Acupuncture in diabetic peripheral neuropathy-neurological outcomes of the randomized acupuncture in diabetic peripheral neuropathy trial
Hoerder et al. · World Journal of Diabetes · 2023
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Investigar a eficácia da acupuntura na melhora dos déficits neurológicos em pacientes com neuropatia diabética periférica tipo 2
QUEM
62 adultos com diabetes tipo 2 e neuropatia periférica moderada a grave
DURAÇÃO
24 semanas de acompanhamento (12 sessões de acupuntura em 8 semanas)
PONTOS
ST40, LV3, EX-LE-10 (Bafeng), SP6, KI3 - pontos bilaterais focados nos nervos fibular e tibial
🔬 Desenho do Estudo
Grupo Acupuntura
n=31
12 sessões de acupuntura em 8 semanas + cuidado usual
Grupo Controle
n=31
Lista de espera até semana 16 + cuidado usual
📊 Resultados em Números
Redução do dormência (NRS-11)
Melhora do NPSI
Melhora do TNSc
Aderência ao tratamento
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Escala de Dormência (NRS-11) - Semana 8
Score TNSc - Semana 8
Este estudo mostra que a acupuntura pode ajudar pessoas com diabetes que sofrem de dormência e dor nos pés causadas pela neuropatia diabética. Os pacientes que receberam 12 sessões de acupuntura tiveram melhora significativa na sensibilidade dos pés e redução da dormência, efeitos que duraram até 4 meses após o tratamento. A acupuntura se mostrou segura, com apenas efeitos colaterais leves como pequenos hematomas no local das agulhas.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Acupuntura na Neuropatia Periférica Diabética — Desfechos Neurológicos do Ensaio Clínico Randomizado ACUDIN
A neuropatia diabética periférica (NDP) é uma das complicações mais comuns do diabetes mellitus, afetando aproximadamente 28% dos pacientes diabéticos. Esta condição se manifesta através de dormência, perda de sensibilidade, dor em queimação e formigamento nos pés, podendo levar a instabilidade na marcha, quedas e lesões que passam despercebidas devido à perda de sensibilidade. Diferentemente da dor neuropática, para a qual existem medicamentos disponíveis, não há opções farmacológicas eficazes para tratar a dormência e perda de sensibilidade, criando uma importante lacuna terapêutica. O estudo ACUDPN foi um ensaio clínico randomizado, controlado, multicêntrico e aberto que investigou os efeitos da acupuntura nos déficits neurológicos de pacientes com NDP tipo 2.
Realizado na Alemanha entre fevereiro de 2019 e abril de 2021, o estudo incluiu 62 participantes com idade média de 68 anos, sendo 79% homens. Os critérios de inclusão foram rigorosos, incluindo diagnóstico confirmado de NDP com sintomas moderados a graves e evidência objetiva de comprometimento da condução nervosa. O protocolo de acupuntura foi padronizado, utilizando pontos bilaterais específicos: ST40 e ST34 (meridiano do estômago), LV3 (meridiano do fígado), SP6 (meridiano do baço), KI3 (meridiano do rim) e pontos extras EX-LE-10 'Bafeng' nos pés. Estes pontos foram estrategicamente selecionados por sua localização próxima aos nervos fibular e tibial, principais nervos afetados na NDP.
O grupo intervenção recebeu 12 sessões de acupuntura durante 8 semanas, enquanto o grupo controle permaneceu em lista de espera até a 16ª semana, quando também recebeu o mesmo tratamento. Os resultados foram notáveis em múltiplos aspectos. Na escala numérica de 11 pontos para dormência, o grupo acupuntura mostrou melhora de 2,3 pontos comparado ao controle na 8ª semana (p<0,001), representando uma redução de 35,4% na percepção subjetiva de dormência. Este efeito persistiu na 16ª semana com diferença de 2,2 pontos (32,4% de melhora) e ainda estava presente na 24ª semana com redução de 1,8 pontos comparado ao baseline.
O Inventário de Sintomas de Dor Neuropática (NPSI) melhorou 12,6 pontos no grupo acupuntura na 8ª semana (p<0,001), com persistência do efeito na 16ª semana. Os escores de exame neurológico também mostraram melhorias significativas. O TNSc (Total Neuropathy Score clinical) melhorou 2,0 pontos na 8ª semana (p<0,001) e manteve melhora de 1,8 pontos na 16ª semana. O Neuropathy Symptom Score (NSS) mostrou diferença de 1,3 pontos favorecendo a acupuntura na 8ª semana (p<0,001), persistindo na 16ª semana.
O Neuropathy Deficit Score (NDS) também melhorou 1,0 ponto na 8ª semana, com efeito mantido na 16ª semana. Surpreendentemente, os estudos de condução nervosa realizados com dispositivo portátil NC-stat®/DPNCheck™ não mostraram mudanças significativas em velocidade ou amplitude do nervo sural entre os grupos. Esta discrepância pode ser explicada pela limitação do dispositivo utilizado, que embora validado para triagem, pode não ter sensibilidade adequada para detectar mudanças induzidas por intervenção. A segurança da acupuntura foi excelente, com apenas efeitos adversos menores relatados: pequenos hematomas locais (n=18), dor transitória no local da agulha (n=5), parestesias transitórias (n=7) e sonolência após tratamento (n=5).
Apenas um paciente descontinuou devido a desconforto persistente após a sessão. A aderência foi notável, com 96,8% de todas as 744 sessões planejadas sendo realizadas. As limitações do estudo incluem o tamanho amostral menor que o planejado devido às restrições da pandemia de COVID-19, a análise exploratória dos desfechos neurológicos (que eram secundários), a ausência de cegamento dos avaliadores clínicos e o uso de dispositivo portátil ao invés de eletroneurografia convencional. Adicionalmente, a ausência de grupo sham pode ter contribuído para efeito placebo, embora a persistência dos benefícios até 4 meses após o tratamento sugira efeitos genuínos.
Este estudo representa um avanço importante na abordagem da NDP ao focar especificamente na melhora da função sensorial e redução da dormência, aspectos cruciais para prevenir complicações como úlceras diabéticas e amputações. Os resultados sugerem que a acupuntura pode preencher uma lacuna terapêutica importante, oferecendo benefícios para sintomas que não respondem ao tratamento farmacológico convencional, com perfil de segurança excelente em população já sobrecarregada com medicações.
Pontos Fortes
- 1Primeiro estudo a focar especificamente na melhora da dormência e função sensorial
- 2Design multicêntrico com protocolo de acupuntura bem padronizado
- 3Excelente aderência ao tratamento (96,8%)
- 4Seguimento prolongado demonstrando persistência dos efeitos até 4 meses
- 5Avaliações neurológicas abrangentes com múltiplos instrumentos validados
Limitações
- 1Tamanho amostral menor que o planejado devido à pandemia
- 2Ausência de grupo sham-controle para controlar efeito placebo
- 3Avaliadores clínicos não foram cegados
- 4Estudos de condução nervosa realizados com dispositivo portátil menos sensível
- 5Análise exploratória dos desfechos neurológicos sem correção para múltiplas comparações
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65223, 65224
▸ Relevância Clínica
A neuropatia periférica diabética representa um dos cenários clínicos em que a medicina convencional simplesmente não dispõe de respostas farmacológicas satisfatórias para a dormência e o déficit sensorial — ao contrário da dor neuropática, que conta com gabapentinoides, duloxetina e antidepressivos tricíclicos. O ensaio ACUDPN endereça exatamente essa lacuna, demonstrando melhora de 2,3 pontos na escala de dormência e 12,6 pontos no NPSI após 12 sessões, com persistência dos efeitos até a 16ª semana. Na prática fisiátrica, isso traduz ganho direto em domínios que impactam segurança funcional: sensibilidade plantar protetora, estabilidade na marcha e prevenção de lesões silenciosas que culminam em úlceras e amputações. O perfil de paciente mais beneficiado — idoso, polifarmácia, diabetes tipo 2 com neuropatia moderada a grave — é exatamente aquele que menos tolera escaladas farmacológicas adicionais, tornando a acupuntura uma ferramenta de integração terapêutica, e não de substituição.
▸ Achados Notáveis
O dado que mais chama atenção não é a magnitude isolada da melhora, mas sua persistência: a diferença de 2,2 pontos na dormência e de 1,8 pontos no TNSc ainda eram detectáveis na 16ª e 24ª semanas, respectivamente, muito além do término das sessões. Isso contraria a percepção de que os efeitos da acupuntura são efêmeros e dependentes de tratamento contínuo — e sugere neuroplasticidade funcional, possivelmente via modulação de fibras C e Aδ em território plantar cronicamente hipoestimulado. A seleção dos pontos foi anatomicamente fundamentada, com ST40, ST34, LV3, SP6, KI3 e os pontos extras Bafeng posicionados próximos ao trajeto dos nervos fibular e tibial, o que confere coerência mecanicista à proposta. A discrepância entre melhora clínica robusta e ausência de mudança nos estudos de condução nervosa com NC-stat é, em si, um achado relevante: reafirma que desfechos clínicos e eletrofisiológicos medem dimensões distintas da neuropatia, e que a eletroneurografia não captura toda a recuperação funcional percebida pelo paciente.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor musculoesquelética, a neuropatia diabética com predominância de sintomas negativos — dormência, hipoestesia, instabilidade — é um dos diagnósticos em que costumo ter mais satisfação ao propor acupuntura, justamente porque o paciente já percorreu o arsenal farmacológico sem benefício sensorial relevante. Tenho observado resposta perceptível a partir da quarta ou quinta sessão, com o paciente referindo redução da sensação de 'caminhar sobre algodão' — relato quase universal nessa população. Em geral, protocolo de 10 a 12 sessões semanais é suficiente para consolidar o benefício inicial, seguido de manutenção mensal ou bimensal conforme estabilidade metabólica. Associo rotineiramente fisioterapia sensório-motora com treino proprioceptivo e estimulação plantar, potencializando os ganhos de sensibilidade. O perfil que responde melhor, na minha experiência, é o paciente com controle glicêmico razoável — HbA1c abaixo de 9% — e neuropatia de instalação há menos de dez anos. Neuropatias muito avançadas, com perda axonal extensa, respondem menos; nesses casos, redireciono o foco para prevenção de quedas. A aderência de 96,8% reportada no ACUDPN é consistente com o que vejo: pacientes com NDP tendem a valorizar profundamente qualquer intervenção que devolva sensibilidade, o que favorece a adesão.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
World Journal of Diabetes · 2023
DOI: 10.4239/wjd.v14.i12.1813
Acessar Artigo OriginalEste estudo fundamenta o conteúdo editorial do site.
Páginas de patologia e artigos clínicos que citam está evidência como base das suas recomendações.
Revisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
Artigos Relacionados
Baseado nas categorias deste artigo