O que é Entorse de Tornozelo?
A entorse de tornozelo é uma lesão dos ligamentos que estabilizam a articulação do tornozelo, causada por um movimento forçado além da amplitude fisiológica. É a lesão musculoesquelética mais frequente em emergências e a mais comum no esporte, representando cerca de 25% de todas as lesões esportivas.
O mecanismo mais comum é a inversão forçada do pé (torção para dentro), que lesiona os ligamentos laterais — especialmente o ligamento talofibular anterior (LTFA). Entorses por eversão (torção para fora) são menos frequentes, mas frequentemente mais graves, envolvendo o complexo ligamentar medial (ligamento deltoide) e a sindesmose tibiofibular.
Mecanismo
Inversão forçada do pé — pisar em superfície irregular, queda de salto, mudança de direção no esporte
População de Risco
Atletas de esportes com saltos e mudanças de direção (basquete, futebol, vôlei), pacientes com entorse prévia
Complicação Principal
Instabilidade crônica do tornozelo em 30-40% dos casos — maior fator de risco é entorse prévia inadequadamente tratada
Impacto
Afastamento do esporte por dias a meses, risco de artrose do tornozelo em longo prazo se instabilidade crônica
Fisiopatologia
Os ligamentos do tornozelo são estruturas de tecido conjuntivo denso compostas principalmente por fibras de colágeno tipo I, organizadas em feixes paralelos que resistem a forças de tensão. Quando o tornozelo é forçado além de sua amplitude fisiológica, essas fibras sofrem estiramento, ruptura parcial ou ruptura completa, dependendo da intensidade da força aplicada.
O ligamento talofibular anterior (LTFA) é o mais frequentemente lesionado porque é o mais fraco dos três ligamentos laterais e é o primeiro a ser tensionado durante a inversão. Se a força continua, o ligamento calcaneofibular (LCF) é lesionado em seguida. A ruptura do ligamento talofibular posterior (LTFP) é rara e indica entorse de alta energia.
Além da lesão ligamentar, a entorse causa dano aos mecanorreceptores articulares (corpúsculos de Ruffini, Pacini e receptores dos ligamentos) que são fundamentais para a propriocepção. A perda proprioceptiva é o principal fator na instabilidade funcional crônica do tornozelo e explica por que a reabilitação neuromuscular é tão importante.

Sintomas
Os sintomas variam conforme o grau da entorse. O sintoma principal é a dor aguda no tornozelo imediatamente após o mecanismo de torção, acompanhada de edema progressivo. Nos graus mais graves, o paciente relata ter ouvido ou sentido um "estalo" no momento da lesão.
- 01
Dor aguda no tornozelo lateral após torção
- 02
Edema progressivo (máximo em 24-48 horas)
- 03
Equimose (roxo) na região lateral ou medial do tornozelo
- 04
Dificuldade ou incapacidade de apoiar o peso no pé
- 05
Sensação de estalo no momento da lesão
- 06
Instabilidade ou sensação de "falseio" do tornozelo
- 07
Rigidez articular pelo edema
- 08
Dor à palpação sobre os ligamentos lesionados
Diagnóstico
O diagnóstico da entorse de tornozelo é clínico, baseado no mecanismo de lesão, exame físico e aplicação das Regras de Ottawa para decidir a necessidade de radiografia. A ressonância magnética é reservada para casos com evolução atípica ou suspeita de lesões associadas (lesão osteocondral, ruptura tendínea).
🏥Regras de Ottawa para Tornozelo
- 1.Radiografia indicada se dor na zona maleolar E: dor à palpação da borda posterior dos últimos 6 cm do maléolo lateral
- 2.Dor à palpação da borda posterior dos últimos 6 cm do maléolo medial
- 3.Incapacidade de dar 4 passos imediatamente após a lesão e na avaliação
- 4.Radiografia do pé indicada se: dor na base do quinto metatarso ou no navicular
- 5.Sensibilidade: >98% para excluir fratura — seguras para evitar radiografias desnecessárias
TESTES NO EXAME FÍSICO
| TESTE | O QUE AVALIA | INTERPRETAÇÃO |
|---|---|---|
| Gaveta anterior | Integridade do LTFA | Translação anterior do tálus indica ruptura do LTFA |
| Tilt talar (inversão forçada) | LTFA e LCF | Abertura medial excessiva indica lesão combinada |
| Squeeze test | Sindesmose tibiofibular | Dor na sindesmose ao comprimir fíbula contra tíbia |
| Teste de rotação externa | Sindesmose tibiofibular | Dor com rotação externa do pé — lesão de sindesmose |
| Palpação óssea | Fraturas associadas | Dor pontual em maléolo, base do 5° metatarso, navicular |
Diagnóstico Diferencial
Embora a entorse de tornozelo seja a lesão mais comum após um mecanismo de torção, várias outras condições podem se apresentar de forma semelhante. Identificar corretamente a lesão subjacente é essencial para evitar tratamentos inadequados e complicações a longo prazo.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Fratura do Tornozelo (Ottawa Rules)
- Incapacidade de apoiar peso em 4 passos
- Dor óssea na fíbula distal ou maléolo medial
- Regras de Ottawa positivas
- Ottawa positivo = radiografia obrigatória
Testes Diagnósticos
- Radiografia segundo Regras de Ottawa
Fratura do 5º Metatarso
- Dor na base do 5º metatarso
- Mecanismo de inversão + plantiflexão
- Palpação da base do 5º metatarso dolorosa
Testes Diagnósticos
- Radiografia do pé
Ruptura do Tendão Peroniero
- Instabilidade lateral persistente
- Dor posterior ao maléolo lateral
- Pode piorar com inversão resistida
Testes Diagnósticos
- Ultrassonografia
- RNM
Síndrome do Seio do Tarso
- Dor lateral do tornozelo após entorse
- Persistente e sutil
- Palpação do seio do tarso dolorosa
Testes Diagnósticos
- Infiltração diagnóstica
- RNM
Neuropatia do Nervo Fibular Superficial
- Dormência no dorso do pé
- Dor em queimação
- Após entorse severa ou compressão
Testes Diagnósticos
- EMG
- Bloqueio diagnóstico
Fraturas associadas à torção do tornozelo
As Regras de Ottawa foram desenvolvidas justamente para distinguir a entorse ligamentar da fratura, evitando radiografias desnecessárias. Dois locais anatômicos requerem atenção especial: a base do 5º metatarso (avulsão pelo fibular curto) e o navicular, frequentemente ignorados no exame inicial. A incapacidade de dar quatro passos com apoio do peso, tanto imediatamente após o trauma quanto na avaliação médica, é o critério funcional mais sensível para indicar imagem.
A fratura de Jones (no diáfise do 5º metatarso, a 1,5-2 cm da base) merece atenção especial porque têm taxa de não-consolidação elevada e pode requerer tratamento cirúrgico, diferente da fratura por avulsão da base do 5º metatarso, que geralmente resolve com tratamento conservador. O exame clínico cuidadoso com palpação seletiva distingue as duas.
Lesões tendíneas peronieras: instabilidade lateral persistente
A ruptura dos tendões peronieros — fibular longo e fibular curto — pode ocorrer simultaneamente à entorse lateral do tornozelo e é frequentemente subdiagnosticada. O paciente com instabilidade lateral persistente após entorse tratada adequadamente deve ser avaliado para essa possibilidade. A dor localiza-se posterior ao maléolo lateral, distinguindo-se da dor ligamentar mais anterior.
A ultrassonografia e a ressonância magnética são os exames de escolha para avaliar os tendões peronieros. Ruptura longitudinal do fibular curto é a lesão mais comum e pode requerer reparo cirúrgico em atletas com instabilidade funcional persistente. A identificação precoce evita a progressão para instabilidade crônica refratária ao tratamento conservador.
Síndrome do seio do tarso e neuropatia fibular: causas de dor residual
A síndrome do seio do tarso é uma causa pouco reconhecida de dor lateral persistente após entorse, resultante de dano às estruturas ligamentares e nervosas do seio do tarso — o espaço anatômico entre o tálus e o calcâneo. A dor é descrita como sutil, persistente, pior em terreno irregular, com sensibilidade à palpação direta do seio do tarso (ponto lateral abaixo do maléolo fibular). A infiltração diagnóstica com anestésico local confirma o diagnóstico.
A neuropatia do nervo fibular superficial pode surgir após entorse severa por tração ou por compressão do nervo durante o edema agudo. O paciente relata dormência e sensação de queimação no dorso do pé, no território de distribuição desse nervo. A eletroneuromiografia e o bloqueio diagnóstico auxiliam na confirmação. O médico acupunturista pode considerar o agulhamento ao longo do trajeto do nervo como abordagem complementar no manejo da dor neuropática residual.
Tratamento
O tratamento da maioria das entorses de tornozelo é conservador, mesmo em graus II e III. O protocolo PRICE (Proteção, Repouso relativo, Ice/Gelo, Compressão, Elevação) evoluiu para o conceito de PEACE & LOVE, que enfatiza a mobilização precoce e a reabilitação neuromuscular como pilares do tratamento.
Fase Aguda — PEACE (0-3 dias)
Proteção (evitar carga excessiva, não imobilizar completamente), Elevação, Avoid anti-inflamatórios nos primeiros dias, Compressão, Educação (evitar tratamentos passivos excessivos).
Fase Subaguda — LOVE (3-14 dias)
Load (carga progressiva conforme tolerado), Otimismo (expectativas positivas), Vascularização (exercício cardiovascular sem dor), Exercício (mobilidade, fortalecimento, propriocepção).
Reabilitação (2-6 semanas)
Fortalecimento dos fibulares e estabilizadores do tornozelo. Treino proprioceptivo intensivo (tábua de equilíbrio). Retorno progressivo à corrida e atividades esportivas.
Retorno ao Esporte (6-12 semanas)
Testes funcionais de salto e equilíbrio. Retorno gradual ao esporte com proteção (órtese funcional ou taping). Programa de prevenção de recorrência.
Acupuntura como Tratamento
A acupuntura pode ser utilizada como tratamento complementar na entorse de tornozelo, tanto na fase aguda para controle da dor e edema quanto na fase de reabilitação. Os mecanismos envolvem modulação da dor por liberação de opioides endógenos, melhora da microcirculação local e potencial efeito na resolução do edema inflamatório.
Estudos sugerem que a acupuntura pode acelerar a resolução do edema e permitir mobilização mais precoce ao reduzir a dor. Na fase de reabilitação, a eletroacupuntura pode facilitar a ativação neuromuscular dos fibulares, contribuindo para a recuperação proprioceptiva. A acupuntura não substitui, mas complementa o treino proprioceptivo.
Prognóstico
O prognóstico das entorses grau I e II é geralmente favorável com reabilitação adequada. Entorses grau I resolvem em 1-2 semanas; grau II em 4-6 semanas; grau III em 8-12 semanas. O fator prognóstico mais importante é a qualidade da reabilitação proprioceptiva, não o grau da lesão inicial.
O principal problema é a alta taxa de recorrência e a instabilidade crônica. Cerca de 30-40% dos pacientes com entorse lateral desenvolvem instabilidade crônica do tornozelo, definida por episódios repetidos de falseio e entorses recorrentes. A reabilitação proprioceptiva reduz essa taxa pela metade.
Mitos e Fatos
Mito vs. Fato
Entorse leve não precisa de tratamento — é só esperar a dor passar.
Mesmo entorses grau I necessitam de reabilitação proprioceptiva para prevenir instabilidade crônica. O descanso sozinho não restaura a propriocepção perdida.
É preciso imobilizar o tornozelo com gesso ou bota após entorse.
A imobilização rígida prolongada é prejudicial. A mobilização precoce com proteção funcional (órtese semi-rígida) produz resultados superiores ao gesso.
Anti-inflamatórios devem ser tomados imediatamente após a entorse.
Evidências recentes sugerem que AINEs nas primeiras 48-72h podem retardar a cicatrização ligamentar. A inflamação inicial é parte necessária do processo de reparo.
Se consegue andar, não pode ser grave.
Alguns pacientes conseguem andar mesmo com ruptura ligamentar completa (grau III). A capacidade de apoiar peso não é um indicador confiável da gravidade da lesão.
Quando Procurar Ajuda Médica
Perguntas Frequentes
Entorse de Tornozelo: Dúvidas Comuns
Não. As Regras de Ottawa indicam radiografia apenas quando há dor à palpação óssea nos maléolos ou pé E incapacidade de dar 4 passos com apoio. Quando as regras são negativas, o risco de fratura é menor que 2% e a radiografia pode ser dispensada com segurança, evitando exames desnecessários.
Depende do grau: entorses grau I curam em 1-2 semanas; grau II em 4-6 semanas; grau III em 8-12 semanas. Porém, a recuperação funcional completa — incluindo propriocepção — pode levar mais tempo que o desaparecimento da dor. É importante manter o programa de reabilitação mesmo após a melhora dos sintomas.
O retorno ao esporte deve ser baseado em critérios funcionais, não apenas no tempo. São necessários: ausência de dor ao apoiar o peso, amplitude de movimento completa, força simétrica dos fibulares e aprovação nos testes funcionais de salto e equilíbrio. O uso de órtese funcional no retorno reduz o risco de reentorse.
Instabilidade crônica é definida como episódios repetidos de falseio do tornozelo por mais de 12 meses após a entorse inicial, afetando 30-40% dos pacientes. O principal fator causal é o déficit proprioceptivo não tratado. A reabilitação proprioceptiva adequada desde a primeira entorse é a melhor prevenção.
Não. Evidências atuais mostram que a imobilização rígida (gesso) é inferior à mobilização precoce com proteção funcional (órtese semi-rígida ou taping). O repouso completo e o gesso retardam a recuperação e aumentam o risco de rigidez articular e atrofia muscular. O conceito PEACE & LOVE substituiu o antigo PRICE.
As evidências recentes recomendam evitar AINEs nas primeiras 48-72 horas, pois a inflamação inicial é parte necessária do processo de cicatrização ligamentar. Para dor intensa, paracetamol é uma opção mais segura nessa fase. A partir do 3º dia, AINEs podem ser usados se necessário, mas por tempo limitado.
Sim, como tratamento complementar. Na fase aguda, pontos distais podem reduzir dor e edema sem agulhamento direto na área inflamada. Na reabilitação, a eletroacupuntura pode facilitar a ativação neuromuscular dos fibulares e contribuir para a recuperação proprioceptiva. A acupuntura médica não substitui os exercícios proprioceptivos, mas pode potencializá-los.
As principais estratégias são: programa de treinamento proprioceptivo (tábua de equilíbrio, apoio unipodal) por pelo menos 6 semanas após a entorse; uso de órtese funcional ou taping durante o esporte por 6-12 meses; fortalecimento dos fibulares e musculatura estabilizadora do tornozelo; e calçado adequado para a prática esportiva.
A grande maioria das entorses (mesmo grau III) resolve com tratamento conservador. A cirurgia é indicada em raros casos de instabilidade crônica refratária após programa de reabilitação de pelo menos 3-6 meses, ou em lesões associadas (ruptura tendínea, lesão osteocondral grave). O procedimento mais comum é a reconstrução anatômica do LTFA (técnica de Broström-Gould).
Na maioria dos casos, sim. O edema agudo regride em 2-4 semanas com tratamento adequado. Porém, algum espessamento periarticular pode persistir por meses, especialmente em entorses grau II e III. Edema persistente após 6-8 semanas merece reavaliação para descartar lesão associada (tendínea, osteocondral) ou síndrome do seio do tarso.