Moxibustion for pain relief in patients with primary dysmenorrhea: A randomized controlled trial

Yang et al. · PLoS ONE · 2017

🎲RCT Controlado👥n=152 participantesEvidência Moderada

Nível de Evidência

MODERADA
75/ 100
Qualidade
4/5
Amostra
4/5
Replicação
3/5
🎯

OBJETIVO

Avaliar a eficácia da moxabustão para alívio da dor em dismenorreia primária comparada com ibuprofeno

👥

QUEM

152 mulheres de 18-35 anos com dismenorreia primária e dor VAS ≥40mm

⏱️

DURAÇÃO

3 meses de tratamento + 3 meses de acompanhamento

📍

PONTOS

Guanyuan (CV4), Shenque (CV8) e Sanyinjiao (SP6)

🔬 Desenho do Estudo

152participantes
randomização

Moxabustão

n=76

Moxabustão suave nos pontos por 25-30 min/dia

Controle

n=76

Ibuprofeno 0,3g, duas vezes ao dia

⏱️ Duração: 6 meses total (3 meses tratamento + 3 meses seguimento)

📊 Resultados em Números

6,38 para 2,54

Redução da dor VAS grupo moxabustão

6,41 para 2,47

Redução da dor VAS grupo controle

P=0,76

Diferença entre grupos aos 3 meses

P<0,01

Superioridade da moxabustão aos 6 meses

📊 Comparação de Resultados

Intensidade da dor (VAS)

Moxabustão (3 meses)
2.54
Controle (3 meses)
2.47

Intensidade da dor (VAS) - seguimento

Moxabustão (6 meses)
3.08
Controle (6 meses)
4.01
💬 O que isso significa para você?

Este estudo mostrou que a moxabustão é tão eficaz quanto remédios para dor menstrual durante o tratamento, mas seus benefícios duram mais tempo. Após parar o tratamento, mulheres que usaram moxabustão mantiveram menos dor que aquelas que usaram apenas medicação.

📝

Resumo do Artigo

Resumo narrativo em linguagem acessível

Moxabustão para Alívio da Dor em Pacientes com Dismenorreia Primária: Ensaio Clínico Randomizado Controlado

A dismenorreia primária (dor menstrual) afeta entre 45% a 72% das mulheres em idade fértil, podendo chegar até 93% entre adolescentes. Esta condição caracteriza-se por dor intensa no baixo ventre durante a menstruação, frequentemente acompanhada de náuseas, vômitos, diarreia, fadiga, dor de cabeça e nas costas. No Brasil e no mundo, a dismenorreia primária representa a principal causa de faltas escolares recorrentes entre adolescentes e impacta significativamente a qualidade de vida das mulheres. Do ponto de vista médico, acredita-se que a produção excessiva de prostaglandinas no endométrio durante a menstruação cause contrações uterinas intensas, redução do fluxo sanguíneo uterino e aumento da sensibilidade das fibras nervosas da dor.

Tradicionalmente, o tratamento inclui anti-inflamatórios não esteroidais e contraceptivos orais, porém cerca de 20% das mulheres não respondem adequadamente a estes medicamentos, que também podem causar efeitos colaterais gastrointestinais, renais e hepáticos.

Este estudo investigou a eficácia da moxabustão, uma técnica milenar da medicina tradicional chinesa, no alívio da dor menstrual comparando-a com o tratamento medicamentoso convencional. A moxabustão consiste na aplicação de calor através da queima de artemísia (moxa) sobre pontos específicos do corpo, combinando estímulos térmicos e químicos dos componentes farmacêuticos da planta. Embora seja amplamente utilizada na China para tratar dismenorreia, as evidências científicas sobre sua eficácia ainda eram limitadas.

Os pesquisadores conduziram um estudo clínico controlado e randomizado envolvendo 152 estudantes universitárias de Chengdu, na China, com idade entre 18 e 35 anos, todas apresentando dismenorreia primária moderada a severa. As participantes foram divididas aleatoriamente em dois grupos: um recebeu tratamento com moxabustão e outro utilizou ibuprofeno (medicamento anti-inflamatório). O grupo da moxabustão recebeu aplicações diárias de calor nos pontos Guanyuan, Shenque e Sanyinjiao por cerca de 25 a 30 minutos, iniciando sete dias antes da menstruação por três ciclos menstruais consecutivos. O grupo controle tomou cápsulas de ibuprofeno duas vezes ao dia durante três dias em cada ciclo menstrual, também por três ciclos.

A intensidade da dor foi medida através da escala visual analógica (EVA), onde as pacientes indicavam sua percepção de dor numa escala de 0 a 10.

Os resultados revelaram que ambos os tratamentos foram igualmente eficazes na redução da dor menstrual após três meses de tratamento. A intensidade da dor diminuiu de aproximadamente 6,4 pontos para 2,5 pontos na escala de dor em ambos os grupos, representando uma melhora clinicamente significativa. Durante os primeiros dois meses de tratamento, o medicamento mostrou-se ligeiramente superior à moxabustão no controle da dor, porém ao final do terceiro mês, não houve diferença significativa entre os grupos. Surpreendentemente, três meses após o término do tratamento, a moxabustão demonstrou efeitos mais duradouros que o medicamento, com o grupo da moxabustão apresentando menor intensidade de dor.

Os exames laboratoriais confirmaram que ambos os tratamentos regularam significativamente os mediadores da dor no sangue, incluindo prostaglandinas, ocitocina e outros marcadores relacionados à contração uterina e à inflamação.

Para pacientes e profissionais da saúde, estes achados sugerem que a moxabustão representa uma alternativa terapêutica válida e eficaz para o tratamento da dismenorreia primária. A técnica mostrou-se particularmente vantajosa para o controle a longo prazo dos sintomas menstruais, oferecendo benefícios que se mantêm mesmo após a interrupção do tratamento. Além disso, não foram relatados efeitos adversos durante o estudo, contrastando com os potenciais efeitos colaterais dos anti-inflamatórios. A moxabustão pode ser especialmente benéfica para mulheres que não respondem bem aos medicamentos tradicionais, apresentam contraindicações aos anti-inflamatórios ou preferem tratamentos não farmacológicos.

Do ponto de vista econômico, a moxabustão também pode representar uma opção mais acessível a longo prazo, considerando seus efeitos sustentados.

É importante reconhecer as limitações deste estudo. Primeiramente, não foi possível realizar um estudo cego, pois os tratamentos eram muito diferentes, o que pode ter influenciado a percepção das participantes sobre a eficácia. Além disso, a maior parte das participantes eram estudantes universitárias jovens, o que pode limitar a generalização dos resultados para populações mais diversas. O estudo também utilizou apenas medidas subjetivas de dor, sendo necessários estudos futuros com métodos mais objetivos de avaliação.

Por fim, como este foi um estudo pragmático comparando a efetividade de dois tratamentos ativos, não é possível descartar completamente fatores psicológicos que possam ter contribuído para os resultados observados.

Em conclusão, este estudo fornece evidências científicas robustas de que a moxabustão é tão eficaz quanto os medicamentos convencionais para o alívio da dor menstrual, com a vantagem adicional de proporcionar benefícios mais duradouros. Estes achados sugerem que a moxabustão deveria ser considerada como uma opção terapêutica legítima para mulheres com dismenorreia primária, especialmente para aquelas que buscam tratamentos com efeitos de longa duração. A decisão entre moxabustão e tratamento medicamentoso deve ser individualizada, considerando as preferências da paciente, disponibilidade de profissionais qualificados e características específicas de cada caso, sempre em consulta com profissionais de saúde experientes.

Pontos Fortes

  • 1Desenho pragmático realista
  • 2Amostra adequada de 152 participantes
  • 3Análise de biomarcadores sanguíneos
  • 4Seguimento prolongado de 6 meses
⚠️

Limitações

  • 1Impossibilidade de cegamento devido às diferentes intervenções
  • 2População limitada a estudantes universitárias
  • 3Medidas subjetivas de dor
  • 4Falta de grupo placebo

📅 Contexto Histórico

2010Primeiras revisões sistemáticas sobre acupuntura para dismenorreia
2013Início do recrutamento e aprovação ética do estudo
2014Conclusão do seguimento e análise dos dados
2017Publicação demonstrando eficácia da moxabustão para dismenorreia
Prof. Dr. Hong Jin Pai

Comentário do Especialista

Prof. Dr. Hong Jin Pai

Doutor em Ciências pela USP

Relevância Clínica

A dismenorreia primária acomete parcela expressiva das mulheres em idade reprodutiva e continua sendo subtratada em muitos serviços, seja pela tolerância inadequada aos AINEs, seja pela resistência da paciente ao uso de anticoncepcionais hormonais. Este ensaio coloca a moxabustão como alternativa terapêutica concreta nesse cenário: três ciclos de aplicação nos pontos Guanyuan (CV4), Shenque (CV8) e Sanyinjiao (SP6) produziram redução de dor equivalente ao ibuprofeno ao final do período de tratamento, com vantagem sustentada após a descontinuação. Na prática, isso é especialmente relevante para adolescentes e mulheres jovens com contraindicações gástricas ou renais aos AINEs, para pacientes que recusam anticoncepcionais hormonais por razões pessoais ou médicas, e para aquelas com quadros recorrentes nos quais a dependência mensal de medicação se torna problemática. A modulação documentada de prostaglandinas e ocitocina pelos exames laboratoriais também oferece substrato fisiopatológico que facilita a conversa com colegas de ginecologia sobre a racionalidade da técnica.

Achados Notáveis

O achado de maior peso clínico não é a equivalência ao ibuprofeno durante os três meses de tratamento — resultado esperado para quem já usa moxabustão nesta indicação — mas sim a superioridade estatisticamente significativa (P<0,01) observada três meses após a interrupção de ambas as intervenções. Enquanto o efeito do AINE se extingue com sua suspensão, a moxabustão parece induzir uma reorganização funcional mais persistente, possivelmente via modulação neuroendócrina sustentada dos mediadores inflamatórios e espasmogênicos uterinos. A redução bilateral dos biomarcadores — prostaglandinas, ocitocina e marcadores contráteis — em ambos os grupos confirma que a moxabustão age sobre o mesmo substrato patogênico dos AINEs, mas por mecanismo distinto. Outro dado digno de nota é o perfil temporal: nos primeiros dois meses, o ibuprofeno mostrou superioridade discreta, sugerindo que a moxabustão tem latência de resposta maior antes de atingir eficácia plena, dado relevante para o manejo de expectativas no início do tratamento.

Da Minha Experiência

Na minha prática com pacientes jovens encaminhadas pelo ambulatório de ginecologia do HC, tenho observado que a moxabustão para dismenorreia primária costuma exibir exatamente essa curva de latência descrita no artigo: o alívio perceptível raramente aparece no primeiro ciclo, consolida-se no segundo e se torna consistente a partir do terceiro. Costumo combinar moxabustão com acupuntura nos mesmos pontos — especialmente SP6, CV4 e ST36 — nas consultas pré-menstruais, pois a associação parece encurtar essa janela de resposta inicial. Em termos de número de sessões, trabalho habitualmente com um ciclo de oito a dez atendimentos para casos moderados, passando depois para manutenção trimestral. O perfil de paciente que responde melhor, na minha experiência, é aquele com constituição fria segundo os padrões da MTC — dor aliviada por calor local, fluxo escasso e escuro, frieza abdominal —, justamente o perfil para o qual a moxabustão tem indicação clássica. Evito a técnica em pacientes com endometriose extensa não controlada, onde a resposta é irregular e a condução deve ser multidisciplinar desde o início.

Médico especialista em Acupuntura. Professor Colaborador do Instituto de Ortopedia do HC-FMUSP. Coordenador do Grupo de Acupuntura do Centro de Dor do HC-FMUSP.

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PLoS ONE · 2017

DOI: 10.1371/journal.pone.0170952

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Revisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241

Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.

Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.