Acupuncture during gynecological oncology surgery: A randomized controlled trial assessing the impact of integrative therapies on perioperative pain and anxiety
Ben-Arye et al. · Cancer · 2023
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Avaliar o impacto de técnicas integrativas (toque/relaxamento e acupuntura) na dor e ansiedade em pacientes submetidas a cirurgia oncológica ginecológica
QUEM
99 mulheres com câncer ovariano, endometrial ou cervical agendadas para cirurgia
DURAÇÃO
Acompanhamento de 24 horas pós-cirurgia
PONTOS
Fígado-3 (Taichong), Intestino Grosso-4 (Hegu), Estômago-36 (Zusanli), Pericárdio-6 (Neiguan), Baço-6 (Sanyinjiao), Yintang e auriculoterapia
🔬 Desenho do Estudo
Grupo A
n=45
Técnicas de toque/relaxamento pré-operatórias + acupuntura intraoperatória
Grupo B
n=25
Apenas técnicas de toque/relaxamento pré-operatórias
Grupo C
n=29
Cuidados padrão (controle)
📊 Resultados em Números
Redução da dor severa no Grupo A vs controle
Redução da ansiedade nos grupos de intervenção vs controle
Melhora dos escores QOR Parte B nos grupos de intervenção
Maior melhora nas preocupações MYCAW no Grupo A vs B
📊 Comparação de Resultados
Escores de Dor Severa Pós-Operatória (QOR)
Redução da Ansiedade (QOR)
Este estudo demonstrou que técnicas de relaxamento e toque antes da cirurgia ajudam a reduzir significativamente a ansiedade em mulheres com câncer ginecológico. Quando combinadas com acupuntura durante a cirurgia, essas técnicas também reduzem a dor intensa no pós-operatório, oferecendo uma abordagem segura e eficaz para melhorar o bem-estar durante o tratamento oncológico.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Acupuntura durante Cirurgia Ginecológica Oncológica: Ensaio Clínico Randomizado Controlado Avaliando o Impacto das Terapias Integrativas na Dor e Ansiedade Perioperatórias
A ansiedade e a dor são preocupações constantes para mulheres que enfrentam cirurgias oncológicas ginecológicas. Estas pacientes vivenciam uma transformação profunda em sua autopercepção, passando de uma visão de saúde para a condição de portadora de câncer que necessita de tratamento cirúrgico. Além dos desafios emocionais como ansiedade, depressão e alterações na imagem corporal, frequentemente surgem sintomas físicos como fadiga, perda de apetite, problemas gastrointestinais e insônia. No período pós-operatório, observa-se diminuição do bem-estar funcional, angústia emocional e comprometimento das atividades diárias.
A ansiedade e depressão pré-operatórias podem inclusive predizer níveis mais intensos de dor durante a recuperação, tornando essencial a busca por intervenções que possam melhorar a qualidade de vida dessas pacientes durante todo o processo cirúrgico.
Este estudo pioneiro teve como objetivo avaliar o impacto de uma intervenção integrativa multimodal na dor e ansiedade de mulheres submetidas a cirurgias oncológicas ginecológicas. A pesquisa foi conduzida de forma randomizada e controlada em Israel, envolvendo 99 pacientes com diagnóstico de câncer ovariano, endometrial ou cervical. As participantes foram divididas em três grupos através de um processo de randomização duplo. O Grupo A recebeu técnicas pré-operatórias de toque e relaxamento, seguidas de acupuntura durante a cirurgia.
O Grupo B recebeu apenas as técnicas de toque e relaxamento antes da operação. O Grupo C, controle, recebeu somente os cuidados médicos convencionais. Os tratamentos integrativos foram aplicados por profissionais experientes, treinados em medicina tradicional chinesa e terapias mente-corpo. A avaliação dos resultados foi realizada através de questionários validados que mensuraram dor, ansiedade e qualidade de vida antes e após as cirurgias.
Os resultados demonstraram benefícios significativos para as pacientes que receberam as intervenções integrativas. As participantes dos grupos de intervenção, quando comparadas ao grupo controle, apresentaram escores superiores de qualidade de vida no período pós-operatório, incluindo melhor controle da dor intensa e menor ansiedade. O Grupo A, que recebeu acupuntura durante a cirurgia além das técnicas pré-operatórias, mostrou redução especialmente significativa da dor intensa em comparação ao grupo controle. Interessantemente, ambos os grupos de intervenção apresentaram melhora nos níveis de depressão, efeito que não foi observado no grupo controle.
O Grupo A também demonstrou maior alívio das preocupações relacionadas ao bem-estar geral quando comparado ao Grupo B. Todos os grupos apresentaram melhora natural nos níveis de ansiedade após a cirurgia, mas essa melhora foi mais pronunciada nos grupos que receberam as intervenções integrativas.
As implicações clínicas destes achados são promissoras para pacientes e profissionais de saúde. Para as pacientes, os resultados sugerem que técnicas simples e seguras de toque e relaxamento aplicadas antes da cirurgia podem reduzir significativamente a ansiedade peri-operatória. A adição da acupuntura durante a operação oferece o benefício adicional de redução da dor intensa no pós-operatório. Estes tratamentos podem ser integrados aos protocolos cirúrgicos convencionais sem interferir na segurança ou eficácia dos procedimentos.
Para os profissionais, o estudo oferece evidências de que abordagens integrativas podem complementar o cuidado médico tradicional, potencialmente reduzindo a necessidade de medicações para dor e ansiedade. A melhora observada nos sintomas depressivos também sugere benefícios psicológicos mais amplos que podem impactar positivamente a recuperação geral das pacientes.
Apesar dos resultados encorajadores, o estudo apresenta algumas limitações importantes que devem ser consideradas. A população estudada foi mista em termos de tipos de cirurgia e extensão dos procedimentos, o que pode ter influenciado os resultados. A falta de um grupo controle que recebesse uma intervenção placebo representa uma limitação metodológica, já que os benefícios observados podem estar parcialmente relacionados à atenção adicional recebida pelos grupos de intervenção. O tamanho da amostra foi relativamente pequeno, particularmente no Grupo B, e a avaliação baseou-se principalmente em questionários auto-relatados pelas pacientes, sem medidas objetivas como dosagem de medicamentos analgésicos utilizados.
Futuras pesquisas devem incluir grupos maiores de participantes, controles placebo adequados, medidas objetivas de dor e ansiedade, e avaliar o impacto sobre o uso de medicamentos no período pós-operatório. Apesar dessas limitações, este estudo representa um primeiro passo importante na compreensão de como terapias integrativas podem beneficiar mulheres submetidas a cirurgias oncológicas ginecológicas, oferecendo esperança de cuidados mais humanizados e abrangentes durante um momento particularmente vulnerável de suas vidas.
Pontos Fortes
- 1Primeiro estudo a avaliar intervenções integrativas no perioperatório oncológico ginecológico
- 2Design randomizado controlado com randomização dupla
- 3Uso de questionários validados (QOR-15, MYCAW)
- 4Abordagem multimodal combinando diferentes técnicas integrativas
- 5Equipe multidisciplinar experiente em oncologia integrativa
Limitações
- 1População cirúrgica mista com diferentes tipos de câncer
- 2Falta de cegamento nas intervenções pré-operatórias
- 3Tamanhos desiguais dos grupos devido à randomização 2:1
- 4Ausência de controle placebo ativo
- 5Avaliação baseada apenas em autorrelato dos pacientes
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
O perioperatório oncológico ginecológico representa um dos cenários clínicos mais desafiadores para o controle de dor e ansiedade: a paciente chega ao centro cirúrgico carregando o diagnóstico recente de câncer, o impacto emocional da transformação de identidade e a antecipação de um pós-operatório que será o ponto de partida de uma terapêutica oncológica mais ampla. Este ensaio, conduzido em Israel com 99 pacientes portadoras de câncer ovariano, endometrial ou cervical, demonstra que a associação de técnicas de toque e relaxamento pré-operatórias com acupuntura intraoperatória reduz significativamente a dor intensa no pós-operatório (p=0,011) e melhora os escores de qualidade de recuperação (p=0,005). Para equipes que já praticam protocolos de reabilitação acelerada — os chamados ERAS — esses achados abrem espaço concreto para incorporar acupuntura como componente perioperatório, sem prejuízo à segurança cirúrgica, beneficiando especialmente pacientes com alta carga de ansiedade pré-operatória documentada.
▸ Achados Notáveis
O desenho em três braços permite uma distinção clinicamente relevante: enquanto as técnicas de relaxamento isoladas (Grupo B) reduziram ansiedade de forma significativa (p=0,007), foi a adição da acupuntura intraoperatória (Grupo A) que produziu a redução da dor intensa e maior alívio das preocupações registradas pela escala MYCAW (p=0,025). Esse gradiente de resposta sugere que cada modalidade contribui com um mecanismo distinto — o componente mente-corpo atuando principalmente sobre o eixo ansiedade-depressão, e a acupuntura modulando a sinalização nociceptiva no intraoperatório. Também merece atenção a melhora nos sintomas depressivos observada em ambos os grupos de intervenção, mas ausente no controle: em pacientes oncológicas, depressão perioperatória é preditor independente de pior controle álgico e de desfechos funcionais a longo prazo, tornando esse achado potencialmente mais relevante do que os números de dor aguda isoladamente.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no Grupo de Acupuntura do Centro de Dor do HC-FMUSP, temos acumulado experiência consistente com acupuntura perioperatória em diferentes especialidades cirúrgicas, e o perfil de resposta descrito neste artigo é compatível com o que observamos rotineiramente. Pacientes com alta ansiedade pré-operatória — e as oncológicas ginecológicas estão entre as mais ansiosas que recebemos — costumam apresentar melhora perceptível já nas primeiras horas pós-operatórias quando a acupuntura é aplicada no intraoperatório, algo que atribuímos à modulação do sistema nervoso autônomo e à liberação de opioides endógenos mediada pela estimulação de pontos como ST36, PC6 e SP6. Neste contexto, costumo combinar a acupuntura perioperatória com orientações de medicina integrativa para o ciclo pós-operatório: em geral, 4 a 6 sessões ambulatoriais nos primeiros 30 dias, privilegiando pontos de tonificação e equilíbrio emocional. O perfil que responde melhor, na minha experiência, é exatamente o da paciente ansiosa e com preocupações existenciais intensas — aquela que chega ao consultório com múltiplas queixas somáticas e dificuldade de separar dor física de sofrimento emocional.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Cancer · 2023
DOI: 10.1002/cncr.34542
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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