Effectiveness and safety of acupuncture for cancer-related hiccups: a systematic review and meta-analysis
Guo et al. · Frontiers in Neurology · 2024
OBJETIVO
Avaliar a eficácia e segurança da acupuntura no tratamento de soluços relacionados ao câncer
QUEM
Pacientes oncológicos de 25-78 anos com soluços causados por câncer ou tratamentos
DURAÇÃO
9 estudos analisados até julho de 2023
PONTOS
Zusanli (ST36) e Neiguan (PC6) foram os mais utilizados
🔬 Desenho do Estudo
Acupuntura
n=293
Acupuntura manual, eletroacupuntura, ou auriculoterapia
Controle
n=287
Medicamentos (Baclofeno, metoclopramida)
📊 Resultados em Números
Taxa de eficácia superior da acupuntura
Início de ação mais rápido
Melhora no sono
Melhora na alimentação
Melhora no apetite
📊 Comparação de Resultados
Taxa de eficácia relativa
Este estudo analisou se a acupuntura pode ajudar pacientes com câncer que sofrem de soluços. Os resultados mostraram que a acupuntura foi mais eficaz que medicamentos tradicionais, melhorando o sono, apetite e qualidade de vida, com poucos efeitos colaterais.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Esta revisão sistemática e meta-análise investigou a eficácia e segurança da acupuntura no tratamento de soluços relacionados ao câncer, um sintoma que afeta 15-40% dos pacientes oncológicos e pode causar impacto significativo na qualidade de vida. Os pesquisadores conduziram uma busca abrangente em oito bases de dados, identificando nove ensaios clínicos randomizados que incluíram 580 pacientes. Os soluços relacionados ao câncer podem resultar de lesões orgânicas centrais ou periféricas, tratamentos oncológicos, distúrbios eletrolíticos ou desequilíbrios ácido-básicos, causando não apenas espasmos involuntários do diafragma, mas também insônia, fadiga, desnutrição, depressão e irritabilidade. A metodologia seguiu as diretrizes PRISMA 2020 e incluiu análise de frequência de uso de acupontos.
Os tipos de acupuntura estudados foram acupuntura manual, eletroacupuntura, auriculoterapia e agulhamento por pressão. Os grupos controle receberam tratamentos farmacológicos como Baclofeno oral e injeções de metoclopramida. Os resultados da meta-análise demonstraram que a acupuntura foi significativamente superior aos tratamentos farmacológicos em termos de taxa de eficácia, com um risco relativo de 1,83 (IC 95% [1,53, 2,20], p < 0,001). A acupuntura também mostrou início de ação mais rápido, com diferença media de -8,71 minutos comparada aos medicamentos.
Em relação à qualidade de vida, a acupuntura proporcionou melhorias significativas nos escores de sono, alimentação e apetite, com diferenças medias de 0,68, 0,68 e 0,66, respectivamente. A análise de frequência revelou que os pontos Zusanli (ST36) e Neiguan (PC6) foram os mais utilizados, presentes em sete dos nove estudos. O ponto ST36 pertence ao meridiano do estômago e PC6 ao meridiano do pericárdio, sendo tradicionalmente usados para regular o qi do estômago e baço. A análise de subgrupos mostrou que a eletroacupuntura foi mais eficaz que a acupuntura manual, embora com maior heterogeneidade.
Quanto à segurança, a acupuntura demonstrou perfil favorável, com apenas um paciente relatando dor leve entre 158 tratados, e nenhum evento adverso sério foi observado. Os mecanismos propostos incluem melhora do fluxo sanguíneo para o hipotálamo, regulação bidirecional da motilidade gastrointestinal, influência no sistema neuroendócrino através da estimulação de terminações nervosas nos pontos de acupuntura, promovendo produção de neurotransmissores como norepinefrina, serotonina e ácido gama-aminobutírico. A acupuntura também pode ativar o córtex cerebral e suprimir excitação anormal do nervo vago. Apesar dos resultados promissores, todas as limitações importantes devem ser consideradas.
Todos os nove estudos incluídos apresentaram alto risco de viés, principalmente devido à falta de cegamento de participantes e profissionais, e problemas na geração de sequência aleatória. A ocultação de alocação foi inadequadamente relatada na maioria dos estudos, levantando preocupações sobre seleção subjetiva. A heterogeneidade significativa persistiu mesmo após análises de subgrupos e meta-regressão, possivelmente devido a diferenças nos tipos de tumores, frequências de intervenção e outros aspectos do desenho do estudo. O tamanho amostral pequeno e a qualidade metodológica limitada dos estudos incluídos reduzem a confiabilidade dos resultados.
As implicações clínicas sugerem que a acupuntura pode ser uma alternativa valiosa aos tratamentos farmacológicos para soluços relacionados ao câncer, especialmente considerando que medicamentos convencionais frequentemente causam efeitos adversos como tontura e sedação excessiva em pacientes já debilitados por múltiplas terapias. A pesquisa futura deve focar em ensaios clínicos de alta qualidade, seguindo a progressão de pesquisa exploratória, explanatória e confirmatória, além de estabelecer padrões diagnósticos unificados e diretrizes de prática clínica para soluços relacionados ao câncer.
Pontos Fortes
- 1Revisão abrangente com busca em oito bases de dados
- 2Seguiu diretrizes PRISMA 2020
- 3Análise de frequência de acupontos fornece insights práticos
- 4Primeira meta-análise atualizada desde 2012
- 5Análise de subgrupos por tipo de acupuntura
Limitações
- 1Alto risco de viés em todos os estudos incluídos
- 2Heterogeneidade significativa entre estudos
- 3Amostras pequenas nos estudos individuais
- 4Falta de uso adequado de acupuntura sham
- 5Problemas metodológicos em cegamento e alocação
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
O soluço persistente ou intratável em pacientes oncológicos é um sintoma sub-reconhecido que interfere diretamente na ingesta alimentar, qualidade do sono e estado emocional — dimensões que comprometem a tolerância ao tratamento e o prognóstico funcional. Com prevalência estimada entre 15% e 40% nessa população, o sintoma frequentemente se instala em pacientes já sobrecarregados por múltiplos fármacos, tornando os efeitos adversos do baclofeno e da metoclopramida — sedação, tontura, rebaixamento cognitivo — particularmente custosos. A meta-análise de Guo et al. oferece ao oncologista e ao médico acupunturista uma base quantitativa para incluir a acupuntura na discussão terapêutica precoce, não como última alternativa, mas como opção de primeira ou segunda linha. O risco relativo de 1,83 frente a farmacoterapia padrão, combinado ao perfil de segurança excepcional documentado, justifica a integração formal da acupuntura nos protocolos de suporte oncológico, especialmente em serviços que já dispõem de médicos com formação na técnica.
▸ Achados Notáveis
O achado mais clinicamente expressivo não é apenas a superioridade estatística da acupuntura, mas o início de ação 8,71 minutos mais rápido que a farmacoterapia — um dado com peso real na beira do leito, onde o soluço incoercível é fonte de angústia aguda. Igualmente relevante é a melhora documentada nos três domínios funcionais avaliados — sono, alimentação e apetite —, cujos escores seguiram trajetórias paralelas e consistentes. A análise de frequência de acupontos revela que ST36 e PC6 aparecem em sete dos nove estudos, convergência que não é acidental: ambos integram vias neurovegetativas com ação comprovada sobre motilidade gastrointestinal e modulação vagal. A eletroacupuntura demonstrou superioridade frente à acupuntura manual na análise de subgrupos, sugerindo que o parâmetro de estimulação elétrica potencializa os mecanismos neuroendócrinos propostos — liberação de serotonina, norepinefrina e GABA — com relevância direta para a escolha da modalidade técnica em ambiente hospitalar.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no Centro de Dor do HC-FMUSP, tenho tratado soluços persistentes em contexto oncológico há décadas, e o padrão de resposta que observo é consistente com o que este trabalho quantifica. Em geral, percebo alívio já na primeira ou segunda sessão quando utilizamos eletroacupuntura em ST36 e PC6, frequentemente acrescentando ST37 e CV12 para reforço da regulação gástrica. Costumo estruturar um ciclo inicial de seis a oito sessões em dias alternados para casos persistentes, com reavaliação da frequência conforme resposta. O perfil de paciente que melhor responde, na minha experiência, é aquele com soluço de predominância funcional-autonômica — sem compressão diafragmática maciça por tumor —, em geral induzido por quimioterapia ou distúrbio eletrolítico. Quando há compressão frênica estrutural, os resultados são mais modestos e a acupuntura entra como suporte sintomático adjuvante, não como eixo principal. A combinação com técnicas de relaxamento diafragmático e ajuste postural, orientada em conjunto com fisioterapia, tem potencializado os resultados que vejo rotineiramente — e este estudo reforça que essa abordagem integrativa merece protocolização formal.
Artigo Original Completo
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Frontiers in Neurology · 2024
DOI: 10.3389/fneur.2024.1480656
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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