Efficacy of acupuncture for chronic recalcitrant plantar fasciitis: A randomized trial
Wang et al. · Complementary Therapies in Medicine · 2026
Nível de Evidência
FORTEOBJETIVO
Avaliar se a acupuntura reduz a dor em pacientes com fascíte plantar crônica resistente ao tratamento
QUEM
120 pacientes com fascíte plantar há pelo menos 6 meses que não responderam a tratamentos conservadores
DURAÇÃO
4 semanas de tratamento com 16 semanas de acompanhamento
PONTOS
Pontos Ashi locais, Chengshan (BL57), Kunlun (BL60) e Taixi (KI3)
🔬 Desenho do Estudo
Acupuntura alta intensidade
n=60
Agulhas com penetração 15-20mm, manipulação manual a cada 10min
Acupuntura baixa intensidade
n=30
Agulhas cegas em pontos não-acupuntura, sem penetração
Lista de espera
n=30
Sem tratamento durante o período
📊 Resultados em Números
Taxa de resposta (≥50% redução da dor) na semana 4 - grupos combinados vs controle
Diferença na taxa de resposta entre grupos
Valor p para diferença primária
Taxa de conclusão do estudo
Taxa de resposta acupuntura alta intensidade na semana 16
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Taxa de resposta (≥50% redução da dor) na semana 4
Taxa de resposta na semana 16
Este estudo mostrou que a acupuntura pode ser uma opção eficaz para pessoas com dor persistente no calcanhar (fascíte plantar) que não melhoraram com outros tratamentos. A acupuntura mais intensa teve melhores resultados, com mais da metade dos pacientes apresentando redução significativa da dor que se manteve por meses após o tratamento.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Eficácia da Acupuntura na Fasciíte Plantar Crônica Refratária: Ensaio Clínico Randomizado
A fasceíte plantar é uma das principais causas de dor no calcanhar, afetando milhões de pessoas anualmente. Esta condição se caracteriza por dor e sensibilidade na região plantar do pé, especialmente durante atividades que envolvem apoio do peso corporal. Embora muitas vezes seja considerada uma condição autolimitada, estudos mostram que até 80% dos pacientes ainda sentem dor após um ano de tratamento, e 44% relatam desconforto mesmo após 15 anos. Quando a dor no calcanhar persiste por mais de seis meses apesar do tratamento conservador, a condição é classificada como fasceíte plantar crônica recalcitrante, que pode exigir intervenções mais invasivas.
Esta forma crônica da doença limita significativamente as atividades diárias dos pacientes e está associada a quedas, redução da qualidade de vida e incapacidade funcional.
Este estudo teve como objetivo principal avaliar se a acupuntura seria eficaz na redução da dor em pacientes com fasceíte plantar crônica recalcitrante. Os pesquisadores conduziram um ensaio clínico randomizado controlado em dois hospitais chineses, comparando diferentes intensidades de acupuntura com um grupo controle em lista de espera. Um total de 120 participantes foram randomizados em três grupos: acupuntura de alta intensidade (60 pacientes), acupuntura de baixa intensidade (30 pacientes) e controle em lista de espera (30 pacientes). O critério principal de avaliação foi a proporção de pacientes que obtiveram pelo menos 50% de redução na intensidade da dor matinal após quatro semanas de tratamento.
Os participantes tinham idade entre 18 e 75 anos, com fasceíte plantar há pelo menos seis meses, e já haviam tentado tratamentos conservadores como anti-inflamatórios, exercícios de alongamento ou terapia por ondas de choque sem sucesso. O tratamento consistiu em três sessões semanais durante quatro semanas, com acompanhamento até 16 semanas.
Os resultados demonstraram que a acupuntura foi significativamente mais eficaz que o controle em lista de espera. Após quatro semanas, 56,7% dos pacientes que receberam acupuntura (grupos combinados) apresentaram melhora clinicamente significativa da dor, comparado a apenas 33,3% do grupo controle, uma diferença de 23,3%. Mais impressionante ainda foi o efeito gradual relacionado à intensidade do tratamento: a acupuntura de alta intensidade mostrou resultados superiores em todas as avaliações. Na 16ª semana, 76,7% dos pacientes do grupo de alta intensidade eram considerados respondedores ao tratamento, comparado a 56,7% no grupo de baixa intensidade e 36,7% no grupo controle.
A diferença entre alta intensidade e controle foi de 40% na semana 16, enquanto a diferença entre baixa intensidade e controle foi de apenas 20% e não alcançou significância estatística. Os benefícios se mantiveram estáveis durante todo o período de acompanhamento de 16 semanas, sugerindo efeitos duradouros do tratamento.
Para os pacientes que sofrem com fasceíte plantar crônica, estes achados oferecem uma alternativa terapêutica promissora, especialmente quando os tratamentos convencionais falharam. A acupuntura de alta intensidade demonstrou ser particularmente eficaz, proporcionando alívio significativo e duradouro da dor. Para os profissionais de saúde, o estudo fornece evidências robustas de que a intensidade do tratamento acupuntural é um fator crucial para o sucesso terapêutico. A acupuntura mostrou-se segura, com apenas eventos adversos leves como pequenos hematomas subcutâneos ou dor aguda transitória.
Além da redução da dor, os pacientes também apresentaram melhora nas atividades da vida diária e menor necessidade de medicação analgésica de resgate. Estes resultados sugerem que a acupuntura, especialmente em alta intensidade, deveria ser considerada como uma opção de tratamento válida para pacientes com fasceíte plantar crônica que não respondem aos cuidados convencionais.
O estudo apresenta algumas limitações importantes que devem ser consideradas. Primeiro, o período de acompanhamento de 12 semanas pode ser insuficiente para avaliar a sustentabilidade a longo prazo dos efeitos da acupuntura em uma condição crônica e potencialmente recorrente. Segundo, foi utilizado um protocolo fixo de acupuntura, que difere da prática clínica usual onde o tratamento é frequentemente individualizado. Terceiro, a inclusão de participantes apenas de dois hospitais chineses pode limitar a generalização dos resultados para outras populações.
Além disso, o estudo foi dimensionado para comparar os grupos de acupuntura combinados versus controle, não para comparações diretas entre alta e baixa intensidade, limitando conclusões definitivas sobre a superioridade relativa entre as duas abordagens. Apesar dessas limitações, os resultados fornecem evidências convincentes de que a acupuntura, particularmente em alta intensidade, representa uma opção terapêutica valiosa para pacientes com fasceíte plantar crônica recalcitrante, oferecendo alívio significativo da dor com efeitos mantidos por pelo menos quatro meses após o início do tratamento.
Pontos Fortes
- 1Design robusto com grupo controle adequado
- 2Acompanhamento prolongado de 16 semanas
- 3Análise da intensidade do tratamento
- 4Alta taxa de adesão (90.8%)
- 5Critérios claros para fascíte plantar resistente
Limitações
- 1Acupunturistas não puderam ser cegados
- 2Estudo limitado a dois hospitais chineses
- 3Protocolo fixo vs tratamento individualizado na prática
- 4Amostra não dimensionada para comparação entre intensidades
- 5Acompanhamento limitado a 16 semanas
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65523 / 65524 / 655241
▸ Relevância Clínica
A fasciíte plantar crônica refratária representa um desafio real no ambulatório de fisiatria — paciente que chegou com seis meses ou mais de sintomas, já usou anti-inflamatório, fez alongamento, às vezes já realizou ondas de choque, e continua claudicando ao sair da cama. Para esse perfil específico, a acupuntura de alta intensidade entregou 76,7% de taxa de resposta na semana 16, contra 36,7% do controle sem tratamento — uma diferença que tem peso clínico inegável. Na prática de reabilitação, isso posiciona a acupuntura como opção estruturada antes de escalar para procedimentos mais invasivos, como infiltração com corticoide ou cirurgia de liberação fascial. O protocolo de três sessões semanais em quatro semanas é viável em serviços de reabilitação ambulatorial e oferece um ponto de decisão claro: avaliar resposta ao final do mês e planejar continuidade. A durabilidade dos efeitos até a 16ª semana reforça o argumento de custo-efetividade perante gestores e planos de saúde.
▸ Achados Notáveis
O gradiente dose-resposta é o achado mais relevante do estudo e merece atenção: a acupuntura de baixa intensidade — agulhas cegas em pontos fora dos meridianos, sem penetração real — produziu 56,7% de resposta na semana 16, enquanto a alta intensidade atingiu 76,7%. Essa diferença de 20 pontos percentuais sugere que a resposta não é inteiramente atribuível a efeito placebo contextual, mas também a variáveis de técnica — profundidade de inserção de 15 a 20 mm e manipulação manual a cada dez minutos, gerando estímulo mecânico à fáscia e estruturas periarticulares. O fato de que os benefícios se mantiveram estáveis das semanas 4 a 16, sem queda de eficácia, indica que o efeito neurofisiológico gerado — provavelmente via modulação de nociceptores periféricos e vias inibitórias descendentes — tem sustentação além do período ativo de tratamento. A alta taxa de conclusão de 90,8% em uma população refratária também sinaliza tolerabilidade clínica relevante.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor musculoesquelética, fasciíte plantar crônica refratária costuma chegar já com histórico de uma ou duas infiltrações e fisioterapia prévia. Tenho observado que esses pacientes respondem bem ao agulhamento seco dos pontos-gatilho do flexor curto dos dedos e da musculatura intrínseca plantar, combinado com pontos distais como Zusanli e Kunlun — protocolo que converge bastante com a abordagem de alta intensidade descrita neste ensaio. Costumo ver redução perceptível da dor matinal entre a terceira e quinta sessão, e meu padrão habitual é de oito a dez sessões no total, com reavaliação funcional ao final. A combinação com programa domiciliar de alongamento excêntrico da cadeia posterior e orientação de palmilha viscoelástica potencializa e sustenta o resultado. O perfil que responde melhor, na minha experiência, é o paciente com fenótipo de sensibilização local predominante — dor bem circunscrita ao tubérculo do calcâneo — sem componente central exacerbado.
Artigo Original Completo
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Complementary Therapies in Medicine · 2026
DOI: 10.1016/j.ctim.2026.103329
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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