O que é Eczema (Dermatite Atópica)?
Dermatite atópica (DA), popularmente conhecida como eczema, é uma doença inflamatória crônica da pele caracterizada por prurido intenso, pele seca e lesões eczematosas recorrentes. É a doença cutânea crônica mais comum, afetando até 20% das crianças e 2-10% dos adultos em países industrializados.
A DA resulta de uma interação complexa entre disfunção da barreira cutânea, desregulação imunológica (predominância Th2) e fatores ambientais. Faz parte da "marcha atópica" — a progressão de dermatite atópica para rinite alérgica e asma que ocorre em muitos pacientes.
A doença causa enorme impacto na qualidade de vida. O prurido intenso interfere no sono, nas atividades diárias e no bem-estar psicológico. Crianças com DA perdem em média 1-2 horas de sono por noite durante as crises, afetando o desempenho escolar e o desenvolvimento.
Barreira Cutânea Defeituosa
Mutações no gene da filagrina e deficiência de ceramidas comprometem a barreira da pele, permitindo entrada de alérgenos e perda de água.
Inflamação Tipo 2
Resposta imune Th2 exacerbada com produção excessiva de IL4, IL13, IL31 e IgE.
Doença Crônica Recidivante
Curso com crises (flares) e remissões. Tratamento proativo contínuo é mais eficaz que tratamento reativo apenas nas crises.
Fisiopatologia
A fisiopatologia da DA envolve dois pilares: defeito da barreira epidérmica e desregulação imunológica tipo 2. Mutações no gene FLG (filagrina) são o principal fator de risco genético, presentes em 20-50% dos pacientes. A filagrina é essencial para a formação da camada córnea e retenção de água na pele.
A barreira comprometida permite a entrada de alérgenos ambientais, irritantes e microrganismos (especialmente Staphylococcus aureus, que coloniza 90% da pele atópica). Isso ativa células dendríticas e linfócitos Th2, que produzem IL-4, IL-13, IL-31 e IL-5. A IL-4 e IL-13 suprimem ainda mais a produção de filagrina e proteínas de barreira, perpetuando o ciclo.
A IL-31, produzida por linfócitos Th2, é o principal mediador do prurido na DA. Atua diretamente em neurônios sensoriais via receptor IL-31RA. A IL-13 causa espessamento epidérmico e fibrose dérmica. A compreensão dessas vias levou ao desenvolvimento de terapias biológicas altamente eficazes, como dupilumabe e tralokinumabe.

Sintomas
O prurido é o sintoma cardinal e critério essencial para o diagnóstico. As lesões cutâneas variam conforme a idade: em lactentes, predominam na face e superfícies extensoras; em crianças maiores e adultos, nas flexuras (dobras dos braços e joelhos). A pele seca (xerose) é quase universal.
Manifestações da Dermatite Atópica
- 01
Prurido intenso
Coceira frequentemente insuportável, com piora noturna. É o sintoma mais debilitante e critério obrigatório para o diagnóstico.
- 02
Pele seca (xerose)
Pele áspera, ressecada e descamativa, mesmo em áreas sem inflamação ativa. Resulta do defeito da barreira cutânea.
- 03
Lesões eczematosas agudas
Eritema, pápulas, vesículas, exsudação e crostas nas fases agudas. Frequentemente com infecção secundária por S. aureus.
- 04
Liquenificação crônica
Espessamento da pele com acentuação das linhas cutâneas nas áreas cronicamente coçadas. Característica da doença de longa duração.
- 05
Distribuição típica por idade
Lactentes: face e extensores. Crianças: flexuras (antecubital, poplítea). Adultos: mãos, face, pescoço e flexuras.
- 06
Distúrbios do sono
Crianças perdem 1-2h de sono/noite nas crises. Adultos relatam insônia crônica. Afeta significativamente a qualidade de vida familiar.
CLASSIFICAÇÃO DE GRAVIDADE (SCORAD / EASI)
| GRAVIDADE | SCORAD | CARACTERÍSTICAS |
|---|---|---|
| Leve | <25 | Áreas limitadas, prurido leve, mínimo impacto no sono |
| Moderada | 25-50 | Áreas extensas ou flexurais, prurido moderado, distúrbio do sono |
| Grave | >50 | Disseminada ou eritrodermia, prurido insuportável, impacto severo na qualidade de vida |
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios de Hanifin-Rajka ou nos critérios simplificados do UK Working Party. Não existe exame laboratorial confirmatório. A IgE sérica está elevada em 80% dos casos, mas não é específica nem necessária para o diagnóstico.
🏥Critérios Diagnósticos (UK Working Party)
Fonte: Williams et al. — critérios simplificados
Critério Obrigatório
Obrigatório + 3 ou mais dos seguintes- 1.Prurido cutâneo (ou relato de coçadura) nos últimos 12 meses
Critérios Menores (mínimo 3)
- 1.História de envolvimento de flexuras (antecubital, poplítea, cervical)
- 2.História pessoal de asma ou rinite alérgica (ou em parente de 1º grau em <4 anos)
- 3.Pele seca generalizada no último ano
- 4.Dermatite flexural visível (ou em face/extensores em <4 anos)
- 5.Início antes dos 2 anos de idade (não aplicável se <4 anos)
Diagnóstico Diferencial
A dermatite atópica é frequentemente confundida com outras dermatoses pruriginosas. O padrão de distribuição flexural, a história de atopia e a cronicidade são os principais elementos diferenciadores.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Psoríase
Leia mais →- Placas bem delimitadas
- Escama prateada
- Unhas envolvidas
Testes Diagnósticos
- Biópsia se necessário
Dermatite de Contato Alérgica
- Distribuição coincide com contato
- Patch test positivo
Testes Diagnósticos
- Patch test
Escabiose
- Prurido intenso noturno
- Família afetada
- Galerias entre dedos
Testes Diagnósticos
- Dermatoscopia
- Raspado
Tinea Corporis
- Bordas ativas
- Centro claro
- KOH positivo
Testes Diagnósticos
- KOH
Dermatite Seborreica
- Couro cabeludo e face central
- Escama amarelada gordurosa
- Sem vesículas
Dermatite de Contato: Quando a Distribuição É a Chave
A dermatite de contato alérgica (DCA) pode ser clinicamente indistinguível da dermatite atópica nas fases agudas — ambas cursam com eritema, vesículas e prurido. O elemento diferenciador fundamental é a distribuição das lesões: na DCA, as lesões se localizam nas áreas de contato com o alérgeno (p. ex., pescoço com bijuteria de níquel, pulsos com pulseira, face com cosméticos). A história de exposição é indispensável.
O patch test (teste de contato) é o padrão-ouro para diagnóstico da DCA e deve ser realizado em pacientes com eczema de padrão atípico, com distribuição que sugira contato, ou refratários ao tratamento convencional. O médico acupunturista investiga sistematicamente os potenciais alérgenos de contato, incluindo cosméticos, metais e materiais de uso frequente.
Escabiose: O Grande Mimetizador do Eczema
A escabiose é um diagnóstico que nunca deve ser perdido. O Sarcoptes scabiei causa prurido intenso de predomínio noturno, com lesões características nos espaços interdigitais, punhos, região umbilical, glande e mamas. O envolvimento de outros membros do domicílio é altamente sugestivo. Em pacientes imunossuprimidos, pode se manifestar como escabiose crostosa (norueguesa), com hiperqueratose generalizada e alta carga parasitária.
A dermatoscopia (sinal da asa de delta, representando o ácaro no final da galeria) têm sensibilidade de 80-90% para o diagnóstico. O tratamento com permetrina 5% tópica ou ivermectina oral deve incluir todos os contactantes domiciliares. Eczema refratário em toda a família deve sempre levantar suspeita de escabiose não diagnosticada.
Psoríase vs. Eczema: Distinção Clínica Prática
A psoríase e a dermatite atópica são as duas doenças inflamatórias crônicas da pele mais prevalentes e podem coexistir no mesmo paciente. Na psoríase, as lesões são placas eritematosas com escama prateada bem delimitada, em superfícies extensoras (cotovelos, joelhos) e couro cabeludo. O fenômeno de Köbner (surgimento de lesões em área de trauma) e o acometimento ungueal com onicólise e pitting são característicos.
Quando há dúvida diagnóstica, a biópsia distingue as duas condições histologicamente — acantose com paraceratose e neutrófilos na psoríase vs. espongiose com infiltrado eosinofílico na dermatite atópica. O tratamento diverge em aspectos importantes: biológicos anti-IL-17 e anti-IL-23 são altamente eficazes para psoríase, enquanto biológicos anti-IL-4/IL-13 são indicados para dermatite atópica.
Tratamento
O tratamento da DA é escalonado conforme a gravidade. A base de todo tratamento é a restauração da barreira cutânea com emolientes. O advento de terapias biológicas (dupilumabe) e inibidores de JAK (baricitinibe, upadacitinibe, abrocitinibe) revolucionou o manejo de formas moderadas a graves.
Base: Cuidados com a Barreira
Contínuos — todas as gravidadesEmolientes/hidratantes 2-3x ao dia (idealmente com ceramidas). Banhos mornos curtos (5-10 min). Sabonetes syndets (pH 5,5). Evitar irritantes (lã, fragrâncias). Manter ambiente com umidade adequada.
Leve a Moderada: Terapia Tópica
Proativo + reativoCorticosteroides tópicos (potência conforme localização e idade). Inibidores de calcineurina (tacrolimus, pimecrolimus) para face e áreas sensíveis. Crisaborole (inibidor de PDE4 tópico). Tratamento proativo: aplicação 2x/semana nas áreas de recorrência.
Moderada a Grave: Fototerapia
UVB banda estreita, 2-3x/semanaFototerapia UVB banda estreita: eficaz e segura como alternativa sistêmica. Imunomodulação, redução da colonização por S. aureus e efeito antipruriginoso.
Grave: Terapia Sistêmica
Biológicos e inibidores de JAKDupilumabe (anti-IL-4Rα): primeira linha sistêmica, excelente segurança. Tralokinumabe (anti-IL-13). Inibidores de JAK: baricitinibe, upadacitinibe, abrocitinibe — ação rápida, via oral. Ciclosporina: opção para resgate.
Acupuntura como Tratamento
A acupuntura é estudada na dermatite atópica com foco em seus efeitos antipruriginosos, anti-inflamatórios e em possível modulação da resposta imune Th2. Estudos experimentais — sobretudo em modelos animais e em pequenas séries clínicas — sugerem efeito sobre marcadores da inflamação tipo 2 (como IgE, IL-4 e IL-13), observações que ainda não se traduzem em conclusão definitiva sobre o mecanismo imunomodulador na prática clínica.
O efeito antipruriginoso é particularmente relevante. Estudos de neuroimagem demonstram que a acupuntura reduz a ativação cerebral induzida por prurido e modula a atividade no córtex cingulado anterior e na ínsula. A liberação de opioides endógenos contribui para o efeito anticoceira.
Na prática, a acupuntura pode ser combinada com o tratamento dermatológico convencional para auxílio no controle do prurido e redução da frequência de crises. É particularmente considerada em pacientes que buscam reduzir o uso de corticosteroides ou em formas com componente de estresse significativo.
Prognóstico
A DA infantil apresenta remissão completa em 60-70% dos casos até a adolescência. Os 30-40% restantes mantêm a doença na vida adulta, frequentemente em forma de eczema das mãos ou dermatite flexural. A gravidade na infância é o principal preditor de persistência.
Com os tratamentos modernos — especialmente biológicos e inibidores de JAK —, pacientes com DA moderada a grave que antes tinham qualidade de vida muito comprometida agora podem alcançar pele limpa ou quase limpa. A taxa de resposta ao dupilumabe (EASI-75) é de 50-70% em 16 semanas.
Mitos e Fatos
Mito vs. Fato
Eczema é causado por falta de higiene.
A DA é uma doença genética e imunológica, sem relação com higiene. Paradoxalmente, lavagem excessiva pode piorar a doença por remover lipídios protetores da barreira cutânea.
Mito vs. Fato
Corticosteroides tópicos são perigosos e devem ser evitados.
Corticosteroides tópicos são seguros e eficazes quando usados corretamente (potência adequada, tempo limitado, áreas indicadas). A fobia de corticosteroides é uma das principais causas de subtratamento da DA.
Mito vs. Fato
Eliminar leite e glúten melhora o eczema.
Dietas de eliminação só são indicadas quando há alergia alimentar documentada por testes e provocação oral. Restrições alimentares indiscriminadas não melhoram a DA e podem causar deficiências nutricionais, especialmente em crianças.
Quando Procurar Ajuda
Perguntas Frequentes
Perguntas Frequentes
A dermatite atópica não têm cura definitiva, mas em 60 a 70% das crianças ocorre remissão completa até a adolescência. Nos casos persistentes na vida adulta, os tratamentos modernos — especialmente biológicos como dupilumabe — permitem controle excelente da doença com pele limpa ou quase limpa na maioria dos pacientes.
Os gatilhos mais comuns incluem: pele seca, suor excessivo, mudanças de temperatura, lã e tecidos sintéticos, sabões e detergentes agressivos, fragrâncias em cosméticos, alérgenos inalatórios (ácaros, pelo de animais), estresse emocional e, em alguns casos, alimentos específicos em crianças pequenas com alergia documentada.
Corticosteroides tópicos são seguros quando utilizados corretamente: potência adequada à localização (menor potência para face, dobras, genitais), tempo limitado nas fases de crise e transição para inibidores de calcineurina para manutenção. A atrofia cutânea ocorre com uso prolongado de alta potência em áreas de pele fina. O tratamento proativo (aplicação 2x/semana nas áreas de recorrência) é eficaz e seguro para longo prazo.
A restrição de laticínios só é indicada quando há alergia alimentar documentada por teste e provocação oral supervisionada por médico. A eliminação indiscriminada não melhora o eczema e pode causar deficiências nutricionais graves em crianças. A investigação de alergia alimentar deve ser feita em crianças menores de 5 anos com DA moderada a grave refratária ao tratamento tópico otimizado.
Evidências clínicas sugerem que a acupuntura pode reduzir o SCORAD (índice de gravidade), a intensidade do prurido e melhorar a qualidade de vida como terapia complementar. O efeito antipruriginoso é o mais documentado, com estudos de neuroimagem mostrando redução da ativação cerebral induzida por prurido. O médico acupunturista pode integrar essa abordagem ao tratamento convencional.
Para eczema moderado a grave em adultos, as opções incluem: dupilumabe (anti-IL-4Rα, biológico subcutâneo — primeira linha sistêmica), tralokinumabe (anti-IL-13), e inibidores de JAK orais (baricitinibe, upadacitinibe, abrocitinibe) para resposta rápida. A ciclosporina é uma opção para casos urgentes. O dermatologista define a melhor estratégia baseado no perfil do paciente.
O tratamento proativo consiste em aplicar corticosteroide tópico ou tacrolimus 2 vezes por semana nas áreas de recorrência habitual, mesmo quando a pele parece normal. Reduz a frequência e gravidade das crises em até 50%. É uma abordagem recomendada pelas diretrizes internacionais e é mais eficaz do que tratar apenas nas crises. Deve ser orientado pelo médico com indicação das áreas específicas.
Banhos mornos curtos (5 a 10 minutos), com syndet (sabonete com pH 5,5) ou sem sabão nas áreas não sujas, seguidos imediatamente de hidratante, são benéficos e fazem parte do tratamento básico. Banhos quentes e prolongados removem os lipídios protetores da barreira cutânea e pioram a xerose. A hidratação deve ser aplicada em até 3 minutos após o banho, na pele ainda úmida.
O eczema das mãos em adultos pode ser uma manifestação da dermatite atópica, mas também pode ser dermatite de contato (ocupacional ou doméstica), dermatite dishidrótica ou eczema numulare. A diferênciação requer história detalhada (ocupação, exposições, padrão de evolução) e, quando necessário, patch test. O tratamento correto depende do diagnóstico etiológico.
Sinais de infecção bacteriana secundária incluem: crostas cor de mel (S. aureus), aumento súbito da inflamação e prurido, pus, eritema com bordas bem definidas (impetigo ou erisipela), febre e mal-estar. O eczema herpético (infecção por HSV) é uma emergência: vesículas agrupadas com crostas hemorrágicas sobre áreas de eczema, frequentemente com febre, requer tratamento antiviral urgente.
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