Role of nerve signal transduction and neuroimmune crosstalk in mediating the analgesic effects of acupuncture for neuropathic pain
Chen et al. · Frontiers in Neurology · 2023
Nível de Evidência
FORTEOBJETIVO
Revisar os mecanismos pelos quais a acupuntura produz analgesia na dor neuropática através da regulação neural e neuro-imune
QUEM
Revisão abrangente de estudos com modelos animais de dor neuropática publicados entre 2017-2021
DURAÇÃO
Análise de 5 anos de pesquisas
PONTOS
ST36 (29 estudos), GB34 (15), BL60 (9), SP6 e PC6 (8 cada)
🔬 Desenho do Estudo
Estudos revisados
n=49
Acupuntura e eletroacupuntura para dor neuropática
Modelos animais
n=124
Diferentes tipos de lesão neural
📊 Resultados em Números
Artigos incluídos na revisão
Modelos de dor neuropática
Frequência EA mais comum
Tempo de estimulação típico
📊 Comparação de Resultados
Número de estudos por ponto
Esta revisão científica mostra que a acupuntura alivia a dor neuropática (dor causada por lesões nos nervos) através de múltiplos mecanismos biológicos. A técnica age tanto diminuindo sinais de dor quanto aumentando os sistemas naturais de alívio da dor no corpo, oferecendo uma opção terapêutica eficaz e com poucos efeitos colaterais.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Papel da Transdução de Sinais Nervosos e da Interação Neuroimune na Mediação dos Efeitos Analgésicos da Acupuntura na Dor Neuropática
A dor neuropática é uma condição complexa que surge quando o sistema nervoso é danificado ou disfuncional, sendo considerada um dos tipos de dor mais difíceis de tratar entre todas as condições dolorosas. Esta forma de dor pode ser espontânea ou provocada, manifestando-se como uma resposta aumentada a estímulos dolorosos (hiperalgesia) ou como dor em resposta a estímulos normalmente inofensivos (alodinia). Além do sofrimento físico direto, a dor neuropática frequentemente acompanha-se de sintomas como ansiedade e depressão, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes. Embora os medicamentos atuais para controle da dor tenham apresentado avanços impressionantes, as modalidades de tratamento existentes ainda não são ideais para a dor neuropática, apresentando custos elevados e efeitos adversos que prejudicam ainda mais a qualidade de vida dos pacientes.
Esta revisão científica examinou estudos publicados entre 2017 e 2021 para compreender melhor como a acupuntura e a eletroacupuntura produzem efeitos analgésicos na dor neuropática. Os pesquisadores analisaram 49 artigos científicos básicos que investigaram os mecanismos pelos quais a acupuntura alivia a dor neuropática, focando especificamente em estudos com modelos animais que permitissem compreender os processos biológicos envolvidos. A metodologia incluiu a análise de diferentes modelos de dor neuropática, como lesão por constrição crônica, lesão de nervos periféricos, ligação de nervos espinhais e neuropatia diabética, entre outros. Os parâmetros de acupuntura mais estudados incluíram frequências de estimulação elétrica de 2 Hz e 100 Hz, intensidades de 1 a 3 mA e tempo de tratamento de 30 minutos, com os pontos ST36 (Zusanli) e GB34 (Yanglingquan) sendo os mais frequentemente utilizados.
Os resultados revelaram que a acupuntura atua através de múltiplos mecanismos integrados para produzir analgesia na dor neuropática. No sistema excitador ascendente, a acupuntura inibe a transmissão de sinais dolorosos reduzindo neurotransmissores como glutamato e seus receptores NMDA, receptores purinérgicos P2X, substância P e peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), além de canais iônicos como TRPV1 e HCN. Simultaneamente, a técnica ativa o sistema inibitório descendente da dor, aumentando peptídeos opioides como beta-endorfina, receptores opioides mu (MOR), ácido gama-aminobutírico (GABA) e seus receptores, e regulando bidirecionalmente a serotonina (5-HT) - aumentando receptores 5-HT1A e diminuindo 5-HT7R. A acupuntura também estimula neurônios modificadores do apetite no hipotálamo, contribuindo para o alívio da dor através da ativação do sistema endocanabinoide.
A pesquisa também demonstrou que a acupuntura exerce importante controle sobre a neuroinflamação, um fator crucial no desenvolvimento da dor neuropática. A técnica inibe as vias inflamatórias JAK2/STAT3 e PI3K/mTOR, reduz a expressão do receptor de quimiocina CX3CR1 na microglia e aumenta os receptores de adenosina A1R nos astrócitos, suprimindo assim a ativação das células gliais e reduzindo substâncias inflamatórias como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α). Adicionalmente, foram identificados mecanismos relacionados ao metabolismo neuronal, onde a acupuntura inibe o metabolismo da glicose neuronal através da redução do transportador de glicose GLUT-3 no córtex pré-frontal medial, e promove alterações metabólicas benéficas no cérebro. A regulação do estresse oxidativo também se mostrou relevante, com a acupuntura aumentando vias antioxidantes como Nrf2-ARE e superóxido dismutase, enquanto reduz produtos de estresse oxidativo.
Para pacientes e profissionais de saúde, estes achados oferecem evidências científicas robustas sobre a eficácia da acupuntura no tratamento da dor neuropática. Os resultados sugerem que a acupuntura pode ser uma opção terapêutica valiosa, potencialmente reduzindo a necessidade de medicações analgésicas e seus efeitos colaterais associados. Para os profissionais, o entendimento destes mecanismos permite uma aplicação mais direcionada da técnica, com melhor seleção de pontos de acupuntura e parâmetros de estimulação. A identificação de que pontos como ST36 e GB34, com frequências de 2 Hz e 100 Hz por aproximadamente 30 minutos, são eficazes fornece orientações práticas para o tratamento clínico.
Além disso, a compreensão de que a acupuntura atua através de múltiplos sistemas simultaneamente - neural, inflamatório, metabólico e antioxidante - explica sua eficácia em uma condição tão complexa quanto a dor neuropática.
É importante reconhecer algumas limitações deste estudo. A pesquisa baseou-se principalmente em modelos animais, o que pode limitar a tradução direta dos resultados para humanos. Embora os parâmetros de acupuntura utilizados nos estudos animais sejam semelhantes aos aplicados clinicamente, facilitando a translação dos resultados experimentais, ainda são necessários mais estudos clínicos para confirmar estes mecanismos em pacientes humanos. Além disso, a heterogeneidade dos modelos de dor neuropática estudados, embora forneça uma visão abrangente, também pode dificultar a generalização dos achados para todos os tipos de dor neuropática humana.
Apesar destas limitações, esta revisão fornece uma base científica sólida para a compreensão dos mecanismos da acupuntura na dor neuropática e estabelece fundamentos importantes para futuras pesquisas clínicas e aplicações terapêuticas mais eficazes.
Pontos Fortes
- 1Revisão abrangente de 49 estudos recentes (2017-2021)
- 2Análise detalhada de múltiplos mecanismos biológicos
- 3Identificação clara dos pontos de acupuntura mais utilizados
- 4Integração de evidências sobre neurotransmissores, inflamação e metabolismo
Limitações
- 1Baseada apenas em modelos animais
- 2Necessidade de tradução para aplicação clínica
- 3Heterogeneidade nos protocolos de tratamento
- 4Falta de padronização nos parâmetros de eletroacupuntura
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
A dor neuropática representa um dos desafios mais árduos no ambulatório de dor. Pacientes com neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética, síndrome do túnel do carpo ou sequelas de lesão medular frequentemente chegam ao consultório após múltiplas tentativas frustradas com gabapentinoides, antidepressivos tricíclicos e opioides, carregando também o ônus dos efeitos adversos dessas drogas. Esta revisão sistematiza a base mecanística que justifica a acupuntura e a eletroacupuntura como alternativas terapêuticas reais nesse cenário. A identificação de que os pontos ST36 e GB34, com eletroacupuntura a 2 Hz e sessões de 30 minutos, constituem o protocolo predominante nos estudos analisados oferece ao médico que pratica acupuntura um ponto de partida racional para estruturar seu protocolo. Mais do que isso, a demonstração de que a acupuntura age simultaneamente em vias neurais, inflamatórias, metabólicas e antioxidantes reforça seu papel como adjuvante — e, em casos selecionados, como substituto parcial — da farmacoterapia convencional.
▸ Achados Notáveis
O que mais chama atenção nesta revisão é a arquitetura mecanística de dupla ação: a acupuntura suprime simultaneamente o sistema excitador ascendente — reduzindo glutamato, receptores NMDA, P2X, substância P, CGRP e canais iônicos como TRPV1 e HCN — e potencializa o sistema inibitório descendente, elevando beta-endorfina, MOR e GABA. Essa bidirecionalidade explica por que pacientes com dor neuropática de origens distintas podem responder ao mesmo protocolo de pontos. A regulação serotoninérgica diferenciada — aumento de 5-HT1A com redução concomitante de 5-HT7R — sugere um refinamento receptor-específico que vai além de um simples efeito serotoninérgico genérico. Igualmente notável é a supressão da neuroinflamação via inibição das vias JAK2/STAT3 e PI3K/mTOR, com redução da ativação microglial mediada por CX3CR1. A acupuntura, portanto, não apenas modula a transmissão nociceptiva — ela atua no substrato inflamatório que perpetua a sensibilização central, o que é central para compreender sua eficácia nos casos de dor neuropática crônica.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no Centro de Dor do HC-FMUSP, a dor neuropática é indicação frequente para acupuntura, especialmente neuropatia diabética dolorosa e neuralgia pós-herpética refratária. Costumo iniciar com ST36 e GB34 em eletroacupuntura a 2 Hz, exatamente o protocolo mais representado nessa revisão, combinados a pontos locais conforme o dermátomo afetado. A resposta costuma aparecer entre a terceira e a quinta sessão — pacientes que não percebem nenhuma mudança após seis sessões raramente evoluem bem com o protocolo inicial, e revejo os pontos ou acrescento técnicas de aquecimento. Em média, trabalho com ciclos de doze sessões antes de avaliar manutenção. Associo invariavelmente com fisioterapia analgésica e, quando há componente de sensibilização central evidente, mantenho o suporte farmacológico em doses reduzidas. O perfil que melhor responde, na minha experiência, é o do paciente com dor neuropática de instalação há menos de dois anos, sem componente autonômico intenso e com preservação parcial da função sensitiva — justamente aqueles em que os mecanismos inibitórios descendentes descritos nesta revisão ainda têm substrato funcional para serem ativados.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Frontiers in Neurology · 2023
DOI: 10.3389/fneur.2023.1093849
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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