A enxaqueca sem aura afeta centenas de milhões de pessoas em todo o mundo e permanece subdiagnosticada e subtratada na maioria dos sistemas de saúde. Um ensaio clínico randomizado publicado no JAMA Network Open mostra superioridade modesta da acupuntura real sobre a acupuntura sham na redução de dias de enxaqueca (efeito em torno de 1 dia por mês), e avança em um território metodológico inédito: a identificação de padrões de conectividade cerebral basal — mensuráveis antes do início do tratamento — capazes de predizer com significância estatística quais pacientes obterão resposta terapêutica. Essa convergência entre eficácia clínica e neuroimagem preditiva representa um avanço relevante para a acupuntura médica baseada em evidências.
NÚMEROS DO ENSAIO CLÍNICO
Desenho do estudo
O ensaio, conduzido entre 2021 e 2023 no Hospital de Medicina Tradicional Chinesa de Pequim, recrutou 120 participantes com diagnóstico estabelecido de enxaqueca sem aura. Após quatro semanas de período basal, os pacientes foram randomizados para receber acupuntura real em acupontos estabelecidos para enxaqueca ou acupuntura sham — com agulhas inseridas em locais clinicamente inativos — ao longo de doze sessões distribuídas em quatro semanas. Uma subamostra realizou ressonância magnética funcional (RNf) antes do início do tratamento, permitindo a aplicação de modelagem preditiva baseada no conectoma individual.
Resultados clínicos
A acupuntura real produziu redução significativamente maior nos dias mensais de enxaqueca em comparação ao sham (diferença mediana: -1,0 dia; p=0,02). Além dos dias de dor, o grupo real demonstrou superioridade em dias mensais de cefaleia, dias de uso de médicação de resgate, escores de intensidade da dor e medidas de incapacidade funcional. O índice de satisfação dos pacientes foi consideravelmente superior no grupo que recebeu acupuntura real (96,7% vs. 73,3%; p=0,01). O perfil de segurança foi favorável em ambos os grupos, com apenas eventos adversos leves e autolimitados (4,2% no total), sem registros de eventos graves.
O conectoma como biomarcador preditivo
O aspecto mais inovador do estudo foi a aplicação de modelagem preditiva baseada em conectoma (connectome-based predictive modeling) para identificar, antes do início do tratamento, padrões de conectividade cerebral funcional associados à resposta terapêutica. Os dados de RNf em repouso revelaram dois padrões preditivos distintos: baixa conectividade entre a rede de modo padrão (default mode network) e estruturas subcorticais predisse alívio significativo da dor (r=0,23; p=0,04), enquanto alta conectividade entre regiões subcorticais, cerebelares e motoras predisse redução de incapacidade (r=0,29; p=0,02).
Esses achados sugerem que a enxaqueca não é uma condição homogênea do ponto de vista da organização cerebral, e que determinados perfis de conectividade funcional podem identificar subgrupos de pacientes com maior probabilidade de resposta à acupuntura. A possibilidade de estratificar pacientes por neuroimagem antes do início do tratamento representa um passo em direção à medicina de precisão aplicada à acupuntura médica.
Implicações para a prática médica
A públicação deste ensaio no JAMA Network Open confere visibilidade a um nível de rigor metodológico que frequentemente está ausente na literatura de acupuntura. O uso de RNf para mapear preditores de resposta, aliado ao desenho controlado e ao tamanho amostral adequado para um estudo exploratório, posiciona esse trabalho como referência para ensaios confirmatórios de maior escala. Os resultados são particularmente relevantes para neurologistas e médicos especialistas em dor que atendem pacientes com enxaqueca crônica ou episódica de difícil controle farmacológico.
Perguntas Frequentes
Os resultados deste ensaio indicam que a acupuntura real produz redução significativa dos dias de enxaqueca em comparação ao sham, com relevância clínica. No entanto, a acupuntura médica é melhor compreendida como estratégia complementar ao tratamento farmacológico, não como substituta. O médico — neurologista ou especialista em dor — deve avaliar individualmente o perfil de cada paciente para indicar a combinação terapêutica mais adequada.
A acupuntura sham consiste na inserção de agulhas em locais clinicamente inativos, sem relação com os acupontos estabelecidos para a condição tratada. É utilizada como controle ativo em ensaios clínicos para controlar o efeito placebo da inserção de agulhas e da interação com o profissional. A superioridade da acupuntura real sobre o sham neste estudo indica que o efeito terapêutico observado vai além da resposta placebo.
Fonte Original
JAMA Network Open(em inglês)Fundado em 1989 por médicos formados pela USP e especializados na China, o CEIMEC é referência nacional no ensino e prática da acupuntura médica. Com mais de 3.000 médicos formados em 35 anos, colabora com o HC-FMUSP e é reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA/AMB).
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