O que e a Sinusite Crônica?

A rinossinusite crônica (RSC) e uma doença inflamatória da mucosa nasal e dos seios paranasais com duração de pelo menos 12 semanas contínuas. E uma das doenças crônicas mais prevalentes, afetando aproximadamente 5-12% da população geral e gerando impacto significativo na qualidade de vida.

A RSC e classificada em dois endotipos principais: RSC sem polipos nasais (RSCsPN) e RSC com polipos nasais (RSCcPN). Essa classificação e clinicamente relevante porque os mecanismos inflamatorios, o tratamento e o prognóstico diferem substancialmente entre os dois grupos.

A RSC não e simplesmente uma infecção prolongada. E uma doença inflamatória crônica complexa que envolve disfunção da barreira epitelial, disbiose do microbioma nasal e desregulação imunológica. A persistência bacteriana e consequência, não causa primária, da inflamação crônica.

01

Doença Inflamatória

A RSC e fundamentalmente uma doença inflamatória, não infecciosa. Antibioticos prolongados não são o tratamento adequado na maioria dos casos.

02

Dois Fenotipos

RSC sem polipos (inflamação neutrofilica, Th1) e RSC com polipos (inflamação eosinofilica, Th2) requerem abordagens terapêuticas distintas.

03

Alta Prevalência

Afeta 5-12% da população. E responsável por mais prescrições de antibioticos do que qualquer outra doença, muitas vezes desnecessariamente.

Fisiopatologia

O modelo atual da RSC reconhece a disfunção da barreira epitelial como evento central. O epitélio nasal normal funciona como barreira física e imunológica. Na RSC, essa barreira está comprometida, permitindo a penetração de alérgenos, bacterias e toxinas que perpetuam a inflamação.

Na RSC sem polipos, predomina a inflamação neutrofilica com perfil Th1/Th17. Na RSC com polipos, predomina a inflamação eosinofilica com perfil Th2, níveis elevados de IgE local e IL-5. Esse perfil Th2 e compartilhado com a asma, explicando a frequente associação entre as duas condições.

Fisiopatologia da RSC: disfunção da barreira epitelial, inflamação Th1 (sem polipos) vs Th2 (com polipos), disbiose do microbioma nasal e obstrução dos ostios sinusais
Fisiopatologia da RSC: disfunção da barreira epitelial, inflamação Th1 (sem polipos) vs Th2 (com polipos), disbiose do microbioma nasal e obstrução dos ostios sinusais
Fisiopatologia da RSC: disfunção da barreira epitelial, inflamação Th1 (sem polipos) vs Th2 (com polipos), disbiose do microbioma nasal e obstrução dos ostios sinusais

Sintomas

Os sintomas cardinais da RSC são obstrução nasal, rinorreia anterior ou posterior, dor ou pressão facial e hiposmia ou anosmia. O diagnóstico requer pelo menos dois desses sintomas por mais de 12 semanas.

Critérios clínicos
06 itens

Sintomas da Rinossinusite Crônica

  1. 01

    Obstrução nasal bilateral

    Congestao nasal persistente, frequentemente descrita como sensação de pressão ou plenitude. Pior na RSCcPN.

  2. 02

    Rinorreia mucopurulenta

    Secreção nasal espessa, amarelada ou esverdeada, diferente da rinorreia aquosa da rinite alérgica.

  3. 03

    Gotejamento pós-nasal

    Sensação de secreção escorrendo pela garganta, causando pigarro, tosse e desconforto faringeo crônico.

  4. 04

    Dor ou pressão facial

    Sensação de peso ou pressão sobre os seios maxilares, frontais ou entre os olhos. Pode piorar ao inclinar a cabeça.

  5. 05

    Hiposmia ou anosmia

    Redução ou perda do olfato — particularmente proeminente na RSCcPN, onde a inflamação eosinofilica afeta o neuroepitelio olfatorio.

  6. 06

    Fadiga e mal-estar

    Cansaco crônico, redução da concentração e sensação geral de mal-estar. O impacto na qualidade de vida e comparável a insuficiência cardiaca.

Diagnóstico

O diagnóstico da RSC requer sintomas cardinais por mais de 12 semanas associados a evidência objetiva de inflamação sinusal por endoscopia nasal ou tomografia computadorizada. A endoscopia nasal visualiza secreção purulenta, edema da mucosa e polipos nasais.

A tomografia computadorizada dos seios paranasais e o exame de imagem padrão. Demonstra velamento dos seios, espessamento mucoso e obstrução dos complexos ostiomeatais. Radiografias simples não têm sensibilidade suficiente e não são recomendadas.

🏥Criterios Diagnósticos da RSC (EPOS 2020)

  • 1.Dois ou mais sintomas cardinais presentes por mais de 12 semanas continuas
  • 2.Um dos sintomas deve ser obstrução nasal ou rinorreia (anterior ou pós-nasal)
  • 3.Evidência objetiva por endoscopia nasal: polipos, secreção mucopurulenta ou edema mucoso
  • 4.E/ou evidência por TC: alterações mucosas nos seios paranasais ou complexo ostiomeatal
5-12%
DA POPULAÇÃO E AFETADA PELA RSC
25-30%
DOS PACIENTES COM RSC TÊM POLIPOS NASAIS
40%
DOS ASMÁTICOS GRAVES TÊM RSCCPN
12+
SEMANAS DE SINTOMAS PARA O DIAGNÓSTICO

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Diagnóstico Diferencial

Rinite Alérgica

Rinorreia aquosa, espirros, prurido, sem dor facial; testes alergenicos positivos; TC sinusal normal ou com espessamento leve

Polipos Nasais

Frequentemente associados a RSCcPN; anosmia progressiva, massas cinza-palidas na endoscopia nasal

Granulomatose de Wegener (GPA)

Úlcerações nasais, crostas hemorragicas, perfuração septal, manifestações sistêmicas (pulmao, rim); ANCA positivo

Imunodeficiência

Infecções recorrentes desde a infância, hipogamaglobulinemia; dosagem de imunoglobulinas e necessária em RSC refrataria

Mucoviscidose/Fibrose Cistica

RSC desde a infância, bronquiectasias, insuficiência pancreatica; teste do suor e genotipagem CFTR

Granulomatose com Poliangiite (Wegener)

A granulomatose com poliangiite (GPA), anteriormente chamada de granulomatose de Wegener, e uma vasculite de pequenos vasos que pode afetar o trato respiratório superior, pulmoes e rins. A manifestação nasosinusal pode preceder outras manifestações em meses ou anos, sendo indistinguivel clinicamente de uma RSC comum nos estágios iniciais. Sinais que aumentam a suspeita incluem: crostas nasais hemorragicas, úlcerações da mucosa, epistaxes recorrentes e perfuração do septo nasal.

A deformidade nasal em "sela" (colapso do dorso nasal por destruição septal) e uma manifestação tardia característica. A dosagem de ANCA (anticorpos anti-citoplasma de neutrofilos) — especialmente c-ANCA/PR3 — e altamente específica. A biopsia da mucosa nasal pode mostrar inflamação granulomatosa. O tratamento e imunossupressor e o diagnóstico precoce e essencial para prevenir danos orgânicos irreversíveis.

Imunodeficiência e RSC Refrataria

Imunodeficiências primarias devem ser investigadas em pacientes com RSC refrataria ao tratamento otimizado, especialmente quando há historia de infecções recorrentes em outros sitios (otite média, pneumonias) desde a infância. A imunodeficiência comum variável (ICV), a agamaglobulinemia de Bruton e a deficiência seletiva de IgA são as mais frequentes em adultos.

O rastreamento inclui dosagem de imunoglobulinas sericas (IgG, IgA, IgM) e subclasses de IgG, além de avaliação da resposta a vacinas. A hipogamaglobulinemia pode manifestar-se apenas com RSC recorrente na vida adulta. O tratamento com imunoglobulina intravenosa pode ser necessário em casos confirmados, sempre orientado pelo médico imunologista.

Fibrose Cistica — Diagnóstico Possível em Adultos

A fibrose cistica (mucoviscidose) classicamente se manifesta na infância com bronquiectasias, insuficiência pancreatica exocrina e RSC grave. No entanto, formas mais leves (genotipo atenuado) podem apresentar-se na vida adulta com RSC crônica grave, bronquiectasias leves e infertilidade masculina (ausência congenita dos vasos deferentes) como manifestações predominantes.

A suspeita deve ser levantada em adultos jovens com RSC muito grave, bilateral, recorrente após cirurgia endoscopica, especialmente com bronquiectasias associadas. O teste do suor (cloreto acima de 60 mEq/L) e a genotipagem das mutações do gene CFTR confirmam o diagnóstico. O tratamento e multidisciplinar com médico especialista, incluindo moduladores do CFTR nas formas selecionadas.

Tratamento

O tratamento da RSC e escalonado, iniciando com terapia clínica máxima antes de considerar cirurgia. O corticosteroide nasal topico e a base do tratamento em ambos os fenotipos. A lavagem nasal com solução salina e coadjuvante essencial.

Terapia Clínica Inicial

Corticosteroide nasal topico em alta dose por pelo menos 8-12 semanas. Lavagem nasal com salina hipertonica (melhora o clearance mucociliar). Antibiotico curto prazo apenas se exacerbação aguda bacteriana.

Terapia Clínica Máxima

Corticosteroide oral curto (prednisona 7-14 dias, especialmente na RSCcPN para reduzir polipos). Macrolideos em baixa dose por 12 semanas na RSCsPN (efeito anti-inflamatório, não antibiotico). Antileucotrienos como adjuvante.

Cirurgia Endoscopica Funcional (FESS)

Indicada quando há falha da terapia clínica máxima. Amplia os ostios naturais dos seios, remove polipos e restaura a drenagem e a ventilação sinusal. Taxa de melhora clínica de 85-90%.

Biológicos e Terapias Complementares

Dupilumab (anti-IL4/IL13) para RSCcPN refrataria — aprovado e com eficacia comprovada na redução de polipos e melhora do olfato. Acupuntura como coadjuvante para sintomas residuais.

Acupuntura como Tratamento

A acupuntura pode ser uma terapia complementar útil na RSC, especialmente para o controle de sintomas residuais. Mecanismos propostos — ainda sob investigação — incluem possível modulação da inflamação local, potencial influência sobre a função mucociliar, sobre o tono vascular da mucosa nasal e sobre a dor facial.

Alguns estudos sugerem que a acupuntura pode auxiliar no alívio da obstrução nasal, da dor facial e na qualidade de vida em pacientes selecionados com RSC. A acupuntura não substitui o tratamento farmacológico ou cirurgico, mas pode ser integrada como parte de uma abordagem multimodal coordenada pelo médico.

Um protocolo típico envolve 10-12 sessões ao longo de 6-8 semanas. A acupuntura e especialmente considerada para pacientes que desejam reduzir o uso de medicamentos ou que apresentam sintomas persistentes após cirurgia endoscopica.

Prognóstico

A RSC e uma doença crônica que requer tratamento continuo na maioria dos pacientes. A RSC sem polipos têm melhor prognóstico a longo prazo, com taxas de controle de 70-80% com tratamento clínico adequado. A RSC com polipos tende a ter curso mais recidivante.

A cirurgia endoscopica funcional oferece melhora significativa em 85-90% dos pacientes, mas não e curativa — requer manutenção pós-operatória com corticosteroide nasal e lavagem salina. A taxa de recorrência de polipos após cirurgia e de 40-60% em 5 anos sem tratamento de manutenção.

Os biológicos (dupilumab) representam avanco significativo para a RSCcPN refrataria, com redução sustentada do tamanho dos polipos, melhora do olfato e redução da necessidade de cirurgia revisional.

Mitos e Fatos

Mito vs. Fato

MITO

Sinusite crônica e infecção que precisa de antibioticos

FATO

A RSC e primariamente uma doença inflamatória, não infecciosa. O tratamento base e o corticosteroide nasal, não antibioticos. Antibioticos só são indicados em exacerbações agudas bacterianas.

MITO

A cirurgia cura definitivamente a sinusite crônica

FATO

A FESS amplia as vias de drenagem e remove polipos, mas não elimina a inflamação subjacente. E necessário tratamento de manutenção pós-operatório com corticosteroide nasal e lavagem salina.

MITO

Radiografia dos seios da face diagnostica sinusite crônica

FATO

Radiografia simples têm baixa sensibilidade e especificidade. A tomografia computadorizada e o exame de imagem adequado. A endoscopia nasal fornece informação complementar essencial.

MITO

Sinusite crônica e causada por desvio de septo

FATO

O desvio septal pode contribuir para obstrução do complexo ostiomeatal, mas a maioria das pessoas com desvio de septo não desenvolve RSC. A RSC envolve disfunção imunológica da mucosa.

MITO

Secreção esverdeada sempre indica infecção bacteriana

FATO

A cor da secreção nasal correlaciona-se com a presença de enzimas de neutrofilos (peroxidase), não necessariamente com infecção bacteriana. Secreção colorida ocorre também na inflamação não infecciosa.

Quando Procurar Ajuda

A RSC deve ser avaliada por otorrinolaringologista quando os sintomas persistem por mais de 12 semanas ou não respondem a tratamento empirico com corticosteroide nasal.

PERGUNTAS FREQUENTES · 10

Perguntas Frequentes

A RSC sem polipos frequentemente alcanca remissão com tratamento adequado — corticosteroide nasal topico, lavagem nasal e, quando indicado, cirurgia endoscopica. A RSC com polipos e mais desafiadora e tende a recidivar, mas biológicos como dupilumab revolucionaram o tratamento de casos graves. O objetivo e controle, com períodos longos de remissão.

Pode ser considerada como complemento ao tratamento convencional. A acupuntura médica têm sido estudada como abordagem adjuvante para a obstrução nasal, o gotejamento pós-nasal e a dor facial, com mecanismos propostos — ainda sob investigação — envolvendo possível modulação autonômica local e efeitos anti-inflamatórios. Pode ser útil para pacientes com sintomas residuais após tratamento convencional, sempre como parte de um plano coordenado pelo médico.

A cirurgia endoscopica nasosinusal (CENS) e indicada quando há falha ao tratamento clínico otimizado (corticosteroide nasal por pelo menos 3 meses, cursos de corticosteroide oral em polipose), obstrução anatômica significativa dos complexos ostiomeatais, ou complicações (mucocele, orbita, SNC). A cirurgia melhora a drenagem e ventilação sinusal, potencializando a eficacia dos medicamentos topicos.

Geralmente não, pelo menos não como tratamento de longa duração. A RSC e primariamente uma doença inflamatória. Antibioticos são indicados em exacerbações infecciosas agudas. Em casos selecionados com exacerbações recorrentes, o médico pode indicar macrolideos em baixa dose (efeito anti-inflamatório). O uso indiscriminado de antibioticos aumenta resistência bacteriana.

Sim, e a interve intervenção coadjuvante com maior evidência para RSC. Lavagem com solução salina isotonica ou hipertonica (soro fisiológico a 0,9% ou 2-3%) remove bacterias, alérgenos, crostas e secreções, reduz o edema mucoso e melhora a drenagem sinusal. Recomendada 1-2 vezes por dia com dispositivos como Neti pot ou frascos com pressão.

A sinusite aguda (RSA) dura menos de 4 semanas, geralmente após resfriado, e frequentemente viral (não requer antibiotico). A RSC dura mais de 12 semanas continuas e e uma doença inflamatória crônica diferente mecanisticamente. Um dos erros mais comuns e tratar RSC com ciclos repetidos de antibioticos — o tratamento adequado inclui corticosteroide nasal topico como base.

Polipos pequenos podem reduzir com corticosteroide nasal topico regular e ciclos de corticosteroide oral. Biológicos como dupilumab (anti-IL-4/IL-13) e mepolizumab demonstraram redução significativa de polipos em estudos randomizados, sendo uma alternativa a cirurgia em casos selecionados de RSCcPN grave. Polipos grandes geralmente necessitam de cirurgia endoscopica para controle adequado.

Em muitos casos sim, especialmente quando a perda e devida a obstrução mecânica por polipos ou edema mucoso que cede com tratamento. A recuperação pode ser gradual e lenta (meses). Na RSCcPN, onde há dano ao neuroepitelio olfatorio, a recuperação e menos previsivel. O corticosteroide oral pode melhorar o olfato temporariamente. Treinamento olfatorio (sniffing kit) pode auxiliar na reabilitação.

A RSC causa mais frequentemente pressão ou dor facial do que cefaleia típica. A cefaleia frontal bilateral, piora ao inclinar a cabeça, com rinorreia purulenta e febre, pode ser sinusal. No entanto, a "cefaleia sinusal" e frequentemente sobre-diagnosticada — muitas cefaleias atribuidas a sinusite são na verdade enxaqueca ou cefaleia tensional. O médico deve distinguir as duas condições.

Para RSC, um ciclo inicial de 8-10 sessões (2 vezes por semana) e recomendado, com reavaliação da resposta. A acupuntura para sintomas nasais geralmente mostra efeito gradual ao longo de 4-6 semanas. Sessões de manutenção quinzenais ou mensais ajudam a manter o controle. O médico acupunturista individualizara o plano conforme a gravidade e a resposta clínica.