Patient-reported outcomes and acupuncture-related adverse events are overlooked in acupuncture randomised controlled trials: a cross-sectional meta-epidemiological study
Duan et al. · BMJ Evidence-Based Medicine · 2026
Nível de Evidência
FORTEOBJETIVO
Investigar como são relatados os desfechos reportados por pacientes (PROs) e eventos adversos relacionados à acupuntura em ensaios clínicos randomizados
QUEM
476 ensaios clínicos randomizados de acupuntura publicados entre 2014-2024
DURAÇÃO
Análise retrospectiva de 10 anos de publicações (2014-2024)
PONTOS
Estudos baseados na Medicina Tradicional com agulhamento penetrante na pele
🔬 Desenho do Estudo
Estudos com PROs
n=296
Ensaios que usaram desfechos reportados por pacientes
Estudos com eventos adversos
n=272
Ensaios que relataram segurança
📊 Resultados em Números
Taxa de relato adequado de PROs
Estudos que omitiram desfechos de segurança
Total de eventos adversos identificados
OR para eventos adversos (acupuntura vs controle)
Eventos adversos graves relatados
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Qualidade do relato de PROs (%)
Relato de eventos adversos (%)
Este estudo mostrou que muitas pesquisas sobre acupuntura não relatam adequadamente os resultados importantes para pacientes nem os possíveis efeitos colaterais. Embora eventos graves sejam raros, efeitos menores como dor e sangramento no local da agulha podem ocorrer, mas nem sempre são devidamente documentados nos estudos.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Desfechos Relatados pelo Paciente e Eventos Adversos Relacionados à Acupuntura são Negligenciados em Ensaios Clínicos Randomizados: Estudo Meta-epidemiológico Transversal
Este estudo meta-epidemiológico transversal analisou 476 ensaios clínicos randomizados (ECRs) de acupuntura publicados entre 2014 e 2024, investigando a qualidade do relato de desfechos reportados por pacientes (PROs) e eventos adversos relacionados à acupuntura. A pesquisa foi motivada pela necessidade de compreender se os estudos de acupuntura fornecem informações suficientes para que pacientes possam tomar decisões informadas sobre os benefícios e riscos do tratamento.
A metodologia envolveu busca abrangente em sete bases de dados (MEDLINE, EMBASE, CENTRAL, CBM, CNKI, Wanfang Data e VIP Database), incluindo estudos que utilizaram acupuntura baseada na Medicina Tradicional como intervenção. Os pesquisadores avaliaram o relato de PROs usando a extensão CONSORT PRO e desenvolveram critérios específicos para identificar eventos adversos relacionados à acupuntura.
Os resultados revelaram deficiências significativas no relato de ambos os desfechos. Dos 476 estudos incluídos, 296 (62.2%) utilizaram PROs como desfechos primários ou secundários, uma taxa maior que outras áreas da saúde. A Escala Visual Analógica (149 estudos, 23.7%) e o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (42 estudos, 6.7%) foram os PROs mais utilizados. No entanto, a qualidade do relato foi insuficiente, com pontuações de relato adequado variando entre 2.7% a 97.6% nos diferentes itens da extensão CONSORT PRO.
A pontuação média de relato suficiente foi de apenas 38.7%.
Quanto aos eventos adversos, 272 estudos (57.1%) relataram desfechos de segurança, mas 204 (42.9%) omitiram completamente essas informações. Entre os que omitiram, 41 estudos ainda afirmaram que a acupuntura era segura. Foram identificados 1.277 eventos adversos relacionados à acupuntura, sendo lesão tecidual (hematoma, sangramento) o tipo mais frequente, seguido por irritação tecidual (dor, desconforto pós-acupuntura) e reações sistêmicas. Importante ressaltar que nenhum evento adverso grave foi relatado.
A análise revelou que a acupuntura apresentou odds ratio de 1.434 para eventos adversos comparada ao grupo controle, com maior risco comparado à acupuntura simulada (OR=1.708) e outros controles (OR=4.105), mas sem diferença significativa comparada a medicamentos ou outros tratamentos ativos. O relato de eventos adversos foi incompleto: 84.5% dos estudos não especificaram quem relatou os eventos, 94.5% não mencionaram o tempo de ocorrência, e 81.9% não descreveram o tratamento dos eventos.
O estudo identificou fatores associados ao melhor relato de eventos adversos, incluindo presença de financiamento, informações de registro, qualificações do acupunturista e desfechos primários não significativos. Estudos em inglês tiveram melhor qualidade de relato que estudos em chinês, e estudos registrados superaram os não registrados.
As implicações clínicas são importantes. A inadequação no relato de PROs limita a orientação para a prática clínica, pois pesquisadores podem usar esses desfechos para aparentar maior abrangência em vez de considerar suas implicações práticas. A sub-notificação de eventos adversos pode estar relacionada à dificuldade de relatar danos comparada aos benefícios, omissão não intencional por não serem prospectivamente definidos, consideração de eventos menores como triviais, ou confusão com sintomas da condição tratada.
O estudo possui limitações, incluindo possível viés subjetivo na identificação de eventos adversos, restrição a publicações em chinês e inglês, e inclusão apenas de estudos com dois grupos paralelos. As forças incluem ausência de limitações por tipo de doença ou revista, exploração abrangente de PROs e primeira síntese compreensiva de eventos adversos em ECRs de acupuntura.
Pontos Fortes
- 1Primeira análise abrangente de PROs e eventos adversos em ECRs de acupuntura
- 2Grande amostra de 476 estudos sem restrições de doença ou revista
- 3Uso de diretrizes padronizadas (CONSORT PRO Extension) para avaliação
- 4Identificação específica de eventos adversos baseada em conhecimento prévio
- 5Análise de fatores confundidores que afetam o relato de eventos adversos
Limitações
- 1Possível viés subjetivo na identificação de eventos adversos
- 2Restrição a estudos publicados em inglês e chinês apenas
- 3Inclusão limitada a estudos com dois grupos paralelos
- 4Dificuldade em distinguir eventos adversos de sintomas da condição tratada
- 5Dados baseados apenas em informações publicadas, não em dados originais
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65223, 65224
▸ Relevância Clínica
Para quem prescreve acupuntura em contexto de serviço de dor e reabilitação, este trabalho resolve uma dúvida prática recorrente: o quanto a literatura de ECRs é utilizável para orientar a conversa de risco-benefício com o paciente. A resposta, baseada em 476 ensaios de uma década, é que ainda não de forma satisfatória. Com apenas 38,7% de adequação no relato de desfechos reportados pelo paciente e 42,9% dos estudos omitindo eventos adversos inteiramente, o médico que tenta fundamentar o consentimento informado em evidência publicada encontra lacunas estruturais, não apenas pontuais. O dado clinicamente relevante é que, entre os 1.277 eventos adversos identificados, nenhum foi grave, e o perfil de efeitos consiste predominantemente em hematoma, sangramento local e desconforto pós-agulhamento — achado que fortalece a conversa de segurança com pacientes hesitantes, desde que comunicado com precisão.
▸ Achados Notáveis
O odds ratio de 1,434 para eventos adversos da acupuntura versus controle é o número mais informativo do estudo. Ele sobe para 1,708 quando a comparação é feita contra acupuntura simulada — o que faz sentido fisiopatológico, já que a penetração real da agulha produz microtrauma tecidual mensurável — e atinge 4,105 quando o controle é outro não-ativo. Contra medicamentos ou tratamentos ativos, a diferença não alcança significância estatística, o que posiciona a acupuntura dentro de um espectro de segurança comparável a intervenções convencionais de uso rotineiro. Outro achado que merece atenção é o fato de 41 estudos afirmarem que a acupuntura é segura sem relatar qualquer dado de eventos adversos — o que não é uma afirmação de segurança, mas ausência de dado. A qualidade do relato de PROs variou entre 2,7% e 97,6% nos diferentes itens do CONSORT PRO, indicando que a heterogeneidade é extrema e impede síntese confiável.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor musculoesquelética, os eventos que este estudo categoriza como 'lesão tecidual' — hematomas e sangramentos locais — são exatamente o que mais relatamos nos prontuários e o que mais preocupa o paciente na primeira sessão. Tenho observado que, quando o médico antecipa essas possibilidades na consulta inicial, a taxa de abandono precoce cai visivelmente. Para o perfil de paciente que responde melhor — dor crônica localizada, baixa tolerância a medicamentos sistêmicos, motivação para tratamento multimodal — costumo ver resposta clínica mensurável entre a terceira e a quinta sessão, e estruturo protocolos de oito a doze sessões antes de reavaliar a indicação. O que este estudo reforça para mim é a necessidade de documentar prospectivamente eventos adversos em todos os casos, algo que institucionalizamos no nosso serviço há alguns anos precisamente porque a literatura publicada não oferecia esse referencial com clareza suficiente.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
BMJ Evidence-Based Medicine · 2026
DOI: 10.1136/bmjebm-2024-113497
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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