Efficacy of acupuncture for endometriosis-associated pain: a multicenter randomized single-blind placebo-controlled trial
Li et al. · Fertility and Sterility · 2023
Nível de Evidência
FORTEOBJETIVO
avaliar a eficácia e segurança da acupuntura no tratamento da dor associada à endometriose
QUEM
mulheres 20-40 anos com endometriose e dor pélvica
DURAÇÃO
12 semanas tratamento + 12 semanas seguimento
PONTOS
CV4, SP6, LR3, KI6, ST30 (bilaterais)
🔬 Desenho do Estudo
Acupuntura
n=53
agulhamento em pontos tradicionais, 3x/semana
Sham
n=53
agulhamento superficial em não-pontos no ombro
📊 Resultados em Números
redução dismenorreia na semana 12
duração da dor na semana 12
melhora qualidade de vida (EHP)
eventos adversos
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Escala de dismenorreia (VAS 0-10)
Duração da dor (horas/mês)
Este estudo mostrou que a acupuntura pode ser uma opção eficaz e segura para reduzir a dor menstrual causada pela endometriose. Mulheres que receberam acupuntura real tiveram menos dor e melhor qualidade de vida durante o tratamento, embora os benefícios diminuam após parar as sessões.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Eficácia da Acupuntura na Dor Associada à Endometriose: Ensaio Clínico Multicêntrico Randomizado Simples-Cego Controlado por Placebo
Este ensaio clínico multicêntrico randomizado e controlado por placebo investigou a eficácia da acupuntura tradicional chinesa no tratamento da dor associada à endometriose, uma condição ginecológica que afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva. A endometriose é caracterizada pelo crescimento de tecido endometrial fora da cavidade uterina, causando dor crônica, infertilidade e massas pélvicas, sendo que 70-90% das mulheres com esta condição experimentam dor crônica que afeta significativamente sua qualidade de vida. O estudo foi conduzido em quatro hospitais terciários nas províncias de Jiangxi e Hainan, China, entre março de 2018 e novembro de 2021. Das 566 mulheres avaliadas, 106 foram randomizadas para receber acupuntura verdadeira ou sham (placebo).
Os critérios de inclusão incluíam idade entre 20-40 anos, ciclos menstruais regulares, diagnóstico confirmado de endometriose e histórico de dor máxima ≥4 pontos na escala visual analógica (VAS). O protocolo de tratamento consistiu em sessões de 30 minutos, uma vez ao dia, três vezes por semana durante 12 semanas, iniciando uma semana antes da menstruação esperada. O grupo de acupuntura recebeu agulhamento em pontos específicos incluindo Guanyuan (CV4) e pontos bilaterais Sanyinjiao (SP6), Taichong (LR3), Zhaohai (KI6) e Qichong (ST30), totalizando 9 agulhas inseridas entre 15-35mm de profundidade com estimulação manual para obter De Qi. O grupo controle recebeu agulhamento superficial (<5mm) em não-pontos no ombro e braço sem estimulação.
Os resultados primários mostraram que a acupuntura reduziu significativamente a dismenorreia na semana 12, com o grupo de acupuntura apresentando redução de 3.9 pontos na escala VAS comparado a 1.0 ponto no grupo sham (diferença de -2.9 pontos, p<0.0001). A duração total da dor pélvica também foi significativamente menor no grupo de acupuntura (13.8 vs 19.2 horas, p=0.003). Adicionalmente, o grupo de acupuntura mostrou melhorias significativas em todas as medidas secundárias na semana 12, incluindo função física (MPI), estado emocional (BDI e POMS) e qualidade de vida (EHP). No entanto, os benefícios não persistiram na avaliação de seguimento da semana 24, sugerindo que os efeitos da acupuntura são temporários e requerem tratamento contínuo.
Não foram observadas diferenças significativas na dor pélvica não-menstrual ou dispareunia entre os grupos, possivelmente devido aos baixos escores basais para estes sintomas. O perfil de segurança foi excelente, com apenas três eventos adversos menores (hemorragia subcutânea no local da agulha) que não necessitaram intervenção médica. O estudo possui várias fortalezas metodológicas, incluindo design multicêntrico, randomização adequada, cegamento dos participantes e avaliadores, e análise por intenção de tratar. As limitações incluem a impossibilidade de cegar os acupunturistas, o foco principal em dismenorreia moderada a severa, e possível redução da generalização devido a critérios rigorosos de inclusão.
Pontos Fortes
- 1Estudo multicêntrico com randomização adequada e controle placebo
- 2Protocolo bem definido baseado na teoria da MTC
- 3Seguimento de 24 semanas avaliando sustentação dos efeitos
- 4Múltiplas medidas de desfecho incluindo qualidade de vida
Limitações
- 1Acupunturistas não puderam ser cegados devido à natureza da intervenção
- 2Efeitos não persistem após descontinuação do tratamento
- 3Critérios restritivos podem limitar generalização dos resultados
- 4Escores basais baixos para dor não-menstrual e dispareunia
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
A endometriose acomete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e representa um dos maiores desafios analgésicos da ginecologia contemporânea. O arsenal convencional — AINEs, progestágenos, análogos de GnRH, intervenções cirúrgicas — frequentemente esbarra em intolerância, contraindicações ou recidiva sintomática precoce. Este ensaio, publicado no Fertility and Sterility, oferece ao médico dados robustos para integrar a acupuntura ao plano terapêutico multimodal dessas pacientes. A redução de 3,9 pontos na VAS de dismenorreia no grupo ativo, contra 1,0 ponto no sham, com diferença estatisticamente expressiva e clinicamente significativa, justifica sua indicação formal em mulheres entre 20 e 40 anos com diagnóstico confirmado e dor moderada a intensa. O benefício adicional sobre qualidade de vida — redução de 27,8 pontos no EHP frente a 8,9 no controle — reforça a pertinência clínica para além do controle exclusivo da dor.
▸ Achados Notáveis
Dois achados merecem atenção particular. O primeiro é a redução da duração total da dor pélvica: 13,8 horas no grupo de acupuntura contra 19,2 horas no sham na semana 12. Essa métrica, muitas vezes negligenciada em ensaios de dismenorreia que priorizam intensidade, captura o impacto funcional real sobre a vida da paciente — dias de trabalho perdidos, capacidade de locomoção, demanda por medicação de resgate. O segundo é o comportamento temporal dos efeitos: os ganhos obtidos durante as 12 semanas de tratamento não se sustentaram na avaliação da semana 24, após descontinuação. Esse padrão, longe de ser uma fraqueza clínica, reorienta a estratégia terapêutica para modelos de manutenção periódica, análogos ao que se pratica com outras intervenções não farmacológicas em condições crónicas. O perfil de segurança excelente — apenas 3,9% de eventos adversos menores — referenda o uso em longo prazo sem preocupações relevantes.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática, a endometriose é uma das condições em que mais valorizo a acupuntura como componente estrutural do tratamento, não como recurso de última linha. Costumo observar resposta clinicamente perceptível já após a terceira ou quarta sessão — predominantemente redução da intensidade da dismenorreia e melhora do sono na fase perimenstrual. O protocolo com Guanyuan (CV4), Sanyinjiao (SP6) e Taichong (LR3) que os autores utilizaram é próximo do que empregamos no Centro de Dor, com frequência de três sessões semanais no período pré-menstrual e redução gradual para manutenção mensal após estabilização. O dado sobre perda de benefício pós-descontinuação confirma o que vejo rotineiramente: pacientes que interrompem o tratamento por dois ou três ciclos retornam com recrudescimento da dor. Por isso, estruturo o plano desde o início com fase intensiva de 12 semanas seguida de sessões de manutenção a cada três a quatro semanas, associadas a exercício aeróbico regular e suporte psicológico quando há comorbidade emocional — elemento que o EHP deste estudo também capturou de forma favorável.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Fertility and Sterility · 2023
DOI: https://doi.org/10.1016/j.fertnstert.2023.01.034
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Revisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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