Systematic review of acupuncture to improve ovarian function in women with poor ovarian response
Wang et al. · Frontiers in Endocrinology · 2023
OBJETIVO
Avaliar a eficácia da acupuntura no tratamento de mulheres com baixa resposta ovariana durante fertilização in vitro
QUEM
516 mulheres com baixa resposta ovariana em tratamento de FIV
DURAÇÃO
Estudos de 2009 a 2022
PONTOS
CV4, ST36, SP6, LR3, KI3, BL23 (variação entre estudos)
🔬 Desenho do Estudo
Acupuntura + EOC
n=256
Acupuntura combinada com estimulação ovariana controlada
Controle EOC
n=260
Apenas estimulação ovariana controlada
📊 Resultados em Números
Taxa de implantação melhorada
Aumento óvulos recuperados
Redução FSH
Aumento espessura endométrio
Melhora estradiol
📊 Comparação de Resultados
Taxa de implantação
Número de óvulos recuperados
Este estudo analisou se a acupuntura pode ajudar mulheres que respondem mal ao tratamento de fertilização in vitro. Os resultados sugerem que a acupuntura pode melhorar alguns aspectos do tratamento, como aumentar o número de óvulos coletados e melhorar hormônios, mas não mostrou melhora clara nas taxas de gravidez.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Revisão Sistemática da Acupuntura para Melhorar a Função Ovariana em Mulheres com Baixa Resposta Ovariana
A resposta ovariana pobre é uma condição que afeta uma parcela significativa das mulheres que buscam tratamentos de fertilização in vitro, representando um dos principais desafios na medicina reprodutiva moderna. Essa condição se caracteriza por uma resposta inadequada dos ovários à estimulação hormonal durante os procedimentos de reprodução assistida, resultando em menor número de óvulos coletados, menores taxas de gravidez e maior necessidade de cancelamento dos ciclos de tratamento. Com o aumento da idade materna na sociedade contemporânea, a prevalência dessa condição tem crescido, atingindo entre 9% e 24% das mulheres submetidas à estimulação ovariana controlada. Para essas pacientes, as taxas de gravidez clínica são significativamente reduzidas, variando entre apenas 2% e 18%, em comparação com as taxas de 33% a 40% observadas em mulheres com resposta ovariana normal.
Diante desses desafios, pesquisadores têm buscado terapias complementares que possam melhorar os resultados dos tratamentos convencionais, e a acupuntura surge como uma alternativa promissora devido às suas propriedades reguladoras do sistema hormonal reprodutivo.
Este estudo consistiu em uma revisão sistemática com metanálise que teve como objetivo avaliar cientificamente a eficácia da acupuntura no tratamento de mulheres com resposta ovariana pobre submetidas à fertilização in vitro. Os pesquisadores realizaram uma busca abrangente em múltiplas bases de dados científicas, incluindo tanto literatura chinesa quanto internacional, cobrindo publicações desde o início das bases de dados até janeiro de 2023. Foram incluídos apenas estudos clínicos randomizados controlados que compararam o uso da acupuntura combinada com a terapia hormonal convencional versus apenas a terapia hormonal isolada. No total, sete estudos foram selecionados para análise, envolvendo 516 mulheres diagnosticadas com resposta ovariana pobre.
Os estudos analisados utilizaram diferentes técnicas de acupuntura, incluindo acupuntura manual tradicional, eletroacupuntura e estimulação elétrica transcutânea de pontos de acupuntura. A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada usando ferramentas padronizadas internacionalmente, e os resultados foram analisados estatisticamente para identificar padrões consistentes de benefícios.
Os resultados da análise revelaram descobertas importantes sobre os efeitos da acupuntura em diversos aspectos da função ovariana e reprodutiva. Embora a acupuntura não tenha demonstrado melhora significativa nas taxas de gravidez clínica quando comparada ao tratamento convencional isolado, foram identificados benefícios substanciais em outros parâmetros fundamentais para o sucesso do tratamento de fertilização in vitro. A acupuntura mostrou-se eficaz em aumentar significativamente o número de óvulos coletados durante os procedimentos, um fator crucial para o sucesso do tratamento, já que mais óvulos disponíveis aumentam as chances de fertilização bem-sucedida. Adicionalmente, o tratamento com acupuntura resultou em melhora da taxa de implantação dos embriões e aumento da espessura do endométrio, preparando melhor o ambiente uterino para a implantação.
Quanto aos marcadores hormonais, a acupuntura demonstrou capacidade de reduzir os níveis do hormônio folículo-estimulante, um indicador importante da função ovariana, e aumentar os níveis de estradiol, hormônio essencial para o desenvolvimento folicular. O estudo também evidenciou melhora na contagem de folículos antrais, um marcador direto da reserva ovariana das pacientes.
Do ponto de vista clínico, esses resultados sugerem que a acupuntura pode ser uma terapia complementar valiosa para mulheres com resposta ovariana pobre, especialmente quando integrada aos protocolos convencionais de estimulação ovariana. Para as pacientes, isso significa uma possível melhora na qualidade dos ciclos de fertilização in vitro, mesmo que as taxas de gravidez imediatas não sejam drasticamente alteradas. A melhora nos parâmetros ovarianos e hormonais pode contribuir para ciclos de tratamento mais eficientes, potencialmente reduzindo a necessidade de múltiplas tentativas e diminuindo o estresse físico e emocional associado aos tratamentos de fertilidade. Para os profissionais de saúde, os achados indicam que a acupuntura pode ser recomendada como uma intervenção segura e benéfica, especialmente considerando que não foram relatados efeitos adversos significativos nos estudos analisados.
A acupuntura pode ser particularmente útil para pacientes que apresentam marcadores de reserva ovariana diminuída ou que tenham histórico de resposta inadequada aos tratamentos convencionais de estimulação ovariana.
É importante reconhecer as limitações deste estudo para uma interpretação adequada dos resultados. A qualidade metodológica dos estudos incluídos foi classificada como baixa ou muito baixa, principalmente devido à impossibilidade de aplicar técnicas de mascaramento adequadas inerentes à natureza dos tratamentos com acupuntura. Além disso, houve considerável variabilidade entre os estudos em relação às técnicas de acupuntura utilizadas, pontos de aplicação, duração e frequência dos tratamentos, o que pode ter influenciado a consistência dos resultados. O número limitado de estudos disponíveis e os tamanhos amostrais relativamente pequenos também restringem a generalização dos achados.
Outro aspecto a ser considerado é a heterogeneidade nos critérios diagnósticos utilizados para definir resposta ovariana pobre, já que diferentes estudos aplicaram critérios distintos, o que pode ter contribuído para a variabilidade dos resultados. Apesar dessas limitações, a pesquisa fornece evidências encorajadoras sobre o potencial da acupuntura como terapia complementar, indicando a necessidade de estudos futuros com maior rigor metodológico, amostras maiores e protocolos de acupuntura mais padronizados para confirmar e expandir esses achados promissores na medicina reprodutiva.
Pontos Fortes
- 1Primeira revisão abrangente sobre acupuntura em baixa resposta ovariana
- 2Incluiu estudos em chinês e inglês ampliando a base de evidências
- 3Análise de múltiplos desfechos hormonais e reprodutivos
- 4Seguiu protocolos rigorosos PRISMA e GRADE
Limitações
- 1Qualidade geral dos estudos foi baixa ou muito baixa
- 2Alta heterogeneidade entre os estudos incluídos
- 3Critérios diagnósticos variados para baixa resposta ovariana
- 4Poucos estudos avaliaram desfecho principal de gravidez
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
A baixa resposta ovariana representa um dos cenários mais frustrantes na medicina reprodutiva, e qualquer intervenção que melhore marginalmente os parâmetros do ciclo tem impacto real sobre pacientes com reserva diminuída. Esta revisão sistemática documenta que a acupuntura combinada à estimulação ovariana controlada aumenta o número de óvulos recuperados em aproximadamente um óvulo por ciclo, reduz o FSH basal em 1,52 UI/L, eleva o estradiol em 1667,80 pmol/L e aumenta a espessura endometrial em 0,54 mm — desfechos intermediários com plausibilidade biológica para melhorar a qualidade geral do ciclo. A melhora na taxa de implantação com RR de 2,13 é clinicamente relevante em uma população cujas taxas de gravidez historicamente ficam entre 2% e 18%. Para médicos que atendem essas pacientes, os dados autorizam a incorporação da acupuntura como adjuvante ao protocolo de estimulação, especialmente naquelas com histórico de cancelamento de ciclo por resposta inadequada.
▸ Achados Notáveis
O achado que mais chama atenção nesta revisão não é o número de óvulos recuperados isoladamente, mas a confluência de múltiplos desfechos hormonais e morfológicos apontando na mesma direção: redução do FSH, elevação do estradiol, aumento da contagem de folículos antrais e espessamento endometrial simultâneos. Esse padrão sugere um efeito modulador sobre o eixo hipotálamo-hipófise-ovariano, coerente com os mecanismos neuroendócrinos já propostos para a acupuntura, incluindo a participação de beta-endorfinas e neuropeptídeos na regulação do GnRH. A melhora na taxa de implantação — RR de 2,13 — desponta como o desfecho mais clinicamente robusto do conjunto, pois integra qualidade embrionária e receptividade endometrial. A inclusão de literatura chinesa ampliou a base de sete ensaios clínicos randomizados com 516 participantes, tornando esta a revisão mais abrangente publicada até janeiro de 2023 sobre o tema.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática com pacientes encaminhadas pelos serviços de reprodução humana, tenho observado que mulheres com baixa resposta ovariana constituem um subgrupo que adere com facilidade à acupuntura, em parte pela ansiedade gerada pelos ciclos anteriores frustrados. Costumo iniciar o tratamento de dois a três ciclos menstruais antes da estimulação prevista, com sessões semanais, e percebo alterações nos marcadores hormonais já após quatro a seis sessões — o que é consistente com os mecanismos descritos neste trabalho. O protocolo que associo com maior frequência combina acupuntura manual em pontos do meridiano do Rim e Baço-Pâncreas com eletroacupuntura de baixa frequência, além de orientação sobre exercício moderado e manejo do estresse. No Centro de Dor, quando atendemos pacientes em coparceria com equipes de reprodução, o perfil que responde melhor é o da mulher entre 35 e 42 anos com FSH elevado mas ainda com algum estoque antral preservado. Pacientes em falência ovariana prematura estabelecida respondem de forma menos previsível, e nesse contexto mantenho expectativas mais cautelosas.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Frontiers in Endocrinology · 2023
DOI: 10.3389/fendo.2023.1028853
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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