frequência das crises em doses mais altas (48 mg/dia ou mais). O grande ensaio clínico BEMED (2016) mostrou resultados mistos com betaístina convencional, mas estudos posteriores com doses maiores são mais promissores. Ela é geralmente bem tolerada e pode ser tentada por pelo menos 3-6 meses para avaliar a resposta.
A injeção intratimpânica consiste em introduzir medicamentos diretamente no ouvido médio através da membrana timpânica. Existem duas opções: corticosteroides (dexametasona), que reduzem a inflamação sem risco auditivo, e gentamicina, que causa ablação química parcial do labirinto (controla vertigem em 85-90%, mas com risco de piora auditiva). É indicada quando as medidas conservadoras falham. A gentamicina é reservada para casos com função auditiva já comprometida ou quando a vertigem é o sintoma mais incapacitante.
Sim. Aproximadamente 25-40% dos pacientes desenvolvem envolvimento bilateral ao longo dos anos. A probabilidade de bilateralização aumenta com a duração da doença. A doença bilateral é mais incapacitante pois compromete ambos os ouvidos e piora o equilíbrio residual. Alguns pesquisadores associam a progressão bilateral a um componente autoimune subjacente, o que pode justificar tratamento imunomodulador em casos selecionados.
Sim, o estresse é um gatilho bem reconhecido para as crises de Ménière. O mecanismo provável envolve a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e do sistema nervoso simpático, que pode afetar a homeostase do ouvido interno. Técnicas de gerenciamento de estresse — meditação, exercício regular, higiene do sono, suporte psicológico — são recomendadas como parte do tratamento. A ansiedade antecipatória sobre as crises pode criar um ciclo que agrava a própria doença.
A acupuntura têm evidências preliminares e heterogêneas na doença de Ménière, com alguns estudos sugerindo possível redução da frequência das crises, do zumbido e melhora da qualidade de vida em parte dos pacientes. Os mecanismos propostos incluem potencial modulação da microcirculação do ouvido interno, da regulação autonômica e da resposta inflamatória local, sem substituir o tratamento convencional. O médico acupunturista pode integrar a acupuntura ao plano terapêutico como uma opção entre as abordagens complementares, individualizada conforme o paciente.
As crises de Tumarkin, ou crise otolítica, são quedas súbitas sem perda de consciência que ocorrem em 5-10% dos pacientes com Ménière em estágios mais avançados. São causadas pela estimulação abrupta dos órgãos otolíticos (utrículo e sáculo) durante uma variação súbita da pressão endolinfática. São particularmente perigosas pois ocorrem sem aviso e podem causar trauma. Quando presentes, são indicação para tratamento mais agressivo da doença.
Não existe vacina para doença de Ménière. As medidas preventivas incluem: dieta hipossódica e hidratação adequadas, evitar caféína e álcool em excesso, gerenciamento de estresse, tratamento adequado de alergias (que podem contribuir para retenção hídrica), controle de fatores vasculares e sono adequado. Em pacientes com suspeita de componente autoimune, o tratamento de doenças autoimunes coexistentes pode beneficiar a Ménière.
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