O que e Endometriose?

A endometriose e uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio (revestimento interno do útero) fora da cavidade uterina. Esses implantes ectopicos respondem aos hormônios do ciclo menstrual, causando inflamação crônica, dor e aderências.

Afeta aproximadamente 6-10% das mulheres em idade reprodutiva — cerca de 190 milhoes de mulheres globalmente. Os locais mais comuns de implantação são os ovários, peritônio pélvico, ligamentos uterossacros e septo retovaginal. Em casos raros, pode afetar órgãos distantes como diafragma e pleura.

O atraso diagnóstico e um dos maiores problemas da endometriose — em média, leva-se 7 a 10 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo. Esse atraso resulta da normalização da dor menstrual pela sociedade e pela falta de biomarcadores diagnósticos não invasivos.

01

Doença Crônica

A endometriose e uma doença crônica estrogeno-dependente que requer manejo a longo prazo. Não têm cura definitiva, mas e controlavel.

02

Atraso Diagnóstico

O diagnóstico demora em média 7-10 anos, resultando em progressão da doença e sofrimento desnecessario.

03

Dor e Infertilidade

Os dois principais impactos são dor pélvica crônica (em 70-80%) e infertilidade (em 30-50% das mulheres afetadas).

Fisiopatologia

A teoria mais aceita para a origem da endometriose e a menstruação retrograda (teoria de Sampson): durante a menstruação, fragmentos de endométrio refluem pelas tubas uterinas para a cavidade peritoneal, onde se implantam e crescem. Embora 90% das mulheres apresentem menstruação retrograda, apenas uma minoria desenvolve endometriose — indicando que fatores imunológicos e genéticos determinam a susceptibilidade.

Os implantes endometrióticos estabelecem um microambiente inflamatório no peritônio. Macrófagos, células NK disfuncionais e linfócitos liberam citocinas (IL-1, IL-6, IL-8, TNF-alfa), fatores de crescimento (VEGF) e prostaglandinas que promovem sobrevivência dos implantes, neoangiogenese e neurogenese — a formação de novas fibras nervosas sensoriais que amplificam a dor.

Fisiopatologia da endometriose: menstruação retrograda, implantação peritoneal, inflamação crônica, neurogenese e sensibilização central da dor
Fisiopatologia da endometriose: menstruação retrograda, implantação peritoneal, inflamação crônica, neurogenese e sensibilização central da dor
Fisiopatologia da endometriose: menstruação retrograda, implantação peritoneal, inflamação crônica, neurogenese e sensibilização central da dor

A sensibilização central explica por que a dor da endometriose não se correlaciona bem com a extensão anatômica da doença. Pequenos implantes peritoneais podem causar dor intensa, enquanto endometriomas ovarianos volumosos podem ser assintomaticos. A estimulação nociva crônica reprograma o sistema nervoso central, criando hiperalgesia visceral e somática generalizada.

Sintomas

Os sintomas da endometriose são variados e podem mimetizar diversas condições. A triade classica e dismenorreia progressiva, dispareunia profunda e dor pélvica crônica. Porem, até 20-25% das mulheres com endometriose são assintomaticas.

Critérios clínicos
07 itens

Manifestações Clínicas

  1. 01

    Dismenorreia progressiva

    Colica menstrual que piora ao longo dos anos, não responde bem a AINEs e impacta atividades diarias.

  2. 02

    Dor pélvica crônica

    Dor pélvica não ciclica presente em mais de 6 meses, que pode ser constante ou intermitente.

  3. 03

    Dispareunia profunda

    Dor durante a penetração profunda na relação sexual, indicativa de implantes no septo retovaginal ou ligamentos uterossacros.

  4. 04

    Infertilidade

    Presente em 30-50% dos casos. Resulta de aderências, disfunção tubaria, alterações endometriais e inflamação folicular.

  5. 05

    Disquezia catamenial

    Dor ao evacuar durante a menstruação, sugerindo implantes no septo retovaginal ou intestino.

  6. 06

    Sintomas urinarios ciclicos

    Disuria, urgência ou hematuria que pioram durante a menstruação, indicando envolvimento vesical.

  7. 07

    Fadiga crônica

    Cansaco persistente desproporcional ao esforço, presente em até 50% das pacientes, relacionado a inflamação sistêmica.

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo historicamente requer visualização cirurgica (laparoscopia) com confirmação histopatologica. Entretanto, as diretrizes atuais da ESHRE recomendam que o diagnóstico pode ser clínico, baseado em sintomas e exames de imagem, sem necessidade de confirmação cirurgica para iniciar o tratamento.

A ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética pélvica são capazes de detectar endometriose profunda e endometriomas com boa acurácia. O CA-125 pode estar elevado, mas têm baixa sensibilidade e especificidade, não sendo recomendado como teste diagnóstico isolado.

🏥Classificação da Endometriose

  • 1.Endometriose superficial peritoneal: implantes na superfície do peritônio
  • 2.Endometrioma ovariano: cistos ovarianos contendo conteudo endometriotico ("cistos de chocolate")
  • 3.Endometriose profunda infiltrativa: implantes que penetram mais de 5mm abaixo da superficie peritoneal
  • 4.Classificação revisada da ASRM: estágios I (mínima), II (leve), III (moderada), IV (grave)
  • 5.O estágio anatômico não se correlaciona com a intensidade da dor
6-10%
DE PREVALÊNCIA EM MULHERES EM IDADE REPRODUTIVA
7-10 anos
ATRASO MÉDIO NO DIAGNÓSTICO
30-50%
DAS MULHERES COM INFERTILIDADE TÊM ENDOMETRIOSE
70-80%
APRESENTAM DOR PÉLVICA SIGNIFICATIVA

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Diagnóstico Diferencial

Adenomiose

  • Útero globoso e aumentado ao exame
  • Menorragia predominante
  • Dismenorreia em mulheres com 35 anos ou mais
Sinais de Alerta
  • Anemia ferropriva por sangramento intenso

Testes Diagnósticos

  • Ultrassonografia transvaginal
  • Ressonância magnética pélvica

Complemento ao manejo da dor crônica em combinação com tratamento hormonal

SII com Dor Pélvica

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  • Dor que melhora com defecação
  • Alteração do habito intestinal
  • Ausência de dispareunia profunda
Sinais de Alerta
  • Sangramento retal
  • Perda de peso

Testes Diagnósticos

  • Criterios de Roma IV
  • Colonoscopia se sinais de alarme

Modulação da hipersensibilidade visceral intestinal

Cistite Intersticial

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  • Urgência e frequência urinária intensas
  • Dor suprapubica que alivia com miccao
  • Culturas de urina negativas
Sinais de Alerta
  • Hematuria macroscopica

Testes Diagnósticos

  • Cistoscopia com hidrodistensao
  • Urocultura

Redução da hipersensibilidade vesical e modulação da dor pélvica

Salpingite Crônica

  • Histórico de doença inflamatória pélvica
  • Dor bilateral em annexo
  • Febre ou corrimento na fase aguda
Sinais de Alerta
  • Febre e massa anexial — abscesso tubo-ovariano

Testes Diagnósticos

  • Ultrassonografia transvaginal
  • Exame ginecologico
  • Sorologias para DST

Adjuvante na dor residual crônica após tratamento do foco infeccioso

Disfunção miofascial do assoalho pélvico / Síndrome do elevador do ânus

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  • Dor perineal/retal e na região pélvica profunda
  • Piora com postura sentada prolongada
  • Sem relação clara com o ciclo menstrual

Testes Diagnósticos

  • Exame físico com palpação dos músculos do assoalho pélvico
  • Avaliação fisioterápica pélvica especializada

Liberação miofascial e pontos-gatilho da musculatura do assoalho pélvico

Adenomiose

A adenomiose e a condição mais próxima da endometriose e frequentemente coexiste com ela. Enquanto a endometriose implanta tecido endometrial fora do útero, a adenomiose e caracterizada pela invasao do miométrio. A diferênciação clínica se baseia na menorragia mais proeminente na adenomiose e no útero globoso ao exame.

A ressonância magnética pélvica e o exame de eleição para diferenciar as duas condições, embora a coexistência seja comum. O tratamento hormonal (principalmente dienogeste e DIU de levonorgestrel) e eficaz para ambas. A acupuntura médica contribui com o manejo da dor crônica não responsiva a hormônios.

SII com Dor Pélvica

A síndrome do intestino irritavel e endometriose são frequentemente confundidas — estudos demonstram que até 50% das mulheres com endometriose recebem inicialmente diagnóstico de SII. A disquezia catamenial (dor ao evacuar durante a menstruação) e um marcador clínico importante da endometriose retovaginal que difere do padrão intestinal da SII.

A chave diferencial e a relação dos sintomas com o ciclo menstrual: na endometriose, os sintomas intestinais pioram durante a menstruação; na SII, o padrão e mais difuso e relacionado a alimentação e estresse. A convergência visceral entre intestino e pelve explica a frequente sobreposição clínica.

Salpingite Crônica

A salpingite crônica, resultante de episódios previos de doença inflamatória pélvica, pode causar dor pélvica crônica com padrão similar a endometriose. A distincao clínica baseia-se no histórico de episódios agudos de DIP, na dor mais bilateral e na ausência do padrão ciclico típico da endometriose.

O rastreio de DSTs (Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae) e fundamental no diagnóstico diferencial. O tratamento antibiótico adequado dos episódios agudos previne a cronicidade. A acupuntura pode ser útil na dor residual crônica após o controle do foco infeccioso.

Tratamento

O tratamento da endometriose depende dos objetivos da paciente — controle da dor, preservação da fertilidade ou ambos. A abordagem combina tratamento hormonal para suprimir o crescimento dos implantes, tratamento cirurgico quando indicado, e manejo multimodal da dor.

Tratamento Hormonal (Primeira Linha)

Progestágenos (dienogeste 2mg/dia, DIU de levonorgestrel), contraceptivos combinados em uso continuo. Suprimem a ovulação e a estimulação estrogenica dos implantes. Eficazes para dor em 60-80% dos casos.

Analogos e Antagonistas de GnRH

Análogos de GnRH (leuprolida, goserelina) ou antagonistas de GnRH orais (elagolix, relugolix) — suprimem a função ovariana. Uso com terapia add-back (estradiol + noretisterona ou equivalente) desde o início previne perda óssea e permite uso mais prolongado conforme indicação do ginecologista.

Tratamento Cirurgico

Laparoscopia para excisao ou ablação de implantes, resseccao de endometriomas, lise de aderências. Indicada para doença refrataria, infertilidade ou obstrução de órgãos.

Manejo Multimodal da Dor

Fisioterapia pélvica, terapia cognitivo-comportamental, neuromoduladores (amitriptilina, gabapentina), acupuntura. Essencial para abordar a sensibilização central e dor crônica.

Acupuntura como Tratamento

A acupuntura e investigada como terapia complementar para a dor associada a endometriose. A revisão Cochrane sobre acupuntura para endometriose (Zhu et al., 2011) identificou evidência muito limitada (baseada em 1 RCT, Wayne 2008) sugerindo possível benefício — a evidência permanece insuficiente para conclusão firme, e ensaios subsequentes de maior porte são necessários.

Os mecanismos propostos — ainda em investigação — incluem modulação da sensibilização central por ativação de vias descendentes inibitórias da dor, possível redução de citocinas inflamatorias (TNF-alfa, IL-6), liberação de endorfinas e modulação do sistema nervoso autônomo. A acupuntura têm sido investigada como potencialmente relevante para o componente de dor crônica não ciclica, em que a sensibilização central parece ter papel importante.

A acupuntura não atua sobre os implantes endometrióticos em si, mas pode contribuir para o controle da dor em uma abordagem multimodal. E especialmente valorizada por pacientes que buscam reduzir a carga medicamentosa ou complementar o tratamento hormonal com intervenções não farmacológicas.

Prognóstico

A endometriose e uma doença crônica sem cura definitiva, mas com controle possível na maioria dos casos. O tratamento hormonal continuo pode manter a doença em remissão clínica. A resolução espontânea e rara enquanto há função ovariana ativa.

Com relação a fertilidade, mulheres com endometriose leve a moderada podem conceber naturalmente, enquanto casos graves podem necessitar de fertilização in vitro. O aconselhamento reprodutivo precoce e essencial para pacientes que desejam gestação futura.

Após a menopausa, a maioria das pacientes experimenta melhora significativa dos sintomas com a queda dos níveis de estrogeno. Porem, a terapia de reposição hormonal pode reativar a doença em uma minoria de casos.

60-80%
DE CONTROLE DA DOR COM TRATAMENTO HORMONAL
20-40%
DE RECORRÊNCIA EM 5 ANOS APÓS CIRURGIA
50-70%
DE GESTAÇÃO ESPONTÂNEA EM DOENÇA LEVE-MODERADA
Menopausa
MELHORA SIGNIFICATIVA NA MAIORIA DOS CASOS

Mitos e Fatos

Mito vs. Fato

MITO

Gestação cura a endometriose

FATO

A gestação pode aliviar temporariamente os sintomas pela supressão hormonal, mas não cura a doença. Os sintomas frequentemente retornam após o parto e a amamentação.

MITO

Histerectomia cura a endometriose

FATO

A histerectomia sem ooforectomia não garante cura, pois os implantes peritoneais podem persistir sob estimulação ovariana. Mesmo com ooforectomia, há risco de recorrência em 5-10% dos casos.

MITO

Endometriose só afeta mulheres mais velhas

FATO

A endometriose pode iniciar na adolescência, logo após a menarca. O atraso diagnóstico faz parecer que e doença de mulheres mais velhas, mas os sintomas frequentemente iniciam na juventude.

MITO

Dor intensa significa doença extensa

FATO

Não há correlação entre intensidade da dor e extensão anatômica. Implantes superficiais podem causar dor intensa por neurogenese local, enquanto endometriomas grandes podem ser assintomaticos.

Quando Procurar Ajuda

Se você suspeita de endometriose, busque avaliação com ginecologista — preferencialmente com experiência em endometriose. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem prevenir a progressão da doença e preservar a fertilidade.

PERGUNTAS FREQUENTES · 10

Perguntas Frequentes

Endometriose e a presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, causando inflamação crônica e dor. O atraso de 7 a 10 anos no diagnóstico ocorre porque a dor menstrual e frequentemente normalizada pela sociedade, não há biomarcador diagnóstico acessivel e os sintomas mimetizam outras condições como SII e cistite.

O médico acupunturista atua principalmente sobre a sensibilização central — o mecanismo que perpetua a dor além dos implantes ectopicos. Os mecanismos incluem ativação de vias descendentes inibitórias da dor, redução de citocinas inflamatorias (TNF-alfa, IL-6) e regulação do sistema nervoso autônomo. Não atua diretamente sobre os implantes.

Não. O tratamento hormonal (dienogeste, DIU de levonorgestrel, contraceptivos) atua sobre os implantes reduzindo a estimulação estrogenica. A acupuntura complementa ao modular a dor crônica, especialmente o componente não ciclico mediado pela sensibilização central. A combinação das duas abordagens e mais eficaz que qualquer uma isolada.

Recomenda-se uma avaliação após 8 a 12 sessões iniciais. A resposta e gradual, com benefícios crescentes ao longo de 3 a 6 meses de tratamento regular. A manutenção periodica (quinzenal ou mensal) pode ser necessária para manter os benefícios em casos de sensibilização central estabelecida.

Não. A cirurgia pode aliviar a dor e melhorar a fertilidade ao excluir implantes, mas não cura a doença. A taxa de recorrência e de 20 a 40% em 5 anos após excisao completa. Cirurgias repetidas podem causar mais aderências. A tendência atual e minimizar cirurgias e priorizar tratamento clínico a longo prazo.

Pode. A infertilidade está presente em 30 a 50% das mulheres com endometriose, resultando de aderências, disfunção tubaria, alterações endometriais e inflamação folicular. Mulheres com endometriose leve a moderada frequentemente concebem naturalmente; casos graves podem necessitar de fertilização in vitro.

A revisão Cochrane sobre acupuntura para endometriose (Zhu et al., 2011) identificou evidência muito limitada (baseada em 1 RCT, Wayne 2008) sugerindo possível benefício sobre a dor pélvica e a dismenorreia — a evidência permanece insuficiente para conclusão firme. Ensaios subsequentes de maior porte são necessários. O perfil de segurança favorável justifica considerar a acupuntura como complemento ao tratamento convencional no contexto de decisão compartilhada.

Não. A gestação pode aliviar temporariamente os sintomas pela supressão hormonal durante a gravidez e amamentação. No entanto, a doença frequentemente retorna após a normalização dos ciclos. Além disso, recomendar gestação como "tratamento" e eticamente inadequado e pode pressionar mulheres que ainda não desejam engravidar.

E a forma mais grave de endometriose, com implantes que penetram mais de 5mm abaixo da superficie peritoneal. Frequentemente afeta o septo retovaginal, ligamentos uterossacros, intestino e bexiga. Causa dismenorreia intensa, dispareunia profunda, disquezia catamenial e pode comprometer órgãos adjacentes.

Inicie com um ginecologista — preferencialmente com experiência em endometriose. Para casos complexos (suspeita de endometriose profunda, infertilidade, falha terapêutica), a avaliação em centro especializado e recomendada. O médico acupunturista pode ser incorporado ao cuidado multimodal para o manejo da dor crônica.