O que é Síndrome do Túnel do Tarso?
A síndrome do túnel do tarso é uma neuropatia compressiva do nervo tibial posterior ou de seus ramos (nervos plantar medial, plantar lateral e calcâneo medial) ao passar pelo túnel do tarso — um espaço fibro-ósseo localizado atrás e abaixo do maléolo medial do tornozelo.
Essa condição é análoga à síndrome do túnel do carpo no punho. O túnel do tarso é delimitado medialmente pelo maléolo tibial, lateralmente pelo tálus e calcâneo, e coberto pelo retináculo dos flexores (ligamento laciniado). Dentro desse espaço confinado passam o nervo tibial posterior, a artéria e veias tibiais posteriores, e os tendões dos músculos tibial posterior, flexor longo dos dedos e flexor longo do hálux.
Qualquer condição que reduza o espaço dentro do túnel ou aumente a pressão sobre o nervo pode causar a síndrome. A compressão resulta em dor, queimação, formigamento e dormência na planta do pé e dedos.
Neuropatia Compressiva
O nervo tibial posterior é comprimido no túnel do tarso, gerando sintomas neuropáticos na planta do pé.
Análogo ao Túnel do Carpo
Assim como o nervo mediano no punho, o nervo tibial é vulnerável em um espaço fibro-ósseo confinado.
Diagnóstico Frequentemente Tardio
É subdiagnosticada: muitos casos são confundidos com fascite plantar ou neuropatia periférica.
Epidemiologia
A síndrome do túnel do tarso é considerada uma causa incomum, porém subdiagnosticada, de dor no pé. A incidência real é difícil de estimar porque muitos casos são erroneamente diagnosticados como fascite plantar ou neuropatia periférica. É mais frequente em mulheres e em adultos entre 40 e 60 anos.
As causas identificáveis incluem: pé plano valgo (a causa mais comum, por tração crônica do nervo), ganglion ou cisto sinovial, varicosidades venosas no túnel, tenossinovite dos flexores, sequela de fratura do maléolo medial ou calcâneo, lipoma, e lesões ocupantes de espaço. O diabetes mellitus aumenta a vulnerabilidade do nervo à compressão por neuropatia prévia.
Fisiopatologia
O nervo tibial posterior origina-se do nervo isquiático (ciático) e desce pela face posterior da perna, passando pelo túnel do tarso antes de se dividir em seus ramos terminais. Dentro do túnel, o nervo se divide em três ramos principais.
RAMOS DO NERVO TIBIAL POSTERIOR E TERRITÓRIOS
| RAMO | TERRITÓRIO SENSITIVO | TERRITÓRIO MOTOR | SINTOMA TÍPICO |
|---|---|---|---|
| Nervo plantar medial | Face medial da planta, 1o-3o dedos | Abdutor do hálux, flexor curto dos dedos | Formigamento medial da planta |
| Nervo plantar lateral | Face lateral da planta, 4o-5o dedos | Músculos intrínsecos laterais do pé | Queimação lateral da planta |
| Nervo calcâneo medial | Face medial e plantar do calcanhar | Nenhum (sensitivo puro) | Dor queimante no calcanhar |
A compressão crônica do nervo dentro do túnel desencadeia uma cascata de desmielinização segmentar, edema endoneural, fibrose intraneural e, em estágios avançados, degeneração axonal. O pé plano valgo é a causa biomecânica mais comum: a eversão do retropé traciona o nervo e aumenta a pressão dentro do túnel.
A pressão intratúnel normal é de 2-4 mmHg em repouso. Na síndrome do túnel do tarso, a pressão pode aumentar para 30-40 mmHg, comprometendo a microcirculação intraneural e a condução nervosa.

Sintomas
Os sintomas são predominantemente neuropáticos — queimação, formigamento, dormência e dor tipo choque — distribuídos na planta do pé e dedos conforme o ramo nervoso acometido. A diferênciação com fascite plantar é clinicamente essencial.
Sintomas Característicos
- 01
Queimação ou formigamento na planta do pé e dedos
- 02
Dor que piora à noite ou após períodos prolongados em pé
- 03
Sensação de "choque elétrico" irradiando para o pé ao percutir atrás do maléolo medial
- 04
Dormência na planta do pé, parcial ou completa
- 05
Dor que alivia ao elevar o pé e piora ao caminhar descalço em superfícies duras
- 06
Fraqueza dos músculos intrínsecos do pé (casos avançados)
- 07
Sensação de "andar sobre pedregulhos" ou "alfinetadas"
Diagnóstico
O diagnóstico combina achados clínicos com a eletroneuromiografia (ENMG), que é o padrão-ouro para confirmação. A ressonância magnética é indicada para identificar a causa da compressão.
🏥Critérios Diagnósticos
- 1.Dor neuropática (queimação, formigamento) na planta do pé e/ou dedos
- 2.Sinal de Tinel positivo: percussão atrás do maléolo medial reproduz parestesias distais
- 3.Teste de dorsiflexão-eversão: manutenção da posição por 30 segundos piora os sintomas
- 4.ENMG: prolongamento da latência distal motora e sensitiva do nervo tibial posterior
- 5.RM: identificação de causa compressiva (ganglion, varicosidades, tenossinovite)
A eletroneuromiografia (ENMG) é fundamental: demonstra prolongamento da latência distal sensitiva e motora do nervo tibial posterior e seus ramos (plantar medial e lateral). A sensibilidade da ENMG varia de 50-80%, dependendo da técnica e da gravidade da compressão. Resultados normais não excluem o diagnóstico, especialmente em casos iniciais.
A ressonância magnética do tornozelo é essencial para identificar lesões ocupantes de espaço (ganglion, lipoma, varicosidades), tenossinovite dos flexores, ou sequelas de fraturas. Edema do nervo em sequências com supressão de gordura (STIR) é um achado direto de neuropatia compressiva.
Diagnóstico Diferencial
A dor neuropática no pé pode ter múltiplas origens. O diagnóstico diferencial é essencial pois o tratamento varia significativamente entre as condições.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Fascite plantar
Dor mecânica no calcanhar, pior nos primeiros passos pela manhã. Sem componente neuropático.
Neuroma de Morton
Neuropatia compressiva do nervo digital intermetatarsal, dor no antepé entre os metatarsais.
Neuropatia periférica diabética
Perda sensitiva simétrica e bilateral em "meia". Queimação difusa em ambos os pés.
Radiculopatia S1
Compressão da raiz S1 com dor irradiada da coluna lombar para o pé.
Neuropatia do ramo calcâneo medial
Compressão isolada do ramo calcâneo, causa dor neuropática restrita ao calcanhar.
Tratamentos
O tratamento inicial é conservador, com foco em reduzir a pressão sobre o nervo e tratar a causa subjacente. A abordagem é multifacetada, combinando órteses, medicamentos neuromoduladores e técnicas de neurodinâmica.
OPÇÕES DE TRATAMENTO PARA SÍNDROME DO TÚNEL DO TARSO
| TRATAMENTO | MECANISMO | EVIDÊNCIA | INDICAÇÃO |
|---|---|---|---|
| Palmilha ortopédica com suporte medial | Corrige a pronação excessiva, reduz tração no nervo | Moderada | Pé plano valgo como causa |
| Neurodinâmica (deslizamento neural) | Melhora a mobilidade do nervo dentro do túnel | Moderada | Todas as causas — adjuvante |
| Gabapentina ou pregabalina | Modulação da dor neuropática central | Forte (para dor neuropática) | Dor neuropática significativa |
| Infiltração com corticoide no túnel | Anti-inflamatório local, reduz edema perineural | Moderada | Tenossinovite, teste diagnóstico |
| Acupuntura / Eletroacupuntura | Analgesia neuropática, modulação inflamatória | Emergente | Adjuvante — controle de dor |
| Descompressão cirúrgica | Liberação do retináculo dos flexores | Moderada | Falha do conservador após 6-12 meses |
Neurodinâmica (Deslizamento Neural)
Exercícios de deslizamento neural (neural flossing) do nervo tibial posterior são fundamentais. A técnica consiste em movimentos alternados de dorsiflexão e inversão do tornozelo com extensão do joelho, criando deslizamento do nervo dentro do túnel sem aumentar a tensão.
Realizar 3 séries de 10 repetições, 2-3 vezes ao dia. Os movimentos devem ser suaves e controlados, sem reproduzir dor intensa. A progressão é gradual ao longo de semanas.
Acupuntura como Tratamento
A acupuntura pode ser considerada como abordagem complementar — não substitutiva — no manejo da dor neuropática associada à síndrome do túnel do tarso. A abordagem combina pontos locais (peritendinosos no túnel do tarso) com pontos ao longo do trajeto do nervo tibial posterior.
Os mecanismos propostos — ainda sob investigação — incluem: possível modulação da dor via ativação do sistema inibitório descendente e, em estudos experimentais, influência sobre fatores neurotróficos e microcirculação local. Achados em modelos animais sugerem potencial efeito sobre remielinização e sensibilização central, mas a extrapolação para a prática clínica humana permanece preliminar.
A eletroacupuntura com frequência de 2 Hz aplicada ao longo do trajeto do nervo tibial posterior é investigada como adjuvante no manejo da dor neuropática. A baixa frequência está associada à ativação do sistema opioide endógeno (encefalinas e β-endorfinas) em estudos experimentais, com possível contribuição analgésica complementar.
Laserterapia (Fotobiomodulação)
A laserterapia aplicada sobre o túnel do tarso e ao longo do trajeto neural é estudada como adjuvante no manejo de neuropatias compressivas. Mecanismos propostos incluem possível estimulação da citocromo c oxidase mitocondrial nas células de Schwann, com base em modelos experimentais.
Estudos pré-clínicos sugerem que a fotobiomodulação pode influenciar a regeneração axonal e a condução nervosa em modelos de neuropatia compressiva — achados experimentais cuja relevância clínica em humanos requer confirmação. A combinação de acupuntura peritendinosa com laser pode ser considerada como abordagem complementar.
Prognóstico
O prognóstico depende fortemente da identificação e correção da causa subjacente. Quando uma causa tratável é identificada (ganglion, tenossinovite, pé plano corrigível com órtese), os resultados são significativamente melhores. Casos idiopáticos e de longa evolução com desnervação têm prognóstico mais reservado.
Cronograma de Tratamento
Fase 1
0-4 semanasDiagnóstico e Controle de Sintomas
ENMG e RM para confirmar diagnóstico e identificar causa. Palmilha ortopédica se pé plano. Início de gabapentina se dor neuropática significativa.
Fase 2
1-3 mesesReabilitação Neural
Exercícios de neurodinâmica (deslizamento neural) do nervo tibial. Acupuntura e laserterapia para dor neuropática e regeneração.
Fase 3
3-6 mesesReavaliação
Repetir ENMG para avaliar melhora eletrofisiológica. Se não houver melhora e houver causa compressiva, considerar cirurgia.
Fase 4
6-12 mesesManutenção ou Cirurgia
Se melhora: manutenção com órteses e exercícios. Se falha: descompressão cirúrgica com reabilitação pós-operatória.
Mitos e Fatos
Mito vs. Fato
Toda dor na planta do pé com formigamento é fascite plantar.
A fascite plantar causa dor mecânica, não neuropática. Se há queimação, formigamento ou dormência, a síndrome do túnel do tarso deve ser investigada.
Se a ENMG vier normal, não é síndrome do túnel do tarso.
A ENMG têm sensibilidade de 50-80%. Casos iniciais ou compressões leves podem ter ENMG normal. O diagnóstico clínico combinado com RM é fundamental.
A cirurgia resolve todos os casos de síndrome do túnel do tarso.
A taxa de sucesso cirúrgico é de 70-90% quando há causa compressiva identificável, mas cai para 50% em casos idiopáticos sem lesão ocupante de espaço.
Síndrome do túnel do tarso é uma condição rara.
É provavelmente subdiagnosticada. Muitos casos rotulados como "fascite plantar resistente ao tratamento" podem ser, na verdade, compressão do nervo tibial posterior.
Quando Procurar Ajuda Médica
Perguntas Frequentes sobre Síndrome do Túnel do Tarso
A síndrome do túnel do tarso é uma neuropatia compressiva do nervo tibial posterior ao passar pelo túnel do tarso — espaço fibro-ósseo localizado atrás do maléolo medial do tornozelo. Manifesta-se com dor neuropática (queimação, formigamento, dormência) na planta do pé e dedos. É análoga à síndrome do túnel do carpo no punho. Os sintomas tipicamente pioram à noite e após atividade prolongada.
A fascite plantar causa dor mecânica no calcanhar, pior nos primeiros passos pela manhã, reproduzida pela palpação do tubérculo medial do calcâneo. A síndrome do túnel do tarso causa dor neuropática (queimação, formigamento, dormência) na planta do pé, que piora à noite. O sinal de Tinel (percussão atrás do maléolo medial reproduzindo parestesias) é positivo no túnel do tarso e negativo na fascite plantar. A distinção é fundamental porque os tratamentos são diferentes.
O diagnóstico combina exame clínico (sinal de Tinel, teste de dorsiflexão-eversão) com eletroneuromiografia (ENMG) e ressonância magnética. A ENMG é o padrão-ouro e demonstra prolongamento da latência distal do nervo tibial posterior. A RM identifica a causa da compressão (ganglion, varicosidades, tenossinovite). ENMG normal não exclui o diagnóstico em casos iniciais.
O tratamento inicial é conservador: palmilha ortopédica com suporte medial para pé plano, exercícios de neurodinâmica (deslizamento neural) do nervo tibial, gabapentina ou pregabalina para dor neuropática e infiltração com corticoide no túnel. Acupuntura e laserterapia atuam como adjuvantes. A cirurgia (descompressão do retináculo dos flexores) é indicada após 6-12 meses sem melhora.
Os mecanismos propostos — em grande parte baseados em estudos experimentais — incluem possível modulação da dor via sistema inibitório descendente, influência sobre fatores neurotróficos e microcirculação local, com potencial contribuição na sensibilização central. A eletroacupuntura a 2 Hz ao longo do trajeto do nervo tibial é investigada como adjuvante para dor neuropática. A laserterapia sobre o túnel do tarso têm efeitos estudados em modelos experimentais. Esses achados são promissores, porém a evidência clínica específica para a síndrome do túnel do tarso ainda é limitada, e a acupuntura deve ser entendida como abordagem complementar.
Um ciclo típico para a síndrome do túnel do tarso inclui 8-12 sessões, realizadas 1-2 vezes por semana. A melhora do formigamento e queimação noturna geralmente ocorre nas primeiras 3-4 sessões. Neuropatias de longa evolução com desnervação podem necessitar de ciclos mais prolongados. O médico acupunturista combina acupuntura, eletroacupuntura e laserterapia conforme a resposta clínica individual.
O prognóstico depende da causa e da duração dos sintomas. Quando uma causa tratável é identificada (ganglion, tenossinovite, pé plano corrigível), a taxa de resolução é alta — 70-90% com tratamento adequado. Casos idiopáticos e de longa evolução com desnervação avançada têm prognóstico mais reservado. O diagnóstico precoce é fundamental: neuropatias compressivas tratadas precocemente têm recuperação significativamente melhor.
Consulte um médico se apresentar queimação, formigamento ou dormência persistente na planta do pé por mais de 2-3 semanas, especialmente se piorar à noite. Procure atendimento urgente se notar perda de sensibilidade progressiva, fraqueza dos dedos ou dor neuropática intensa que impede o sono. Se o tratamento para fascite plantar não estiver funcionando e seus sintomas incluem componente neuropático, solicite avaliação para síndrome do túnel do tarso.
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